Wind

11 Capítulo 09 - A Lenda


O garoto a pegou pela mão e a levou pelo corredor até um lugar onde ela nunca estivera, um quarto individual. No abrigo as crianças não tinham direito de possuir quartos individuais e desde que a guerra começara, quando Viecier ainda era muito pequena, era quase um luxo possuir uma cama só sua, privilégio para aqueles que estavam ali há muito tempo. Não haviam adoções nos tempos de guerra, as crianças eram jogadas nos abrigos aos montes e quando tinham idade suficiente para trabalhar eram tomadas como aprendizes e empregados em lojas e grandes propriedades que precisavam de mão de obra barata. Os olhos da mais nova se arregalaram ao ver aquele quarto inteiro pra uma só pessoa, havia uma cama bem arrumada, um tapete grande e redondo cor de creme, uma poltrona e até mesmo uma janela só pra ele que dava vista pra grande plantação de maçãs que rendia algumas moedas pro abrigo em certas épocas do ano. O menino sentou na poltrona, soltando o ar como se estivesse aliviado, mas Vie não conseguia estar completamente relaxada no lugar.

Ela olhava tudo aquilo e se perguntava o porquê daquele garoto ser diferente de todos os outros que moravam ali. Por que ele era especial? Viecier supunha que ele não era mal, pois segundo os livros todas as pessoas más tinham verrugas, e ele não era feio, muito pelo contrário. Talvez ele fosse até mesmo um príncipe, de fato parecia bastante com um. Apesar de ser magro e muito pálido, com bolsões escuros sob os olhos, o menino tinha cabelo da cor do fogo, uma pele tão branca e delicada quanto as porcelanas caras da Senhora Geneve e olhos de um verde estonteante, vivos como a primavera. Se alguém é tão belo assim não faz sentido algum ser ruim. O menino sorriu ao ver que ela estava distraída examinando sua aparência e ajeitou uma mecha de cabelo a colocando atrás da orelha de forma que Viecier pudesse ver a sua forma levemente diferente, um pouco maior e mais pontuda do que uma orelha comum.

— Não me deixam ficar com os outros porque eu sou um feérico — ele confessou em voz baixa tirando a dúvida da garota antes mesmo dela perguntar, fazendo com que ela arregalasse ainda mais os olhos.

— O que é um férrico? — ela questionou sentando no tapete aos seus pés.

— Feérico — ele corrigiu com um sorriso — Não sei como explicar de um modo que você vá entender, mas é como se nós fôssemos pessoas de um tipo diferente, mais ligados à magia e a à natureza.

— Todos são bonitos como você? — ela lhe perguntou fazendo com que o garoto ficasse vermelho com o elogio inesperado.

— Eu não conheço todos os feéricos — ele protestou como se a ideia fosse apenas ridícula de mais — Mas duvido que sejam todos iguais a mim, pois existem fey de todos os tipo: pequenos e com asas, ninfas das árvores e alguns até mesmo parecem com animais.

— Você não me parece muito com um animal — ela disse desconfiada, se perguntando se o garoto teria um rabinho de porco ou garras nos dedos dos pés, escondidos pelos sapatos.

— O meu tipo de fey é o mais próximo existente dos humanos, fisicamente a única diferença são as orelhas. Viu como as minhas são diferentes? — explicou pacientemente.

— Então você é como um príncipe encantado, certo? Ou um mago como o dos livros — Ela concluiu sem esperar uma resposta — Você me prometeu uma história...

— Um Fey sempre cumpre suas promessas — respondeu ele — Vou te contar uma história passada de pai para filho no meu povo, não posso lhe dizer se ela aconteceu ou não, mas ela é um lembrete sobre como o rancor pode destruir uma pessoa por dentro e como o ódio é capaz de mudar os nossos corações, talvez ela faça você mudar de ideia a respeito de revidar as coisas más que as outras crianças fazem.

Viecier se sentou de forma mais confortável e prestou atenção no rosto do garoto que ficara completamente diferente quando ele começou a contar a história.

" As bruxas amam suas crianças mais do que qualquer outra espécie, pois, mesmo dentre os bebês nascidos das mais puras linhagens de bruxas, são raros aqueles que herdam os poderes para serem bruxas também. Crianças bruxas são tão raras e preciosas como qualquer princesa ou príncipe da realeza e costumam ser escondidas até terem idade suficiente para cuidarem de si mesmas, ainda mais raras dos que as bruxas são os feiticeiros, filhos homens que herdaram os poderes de uma bruxa. Diz-se que há muitos anos atrás, quando nenhum de nossos pais era nascido ainda, veio a este mundo uma criança única: era o filho de uma poderosa feiticeira e um humano comum.

Quando a bruxa descobriu que se tratava de um filho homem, ela deu a criança ao pai e envergonhada de si mesma contou ao clã que a criança havia nascido morta, no entanto, o que a bruxa não sabia é que havia dado a luz a uma criança incomum. Um feiticeiro. Seu pai tão pouco sabia disso e, mesmo em extrema pobreza, criou o menino com toda a dignidade possível, fazendo questão de lhe ensinar o que era certo e errado, o que era bom e o que era mal. Contudo, o menino nunca se interessaram muito pelos ensinamentos do pai. Preferia passar o dia na floresta e escutar os sons que apenas ele conseguia ouvir, a voz doce que lhe contava as coisas mais divertidas e cuidava do garoto como se ele fosse alguém precioso.

Apesar de viverem em paz por muitos anos, ao crescer os poderes do garoto começaram a sair do controle e as pessoas da vila começaram a desconfiar do menino e de seu pai. Queriam matá-lo pois o consideravam uma criança amaldiçoada pelos deuses, no entanto, uma série de acontecimentos levou à morte de seu pai. Mudado pela perda o garoto se tornou uma pessoa mais e mais sombria, queria causar dor àqueles que o machucaram, mas não parou por aí. Sua ambição fez com que ele usasse seus poderes para matar muitas pessoas, destruir cidades e jogar todo o seu ódio em pessoas inocentes.

A voz que ele ouvia, o vento, não gostava nada daquilo, mas o que podia fazer além de estar ao seu lado e falar o que o feiticeiro queria ouvir? O vento lhe contava os mais belos segredos, suas mentiras eram as mais bonitas, suas palavras as mais doces. O feiticeiro o amava e confiava somente nele, mas em um ato extremo, o vento foi manipulado por um feérico antigo para levar o feiticeiro ao lugar onde viria a morrer. A voz estava arrependida, mas mesmo em seus últimos momentos o feiticeiro não a culpou. O vento o amava também e, quando ao pó o homem retornou, foi com amor que o vento lhe contou algo que nenhum mortal deveria escutar. Lhe contou um segredo para que o tivesse sempre junto a si. [...]"

O quarto onde Viecier fora colocada ficava em uma torre e foi necessário descer os diversos degraus da escada em espiral para chegar ao andar térreo da mansão. Um corredor amplo, cujas paredes estavam cheias de pinturas com faces muito semelhantes , a levou até as áreas comuns e após isso não foi difícil encontrar a cozinha. Mesmo com decorações diferentes, a disposição dos cômodos das grandes mansoes da nobreza costumava ser sempre a mesma, ao menos as que ela vira. Ainda que estivesse longe do horário do jantar, a cozinha funcionava em ritmo acelerado: o forno de pedra emitindo uma forte onda de calor, um homem grande sovando massa, um rapaz com talvez 12 anos lavando a louça, uma mocinha cortando legumes e duas revezando para preparar a próxima refeição do dia. Vie gostava daquela agitação e da forma como cada um parecia saber exatamente o que fazer. Locais agitados como aquele lembrava a ela seus dias antes de morar com sua mãe, mesmo que muitas vezes as memórias lhe escapassem.

— Me disseram que ele jogou uma taça em Cassidy! — comentou o homem grande, ainda alheio a presença da bruxa que os encarava da porta — Sinceramente eu não entendo o senhor Caleb.

— Sim — concordou a mocinha dos legumes — Na maioria das vezes ele é simplesmente maravilhoso: não nos dá trabalho de mais, cuida de nossas famílias e é extremamente gentil, seu problema com mulheres é irrelevante, não é? Ninguém é perfeito — ela riu — Mas quando está de mal humor não sei o que se passa por sua cabeça...

— Digam o que quiserem — retrucou a cozinheira loira — Mas eu lhes digo que o senhor Caleb é tão maluco quanto a senhora sua mãe, loucura deve ser coisa de família.

Antes que qualquer um pudesse continuar a conversa, o garoto que lavava os pratos fez um gesto pra que se calassem. Fora atento o bastante pra notar a presença da bruxa quando nenhum dos outros notou, o que deixará Viecier admirada e aborrecida ao mesmo tempo. A loira caminhou altivamente até a ilha da cozinha e sentou-se em uma das cadeiras marrons de aparência antiga, mas segura, apoiando seus cotovelos no balcão de pedra sujo com farinha.

— Podem continuar a falar, eu não me incomodo — ela gracejou.

— Uma senhora na cozinha não é certo — disse a cozinheira morena em desaprovação, mesmo assim lhe serviu uma tijela com um ensopado bem mais encorpado do que aquele que lhe seria servido em seu leito de doente — Magra desse jeito eu não gosto, coma menina quero ver algumas crianças por aqui, já faz tanto tempo desde que o Senhor Caleb nasceu... Um bebê não nos faria mal algum.

Viecier franziu o cenho sem entender do que se tratava, mas aceitou o que lhe fora oferecido após uma breve análise visual em busca de algo que pudesse lhe causar dano. Apesar de esperar que os empregados parassem de falar mal de Caleb em sua presença, Vie não esperava que eles fossem prestar tanta atenção nela, mas isso era só uma prova do quanto estava fraca. Ao longo dos anos ela se tornara uma mestre em passar despercebida, era algo que exigia muita energia, mas era útil quando não se queria levantar suspeitas. Ela focou sua atenção na cozinheira loira que aparentava ser a mais velha do local, ela devia ter algumas respostas, todas as notícias importantes passeavam pela cozinha de uma casa.

— Essa mansão é adorável — Viecier começou — No entanto, aproveitaria muito mais se de fato me fosse explicado o porquê de minha presença ser tão importante.

— Que os deuses queiram que seja realmente importante pro jovem senhor — a mulher retrucou — Estou cansada de estranhas! Você é uma das bonitas querida e já durou mais do que a maioria.

— Então o senhor desta casa costuma trazer mulheres estranhas? — repetiu as informações, anotando tudo mentalmente.

— Às vezes sim, quando ele faz viagens longas muitas vezes volta acompanhado de mulheres — a cozinheira lhe disse — Mas a maioria são um bando de sanguessugas, se quer saber, apenas interessadas nos luxos que acompanham o título de um nobre importante como o nosso pequeno senhor.

— Por qual motivo ele resolveu que eu estaria entre elas? — Viecier enfim lhe perguntou aquilo que Caleb apenas a respondera superficialmente.

— Porque você é a única capaz de nos ajudar — disse uma voz masculina vinda de trás de si, fazendo uma leve pressão em seu ombro e a obrigando a se virar para encarar alguém estranhamente familiar.