Wind

9 Capítulo 07 - Trato


O luar iluminava o caminho rochoso apenas o bastante para que Zephir identificasse o contorno dos buracos da estrada acidentada e o suave declive do caminho esculpido na montanha escura. Era estranho estar em casa depois de tanto tempo longe, o ar era mais respirável ali, o clima era melhor e era sem dúvida alguma o lugar mais seguro do reino. Qualquer outro deixaria de lado seu estranho empregador e seus planos sem sentido e permaneceria ali, onde facilmente conseguiria se manter e viver bem por muitos anos antes de ter que falar com um humano novamente. Ele não se sentia mais nobre do que qualquer um, muito menos se sentia no dever de voltar, contudo, permanecer parecia errado. Zephir não se julgava digno de toda aquela paz, não depois de tudo.

Ele não passou muito tempo em Morada da Rocha, atravessou a vila sem cerimônia ou qualquer desejo de falar com os seus iguais, aquele não lhe parecia de forma alguma seu lar, mas conforme se aproximava da terra sagrada seu coração apertava no peito. Não sabia como encarar Eru depois de tanto tempo no mundo dos homens, se sentia sujo de mais, manchado devido aquele tempo passado junto aqueles que nasceram marcados pela punição que a própria ganância trouxera. Eru já o esperava e Zephir não duvidava de que ele soubesse à respeito daquele encontro muito antes dele próprio pensar em retornar à Morada da Rocha. Ele continuava exatamente igual às suas memórias: a pele escura como ébano, o corpo alto e magro encurvado pelo peso do próprio poder e os olhos azuis e antigos que já haviam presenciado quase tanto quanto o espírito das travessias. Eru sentava-se nas raízes expostas de seu salgueiro favorito e o chamou para que Zephir sentasse consigo. O jovem feérico negou com a cabeça, não era de forma alguma um gesto desrespeitoso, mas ele não tinha muito tempo. Abaixou-se perto de Eru e beijou sua mão, uma promessa de que o conhecimento do sábio fae não seria utilizado para machucar ninguém. Eru sorriu e assentiu.

— Eu sabia que não ficaria muito tempo, mas tinha esperança de que se compadecesse de um velho solitário — Eru resmungou com falso ressentimento — Sei o que quer minha criança, mesmo assim diga-me, há tantos anos não escuto tua voz, quase não me lembro de como é.

— Preciso da chave da porta — Zephir lhe disse — Não é pra mim, mas sinto que é a coisa certa a se fazer.

— Não precisa de verdade — Eru suspirou — Tudo está onde deveria estar, mas acredito que eu não deva mudar o curso das coisas... aqui — ele estendeu a mão, entregando para seu jovem visitante uma chave esculpida com osso amarelado — Não se demore muito e não dê nada ao homem, caso um preço seja exigido aceite apenas a proposta da mulher.

— Obrigado — Zephir abaixou a cabeça em agradecimento e tomou a chave com cuidado.

Aquela era a terceira vez que tinha em mãos aquela chave, a maioria das pessoas apenas ouvia falar dela em histórias contadas pelos mais velhos ao redor da fogueira, quando a escuridão os cercava e eram necessárias histórias pra afastar o medo. Ele não se sentia mais ou menos beneficiado por aquela prova de confiança lhe ter sido dada, sabia que Eru confiava igualmente em cada um dos filhos de seu povo, no entanto, nem todos tinham o que era necessário para segurar aquela chave. O poder que emanava daquele pequeno objeto era suficiente para enlouquecer qualquer um que o mantivesse por muito tempo, alguns diziam que o próprio Eru era um pouco louco, no entanto, ninguém podia dizer que o portador da chave era fraco, era necessário muito autocontrole para segurá-la e muito poder para ser o seu portador e mesmo assim permanecer perfeitamente são. Alguns diziam que as habilidades de Eru provinham da chave, outros diziam que por conta de suas habilidades ele não era afetado, Zephir não supunha nada, mas gostava de acreditar que algum deus menor gostava muito do sábio ancião da Morada da Rocha.

A porta permanecia no mesmo lugar de sempre, entalhada na entrada da gruta onde os mais novos iam quando precisavam de esclarecimento. Já faziam anos desde a última vez em que estivera ali, a porta parecia menor e talvez um pouco menos imponente, no entanto as runas em sua superfície lhe pareciam igualmente assustadoras. Com as mãos nuas limpou o musgo que se acumulava na pequena fechadura e colocou a chave ali, respirando fundo antes de girá-la e ouvir o clique de algo sento aberto. Retirou a chave dali e apertou-a com força antes de colocar no bolso, não queria acabar esquecendo-a na tranca, se esquecesse permaneceria trancado ali dentro até que alguém tão tolo quanto ele resolvesse que era uma boa ideia trocar palavras com a morte. O túnel era curto, pouco mais do que alguns passos até a porta do outro lado. Esta era de madeira clara e leve, e por mais que o túnel estivesse sempre úmido por conta da gruta, ela nunca apodrecia.

Ele suspirou ao enfim sair do túnel e chegar ao outro lado. Zephir nunca soubera muito bem o que era aquele lugar, parecia a loja de algum alfaiate ou costureira, tecidos de todas as cores espalhados por quase todas as superfícies, roupas inacabadas e objetos que ele não conhecia. Ele esperava não ter que lidar com Khalil, mas ali estava ele sentado no canto oposto da sala com um sorriso curioso na boca, os cabelos cor de prata exatamente iguais e os olhos negros que lhe davam calafrios.

— Ora quem temos aqui novamente — Khalil levantou-se indo se juntar à mulher que até então não havia notado a presença de Zephir.

A aparência de Marisa mudara tanto, não só o modo de se vestir, ela havia cortado o cabelo vermelho bem curto e parecia mais velha, mesmo que seu rosto não tivesse mudado de fato. Ele não se incomodaria em ter sua alma levada por ela caso morresse. No entanto, Marisa não lhe sorriu e sequer mostrou qualquer sinal de que o reconhecia, de fato ele mudara muito, mas o não reconhecimento devia-se apenas ao fato de que ela não era uma agente de fato. Ao contrário de Khalil que era um verdadeiro agente da morte, Marisa era apenas mais uma que caíra naquela barganha, enganada pelas belas promessas, ela não se lembrava realmente daqueles que não eram habitantes do seu lado da porta. Não cabia a nenhum dos dois determinar a morte de quem não era do seu lado, ao menos fora isso que Khalil lhe dissera anos antes. Zephir não sabia, muito menos tinha vontade de saber quem eram os agentes da morte de seu lado da porta, ele preferia imaginar que haviam apenas Marisa e Khalil, e que não precisaria lidar com eles a não ser que tivesse a necessidade.

— Em que podemos lhe ajudar? — Marisa perguntou polidamente acotovelando Khalil.

— Eu preciso de um bracelete — ele disse sem cerimônia — Ferro e prata, algo forte forjado com feitiço.

— Uma bruxa então — Khalil sorriu — Ninguém te ensinou que não deve prender uma mulher com correntes?

— Ninguém te ensinou que não deve prender uma mulher com um pacto que retém a alma dela por mais de dois séculos? — retrucou Marisa — Pra que você quer isso? A moça já machucou alguém? — perguntou agora se referindo ao feérico, ás vezes ele ficava chocado com o quanto ela conseguia ser direta

— Sinto que ela é capaz de machucar mais a si mesma do que aos outros — Zephir respondeu após ponderar um pouco, sabia que de nada adiantava mentir para aqueles dois — Apesar de ter sido enviado a pedido de meu empregador, pretendo deixá-la contida apenas por um tempo, só até que eu tenha a certeza de que ela não é nociva — ele confessou — Tenho o pressentimento de que coisas ruins podem acontecer caso a deixemos sem qualquer contenção por um tempo.

— Por que deveríamos te dar qualquer coisa? — Khalil questionou brincando com os cabelos de Marisa que o repeliu com um tapa nada discreto — Ninguém pode dizer que eu não gosto de um bom sangue derramado, nunca mais viajei e adoraria ver um bom espetáculo em sua terra.

— Eu pagarei o preço — Zephir sussurrou.

— Um fio de cabelo basta — o homem lhe sorriu.

— Ignore-o — Marisa lhe disse — Nos mostre uma memória importante, acho que é o bastante — ela sorriu colocando em sua mão um bracelete prateado com um pequeno cristal dourado no centro — É muito entediante passar a eternidade com alguém que só fala sobre morte, me mostre algo feliz.

A ruiva pegou sua mão livre e o levou por uma escada nos fundos do local, passaram por dois aposentos até chegar a um lavatório onde havia apenas uma banheira solitária cheia com água transparente. Khalil não ficou muito atrás dos dois, ele não havia gostado do trato, mas não esperava de fato qualquer trato naquele dia então qualquer coisa que o divertisse minimamente lhe parecia lucro. Zephir sentou no banco que o homem trouxera, de modo que seus braços alcançassem com facilidade a água, ele já fizera aquilo outra vez. O feérico preferia não dizer que não precisava de todo aquele aparato para lhes mostrar histórias, mas Khalil não lhe inspirava confiança e ele preferia que o homem soubesse o mínimo possível a respeito dele. Zephir guardou o bracelete no bolso e colocou as mãos na água que ficou escura quase que no mesmo instante. Ele sabia que isso não era ele, Marisa fazia aquilo e poderia muito bem ver todas as memórias dele se desejasse, mas seus princípios a impediam de o fazer sem permissão.

A imagem se formou lentamente, ele não se recordava de muitas coisas realmente felizes em sua vida, mas quando enfim se lembrou de algo bom, tudo se revelou com clareza. Ele era apenas uma criança então, caminhava pelos corredores vazios da grande casa de campo e olhava pelas janelas ocasionalmente. O dia estava ensolarado e o restante das crianças brincava do lado de fora, aproveitando o clima agradável e o raro bom humor dos cuidadores. O pequeno Zephir suspirou, não podia realmente sair pois era uma criança doente, sentou-se no último degrau da escada e apoiou sua cabeça no corrimão observando a movimentação do andar de baixo.

— Veja só, está nos encarando — disse uma das cuidadoras sem a menor decência de abaixar a voz para que o garoto não os ouvisse — É uma aberração, devíamos jogá-lo no poço e usar o dinheiro que mandam pra ele com uma passagem pra bem longe desse inferno.

Ele escutou em silêncio, sabia que aquilo as deixava ainda mais zangadas, mas não sabia o que fazer. Quando chegara ele costumava se magoar com aquelas palavras, no entanto, já não sentia mais nada além de uma leve pontada no peito. Era difícil ser odiado apenas por nascer, ele era como qualquer outra criança e não sabia o motivo de ser tratado daquela forma. Sentia falta de como as coisas eram antes daquela guerra começar, sentia falta do antigo mundo, de seus pais, da Morada da Rocha e do seu povo. As lágrimas começaram a descer e ele as limpou antes que alguém visse, precisava ser forte, qualquer demonstração de fraqueza seria usada facilmente contra ele. A porta da frente se abriu de repente o assustando. Geneve trazia uma criança pelo braço, uma menina loira que caiu no chão quando a mulher a empurrou com força.

— Estou cansada das suas malcriações! — esbravejou a diretora — Não tenho tempo pra reclamações, então não saia até que eu dê permissão — terminou ela pisando duro até seu escritório.

A menina mostrou a língua pra diretora do abrigo e se virou pra Zephir, o sorriso se iluminando ao perceber que havia mais alguém ali além dela. Ela subiu as escadas correndo e ofegante sentou-se ao lado dele, no rosto uma expressão tão alegre que era quase contagiante.

— Te mandaram pra dentro também? — ela perguntou pegando a mão de Zephir como se enfim tivesse encontrado um cúmplice.

— Eu não posso sair — ele disse indiferente quanto ao fato, mas feliz por ter companhia — O que você fez pra te mandarem entrar?

— Nada! — ela reclamou — Não fiz nada e eles continuam dizendo que eu os machuco! Queria machucá-los de verdade aí eles teriam motivo pra reclamar.

— Não devia ser assim — ele disse com um suspiro — Esse mundo já tem tanta gente que gosta de machucar os outros, você não deveria querer ser mais uma dessas pessoas.

— E por acaso você sabe como são as pessoas lá fora? — retrucou emburrada puxando a mão — Ella diz que nos livros as pessoas são todas boas, se está nos livros deve ser verdade.

Zephir encarou aquela criança por um longo momento antes de levantar-se e pegar a mão dela, levando a garota consigo para um lugar onde não pudesse escutar os sussurros dos cuidadores. Sabia que qualquer criança que falasse com ele de que eles tivessem conhecimento, seria maltratada sem razão. Não queria que aquela menina fosse maltratada por sua culpa, mas já estava cansado de estar sempre sozinho.

— Venha, vou te contar uma história.