Wind

7 Capítulo 05 - Não Há Lugar Melhor Que o Lar


Quando o mundo ainda era jovem e não passava de uma criança, a magia pulsava como sangue em suas veias e as pessoas não possuíam qualquer dificuldade para usá-la para todo e qualquer fim, no entanto, a magia não era algo que gostava de ser usado e desceu para a terra onde jamais poderia ser encontrada novamente. Apesar disto, restaram pegadas, resquícios de magia que outrora habitará no coração das pessoas. A maioria só conseguia acessar essa pegada através de cristais retirados das profundezas da terra, onde as pegadas da magia eram mais recentes, no entanto, haviam outros povos e lugares que eram preciosos de mais para que a magia os deixasse, ela os amava de mais e esse amor os matou. Feéricos, bruxas, videntes e qualquer um que possuísse a habilidade de usar magia sem o auxílio de cristais, essas pessoas foram caçadas por muitos anos por serem mais, possuírem mais. A ambição daqueles sem nada os matara e fizera com que eles se isolassem do restante do mundo. A magia então se tornou uma história a ser contada, o fogo brando onde houvera um incêndio, apenas o bastante para que eles se sentissem especiais.

Viecier nunca havia visto magia de verdade até aquele dia. Ela havia pegado um pedaço extra de pão após a ceia e isso não agradara a senhora Geneve. Quando todas as crianças subiam para tomar banho a mulher puxou Viecier pelo braço até o lado de fora. Chovia forte e começava a escurecer, mas a mulher não se importava, apontou um canto atrás da casa onde pedras irregulares haviam sido colocadas de modo a cobrir a área de um retângulo.

— Ajoelhe-se até alguém vir lhe buscar — ordenou a mulher sem esperar por uma resposta.

Viecier o fez, não porque era uma menina obediente, mas sim porque se não o fizesse, com certeza a senhora Geneve acharia uma maneira muito mais criativa de puni-la, ela não era a criança mais querida do abrigo afinal.

Ajoelhou-se e por um tempo conseguiu ignorar a chuva fria e a dor nos joelhos, mas não por muito tempo. Já havia passado talvez uma hora e o céu estava completamente escuro, clarões ao longe indicavam uma tempestade forte chegando e ninguém viera buscá-la. Teriam esquecido ela ali? Seria seguro entrar sem esperar uma reprimenda pelo seu comportamento? Quando ambas as alternativas pareciam ruins ela não sabia qual deveria escolher, naquela época ela ainda não havia aprendido que: quando você não faz as próprias escolhas, outras pessoas escolhem por você.

Não havia ninguém além dela mesma ali, mas um grande clarão revelou que alguém a observava de perto. Era uma mulher cujos olhos pareciam brilhar no escuro, ela estava tão perto que a garota se surpreendeu por não tê-la notado antes. Apesar de não ser nenhum dos funcionários que ela conhecia, provavelmente a estranha devia ter sido mandada pela senhora Geneve para buscá-la.

—Por que está aqui fora na chuva menina? — a mulher lhe perguntou e naquele momento Viecier soube que ela não era como ninguém que a menina já tivesse visto. Seus cabelos, que à primeira vista pareciam ser negros, eram como a chuva que caía, finos e transparentes rebeldes como as gotas que caíam do céu.

—Estou sendo punida — ela respondeu honestamente, era jovem de mais para ser cercada pelas barreiras de proteção que as pessoas constroem ao longo da vida.

—Parece faminta — a mulher comentou sentando na lama ao seu lado e de suas mãos nuas surgiram um fruta de aparência apetitosa que Vie nunca havia visto antes — Coma criança, não gosto quando estão magras de mais.

Mesmo desconfiada ela mordeu o doce fruto e o sabor exótico a encheu com uma energia que ela nunca havia sentido antes.

—Obrigada — lembrou-se de dizer por fim — Mas quem é você?

—Eu sou só eu e não preciso de nomes pra saber quem sou — A mulher sorriu, um sorriso velho e cansado — Sou uma viajante nesse mundo desde quando a magia era jovem e os deuses dos homens eram apenas pessoas normais como qualquer um.

—Deve ser solitário viver tanto tempo — a menina murmurou.

—É, mas fico feliz em poder ver todas as crianças crescendo bem, crianças são preciosas mesmo que se tornem adultos ruins — a mulher lhe disse antes de fazer com que as gotas de chuva tomassem forma à frente da garota, crianças felizes brincando, dormindo, comendo , vivendo. Emanava uma luz especial daquelas crianças e por um minuto ela soube o porquê delas serem tão queridas pela andarilha.

—Bruxa!! — alguém gritou e em flashs a mulher estava acorrentada e as duas eram arrastadas para dentro pelos funcionários.

A andarilha fora jogada no meio da entrada e Viecier fora deixada de lado. Toda aquela situação era tão cruel, por que eles faziam aquilo com uma pessoa tão boa? Todos os adultos falavam ao mesmo tempo, tornando impossível de se escutar qualquer um deles, as crianças se amontoavam na escada tentando ver e a mulher olhava tudo como se amasse cada um deles, amasse as crianças e os adultos pelas crianças que já foram.

Enfim, alguém dera algo pra mulher beber e um olhar vago surgiu em seu rosto que se contorcia de dor. Os cabelos, transparentes como a água, se tornaram de um branco doente e sua pele começou a ficar enrugada como se o peso dos anos a atingisse de uma vez só. Por fim, a mulher sorriu pra Viecier e murmurou em voz baixa:

—Não se zangue com eles, já não são crianças e não sabem de nada — ela sorriu mesmo com dor — Voltarei a este mundo mais nova, mas me lembrarei de você minha criança. Só desejo que, até lá, lembre-se de que é amada e que seus ossos podem ser quebrados e queimados, mas seu espírito resistirá.

Sua cabeça latejava mais do que o normal, era difícil se concentrar em simplesmente ir pra casa ao estar na presença dela, pois de alguma forma havia essa agitação anormal. Aquelas pequenas coisas que costumavam se agitar no ar, sussurrando todas ao mesmo tempo, pareciam de certa forma contrariadas: eram atraídas por Viecier e repelidas pelo feérico que a levava em seu cavalo. Em resposta a isso elas gritavam e o som irritante começava a drená-lo, Caleb tinha a impressão de que deveria estar muito parecido com um morto depois de um delicioso sono de uma década. Um carro seria melhor, um local fechado com magia suficiente pra eliminar a maior parte dos pequenos e irritantes filetes negros, mas ele não gostava de carros o que faziam com que os outros nobres o tomassem por irritante e condescendente. Bom pra ele que as mulheres nunca ligavam muito para o que os nobres diziam.

A bruxa permanecia desacordada desde que saíram da cidade, mas Zephir dizia que era normal. A privação de magia causada pela contenção cobrara seu preço, o corpo da mulher demoraria pra se acostumar com a ausência. Caleb nunca esperara que Zephir fosse ser muito cavalheiro, afinal, ele era um guarda bastante duro e sem um pingo de gentileza para com ele, no entanto, ele cuidava da bruxa com gentileza, ele quase pensaria que o feérico a conhecia.

Quando o caminho começou a ficar cada vez mais difícil, ele soube que se aproximava de casa. Não da sede da casa, pois isso atrairia muitos olhares e palavras desagradáveis, mas da velha casa do lago que era ocupada apenas por uns poucos empregados antigos e alguns sazonais, em sua maioria fazendeiros que não tinham o que fazer durante o inverno e pastoras quando o clima começava a ficar úmido de mais para soltar as ovelhas no pasto sem que a lã ficasse inutilizável. A estrada, estreita e cheia de lama, fazia uma curva suave antes de descer abruptamente e passava por uma pequena extensão de relva até que o lago se tornasse visível. Era um dos maiores lagos, menor apenas que o grande lago perto da costa branca, devido ao terreno montanhoso e o clima frio ele parecia sempre do mesmo jeito: parado e escuro, como a promessa de terríveis segredos em suas profundezas. Em contraste com o lago, a mansão era até certo ponto adorável. Havia sido construída como uma casa de veraneio para as mulheres da família enquanto os homens estivessem longe em suas caçadas, mas no fim virara uma casa para um ramo menos nobre da família e o berço de sua mãe. Era uma mansão de três andares feita de tijolos cor de creme e um telhado de ardósia avermelhado, haviam muitas janelas para aproveitar toda a luz natural disponível, uma torre arredondada, um jardim de flores de um azul brilhante invadido por edelvaisse e a estufa envidraçada onde eram cultivados os temperos e hortaliças utilizados pela mansão. O estabulo se encontrava em uma parte um tanto afastada, mais perto do pequeno lugarejo onde a maioria dos empregados vivia.

Assim que chegaram Caleb apeou do cavalo primeiro, para que pudesse segurar a bruxa enquanto Zephir descia. Rapidamente o cavalariço levou os cavalos para que pudessem ser escovados, alimentados e receber o merecido descanso. A situação era quase constrangedora, ele se sentia como um menino voltando pra casa depois de ter feito uma grande besteira, mas não teve muito tempo de pensa sobre isso antes da moça aparecer. Ela era pequena, de corpo arredondado e um rosto um pouco infantil, levemente manchado pelas sardas, boca pequena e olhos expressivos de um castanho bonito. Seus cabelos negros estavam presos em uma trança e o uniforme de empregada, um vestido que ficava pouco acima de seus tornozelos de um azul escuro, que a deixava pálida em comparação com a mulher de pele dourada em seus braços. A mulher olhou de Caleb para a bruxa e suspirou.

— Mais uma? — ela perguntou como se estivesse cansada de receber bruxas desacordadas em casa — O senhor não precisa trazer todas as garotas pra casa, jovem mestre. Elas ficarão bastante felizes em encontrar uma cama vazia e uma moeda de cobre.

— Mas isso faria de mim um mulherengo — ele abriu um sorriso travesso enquanto Zephir tossia forçadamente como se tentasse não rir de Caleb sendo repreendido por uma de suas empregadas.

— Mas você é — a jovem revirou os olhos se aproximando para examinar a outra mulher de perto.

— Elas não sabem disso — ele disse enfim — Essa não é mais uma, Moira, é uma hóspede importante, então quero que mande limpar o quarto da torre enquanto eu e meu guarda nos limpamos de toda a lama. Achei que aquele velho Malif havia dito que se livraria da maldita lama, algo sobre um tratamento medicinal ou algo assim?

— Acho que ele ganhou muito dinheiro vendendo aquilo como lama curativa vinda do Lago Kohr — ela suspirou — Mas acho que viajou com a esposa pra passar o inverno no sul, onde é mais quente — lhe disse e provavelmente estaria certa, era assustadora a precisão da rede de informações dos empregados — Devemos banhá-la, senhor? — a mulher fez um gesto para apontar a sujeira no rosto e a roupa suja de sangue.

— Sim, por favor — respondeu e esperou que outras duas moças viessem para deixar a bruxa sob seus cuidados.

— Não foi inteligente de sua parte deixar uma bruxa com essas moças, elas não tem um pingo de magia — Zephir disse mas não parecia muito preocupado com a segurança de ninguém, apenas curioso com os motivos de seu contratante.

— Elas já tiveram que lidar com coisa bem pior do que uma bruxa — Caleb sorriu e entrou na casa.

Guiou Zephir para um quarto próximo do seu e da torre e lhe mostrou onde guardavam as toalhas e lençóis caso precisasse. O jovem lorde sabia que aquele não era exatamente o trabalho de um nobre, mas achava que seus empregados teriam certo medo de lidar com o feérico, eles já faziam de mais por ele e Caleb não queria lhes incomodar com algo que poderia fazer muito bem sozinho. Constando que, como lhes fora pedido semanas antes, os empregados haviam providenciado para que houvessem roupas limpas para o guarda, Caleb se preparou para ir pros seus próprios aposentos, mas foi interrompido por uma mão gelada.

— Partirei em breve — o feérico lhe disse — Não sei pra que precisa da bruxa, mas duvido que vá conseguir controlá-la tão facilmente — ele suspirou, parecia cansado e sujo da viagem — Ela deverá acordar em pouco tempo e por algum tempo o bracelete funcionará, mas não por muito tempo — lhe informou — Hoje à noite partirei de volta ao meu reino e buscarei uma solução... definitiva, talvez volte em uma volta de lua ou menos, não posso lhe dar certeza, mas ....

— Obrigado — Caleb lhe agradeceu genuinamente — Não é o seu trabalho fazer isso, prometo que será ricamente recompensado.

— Não preciso de recompensa alguma — Zephir retrucou como se a ideia de receber pelo trabalho extra fosse absurda, quase um insulto — Apenas se mantenha vivo, caso contrário terei problemas com a sua rainha.

Caleb não sabia o que dizer, estava um tanto chocado com essa súbita demonstração de que ele não lhe odiava, o que era muita coisa já que a maioria das pessoas odiava Caleb mesmo que não tivessem motivos. Sem saber muito bem como demonstrar que estava agradecido por tudo (pois o feérico havia acabado com o plano original de lhe dar uma pilha de ouro da sua altura), ele saiu em silêncio e pediu para que levassem algo quente para o guarda, de modo que ele tivesse ao menos uma refeição decente antes de partir. Entrou em seus aposentos decidido a não incomodar mais o guarda... muito.

Seu quarto permanecia da mesma forma como ele deixara, os empregados não entravam ali sem ordens explícitas para tal. Haviam penas branca espalhadas pelo chão, os restos dos travesseiros rasgados e jogados sobre a cabeceira da cama, os lençóis da cama estavam em um estado deplorável, seus papeis rasgados e os livros abertos e amassados por todo o quarto. Sua poltrona favorita virada de cabeça pra baixo, as cinzas da lareira sujando o chão e as cortinas arrancadas de seus suportes na janela. Mas o pior era o banheiro. Ele estava ainda tão horrível quando Caleb se lembrava, mas o tempo deixara tudo pior. O piso manchado com o sangue seco, a água pútrida enchendo a banheira e os restos da bela janela espalhado em grandes cacos pelo chão... como era bom estar em casa.