Will Not Be Easy

16 A festa de Danny


Notas iniciais
Eu ouvi um aleluia? Sim, eu disse que levaria meses para postar o próximo capítulo, não esperava que levasse um ano inteiro. Sinceramente grande parte do capítulo já estava escrito há meses, mas tive um grande bloqueio na última parte. Então, já de saco cheio, peguei uma noite e terminei tudo. Algumas coisas gostei, outras achei que ficou meio rasa, mas pelo menos terminei. Como vocês estão? Ultimamente tenho visto fanfics de stranger things, vocês tem alguma indicação? Pode ser em inglês também, uma que seja bem escrita. Não tenho ideia de quando postarei o próximo, mas será o último. Bem, é isso, boa leitura.

Stiles estava parado no meio da rua.

Não era a rua em que morava, eram ruas e casas diferentes das que ele conhecia. Era noite e as luzes das casas estavam acesas, podendo ouvir as risadas das casas. Parecia ser uma vizinhança animada.

Perguntou-se o que estava fazendo ali. Era óbvio que não sabia onde estava e não via seu jipe por perto.

Andou pela calçada tentando se orientar. Passou os braços pelo corpo, estava bem frio ali fora.

Como havia ido parar ali? Estaria sonâmbulo de novo?

Então notou algo andando no final da rua. Apertou os olhos, tentando enxergar melhor. Havia homens e mulheres indo em sua direção com sorrisos perversos. Stiles reconheceu aquelas pessoas.

Sua respiração parou e suas veias gelaram com a constatação.

Eram os demônios.

—Corram! — Stiles gritou o mais alto que conseguiu – Fujam daqui, corram!

As luzes se apagaram.

Stiles tentou correr, avisar as pessoas, gritando para irem o mais longe possível, mas não conseguia se mexer. Suas pernas estavam travadas, por mais que tentasse se mover. As ruas ficaram iluminadas apenas pela lua.

Viu com horror os demônios avançarem correndo em direção às casas. Eram como vultos, entrando nas casas e causando destruição. Ouviu os gritos pavorosos das pessoas, objetos sendo quebrados. Várias pessoas saíram correndo de suas casas, mas logo um deles aparecia e os matavam, quebrando seus pescoços ou ferindo-os fatalmente com objetos cortantes.

Sangue se espalhou pelas calçadas e Stiles, apavorado e horrorizado, continuava sem conseguir se mexer.

Um daqueles malditos virou o rosto para ele, era o primeiro ali que o notava.

Aquele era diferente, não era como os outros. Mesmo sob a luz pálida da lua, Stiles viu que aquele ali tinha a sua aparência, o mesmo rosto, a mesma fisionomia. Seu único diferencial eram seus olhos, vermelhos como sangue e muito assustadores.

— Você pode enganá-los, Stiles – aquela coisa com sua aparência falou, até mesmo a voz era a mesma – Eu admito, não são os melhores servos, mas você não me engana. Eu sei quem você é, mas não se preocupe, não mataremos você ainda. Você é valioso no momento, não posso dizer o mesmo dos seus amigos.

— Stiles – uma voz o chamou de longe – Stiles!

Aquela coisa deu um sorriso perverso, tão destoante em seu rosto, e toda aquela cena foi se afastando.

— Stiles!

O garoto despertou de um cochilo. Estava deitado em um dos bancos da arquibancada no campo de lacrosse, olhando para ele estava Claire, sentada no banco abaixo dele, olhando com raiva para ele.

— Você estava dormindo?! Cara, você é um inútil mesmo.

— Foi mal, foi mal, foi só um cochilo.

— Eu tento conversar com você por um minuto e você faz isso?

— Eu estava cansado, qual é? E eu te ouvi, tá legal? Estava falando dos seus medos e como dominá-los.

— Sim, e estava te perguntando qual fraqueza você acha que pode me afetar a ponto de causar brechas na minha mente.

Stiles deu de ombros.

— Você não gosta de sapos.

— E vou enfrentar esse medo beijando um. Eu tô falando sério, Stiles.

— Você devia estar perguntando isso pro Scott, ele te conhece melhor.

— Eu sei, mas no momento ele está refazendo o teste de biologia que ele esqueceu que tinha.

— Então eu sou seu substituto, me sinto muito valorizado.

— E você estava dormindo enquanto eu falava contigo. Qual é, me ajuda aqui.

Stiles suspirou e se sentou no banco, alongando seus braços e costas.

Claire não tinha muitas fraquezas. Não tinha muitos medos, ela sabia se defender, pelo menos de ameaças humanas, não tinha traumas de infância nem sofria com alguma situação desfavorável.

— Você tem medo de altura – Stiles apontou.

— Você acha que é o suficiente pra enfraquecer minha mente?

— Você se recusa a andar de roda gigante e o brinquedo vai super lento.

— É muito alto lá em cima e as cadeiras não têm muita segurança.

Stiles olhou para longe, tentando pensar em outra fraqueza.

— E o sobrenatural?

— O que tem?

— Você tem medo dele, não tem?

Claire se remexeu no banco abaixo. Não gostava de admitir aquilo.

— Bem, o sobrenatural não está deixando as melhores das impressões para mim.

— Pode começar por isso – sugeriu o garoto – Sempre teve medo disso?

— Nunca gostei de filmes de terror e histórias de fantasmas, mas medo mesmo eu comecei a ter ano passado.

— Quando começou?

Claire ficou em silêncio por um momento e Stiles achou que tivesse dito alguma coisa errada e ela tivesse ficado com raiva. O relacionamento deles ainda era frágil. Mas logo percebeu que a menina parecia mais insegura que chateada, como se pensasse se deveria contar ao Stiles ou não.

— Foi... — ela decidiu, por fim, falar – Acho que foi na festa do Danny.

— Sei, você viu o Jackson no modo lagarto, não foi?

— Eu não só vi, Stiles – a menina desviou os olhos – O lagarto er... o Jackson ele se aproximou muito, tipo muito de mim. Eu não sei o que vocês achavam dele, mas o kanima era assustador. A cauda dele estava balançando muito perto do meu rosto. Eu achei que eu fosse morrer, aquela criatura tinha derrubado vários caras na boate e eles estavam totalmente parados, achei que tinham morrido. Foi assustador.

— Mas você não saiu paralisada.

— Não — ela balançou a cabeça — Acho que ele me reconheceu, lá no fundo do inconsciente dele ele devia saber quem eu era.

— Ou o Matt impediu que ele fizesse alguma coisa – Claire voltou seus olhos novamente para o moreno, que deu de ombros — Vocês não eram amigos? Talvez ele não quisesse te machucar.

Claire ficou em silêncio, refletindo no que havia escutado.

— Você ainda pensa no cara, não é? — Stiles ficou irritado. Não entendia como a menina ainda simpatizava com ele.

— Eu sei que ele fez coisas horríveis, atirou no Scott, matou um monte de policiais, ameaçou você... Mas ele foi um bom amigo. Você e o Scott tinham ficado insuportáveis com tantos segredos e eu tinha poucas pessoas para conversar de verdade, acabei me aproximando dele. E você não pode negar, o fim dele foi bem triste. Morreu afogado depois de sofrer a vida toda com um afogamento na infância. Foi cruel.

— Tá, eu admito, foi bem trágico, mas continuo não gostando dele.

— Não tô pedindo pra que goste, ou gostasse, sei lá. Só estou falando a minha perspectiva.

— Certo, colocando o Matt de lado, foi nesse dia da boate que você começou a ficar com medo do sobrenatural?

— Acho que sim.

— Bem, então vá na boate de novo. Encare o medo e coisa e tal.

— Meu medo não está relacionado ao que aconteceu na boate, tenho medo do conjunto todo. Lobisomens, kanimas e agora demônios? Fala sério, esse mundo é uma loucura.

— Então enfrente o medo dessas criaturas.

— Como? Elas são mais rápidas e mais fortes que eu, como eu vou enfrentar essas coisas?

Stiles apertou os olhos.

— É, eu não tenho uma resposta pra isso.

Claire grunhiu e jogou a cabeça para trás, um cheiro gostoso de flores subindo no ar.

O perfume surpreendeu Stiles. Ele não imaginava que Claire e um perfume delicado combinassem, mas a vida é cheia de surpresas. E o cheiro definitivamente o atraiu.

Ele era atraído por garotas fortes, mas delicadas. Não era à toa que tinha um crush enorme na Lydia havia anos.

— Bem, acho que vou ter que resolver isso outra hora – ela se levantou e passou a alça da mochila no ombro direito. Stiles saiu de seu pequeno devaneio.

— Como assim?

— É quase o fim do último período, Scott já deve estar acabando a prova.

— Ah, sim, claro – Stiles tinha se esquecido do tempo.

Os adolescentes desceram as arquibancadas e foram em direção ao prédio da escola, atravessando o gramado.

Stiles não conseguia parar de se surpreender com a nova dinâmica entre eles dois.

Ele e a Claire, como amigos, se davam surpreendentemente bem. Havia implicâncias aqui, cutucadas ali, mas também tinha risadas, e Claire entendia muito melhor que Scott suas piadas nerds. Descobriu que ela também gostava de Star Wars, jogos online e livros de ficção científica, o que os dava muito assunto para conversar e fazer as tais piadas nerds.

Era... diferente, mas bom, ao mesmo tempo.

Alguém que parecia estar aproveitando ao máximo aquilo era Scott. Depois de anos com brigas e indiretas entre eles, Scott finalmente pôde aproveitar ter os dois amigos juntos num mesmo ambiente sem quase se matarem. O lobisomem não parou de sorrir o dia todo quando Stiles mencionou sua nova amizade com Claire.

— Você vai para a festa do Danny? – perguntou Claire – Amanda está insistindo que eu vá.

— Eu acho loucura o Danny fazer uma festa com tanta gente morrendo.

— É o aniversário dele e ele disse que contratou vários seguranças para ficar ao redor e que a festa vai respeitar o toque de recolher.

— Como se seguranças fossem barrar os demônios.

— Mas eles não sabem sobre isso. Todo mundo realmente está animado com a festa. Ultimamente não vem acontecendo tantos casos.

— Posso dizer com propriedade que está acontecendo sim.

Claire parou de andar e olhou para ele, preocupada.

— Você disse que estava bem, hoje.

— E eu estou, mas estive me sentindo mal nos outros dias. Os ataques ainda estão acontecendo.

— Mas as pessoas não estão vendo isso. Não teve mais casos como o do shopping. Os ataques de agora deixam poucas vítimas. As pessoas pensam que o pior já passou, estão relaxando. Então todos vão estar lá.

Aqueles dias estavam mais quietos, não havia tido outro ataque grande. Um homem tinha morrido na estrada no dia anterior, vítima de atropelamento, mas que continha a marca. Outro cara tinha sido morto numa briga de bar e uma mulher foi encontrada morta na piscina de casa, os dois com a marca. A polícia vinha escondendo esses detalhes da população, fazendo parecer incidentes comuns. Embora isso ajudasse a aplacar o crescente pânico na cidade, também dava uma falsa sensação de segurança.

— Você quer que estejamos lá?

Claire deu de ombros.

— Vocês podiam protegê-los.

— Com as garras super discretas do Scott e o arco nada ameaçador da Allison?

Claire rolou os olhos.

— Só estou dizendo que seria melhor se vocês forem. Não importa o que vocês acham, o colégio todo vai à festa.

Quando chegaram ao pátio, viram passar uma garota ruiva com o passo apressado e a cabeça baixa, como se estivesse assustada.

— Já falou com a Victoria? — perguntou Stiles.

— Eu sei que eu devia – Claire fez uma careta – Mas como eu vou falar pra ela que o pai dela tá morto e aquele ali que assusta ela é um demônio envolvido nas mortes da cidade.

— É.. Bem, deve ter algum jeito. Temos uma chance de agir agora...

— Que sabemos a identidade e a localização de um deles e blá blá blá. É, eu ouvi todas as setentas vezes que você falou isso.

Stiles rolou os olhos.

— Além disso já estamos meio que seguindo um plano não? Atacá-lo depois do trabalho.

— É, estamos pensando num plano melhor. Não é exatamente discreto atacar um empresário com garras de lobisomem na avenida.

— E se atacar na casa dele? Um dia em que ele esteja na casa e a Victoria e a mulher dele fora.

— Completamente sozinho? Duvido que ele se deixe ficar tão vulnerável assim. Eles conhecem o Scott, devem estar se protegendo contra possíveis ataques.

— Mas eles não sabem o que descobrimos.

— Mesmo assim, eles devem estar se precavendo – Stiles suspirou. Parecia que tudo que eles pensavam não dava certo.

— Ei – Claire empurrou o ombro do garoto de leve – Tá ali o Scott.

Andando de cabeça baixa com as mãos massageando as têmporas vinha Scott.

— Scott – Claire acenou para o lobisomem.

O garoto viu a amiga e foi em sua direção.

— Como foi? – perguntou Stiles.

— Horrível – disse Scott – Mas acho que consigo uma nota suficiente para passar.

— Bem, você passou todos esses dias estudando, tenho certeza que você vai se dar bem – encorajou Claire.

— Que tal um vídeo game? Ótimo para esquecer provas.

— É, seria legal.

— Vamos lá pra casa – Stiles passou a braço pelos ombros do amigo.

O trio de amigos saiu do local e foram ao estacionamento.

Quando se aproximavam do carro de Stiles, Claire notou uma garota ruiva falando ao telefone. Segurava o celular longe do rosto, como se estivesse no viva-voz. Era Lydia.

A garota falava baixinho e parecia estar pensando longe. Seus olhos não estavam focando em nada específico.

Claire foi falar com ela.

— Oi Lydia, está tudo bem?

— Onde vai acontecer? – Lydia disse em voz baixa.

Nenhum som saiu do aparelho, mas Lydia parecia estar ouvindo alguém falar.

Claire estranhou e ao olhar o celular da ruiva, notou que ele estava aberto na tela inicial. Sem nada indicando uma ligação.

A morena então percebeu que era um daqueles tais episódios de transe da Lydia, quando ela previa coisas ruins.

— Ah não.. – Claire queixou -se.

Lydia ficou mais alguns minutos aparentemente ouvindo o que quer que fosse. Os meninos também notaram o comportamento estranho da ruiva e se aproximaram.

Então foco voltou aos olhos de Lydia e ela abaixou o celular com uma expressão preocupada.

—O que foi, Lydia? — perguntou Stiles – O que você ouviu?

A garota se virou para eles.

—Nós temos que ir nessa festa. Vai haver um massacre lá.

— Ah, que ótimo – respondeu Stiles.

— Eu não sei o que vai acontecer, mas eu pude ouvir os gritos. E só para deixar claro isso não é legal.

— Parece que temos planos para sábado então – disse Scott cansado.

— Ok, sabemos que eles vão atacar, é uma vantagem. Temos que nos preparar – disse Claire.

— Precisamos de um plano – disse Stiles.

— Vamos falar com o Deaton, ele deve saber um jeito melhor para combatê-los— disse a menina.

— Lá se vai a noite de videogame – lamentou Stiles.

— Lydia, você pode ir para a clínica veterinária? – perguntou Claire.

— Sim, aviso a Allison também.

Assim, meia hora depois Scott, Stiles, Claire, Lydia, Allison e Isaac estavam presentes na clínica.

— Você disse que ouviu pessoas gritando pelo seu celular? – perguntou Deaton.

— É meio complicado de explicar, mas eu meio que tenho essa... sensação quando algo terrível vai acontecer.

— É, ela achou aquele posto onde o Derek e o Isaac estavam sem nem estar procurando – disse Allison.

Deaton lançou um olhar analista para Lydia.

— O que? – perguntou a ruiva.

— Você sabe o que ela é? – perguntou Claire.

— Ainda preciso de mais informações – disse o veterinário desviando o olhar para a morena – Mas o importante agora é garantir que esses demônios sejam capturados.

— E mortos, de preferência – comentou Stiles.

— Só quem deve atacá-los são você, Scott e Isaac. Só quem é parte do sobrenatural pode feri-los.

— Então, eu fico de fora? – perguntou Allison confusa.

— Pelo menos da luta direta. Vocês que não são sobrenaturais vão ajudar a proteger as outras pessoas.

— Se eu sou meio que parte desse mundo, eu não deveria ser capaz de feri-los também? – perguntou Lydia.

— Você sabe como usar seus poderes? – perguntou Scott.

— Não...

— Fique de fora também, Lydia – aconselhou o mais velho – Vocês podem ficar vigiando as pessoas da festa. Quem entra, quem sai. Quem está ali.

— O que fazemos quando virmos aqueles caras? Vamos atacar abertamente? – perguntou Isaac.

— Não, vamos agir escondidos – respondeu Scott.

— Danny vai usar a casa de um tio rico dele para a festa, talvez seja grande o bastante para vocês se esconderem – disse Claire.

— Como sabe disso? – perguntou Stiles.

— Eu conversei com o Danny outro dia.

— A festa vai ser de tarde – disse Lydia – Acho que eles só vão atacar quando estiver escurecendo. Eles ainda têm que manter os disfarces deles, não devem atacar tão publicamente.

— Vai ser melhor para nós também se estiver escuro – disse Allison – Para encobrir as garras e o meu arco.

— Claire – chamou Deaton – Eles acham que você é quem está com a marca, então não irão atacar você. Stiles, você é quem está correndo o maior risco, é melhor que você não...

— Eu não vou me esconder – afirmou Stiles.

— Stiles – disse Scott — você é vulnerável aos ataques deles, eles...

— Eles vão desconfiar se eu não estiver lá. E eu não quero ficar me escondendo enquanto todos estão lá lutando.

— Você continuaria escondido se fosse para lá – pontuou Isaac – Então não vai fazer muita diferença.

— Obrigado, Isaac – retrucou Stiles com ironia – Mas se eu for, eu posso ajudar a identificar os demônios. Sou eu quem conhece os rostos deles.

— É... é um bom argumento — disse Scott.

— Eu não vou começar nem interferir numa luta. Quando começar eu saio de perto, mas não quero ficar às escuras dentro da minha casa.

Os outros presentes ficaram se olhando, como se debatessem o que fariam.

— Muito bem, Stiles, você vai – disse Deaton – Mas fique longe e vou conseguir tramazeira para você levar junto.

Stiles concordou.

Sentiu ser observado e virou o rosto para o lado. Claire o olhava diferente. Não parecia ser um olhar ruim, nem um preocupado, mas o deixava tímido.

— O que foi? – Ele perguntou.

Ela balançou a cabeça.

— Nada não – ela deu um sorriso discreto e voltou a prestar atenção em Deaton.

— Infelizmente eu não tenho mais informações para vocês – disse o veterinário – Vocês vão ter que lutar com o que tem.

— Vamos conseguir – disse Scott.

— Eu vou trazer tramazeira para vocês usarem e sexta feira eu entrego a vocês. Vejo você amanhã, Scott – disse Deaton.

Os amigos concordaram e se despediram.

— Stiles, Claire, vocês podem ir na frente? Quero fazer uma coisa antes – disse Scott.

— OK, a gente se vê lá em casa.

— Vão ficar bem sem mim?

— Scott, podemos passar uma tarde sozinhos.

— E eles não vão me atacar diretamente – completou Claire.

— Tudo bem. Até mais tarde então.

Stiles acenou para o amigo.

— Temos que necessariamente irmos para sua casa agora? — perguntou Claire ao seu lado.

— Por quê?

— O que você acha de hambúrguer e batata frita?

Claire levantou as sobrancelhas com um sorriso leve.

O garoto considerou a proposta.

— Faz tempo que eu não como fast food – ponderou Stiles.

— É um sim, então — a menina sorriu abertamente.

A garota foi andando feliz até o jipe. Stiles sorriu com aquilo.

Claire se alegrava com poucas coisas, ele descobriu.

Os dois entraram no carro e saíram pela cidade em busca de uma lanchonete com comidas gordurosas.

O trajeto de carro foi silencioso, mas isso não incomodava Stiles. Era bom só de estar na companhia de Claire. Era um clima leve e agradável.

Stiles encontrou uma lanchonete ali perto e estacionou. O lugar era amplo e tinha vários carros também estacionados. Pelo menos havia bastante gente ali e menos risco de serem atacados.

— Eu quero o maior hambúrguer que tiver, estou morrendo de fome – comentou Claire ao descer do jipe.

— Eu só quero que isso aqui seja minimamente higiênico.

— Deixa de ser fresco, o lugar é bonitinho.

— Eu e o meu pai costumávamos ir num restaurante perto da delegacia. Lá também era bonitinho até que foi fechado por ter ratos andando na dispensa.

Claire rolou os olhos.

— Contanto que eu não veja o rato, está tudo certo – rebateu a menina.

— Você é nojenta.

Dentro da lanchonete, para o alívio de Stiles, parecia limpo. Várias pessoas comiam ali, famílias e grupos de amigos. As mesas eram coloridas e tinha grandes janelas.

Eles acharam uma mesa mais afastada e se sentaram.

— Eu gostei daqui. Vou trazer meu pai aqui um dia – disse Claire.

— Ele não é tipo super cuidadoso com a alimentação dele?

— Ele é, mas não aguenta dizer não a um hambúrguer. Por isso ele sempre faz nossa comida, para não termos uma desculpa para pedir fast food.

— Com meu pai geralmente sou eu quem cuido do que ele come, faço o almoço para ele levar pro trabalho.

— Você cozinha? — Claire perguntou confusa.

— Talvez não tão bem quanto seu pai, mas sim.

— Como eu nunca soube disso?

— Você estava ocupada demais me batendo.

— Ainda posso fazer isso – ela disse ao dar um soco no braço do garoto.

— Ai, pra que isso? — Stiles reclamou massageando o braço, mas havia uma leveza naquela provocação. Não estavam brigando sério.

— Foi um soco amigável — ela disse com um sorriso brincalhão.

— Isso dói, tá!

— Nem foi tão forte assim. Você tá no time de lacrosse, devia estar acostumado com pancadas.

— Eu sou horrível em Lacrosse, não sei se percebeu, mas sempre fico no banco.

— Você jogou no último jogo da temporada passada. E jogou bem.

— Bem, eu...

— O que o casal gostaria de pedir? — perguntou uma garçonete com um sorriso educado no rosto. Ela parecia jovem e tinha cabelos louros presos em um rabo de cavalo.

O termo causou estranheza nos dois, levemente envergonhados pela insinuação, mas sem terem vontade de negar e explicar que eram só amigos.

Eles fizeram seus pedidos e a garota afirmou que logo a comida ficaria pronta.

Os dois ficaram extremamente tímidos depois que ela saiu.

— Acho que é porque só estamos nós dois – Claire falou primeiro.

— Como?

— Estamos só nós dois, ela deve ter pensado que somos um casal.

— Ah sim. Faz sentido.

— Quer saber, foda-se estereótipos heteronormativos. Uma garota pode ser amiga de um cara sem querer algo romântico.

— Você vive rodeada por amigos homens, Claire, ninguém duvida disso. Ela só provavelmente nunca viu você brincando de lutinha com o pessoal do basquete.

— Ei, eles são gente boa. E não sou assim rodeada por caras, também tenho amigas garotas.

— Você anda tanto com caras que até se parece com um.

Claire o socou de novo no braço.

— Ai, era brincadeira – ele disse se afastando da mão da garota.

— Não me pareço com um garoto, eu sou gata.

— Se você diz... Nãão. Já chega de me bater.

Claire olhou irritada para ele, mas abaixou a mão.

Implicâncias a parte, ele e Claire continuaram a conversar até a comida chegar.

A comida boa os fez ficarem calados.

— Aqui – Claire lhe entregou alguns dólares – Enquanto você paga eu vou no banheiro.

Stiles se levantou e foi até o balcão pagar pela refeição. O caixa era um senhor de cabelos brancos com uma barba grisalha. Uma expressão meio mal-humorada.

— Aqui – Stiles entregou o dinheiro.

O senhor o pegou e contou as notas. Deu um olhar rápido para Stiles e apontou para a direção que Claire tinha ido.

— Sua namorada? — ele perguntou.

— Ahn, não. É só uma amiga.

— Já namora outra?

— Não, senhor. Solteiro.

— Ela namora?

— Também não.

— Você não gosta de garotas? — o senhor perguntou confuso.

— O quê? Eu gosto de garotas. Gosto muito de garotas.

— E não namora aquela ali? Qual seu problema?

Stiles olhou confuso para o senhor.

— Não tenho nenhum problema. Nós só não nos gostamos assim.

O senhor bufou com desdém.

— Não se gostam assim. No meu tempo eu não deixava uma garota bonita dessa escapar assim.

— Pode só me dar o troco, por favor?

O senhor pegou algumas moedas e uma cédula e entregou para Stiles.

— Obrigado – ele disse um pouco menos respeitoso.

Ele colocou o dinheiro no bolso e olhou para o lado, Claire vinha em sua direção.

— Tudo certo? — ela perguntou.

Ele acenou e ambos saíram da lanchonete.

— Por que parece que você chupou um limão? — a menina perguntou.

— Só uma coisa que o caixa falou.

— O que ele falou?

Stiles olhou para a garota, que tinha uma expressão curiosa.

— Nada não — ele desviou o olhar – Era sobre o Mets.

— Hum.

A dupla entrou no carro e foram para a casa do humano.

Naqueles dias, o Xerife raramente ficava em casa, então novamente eles estavam sozinhos.

Sentaram à mesa de jantar e ficaram fazendo o dever de casa, esperando Scott voltar. O lobisomem chegou quando já estava escurecendo e carregando uma bolsa grande.

— Oi pessoal – disse Scott.

— Oi, Scott. Vai dizer o que tem aí? — disse Stiles.

Ele colocou a bolsa no chão com um baque.

— Segurança.

Ele abriu o zíper e mostrou o conteúdo para os amigos. Nele havia coletes, armas, lanças, bestas, cartuchos e frascos com substâncias misteriosas.

— Uau – disse Claire.

— Fui na casa da Allison. Ela e o Argent concordaram que devemos estar mais preparados para essa luta que vai vir. A maioria são para vocês e a Lydia.

— Posso ter uma arma? — perguntou Stiles.

— Não! — disseram Scott e Claire ao mesmo tempo.

— Qual é? Vocês confiam tão pouco em mim.

— Da última você quase me acertou com uma flecha de uma besta da Allison.

— Como é? — perguntou Claire.

— Mostra que tenho uma boa mira.

— Você não estava querendo atirar.

— Meu dedo escorregou.

— Não, Stiles.

O garoto revirou os olhos.

O lobisomem pegou um dos coletes e jogou em direção ao amigo.

Isso aqui é para você.

— Sem graça.

— Claire, eu não sei bem o que você pode usar então trouxe várias coisas para você testar.

— Se fossem pessoas normais, só meus punhos já bastavam – comentou ela observando a variedade de armas letais na bolsa.

— Posso confirmar isso – disse Stiles baixinho, mas mesmo assim Claire ouviu.

A menina lançou um olhar irritado para ele.

— Vamos tentar esse aqui – Scott entregou uma adaga para a garota.

— Legal.

Depois de testar as adagas, espadas, bestas e chicotes, Claire se decidiu por usar a pistola. Exigia a ela uma concentração maior na postura durante o recuo da arma, mas foi a que ela mais tinha precisão.

— Tem cartuchos de balas e de tranquilizantes e algumas balas de prata que você só deve usar se estiver enfrentando um dos demônios pessoalmente.

— O que eu prefiro evitar – comentou a menina.

— E vamos evitar. Quando a batalha começar vocês colocam os coletes.

Os amigos assentiram com a cabeça.

— Ótimo. Tô cheio de fome, tem algo pra comer?

— Eu ia pedir pizza.

— Perfeito – disse o menino indo atrás do telefone da pizzaria.

Stiles ficou então sozinho com Claire na sala, achando curioso a menina observar tão atentamente a pistola. O humano, que havia crescido com seu pai policial, estava acostumado com armas de fogo. Claro, ele era desajeitado e tinha uma péssima coordenação motora, mas ele não tinha o fascínio que a maioria das pessoas que nunca pegaram em uma arma antes tinham.

— Sabe – ele disse, chamando a atenção de Claire – Nunca achei que você seria o tipo de pessoa que usa arma.

Claire então fez uma pose de filme de policial. Segurando a pistola com as duas mãos trouxe-a para perto de seu rosto, virando seu corpo ligeiramente para o lado.

— Me dê uma roupa apertada e explosões ao fundo e sou sua heroína genérica de filmes de ação.

— Você pode ser uma das panteras.

— Ia ser legal ser uma pantera, mas eu ia precisar de mais duas garotas. Eu só tenho a Amanda.

— Allison definitivamente tem jeito pra ser uma pantera.

— Verdade, o arco dela é super legal. Ou posso ser uma Viúva Negra, já que existe, tipo, um monte delas.

— Finalmente alguém que conhece, Scott não acompanha direito nem os quadrinhos nem os filmes. Ele nunca entende uma piada nerd minha.

Claire riu do seu amigo lobisomem. Ele era super por fora da cultura nerd.

— Mas sério, você se sente confortável segurando a arma? — Stiles perguntou.

— Sim, é mais leve do que eu esperava. Eu não sei o que vai acontecer quando ou se eu tiver que enfrentar uma daquelas coisas, mas acho que não vou me atrapalhar com a arma. Tenho mais medo do que a gente vai enfrentar.

— Olha, Scott ficaria maluco se algo acontecesse com você, então não tenho dúvidas que ele vai levar a luta para o mais longe de você.

— Eu sei.

— Além do mais, eu vou estar lá com você. Posso te proteger também.

— Sem ofensa, mas você mal consegue proteger a si mesmo de um corte de papel.

— Verdade – Stiles considerou — Mas eu sou ótimo em proteger as pessoas, principalmente aquelas que eu gosto.

Claire esticou os lábios em um sorriso tímido pra ele e lhe estendeu a mão — A gente protege um ao outro.

Stiles também sorriu com o gesto e apertou a mão da garota, formando ali um pacto.

— Protegemos um ao outro.

Dessa vez, Claire sorriu de verdade para ele e o coração do garoto pulou uma batida.

Não era um sorriso comum, como o que ela dava quando cumprimentava seus amigos, nem um daqueles que formava rugas nos olhos de tanta alegria. Era um sorriso pequeno, mas que parecia falar muitas coisas. Um que tirou o fôlego de Stiles. Um sorriso que pareceu iluminar todo o seu rosto delicado.

Pela primeira vez percebeu o quão Claire era bonita.

Apesar de sempre implicar com a garota, nunca realmente achou que ela parecesse um menino. Talvez menos arrumada que as outras garotas, mas nunca a achou feia. Ela só era... a Claire. Nunca havia reparado dessa forma nela.

Então se surpreendeu com a beleza da garota. Uma surpresa que calou sua boca.

As palavras lhe fugiram e sua mente se esvaziou, apenas admirando o rosto da menina. Os olhos castanhos, pela primeira vez doces para ele. As bochechas rosadas e com pequenas manchinhas. As covinhas que se formavam com o sorriso.

Seu cabelo estava amarrado, o que dava uma bela visão de seu pescoço.

Uau, o velho da lanchonete estava certo.

— Ei gente – falou Scott distraído olhando o celular – Eu já pedi, mas vai demorar um pouco para chegar.

Os dois rapidamente se afastaram, mesmo que nada aparentemente estivesse acontecendo. Era só um acordo para ambos se ajudarem, mas estranhamente parecia algo mais íntimo.

— Tá legal, a gente pode terminar as tarefas de casa – disse Claire. Stiles estava em um estado mudo.

— Ah cara, eu odeio dever de casa – reclamou Scott.

— Mas você precisa terminar o ensino médio, vamos, eu ajudo – a menina puxou o lobisomem para a mesa de jantar.

Stiles foi junto, silenciosamente.

Quando os três já estavam concentrados nas tarefas da escola, Stiles se pegou novamente encarando Claire.

Estava com o rosto apoiado em uma das mãos e segurava o lápis na outra. Tinha uma expressão concentrada, contraía ligeiramente os lábios.

Cara, ela era muito bonita. Como nunca havia percebido isso antes?

Como se pudesse escutar seus pensamentos, Claire virou seu rosto para ele, percebendo que ele a encarava.

No mesmo instante os dois desviaram os olhares e voltaram para suas tarefas.

Stiles pigarreou e coçou a nuca, envergonhado de ter sido pego observando a menina.

Com o tempo, o clima estranho entre os dois foi passando e as tarefas de casa foram feitas sem mais interrupções.

...

No dia seguinte, o grupo de amigos estava sentado em uma das mesas da cafeteria, discutindo sobre os planos no sábado.

— Que horas mesmo vai ser a festa? — perguntou Stiles.

— Uma da tarde – respondeu Lydia mexendo no celular – Vocês deviam ir com roupa de banho, a casa do tio dele tem uma piscina enorme.

— Lydia – chamou Allison — não vamos lá para nos divertir.

— Por que não? Podemos aproveitar as primeiras horas da festa – Lydia tirou os olhos do celular e encarou os amigos — Eu não sei vocês, mas eu estou precisando de atividades normais de adolescentes.

— Quer saber, eu estou com a Lydia nessa – disse Claire.

— Você está? — perguntaram Lydia e Scott ao mesmo tempo.

— A última festa que eu fui, quase acabei paralisada em uma boate gay, eu também quero me divertir por algumas horas, mesmo que depois vá acontecer uma guerra lá.

Lydia sorriu para Claire como se estivesse escondendo algo.

— Tudo bem, você pode se divertir, Claire – disse Scott – Só não perca o foco, tá?

— Pode deixar.

Nesse momento o toque soou pela cafeteria, indicando o fim do horário de almoço.

Os amigos se despediram e o trio se dirigiu para a sala de aula de química.

— Vocês fizeram todo o trabalho que ele passou? Não consegui terminar.

— Teve trabalho? — Scott perguntou surpreso – Ah droga, eu não acredito, eu estava tentando melhorar minhas notas esse ano.

Scott foi se sentar com a cabeça baixa, derrotado.

— Eu fiz, tá aqui na mochila – respondeu Stiles.

O menino pegou o caderno e entregou para Claire, eles se sentaram e esperaram pelo professor.

— Ahn, Stiles? — chamou a menina.

— O quê?

— Não tem nada aqui – Claire mostrou o caderno em branco.

Stiles estranhou e pegou o caderno de volta.

— Ué, mas... quê?

— Tem certeza que fez o trabalho?

— Tenho, eu me lembro, eu me sentei para fazer e...

Stiles fez uma cara estranha, confusa.

— Tem certeza de que não dormiu? Já aconteceu comigo.

— Tenho, eu não dormi, eu... Na verdade, eu não me lembro do que eu fiz depois que eu me sentei.

— Deve ter dormido.

— Eu teria me lembrado de ter acordado. É sério, eu não me lembro de nada do que eu fiz depois.

Stiles ainda martelava a cabeça tentando se lembrar e Claire já estava ficando preocupada.

— Cara, eu não sei o que aconteceu, mas você precisa descansar. Tá tomando o Adderall?

— Eu, eu tô. Eu acho que sim.

— Só vai devagar, cara.

O professor Harris chegou na sala e logo todos se calaram.

...

No fim das aulas, Claire estava guardando suas coisas no armário da escola quando apareceram duas garotas com expressões obstinadas.

— Oi Claire – disse Allison ao lado de Lydia — Você tem alguma atividade agora de tarde?

— Não — respondeu a morena fechando sua mochila e pendurando-a no ombro – O treino vai ser amanhã, então hoje estou livre. O que foi?

Allison e Lydia se olharam e deram sorrisos cúmplices que deixaram Claire nervosa. Não devia ser coisa boa.

Cada uma se moveu a cada lado de Claire e cruzaram seus braços com os da garota, carregando-a pelo corredor.

— Pra onde vocês estão me levando? – Claire perguntou desconfiada.

— Para o shopping – respondeu Lydia.

— Não, obrigada – Claire tentou se desvencilhar.

— Só vamos comprar nossas roupas para a festa do Danny – disse Lydia.

— Na verdade, a Lydia vai comprar, eu só vou acompanhar e dizer que tudo está lindo nela – disse Allison com um sorriso.

— Não preciso comprar, já tenho roupa para ir.

Ela não tinha.

— É mesmo? — duvidou Lydia — Você ao menos tem um biquíni?

— Tenho roupa de banho.

— Maiô de natação não conta – disse Allison.

— Por que não?

— Porque é uma festa, não o clube de natação — retrucou Lydia – Vamos, vai terminar antes do que você imagina – a ruiva saiu desfilando pelo corredor com um ar de satisfação.

— Não vai não — Allison sussurrou no ouvido da outra garota – Mas vai ser divertido, eu prometo.

Claire grunhiu com o que lhe esperava.

No shopping, Lydia entrava em loja e mais loja, experimentava várias roupas de praia que ficavam lindas nela e saía sem levar nada. Claire só pensava em ir pra casa e jogar bola no jardim.

— É sempre assim? — perguntou Claire.

— Normalmente ela leva mais coisa, mas a mãe dela disse pra só comprar a roupa para a festa. A Lydia estourou o cartão dela mês passado e sua mãe ficou furiosa.

— Em minha defesa, estou passando por um momento difícil ultimamente, com ex-namorados lobisomens, famílias centenárias caçadoras secretas e, agora, demônios. Além de não saber direito o que eu sou. Sim, eu exagerei um pouco nas compras.

Claire sorriu para Lydia.

— Minha maneira de lidar com isso é jogando futebol.

— A minha é com meu arco – disse Allison.

— E flertando com outro lobisomem aparentemente – retrucou Lydia com um sorriso malicioso.

— Às vezes – disse Allison sorrindo enigmática.

Lydia então entrou mais uma vez em outra loja, uma que parecia bem cara. O segurança olhou Claire de cima para baixo, notando a óbvia diferença de roupas entre as meninas. Lydia e Allison sempre se vestiam bem, mas Claire estava com uma bermuda jeans velha, tênis surrados e um casaco sem graça.

— Me sinto julgada – disse Claire para Allison – Eu não tenho dinheiro nem para um par de meias daqui.

E novamente Lydia olhou roupas de praia e biquíni, ignorando as garotas.

Sem nada para fazer, Claire ficou olhando as roupas ao redor sem realmente prestar atenção. Não podia pagar nada dali mesmo.

Mas as roupas eram muito bonitas.

— Claire – chamou Lydia.

Claire foi até a ruiva.

— Experimenta, é a sua cara.

Lydia jogou algumas roupas nos braços de Claire.

— Lydia, eu não posso pagar nada daqui.

— Não se preocupe com isso, só vá experimentar.

Lydia pôs as mãos nos ombros da menina e a guiou até os provadores, sentando-se em um dos bancos de fora.

— Vai, e eu quero ver quando terminar de se trocar.

Meio que empurrada pra dentro do provador, Claire parou para observar pela primeira a roupa jogada em cima dela. Um biquíni preto de cintura alta com detalhes em dourado, um short jeans também de cintura alta e uma blusa longa aberta de renda branca com cordão para poder amarrar.

Claire não podia negar, as roupas eram bonitas.

Ela trocou de roupa e se observou no espelho.

Uau.

Lydia tinha razão, o look era mesmo sua cara. Só que... melhor.

O short era curto, mas nada que a constrangesse. A blusa terminava na metade de sua coxa e com o cordão amarrado em sua cintura, deixava a parte de cima do biquíni exposto, mas a cobria o suficiente.

Claire se achou bonita com a roupa. Lydia com certeza tinha bom olho.

— Claire – chamou a ruiva.

A morena saiu do provador e encontrou Lydia e Allison esperando.

— Ficou legal – disse Claire animada.

— Ficou ótimo, Claire – disse Allison sorrindo — Você se sente bem com a roupa?

— Sim, não me sinto muito exposta. Como sabia que eu ia gostar? — perguntou Claire à Lydia.

— Eu sou boa assim mesmo. Claire, eu tenho que dizer, eu morreria para ter as suas pernas.

Claire olhou para suas próprias pernas. Elas eram bronzeadas, definidas, mas não grandes como as das mulheres que fazem musculação. Suas pernas precisavam ser rápidas, não necessariamente super fortes.

— Jogar futebol a vida toda tem seus benefícios — concluiu Allison.

— Está feito, você vai levar – disse Lydia.

— Mas Lydia – o rosto de Claire murchou ao se lembrar – Eu não tenho como pagar.

— Eu pago, não tem problema.

— Lydia, eu não posso aceitar.

— É claro que pode – a ruiva se levantou – Se vai salvar a cidade de demônios comigo, é bom que faça isso bem vestida.

— Eu...

— Só aceita, Claire – disse Allison.

— Sua mãe não vai ficar chateada por você ter comprado a mais?

— Ela vai entender.

— Lydia...

— Eu não quero mais ouvir, se troca e me encontra no caixa.

Antes que pudesse ouvir um não, a ruiva saiu dos provadores com o rosto decidido.

— Vai logo, ela não vai desistir – disse Allison sorrindo.

Depois de pagar pela roupa de Claire, comprar um café na Starbucks e andar por mais quatro lojas, Lydia finalmente comprou sua própria roupa.

— Nós podemos ir agora? — perguntou Claire – Meus pés tão me matando. Não sabia que fazer compras era tão cansativo.

— É cansativo, mas eu tenho a roupa perfeita – Lydia disse com um enorme sorriso – Vamos, eu te dou carona até a sua casa.

No carro, a caminho de sua casa, Claire ficou pensando na tarde que teve. Nunca fez algo desse tipo com Amanda, já que as duas não se interessavam muito por moda, mas foi muito divertido fazer compras com Lydia e Allison. Aliás, talvez tivesse julgado mal Lydia, ela era muito legal quando queria.

— É aqui – Claire apontou para sua casa.

Na entrada de sua casa, seus irmãos estavam ajudando seu pai a consertar o carro, que estava com o capô aberto.

Lydia estacionou e olhou interessada para os rapazes, que se aproximaram para ver quem havia chegado.

— Ah é a Claire – notou um dos irmãos.

— Oi Matt – disse Claire ao sair do carro.

— Novas amigas?

— Ah, sim, essas são a Allison e a Lydia.

— Olá meninas – Matt deu um sorriso charmoso para as meninas ao se inclinar sobre o carro para olhar melhor as duas. Claire rolou os olhos – Eu sou Matt aquele ali é o Billy. Ele é o irmão inteligente, mas eu sou o divertido.

Lydia sorriu doce para ele, flertando de volta. Allison tinha um sorriso contido, achando graça.

— Então, como percebem, meu irmão e eu chegamos há alguns dias e não vamos ficar muito tempo.

— Universitários? — perguntou Lydia mexendo no cabelo.

— Sim, e queremos aproveitar nosso tempo aqui. Com certeza duas garotas bonitas sabem de algo divertido pra fazer por aqui – ele deu outro sorriso charmoso para elas.

Lydia e Allison se entreolharam com sorrisinhos. Claire queria vomitar.

— Na verdade, tem sim – disse Lydia – Nosso colega Danny Mahealani vai dar uma festa na piscina, sábado à tarde.

— Adoro piscinas. Por que não me dá seu número e depois você me passa os detalhes?

Uau.

Matt era bom nisso.

Não perdendo tempo, Matt entregou seu celular e os dois trocaram telefones.

— Mando uma mensagem para você depois – disse Lydia aparentemente satisfeita.

— Estarei esperando por isso.

As meninas se despediram e as duas foram embora. Claire se virou irritada com o irmão.

— Você realmente tinha que flertar com as minhas amigas?

— Qual o mal nisso se elas flertam de volta. Pelo menos uma delas.

— Argh.

— Agora, para eu não me meter em confusão, elas namoram?

— A Lydia não, pelo menos não mais. A Allison... é complicado, mas é bom ficar longe dela.

— Entendido. Bom, já terminamos de ajeitar o carro do papai, estávamos pensando em pedir pizza.

— Legal, eu quero queijo extra.

...

— Boa tarde, Claire – cumprimentou Deaton – Teve um dia bom?

— Um dia normal. Mas acho que qualquer dia que eu não tenha que enfrentar demônios é bom.

Deaton deu um sorriso educado e apontou para a cadeira em seu escritório.

— Sente-se, por favor.

Claire obedeceu e olhou meio ansiosa para o veterinário.

— Pensou no que eu lhe falei?

— Sim, venho tentando achar medos que enfraqueçam minha mente. O que me parece mais óbvio é o sobrenatural.

— Você tem medo do sobrenatural?

— Tenho e, sinceramente, acho que todos deveriam ter.

— Sim, o sobrenatural pode ser assustador. Principalmente para quem não cresceu em volta dele. O que lhe dá medo exatamente do sobrenatural?

Claire parou para pensar.

Pensou nas cenas que lhe davam pesadelos à noite.

Os ataques de “animal” do ano passado que, agora, ela sabia ser obra do tio do Derek.

As mortes aleatórias causados pelo seu amigo Matt.

O lagarto gigante atacando pessoas numa boate e chegando bem perto dela.

Um demônio com a mão brilhante avançando pra cima dela.

A morte de Sandra.

— Eu tenho medo de não conseguir me defender – admitiu Claire – Se é um humano normal, eu consigo lutar e fugir, até sei como me defender de armas de fogo, mas alguém com poderes sobrenaturais... eu não consigo atingi-los, sou fraca demais, não consigo correr mais rápido que eles, também não sou inteligente como o Stiles para conseguir me virar só com meu cérebro. Eu me sinto completamente indefesa.

Deaton considerou sua resposta.

— Sim, os humanos comuns tem suas desvantagens. Mas Claire, os sobrenaturais também tem pontos fracos. Se você tem tanto medo de estar indefesa, aprenda a explorar os pontos fracos deles.

— Eu sei, wolfsbane e tramazeira, mas não é como se eu pudesse carregar essas coisas para todo lugar.

— Por que não?

Claire se surpreendeu com a resposta.

— Existem muitas formas de usá-las. Essa clínica, por exemplo, foi feita usando bastante tramazeira. Os caçadores usam balas de prata, venenos e armadilhas sonoras. Alguns druidas utilizam colares com venenos e ervas para desestimular ataques. Tenho certeza que você pode descobrir um jeito de se proteger.

— Tive algumas aulas para aprender a atirar com a Allison. Acho que seria útil ter balas especiais, mas ainda preciso de algo mais discreto que uma arma.

— Sim, seria bom, mas Claire queria deixar mais claro uma coisa. O sobrenatural não significa apenas violência e morte. Infelizmente você experimentou essas situações, mas existem muitas criaturas que convivem pacificamente com os humanos, existe muito poder que é usado para o bem.

Claire olhou para o chão, não estando muito convencida.

A maioria das criaturas que ela tinha conhecimento não faziam o bem.

— Você sabia que alguns druidas usavam seus poderes para curar pessoas?

A menina balançou a cabeça, voltando a encarar o homem.

— Antigamente, alguns povos druidas realizavam sacrifícios. Eles acreditavam que era necessário para o bem da comunidade. Virgens, soldados, guardiões, sábios, essas pessoas eram sacrificadas em lugares sagrados que conseguiam conter o poder. Os druidas utilizavam o poder desses sacrifícios para curar pessoas e animais, para proteger seu povo.

— Ainda assim, eles sacrificavam pessoas. Isso é bárbaro.

— Era o costume de muitos povos antigos. Só estou querendo dizer que o poder pode ser algo benéfico, mesmo que custo alto.

— Um custo que eu não quero pagar.

— E você não precisa, há outras formas de se conseguir poder – Deaton a tranquilizou — Você só precisa ter o conhecimento e saber como usá-lo.

Claire concordou com a cabeça.

— Mas – Claire franziu o cenho – Como exatamente os druidas... nós conseguimos usar esse poder?

— Eu já lhe disse antes, somos sensíveis ao mundo natural e sobrenatural. Vida, morte, o sol, a lua, a natureza, são coisas intrínsecas aos dois mundos, elas possuem poder. E nós conseguimos manipular esse poder. Esses povos antigos, quando realizavam sacrifícios, eles escolhiam locais com esses elementos. Muitos escolhiam a árvore mais antiga da região, significava abundância de vida. Eles a chamavam de Nemeton. Assim, quando o sacrifício era feito, o poder da morte era canalizado pelo Nemeton e utilizado pelos druidas.

— E esse poder é tão grande assim?

— Sim, é capaz de fazer coisas incríveis, mas também terríveis. Alguns druidas se tornavam maus e matavam, não pelo bem da sua comunidade, mas para si mesmos, para se tornarem poderosos. Esses, nós chamamos de Darach.

— Eu poderia usar esse poder sem ter que matar alguém?

— Sim, é possível — Deaton sorriu – O nascimento de uma vida, um eclipse, solstícios, a natureza. Eles têm poder, mas ainda precisamos de um canal para poder acessá-lo.

— E por quê os povos antigos não faziam isso em vez de matar pessoas?

— Era costume deles, além disso, é mais rápido matar do que esperar o nascimento de alguém.

— Ainda não gosto deles e dos sacrifícios.

Deaton sorriu: — Então está no caminho certo. Mas essa conversa me deu uma ideia. Eu vou passar outra tarefa para você.

Claire resmungou.

— Eu ainda nem consegui a última que você me passou.

— Não se preocupe, essa deve ser mais fácil.

— O que é?

— Eu quero que você preste atenção ao seu redor. Os druidas tinham muito contato com a natureza, observe-a, sinta seu poder. Você vai perceber que se sente muito bem perto dela.

— Tudo bem, mas você sabe que eu tenho uma escolta a todo tempo né?

— Não será problema. Continue a tentar enfrentar seus medos e tente sentir a natureza. Descubra que o mundo sobrenatural não é tão ruim assim. Na próxima vez que nos encontrarmos vamos dar um jeito para você sempre ter em mãos objetos de proteção sobrenatural.

— Okay.

A cabeça de Claire estava fervilhando com aquela conversa.

— Até a próxima, Claire – Deaton a acompanhou até a saída.

— Até.

...

— Então ele quer que você sinta a natureza – disse Stiles no dia seguinte – Isso parece slogan de ONG ambiental.

— Aparentemente os druidas eram muito conectados com a natureza e sentiam seu poder – disse Claire se alongando no campo perto das bancadas.

Claire estava prestes a começar seu treino de futebol. A treinadora Ruby estava cada vez mais exigente e o time mais agitado. A primeira partida da temporada seria dali algumas semanas.

— Será que o Scott me acompanha hoje para ir floresta?

— Eu posso ir – Stiles se ofereceu.

— Stiles, eu vou para uma floresta super perigosa e que pode haver criaturas sobrenaturais perigosas. Nós dois irmos sozinhos seria suicídio.

— Estou levemente ofendido.

— Eu vou perguntar para o Isaac se ele pode ir. Scott está conversando com os Argents sobre a emboscada.

Um alto apito soou pelo campo.

— Vamos meninas, aqui – gritou a treinadora Ruby — Roberts, pare de conversar e vamos começar.

— Tô indo – Claire gritou de volta – Ok, tenho que ir. Você vai ficar assistindo?

— É isso ou ficar em casa sem nada para fazer.

— Que tal fazer os deveres?

— Nem parece que me conhece, Claire.

Claire deu um sorriso de lado.

— Roberts!

— Tchau – despediu-se Claire, correndo para perto do time.

Stiles se sentou em uma arquibancada alta e ficou observando sua amiga jogar.

Claire era realmente uma ótima jogadora. Stiles sabia que ela esperava conseguir uma bolsa de atleta em uma universidade. Ela conseguiria, Stiles tinha certeza. Claire jogava futebol com facilidade, como se fosse uma só com a bola, um domínio incrível de suas pernas e pés.

Ela era incrível.

— O que você está fazendo aqui? — uma voz lhe tirou dos seus pensamentos.

Era Max, o amigo nerd de óculos de Claire. Ele não ia muito com sua cara. O sentimento era recíproco.

Stiles virou seu rosto de volta para o campo. Não estava muito a fim de conversar com Max, então resolveu fazer o que faz de melhor. Irritar as pessoas até que desistam de falar com ele.

— Apreciando a natureza. E você?

Max franziu o cenho.

— Eu não gosto de você.

Uau.

Isso foi direto.

— Obrigado, eu causo esse sentimento nas pessoas. Mais alguma coisa?

— Você devia ficar longe da Claire.

— Como é? — Stiles se virou para Max novamente. Aquilo ele não estava esperando.

— Você não é uma pessoa legal, passou a vida toda implicando com a Claire e com tudo que ela fazia, e agora quer ser amigo dela. Eu não acredito nisso. Você vai acabar a machucando e eu não vou deixar.

— Escuta, ô defensor dos oprimidos, eu implicava com ela tanto quanto ela implicava comigo. Era um lance mútuo. E eu querer ser amigo dela agora não tem nada a ver com você, então cai fora.

— Você do nada sendo amigo dela? Eu não caio nessa.

— Pense o que quiser bem longe daqui.

— Você tá planejando alguma coisa. Não sei o que, mas não deve ser bom vindo de você.

Stiles novamente se virou para o garoto irritante. Ele estava conseguindo tirar Stiles do sério.

— O que você está insinuando?

— Você só virou amigo da Claire para machucá-la depois. Não sei como, humilhando-a, fazendo ela reprovar numa matéria, eu não sei, mas você quer atingi-la.

— Você não tem nenhum direito de falar comigo assim – Stiles se exaltou – Eu nunca fiz isso com ninguém e nunca faria com ela.

— Até parece que você se importa com ela – Max também começou a falar alto — Chamando-a de nomes, colando chiclete no cabelo dela. Você não é uma boa pessoa.

— Isso não faz de mim o babaca manipulador que você quer que eu seja. Você só está com ciúmes que ela está passando mais tempo comigo do que com você.

— Ela não está com a cabeça no lugar para ficar perto de você — o loiro esbravejou — Eu não vou deixar você se aproveitar dela.

— Você tá maluco.

— Você está sim querendo mal para ela, eu não vou deixar você chegar perto dela! – Max exclamou com o rosto vermelho de raiva.

— Não é você quem decide com quem ela se relaciona, seu machista idiota. Duvido que ela seria sua amiga se ela soubesse o tipo de coisa que você pensa.

— Ela é minha amiga há muito mais tempo que você. E você só a botava para baixo, a fazia chorar, eu não vou deixar você fazer mal a ela, não vou.

— Ai meu Deus, você está mesmo com ciúmes dela. O que vai fazer agora, sair perseguindo a Claire e montando fotos de vocês dois para o seu mural?

— Você não me compare com aquele imbecil homicida!

— Você tá parecendo tão insano quanto ele!

— Você é um babaca nojento!

— E você é um maluco possessivo!

— O que está acontecendo aqui?!

Os garotos se viraram para Claire, com o rosto vermelho de raiva e as mãos no quadril.

— Por que estão gritando no meio do meu treino de futebol?!

Os garotos se olharam com ódio, mas não disseram nada.

— Fora daqui! — Claire mandou aos gritos.

Stiles pegou sua mochila e saiu com passos pesados do campo, do lado oposto ao que Max saiu.

Se tremia de raiva.

Como ele podia pensar aquilo dele?

Com tudo que ele e Claire estavam passando, ele não merecia um desaforo desse. Claire não merecia um desaforo desse. Ele havia se sacrificado para ela não ser marcada pelo cara da mão laranja, passou por dias de dores, sempre tentando protegê-la dos demônios, dias e dias construindo essa genuína amizade, investigando juntos, se apoiando. Tudo isso para ter que ouvir que foi só para depois fazer algo ruim com ela!

Argh, ele queria matar o Max.

Mesmo quando não gostava dela, nunca havia feito algo que realmente a machucasse. Sempre teve cuidado para não passar dos limites. Nunca tinha feito algo realmente horrível com ela.

Não é?

Stiles chegou ao seu jipe bufando de raiva.

Entrou no carro e bateu a porta com força.

Seu corpo cheio de raiva, de energia. Queria socar alguma coisa, sua vítima foi o volante. Socava com toda a raiva e frustração que sentia. Pelo desaforo das palavras de Max, pela raiva de si mesmo por se sentir atingido, pelos dias de dores no corpo que não acabavam, pela frustração de não conseguir vencer os demônios.

Devia parecer louco para quem passava perto do jipe.

Quando parou, respirava ofegante, cansado. Cansado de tudo.

Se sentia exausto, como nunca estivera. Não só por causa da briga com Max, mas por causa de toda sua situação.

Não estavam indo a lugar algum tentando derrotar os demônios, vivia sentindo dores, algumas mais fortes, outras mais fracas, mas sempre presentes. Os demônios matavam cada vez mais gente, poderia haver um massacre no sábado no aniversário do Danny e Stiles não sabia se estaria vivo até o fim do ano. Estava com medo, apavorado.

Seus olhos começaram a arder e a ficarem úmidos, mas Stiles tentou não chorar. Pressionou as palmas contra os olhos e tentou se acalmar.

Chorar não o levaria a nada. Já havia se descontrolado o suficiente.

Com o tempo, sua respiração voltou ao normal e conseguiu se acalmar. Nunca tivera um surto desses.

Crises de choro? Sim. Ataques de pânico? Mais do que gostaria. Mas o completo descontrole de suas emoções, nunca.

Ainda tinha que esperar Claire para levá-la de volta, então, respirando fundo, tentou parecer mais calmo e normal.

Pouco tempo depois, ele ouviu uma batida no vidro do lado do banco do passageiro. Era Claire.

Seu surto devia ter durado mais do que pensava.

Stiles abriu a porta para ela e a garota entrou.

Surgiu um silêncio tenso entre os dois, nenhum sabendo direito o que dizer. Stiles tamborilava os dedos, sem conseguir ficar parado.

— Er... – Clairr começou — Scott pediu para nós irmos para a sua casa, já que seu pai não está. Ele disse que depois se encontra com a gente lá. Vai falar sobre o plano de sábado.

Stiles acenou e iniciou o carro.

O caminho até sua casa continuou tensa, parecia com seus antigos dias de inimizade. Mas por algum motivo aquilo era pior.

Stiles, às vezes olhava rápido para Claire. Suas mãos se contorciam juntas e seu rosto estava virado para a janela. Não tinha a mínima ideia do que ela pensava.

Quando finalmente chegaram à sua casa, os dois desceram silenciosamente do carro e entraram na casa, ficando na sala. Evitavam os olhares um do outro, mas continuavam próximos, como se não quisessem se separar completamente. Até que Claire, novamente, deu o primeiro passo.

— Stiles – ela chamou parecendo cansada.

O garoto se virou para ela, ainda sem encará-la nos olhos.

— O que foi aquilo com o Max?

— Nada.

— Vocês dois estavam aos gritos, aquilo não foi nada.

— Não foi nada de importante – Ele disse resmungando.

— Stiles, qual é, o que aconteceu?

— Eu já disse que não aconteceu nada! – Stiles aumentou a voz, encarando-a dessa vez.

— Não venha ficar bravinho para cima de mim, não foi eu quem causou uma cena no campo de futebol – Claire nunca foi uma para levar desaforo calada.

— Aquilo foi culpa dele!

— O quê foi culpa dele? O que aconteceu?!

— Ele estava sendo um idiota, foi isso que aconteceu!

— Isso não é resposta.

— É sim. Ele sempre foi um imbecil e hoje foi ainda mais.

— Não fale assim dele. Ele também é meu amigo.

— Ele é um imbecil sim – Stiles novamente naquele dia se alterou – E você tem um péssimo gosto para amigos.

— Devo ter, para você ser um deles.

— Então volta para aquele idiota e me deixa em paz.

— Stiles!

Stiles se calou imediatamente, olhando para o chão. Suas emoções continuavam à flor da pele. Sentiu vergonha de si mesmo. Claire não o havia julgado pela briga, só queria entender e lá estava ele sendo agressivo e implicante. Exatamente como costumava ser com ela.

— Stiles – Claire chamou de mansinho, se aproximando do garoto – Sério, o que houve? Conta pra mim.

Stiles abriu e fechou sua boca algumas vezes, sem ter certeza do que falar.

— Eu estava na minha, eu juro. Ele quem procurou uma discussão.

— Tudo bem, eu acredito. O que ele disse?

— Ele disse coisas sobre... você, sobre mim.

— Que tipo de coisas?

— Do tipo que eu só tinha ficado seu amigo para depois fazer algo ruim com você.

Claire franziu o cenho.

— Max disse isso? – pergunta ela soando incrédula.

O garoto acenou.

— Disse que eu já tinha feito muito mal a você, que já tinha te feito chorar várias vezes e que ele não ia deixar isso acontecer mais.

Claire ficou calada por um tempo, tentando absorver aquilo.

— Disse para eu me afastar, que ele não ia deixar eu ficar perto de você.

— Eu não...

— E talvez eu tenha falado que ele era maluco, que ele só estava com ciúmes de você e o tenha comparado ao Matt.

— Stiles! – a menina repreendeu.

— Eu não consegui me segurar, tá legal? O cara me irritou demais.

— É isso que você quis dizer que eu não tenho bom gosto para amigos? Ou eles são homicidas ou são malucos ciumentos?

— Não eu, eu... Desculpa. Desculpa, ok – Stiles novamente apertou suas mãos contra os olhos – Eu não devia ter dito isso, eu ainda estou irritado com isso tudo.

Stiles queria gritar, correr dali. Como um cara irritante o havia perturbado tanto?

— Max estava errado em ser prepotente desse jeito, em falar sobre mim como algo que ele tivesse posse, em te acusar de algo tão baixo.

Stiles baixou suas mãos e finalmente a olhou nos olhos.

Tinha uma expressão esquisita no rosto, o cabelo meio desgrenhado e o olhava intensamente.

— Mas você também estava errado em usar os sentimentos dele para ofendê-lo e ao compará-lo com o Matt.

Stiles se sentia pequeno com ela olhando para ele daquele jeito. Decepcionada, o rosto duro.

— Eu tentei não brigar, é sério, mas ele continuou falando que eu ia fazer alguma coisa com você e eu não me controlei.

— Stiles, eu sei que você não faria isso comigo. Não é?

— É claro que não!

— Então por quê se incomodar tanto com isso?

— Eu não sei – Stiles disse derrotado.

Por que ele havia se sentido tão perturbado, tão raivoso?

— Eu já... Eu já fiz algo realmente ruim para você? – Stiles perguntou timidamente, com medo da resposta.

Claire levantou suas sobrancelhas, surpresa.

— Não, eu acho que não. Você sempre foi mais infantil que maldoso.

— Eu já te fiz chorar?

Claire então o olhou como se estivesse vendo através dele. Como se entendesse o motivo de toda aquela confusão. Sua feição se abrandou.

— É por isso que está assim? Está se sentindo culpado?

Stiles novamente desviou seu olhar. Se sentia horrivelmente exposto e, ao mesmo tempo, ansiava por uma resposta dela.

— Olha... – Disse Claire – Já teve sim algumas vezes que eu chorei por causa de você.

Stiles sentia seu peito apertando, uma sensação horrível de culpa.

— Mas foram por coisas infantis, quando éramos crianças. Coisas que eu nem me importo mais. Geralmente acontecia de eu estar em um dia ruim e você fazer uma piada sobre mim. Coisas bobas que eu nem levava em consideração mesmo antes de nós virarmos amigos.

Stiles a olhou novamente, sua expressão parecia verdadeira.

— Mas já teve alguma vez que eu falei ou fiz algo que realmente te magoou? Eu já passei dos limites?

— Acho que nós dois já passamos um pouco dos limites. Você sempre dizia que eu parecia um menino e me zoava quando eu tentava ser mais feminina. Isso machuca uma garota de 13 anos. E eu também já fui muito cruel ao falar da sua queda pela Lydia. E te chamar de patético. Isso realmente não foi legal.

— Bem, eu sou um pouquinho patético – Stiles tentou melhorar o humor daquela situação.

Claire sorriu.

— E, às vezes, eu realmente pareço um garoto.

— Não, Claire. Desculpa, você não parece um menino, tá legal? Eu era implicante, mas eu nunca realmente pensei isso. Você é linda.

As bochechas de Claire ficaram rosadas e ela assumiu um semblante esquisito. Só então Stiles se deu conta do que havia falado.

O elogio havia saído de sua boca tão fluido, tão genuíno que o garoto nem percebera o impacto de suas palavras. Mas se surpreendeu por não se arrepender de dizê-las.

— Desculpa – Stiles pediu de novo — Por toda ofensa, toda implicância e toda piada que fiz sobre você.

Claire acenou com a cabeça, um sorriso pequeno, mas significativo. Um que ela parecia guardar só para ele.

— E desculpa também – falou Claire – Por menosprezar seus sentimentos pela Lydia. E por te chamar de tantos nomes ofensivos.

— Só estou grato por você nunca ter me chamado pelo meu nome completo.

— Não seja por isso, Mieczyslaw.

— Qual é.

Claire riu e fez uma coisa surpreendente.

Ela o abraçou.

Stiles demorou um pouco para retribuir o abraço, surpreso pela atitude.

Ele e Claire já haviam tido momentos de trégua entre eles, e, ultimamente, estavam gostando da companhia um do outro. Mas nunca haviam chegado perto de se abraçarem.

Stiles então se moveu e a abraçou também, a trazendo para mais perto de si.

Ele sentiu tanto conforto naquele abraço. Como se um peso tivesse saído de seu corpo, um peso que ele nem sabia que existia. Se sentiu verdadeiramente bem, como não se sentia havia semanas.

Então o garoto começou a notar detalhes da situação. O cheiro de flores que parecia o aroma mais delicioso do mundo, a sensação dos braços da garota rodeando sua cintura, seus próprios braços envolvendo o corpo surpreendentemente delicado dela, a cabeça dela encostando em seu ombro.

Seu coração pareceu bater mais forte, mais rápido. E o mais louco era que ele sentia os batimentos de Claire do mesmo jeito.

Não se atrevia nem mesmo a falar, para não acabar com aquele momento tão incrível.

Eles ficaram assim por alguns instantes até ouvirem o barulho da moto do Scott.

Se separaram hesitantes e deram sorrisos tímidos um ao outro. Claire puxou uma mecha de cabelo para trás da orelha.

— Oi – Scott cumprimentou seus amigos, alheio ao clima presente na sala – Então, nós já resolvemos como vai ser sábado.

Claire e Stiles, acenaram e tentaram ao máximo prestar atenção ao seu amigo lobisomem.

— Vamos tentar nos misturar no começo, prestar atenção se algum deles vier e ficar observando seus movimentos. Quando estiver escurecendo vamos para os nossos cantos. Eu, Isaac e Derek vamos ficar nos cantos mais escuros, para que não nos vejam transformados. Allison, Lydia e vocês dois vão ficar no primeiro andar, nos quartos com janelas para a piscina. O Argent também vai participar da emboscada quando escurecer, ele vai ficar do lado de fora até nós precisarmos dele lá dentro. Ele chamou outros caçadores para ajudá-lo também. Não entrem em combate se puderem evitar e levem tudo o que puderem para se protegerem.

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— Eu vou chegar com a Allison e a Lydia na festa, elas vão ter certeza de estar levando tudo – disse Claire.

— Claire, por favor, deixe sua arma sempre com você. E atire com balas especiais.

— Eu sei, Scott.

— Stiles...

— Fique longe, se proteja e não atrapalhe, eu sei.

— Se você se separar da gente, pegue a coisa mais pontuda que achar, ou qualquer coisa que sirva de arma. E corra, corra muito.

— Você sabe que seria mais fácil você me dar uma arma.

— Você ia acabar atirando em si mesmo.

Stiles ouviu um fungado ao seu lado.

— Cala a boca – disse à Claire, que tentava esconder o riso.

...

No sábado, dizer que Stiles estava uma pilha de nervos era um eufemismo.

Estava no começo da festa e já estava cheio de pessoas. Parecia que toda Beacon Hills havia decidido comparecer. As pessoas estavam animadas, alegres por poderem fugir da situação pesada da cidade.

A casa do tio do Danny era enorme com um piso claro que dava pena de andar em cima, mas grande parte da festa se concentrava na área da piscina, com um DJ tocando e muita comida disponível. Era justamente na área externa que se encontravam os dois amigos.

—É praticamente um banquete – comentou Stiles ao seu amigo.

—Bem, estamos aqui para evitar isso – disse Scott.

— Não somos lá muita coisa.

— Stiles.

— Eu tô nervoso, ok. Estou suando em lugares que eu nem sabia que suavam.

— Você está com tramazeira, certo?

Stiles acenou, mostrando o colar rústico de madeira de tramazeira. Deaton havia dado a todos os humanos objetos de proteção contra seres sobrenaturais, mas isso não acalmava Stiles.

—Eu nem consigo chegar perto de você com essa coisa – disse Scott.

— Eu não sei cara, eu não tenho os poderes estranhos da Lydia, mas estou com um pressentimento ruim – Stiles olhava ao seu redor – Onde elas estão? Já deveriam ter chegado.

— A última mensagem que a Allison mandou foi quando elas estavam saindo de casa.

— Ei – Danny os cumprimentou com um sorriso — Vocês vieram.

— Claro, Danny – sorriu Scott de volta – Feliz aniversário.

— Parabéns, cara – disse Stiles.

— Obrigado. Tem cerveja e vodka na cozinha, o ponche tá batizado, mas tem refrigerante. E muita pizza. Entrem na piscina depois.

— Ok – respondeu Scott.

Danny deu um tapinha no ombro do garoto e se afastou para cumprimentar mais pessoas.

— Eu vou atrás da cerveja – Stiles se virou para entrar na casa, mas foi agarrado pelo casaco por Scott.

— Lá estão elas.

Conversando com um grupo de pessoas, estavam Lydia, Allison e Claire.

Stiles nem reparou nas duas garotas, seus olhos focaram imediatamente em Claire. O longo cabelo balançando com o vento, roupas que destacavam seu corpo e um sorriso divertido. Teve uma súbita vontade de estar perto dela, de tocá-la, nem mesmo prestava atenção às outras pessoas.

— Você está bem? — Scott perguntou, o tirando de seu rápido devaneio – Seus batimentos aceleraram de repente. Viu algum dos demônios?

— O quê? Não, não, eu só tava olhando... — Stiles se calou. Por algum motivo, queria manter aquele momento em absoluto segredo, até mesmo de Scott.

Scott olhou para as meninas novamente.

— Ah já sei, é a Lydia não é? Sabe, você devia desencanar dela. Fala com outra garota na festa – Scott o cutucou com o cotovelo e deu um sorriso divertido, então se direcionou às garotas.

— É, eu devia falar – comentou Stiles em voz baixa.

Os dois amigos se aproximaram das meninas.

— Oi – Scott se pronunciou. As meninas sorriram para o garoto — Estão com as coisas? Tudo preparado?

Boa noite, Scott – disse Allison com um sorriso – E sim, eu trouxe uma mochila cheia de flechas, armas, balas de prata, elas são caras viu, venenos e...

Allison, Lydia e Claire mostraram em cada braço uma pulseira de contas de madeira.

— Pulseiras da amizade – disse a morena com um sorriso sarcástico

— Nós separamos e escondemos pela casa – disse Claire – Mas eu e a Lydia estamos armadas.

— Eu ainda não gosto disso – disse Lydia.

— Meu pai está no carro do lado de fora, fingindo ser o pai super protetor preocupado com a filha – disse Allison – Os homens dele também estão preparados, só avisar e ele entra.

— Seu pai é tudo isso, você sabe – disse Stiles. Allison deu um olhar sem paciência para ele.

— Bem, eu ainda não vi nenhum deles por aqui – disse Stiles – Quando começar a escurecer nos movemos para nossos cantos.

— Enquanto isso, eu quero uma bebida – disse Lydia cruzando o braço com o de Allison e cutucando Claire entre as costelas com um sorriso misterioso.

As duas saíram indo em direção ao ponche.

— O que foi isso? — perguntou Stiles.

— Nada – disse Claire rápido demais.

— Vocês viram o Isaac? — perguntou Scott.

Os dois negaram com a cabeça.

— E o Derek, ele vai vir? — Claire perguntou.

— Sim, ele está... por aí — Scott pareceu confuso – Ele disse que não ia entrar logo na festa. Sabe, com todos os problemas com a polícia que ele teve, ele achou melhor não aparecer logo.

— Então você não sabe onde ele tá — disse Claire.

— Ele só precisa de uma mensagem. Segundo ele.

— Que seja, continuo querendo uma cerveja – disse Stiles.

— Eu também, vamos lá — disse Claire com um sorriso.

— Ei, espera, vocês não podem ficar sozinhos – disse o lobisomem.

— Scott, o céu ainda está claro. Por enquanto não precisamos de guarda-costas.

Scott suspirou com os amigos que saíram em direção à casa.

Stiles e Claire se espremeram entre os vários adolescentes na cozinha para chegarem até as bebidas.

Todos estavam conversando e rindo alto com a música tocando do lado de fora. Pareciam tão despreocupados.

Os dois pegaram latinhas e abriram.

— Só não vamos beber muito – disse Stiles – Precisamos ficar sóbrios o suficiente.

— Só para dar coragem – Claire levantou sua latinha.

— Para dar coragem – Stiles brindou.

Os dois tomaram grandes goles.

— Então — falou Stiles – Como foi a noite das garotas com a Allison e a Lydia?

— Foi incrivelmente normal, foi como se eu estivesse com a Amanda, só que com assuntos sobrenaturais. Sabe, comemos besteira, fofocamos, assistimos programas ruins, até pintamos as unhas – Claire mostrou as unhas pintadas de preto – Sabia que a Allison é, tipo, muito boa desenhando? Ela fez uma caricatura do Scott e ficou tipo muito engraçado.

— Por favor, me diga que bateu uma foto.

— Óbvio que sim.

Claire sorriu e pegou seu celular do bolso do short. O desenho feito à lápis realmente destacava comicamente os traços mais fortes do rapaz.

— Ai meu Deus, o queixo – o menino riu – Eu tenho que mostrar pro Scott.

— Não diz que é da Allison.

— Vai ser a tela de fundo do meu celular.

Claire riu enquanto mandava a foto para seu amigo.

— Claire! — chamou uma voz entre as pessoas.

— Amanda – Claire acenou com um sorriso – Eu vou lá.

Stiles olhou a menina ir animada falar com sua amiga.

O resto da festa passou como um borrão para Stiles. Sempre olhando em todos os lugares, procurando algum sinal dos demônios, prestando atenção se não estava sentindo dor. Enquanto isso, seus colegas de escola, sem noção do perigo mortal que corriam, enchiam a cara, dançavam e se pegavam pela casa, alegres. Foi uma tarde bem estressante.

Em algum momento Stiles viu Allison conversando muito risonha com Isaac (Hum), Scott parecendo tão nervoso quanto ele patrulhando a casa, Claire dançando com as meninas do futebol. Ele passou embaraçosos minutos observando Claire dançar até ver um dos demônios passar pela porta. Era a loira bonitona, que vinha de preto com um sorriso muito branco e batom vermelho, parecia pronta pra sugar o sangue de alguém.

Acompanhando-a, incrivelmente estava Victoria Hastings. A ruiva estava encolhida, parecia intimidada pela presença da loira, com medo até.

Stiles logo mandou uma mensagem para seus amigos. Ele andou mais pela casa e encontrou outro deles na cozinha, um mais velho e mais outros dois demônios pela área da piscina. O céu já estava escurecendo.

— Stiles – Scott chamou sua atenção com uma mão no seu ombro. Estava sério — Quantos você viu?

— Até agora quatro. Um adulto na cozinha, dois por aqui perto da piscina. A loira chegou junto da Hastings.

Scott juntou as sobrancelhas.

— Elas vieram juntas?

— Sim, a garota parecia com medo. Acho que o pai demônio a obrigou a vir com ela.

— A gente precisa tirar ela de perto deles. Vou falar com a Allison, ver se ela consegue falar com a Hastings. Agora você e a Claire devem se preparar. A partir de agora é questão de tempo até virar um ataque.

— Ok, eu vou procurar ela.

— Se protejam e fiquem longe.

Stiles acenou e foi procurar a menina.

O plano tinha começado.

Não viu a morena pelo pátio de fora e nem pelo térreo, subiu as escadas para o primeiro andar. Ali a música não estava tão alta e enquanto Stiles andava pelos corredores ouvia diversas formas de gemido.

Uau. A juventude de Beacon Hills estava pegando fogo.

Ele abriu uma das últimas portas do corredor e congelou onde estava.

Lydia e um dos irmãos da Claire estavam na cama, enroscados, se pegando tão vorazmente que não dava pra saber qual mão era de quem. Eles pararam de súbito ao ouvir o barulho da porta abrindo.

— Stiles! Cai fora! — mandou Lydia meio desgrenhada e o batom borrado. O irmão, Matthew, estava com uma cara meio idiota.

— Desculpa, desculpa, foi mal – Stiles saiu do torpor e logo fechou a porta.

Nossa.

Por essa ele não esperava. Matthew?

Será que a Claire sabe disso?

Stiles não conseguiu o riso idiota ao imaginar a careta de nojo da menina ao saber que seu irmão tava pegando a Lydia.

No meio desse devaneio Stiles se deu conta de uma coisa.

Não havia sentido nada além de surpresa ao ver os dois juntos.

Sem ciúmes, sem inveja, sem tristeza, sem sentir seu coração se despedaçando completamente ao ver Lydia com outro homem. Apenas surpresa por ter encontrado conhecidos transando. O pensamento lhe atingiu como um soco.

Ele não gostava mais da Lydia.

Stiles começou a rir. Ali mesmo, no meio do corredor a ponto de alguém passar e achar que tinha perdido a cabeça de vez.

Anos e anos gostando da mesma garota que fingia que ele não existia, ouvindo diversos nãos de diversas formas dela, tentando chamar sua atenção e sentindo seu coração apertar a cada fora que ele levava. Anos sofrendo e de repente ele se sentia leve.

Lydia Martin já não mandava mais no seu coração.

Stiles ria de alívio.

— Do que você tá rindo, ô esquisito? — perguntou uma voz que abalava perigosamente seu estado de euforia.

Claire estava o olhando como se ele tivesse criado uma terceira cabeça. Seu cabelo longo emoldurando seu rosto, ela tinha glitter espalhado em seu rosto de uma forma bonita e estava de braços cruzados em uma pose ridiculamente fofa.

Ele devia se afastar. Colocar um ponto final no que quer que estivesse acontecendo entre eles. Preservar seu pobre coração, desenvolver hábitos saudáveis e se dedicar a si mesmo por alguns anos. Quem sabe meditar, buscar formas de aliviar seus pesadelos à noite, realmente pensar em si próprio, pra variar.

Ele devia. Ele realmente devia.

— Nada – disse Stiles ainda risonho – Não é nada. Vamos para nossos lugares. Acho que a Lydia vai demorar um pouco pra se encontrar com a gente.

Claire continuou a lhe lançar olhares estranhos, mas não comentou mais nada.

O local em que eles iriam ficar era um quarto no primeiro andar, com vista para a área da piscina. Jogado na cama tinha uma bolsa pequena rosa com estampa de coração.

— É da Lydia – disse Claire ao perceber a pergunta no rosto do garoto – Ela usa pra botar maquiagem, mas aqui temos...

Ela jogou o conteúdo na cama. Cartuchos de bala, seringas, tubos com cores diferentes e até uma pequena faca se espalharam pelo colchão. Debaixo da cama, a menina pegou dois coletes à prova de balas.

— Ok, vamos começar.

Claire tirou sua arma escondida em seu short e a destravou, escondendo-a de volta. Pegou alguns cartuchos e colocou em seu bolso de trás. Destampou as seringas e passou o conteúdo dos tubos para elas.

Stiles assobiou.

— Allison realmente se preparou.

— Devia ver o que o pai dela tem na mochila, tem coisas lá que eu nem sei direito o que fazem. E ele tem tipo uma bazuca em casa.

— É sério?

— Sim, a Allison me mostrou o depósito secreto deles. Espingardas, arcos e flechas, rifles e uma grande variedade de venenos. Era incrível. Assustador, mas incrível.

— Eu queria poder ter um rifle.

— Stiles, você é meio atrapalhado com armas. Não ia dar certo.

— Eu sei, é só que... — Stiles suspirou se sentindo cansado de repente – Eu queria revidar sabe. Pelo menos uma vez eu queria ser a pessoa que bate e não a que só apanha.

Stiles ainda se lembrava perfeitamente da surra que havia levado do avô de Allison. Das vezes que Derek lhe intimidava, de quando os inimigos miravam nele, pois sabiam que ele era o mais fraco. Stiles queria revidar ao menos uma vez na sua vida.

Claire lhe lançou um olhar suave, compreensivo.

— Stiles, você não é só a pessoa que apanha.

— O ano que passou discorda de você.

— Você ajudou o Scott inúmeras vezes sendo o cérebro dele. Sua inteligência é mais valiosa pro grupo que sua habilidade em bater.

— Eu sei, eu sei – ele passou as mãos em seu rosto — Não deixa de ser frustrante.

— Não, não deixa.

Ela pegou duas das seringas e estendeu para Stiles.

— Aqui, uma tem wolfsbane e a outra tem veneno de kanima. Pra você se defender.

Stiles moveu sua mão para pegá-las, mas parou no meio do caminho.

— Quer saber, acho melhor você ficar com isso. Você tem razão, eu sou atrapalhado, posso acabar me paralisando sem querer no meio de uma luta.

— Tudo bem, mas se quiser é só pedir.

O menino concordou com a cabeça.

Assim, Claire preparou outras seringas, escondeu a faca e pôs o colete junto de Stiles. Ambos então se sentaram na cama, nervosos, esperando pela batalha.

Do quarto, a música chegava alta, mas não ensurdecedora e da janela vinha uma brisa fria.

Stiles sentia seu coração bater forte e suas mãos suavam. Ele não era bom em ficar parado.

— Como vocês conseguem? – perguntou Claire de repente. Ela tinha amarrado seu cabelo alto na cabeça e estava torcendo os dedos em seu colo.

— Conseguem o quê?

— Conviver com tudo isso, sabe. Essa é a primeira situação sobrenatural que eu passo e eu me sinto uma pilha de nervos. Às vezes acho que estou pirando. Vocês já passaram por várias vezes e parece que nada afeta vocês.

— Isso não é verdade, posso garantir. Allison ficou meio surtada depois da morte da mãe. Scott ainda está lidando com a mãe dele saber de todo o lance sobrenatural. Lydia tem medo dos próprios poderes. E eu sou aterrorizado por pesadelos. Derek com certeza tem estresse pós traumático. Nós não estamos bem, essas coisas que acontecem nos afetam sim. Então, se você sente que está pirando, saiba que não está sozinha. Você pode falar com a gente.

Claire concordou e ficou brincando com os dedos, digerindo tudo aquilo. Seus amigos tinham passado por tanta coisa horrível e mesmo lidando com as consequências, continuavam a lutar. Era admirável.

— Você tem pesadelos? – perguntou Claire baixinho.

Stiles desviou os olhos e fixou seu olhar em um vaso horroroso na mesa de cabeceira.

— Sim. Acho que todos nós tivemos em algum momento. Só que os meus não vão embora depois de um tempo. Talvez seja minha mente ansiosa e hiperativa. Algumas vezes eu nem lembro do que eu sonhei.

— Do que você tem pesadelos? Se... Não se importa em falar.

— Não é só uma coisa, sabe. Nem só das coisas recentes. Às vezes eu sonho com Gerard me dando uma surra, às vezes um lobisomem atacando meu pai. Às vezes eu sonho com minha mãe doente ou meu pai bebendo. Eu chegando tarde demais e vendo você morta. Minha mente constantemente me lembra do quão frágil a vida é.

— Você já tentou ver alguém, um profissional?

— Não é como se esses pesadelos fossem comuns. São coisas que eu não posso falar para um simples terapeuta.

— E como você lida com isso?

— Eu não lido. Ignorar não resolve e eu não sei o que fazer. E a cada vez que temos problemas parece que fico mais perto de ver meus pesadelos virarem realidade.

Stiles olhou novamente para ela. Um olhar tão aberto e vulnerável, os ombros caídos. Ele parecia cansado, doente e o pior, sem esperança. Esse Stiles não acreditava que sobreviveria.

Claire ficou atordoada. Estava acostumada com um Stiles investigativo, que lutava para vencer os desafios, que tinha uma tirada sarcástica para cada má situação.

Ver um Stiles derrotado a tirou de seu equilíbrio.

— Ei – ela pôs a mão em seu ombro – Vocês conseguiram passar por isso antes, vocês venceram e vão conseguir de novo.

— Eu não acho que vamos conseguir dessa vez – disse Stiles sussurrando, como se estivesse contando um segredo. Medo estampado em seu rosto – Pessoas estão morrendo e não somos fortes o suficiente para detê-los.

— E por isso vamos desistir? Devemos nos entregar e esperar pela morte? Vamos continuar lutando até conseguirmos, até vencermos e eu sei que você ainda acredita nisso, se não você não estaria aqui hoje.

Stiles observou a menina.

Claire tinha um olhar tão determinado, tão confiante nele. Ela acredita em cada palavra que dissera. Acreditava que por mais que a situação ficasse ruim, eles conseguiriam vencer no final. Teve vontade de acreditar nisso também.

— Obrigado.

Claire deu um sorriso encorajador para ele.

— Eu realmente espero que isso termine logo – disse Stiles, sentindo o clima mais leve – Sinto falta de fazer coisas normais sem me preocupar com lobisomens e demônios.

— Sim, ultimamente minha vida é só escola, casa e planos para combater os demônios. É exaustivo.

— Não é? Sabe o que eu quero fazer quando tudo isso acabar? — perguntou Stiles.

— O quê?

— Eu quero ir no cinema.

Claire riu de leve.

— Só isso? Ir ao cinema?

— Eu gosto de filmes e da sensação estupidamente normal de esperar numa fila pra comprar um ingresso de um filme ruim, sentar na sala escura e me alienar por duas horas.

— Ok, é um bom motivo.

Os dois sorriram divertidos.

— E você? — perguntou Stiles — O que quer fazer quando toda essa loucura terminar?

Claire se calou por um momento, pensativa. Então um leve rubor surgiu em seu rosto.

— Não, você vai rir de mim. Não vou dizer.

— Qual é — Stiles empurrou de leve o ombro da garota com o seu — Não deve ser tão vergonhoso assim. Diz!

O rubor se intensificou.

— Eu queria beijar um garoto – disse Claire timidamente – Tipo ficar mesmo, sabe, como eu escuto as meninas falarem dos seus namorados.

— Você nunca...

— Eu já beijei um garoto, mas nunca algo além disso.

Stiles ficou pensando, se sentindo levemente estranho com aquela conversa. Claire ainda tímida brincava com os dedos, mal olhando para ele. A atmosfera parecia tensa entre eles.

— Ficar com alguém parece algo razoável para se fazer depois de acabarmos com esses demônios. Aliás, Lydia tá ficando com seu irmão agora mesmo.

— O quê?! — Claire se virou bruscamente para ele.

De imediato o clima entre eles quebrou.

— Matt?

— É.

— Argh, que nojo, eu sabia que isso ia acontecer. Lydia tava perguntando demais sobre ele.

— Eles estão a alguns quartos para a direita.

— Você viu eles?

— Sim, pareciam duas enguias se atracando.

— E... tá tudo bem com você?

Stiles demorou para entender o porquê da pergunta.

— Ah sim, sim. Acho que não estou gostando mais da Lydia.

Claire fez uma cara esquisita.

— Sério? Lydia Martin? A garota que você tem um crush desde sempre?

— Sim. É estranho. Tive uma epifania há um tempo atrás, não me sinto mais de coração partido.

— E como você se sente agora?

Stiles sentiu o perfume de flores de Claire.

— Muito bem.

— Ok.

Stiles sorriu para ela.

Claire estava muito linda naquela noite.

Eles ficaram em um silêncio confortável, sentindo a presença um do outro. Claire balançava seu corpo levemente, de olhos fechados, com a música que vinha da área externa. O céu lá fora já estava escuro.

— Sabe – disse Claire – Se estivéssemos em outro momento, hoje teria sido muito legal.

— Sim, teria sido.

Claire deu um sorriso pequeno para ele e seus olhares se encontraram. Era tão fácil ficar assim com ela, só estando perto, olhar em seus olhos e sentir seu peito aquecer. Com outra pessoa, teria sido estranho, ter aquele momento.

Seus olhos percorrem o rosto da garota, ela estava levemente maquiada com o glitter brilhando em suas têmporas contornando suas sobrancelhas e se espalhando nas bochechas. Os olhos castanhos doces e focados nele. Sua boca rosada delineada.

O mundo então pareceu apagar.

Stiles e Claire se levantaram em um pulo, a menina puxando sua arma. As luzes da casa tinham se apagado. Pela janela, os dois viram as da vizinhança também se apagarem. O mundo estava escuro, sendo fracamente iluminado pela lua.

Um silêncio horrível se espalhou pelo espaço, a música, as conversas e risadas dos estudantes, tudo se calou.

Stiles então teve um terrível dèjá vu.

— Eu sonhei com isso – disse Stiles, um arrepio gelado percorreu sua espinha — Não vai ser aqui na casa, é nas ruas ao redor!

Stiles pegou a mão da menina e saiu desesperado do quarto em busca de Scott.

As pessoas na festa estavam congeladas de medo, como se soubessem exatamente o que estava prestes a acontecer. Era um tanto assustador ver tantas pessoas paradas, em silêncio, com medo, esperando por algo.

Stiles passou rápido entre eles, se empertigando procurando seu amigo. O lobisomem estava no salão de entrada, sua cabeça mexendo em todas as direções, com certeza procurando por sons de demônios.

— Scott! — Stiles chamou sua atenção. Scott se virou rápido para ele — É como a Sandra! Não vai ser aqui.

— O quê?

— O ataque não vai ser aqui na casa, é na vizinhança, nas casas ao redor. É como a Sandra, eu não sei como, mas sei que vai ser assim.

— Ao redor?

— Isso, eles só devem ter vindo para cá para nos despistar. Vão para as ruas.

Um grito horrível rasgou o silêncio da noite.

Imediatamente as pessoas se moveram, desesperadas, gritando. Os adolescentes corriam, se esbarravam e gritavam por conhecidos.

— Fiquem aqui – Scott disse para os amigos. Ele parecia perdido, mas havia determinação em seus olhos.

O lobisomem desapareceu por entre a multidão.

— Vamos ficar sozinhos aqui? — perguntou Claire, amedrontada.

— Isso não vai acabar bem – disse Stiles.

Um pico de dor atingiu Stiles e ele se encurvou, grunhindo.

— Stiles – Claire pôs sua mão nas costas do garoto – Vamos para dentro.

Várias pessoas fugiam dali e outras entraram dentro da casa, procurando proteção. Logo os guardas contratados por Danny apareceram, tentando controlar a confusão e proteger os que estavam ali.

Os dois entraram de volta na casa, vários de seus colegas agrupados, com medo.

— Claire, Stiles – chamou uma voz conhecida. No escuro, era difícil distinguir rápido quem era.

Logo, Lydia e Allison apareceram de frente para eles.

— É uma armadilha – disse Claire, poupando Stiles da explicação — O verdadeiro ataque vai ser na vizinhança.

— E o Scott? Isaac? — perguntou Allison.

— Foram atrás, disse para nós dois ficarmos aqui.

— Então é melhor que eu ficar.

A dor no corpo de Stiles aumentou e o garoto grunhiu novamente, rangendo os dentes.

— Vamos lá pra cima – disse Lydia percebendo o estado do garoto – tem menos gente.

Os amigos subiram as escadas e entraram no quarto designado para Claire e Stiles. Allison trancou a porta e preparou seu arco, ficando em posição para atirar.

Lydia e Claire tentaram levar Stiles até a cama, mas a dor cresceu de uma maneira que suas pernas enfraqueceram e ele caiu no chão. Ele se contorcia, gemendo de dor, fechando os punhos e trazendo os joelhos para seu peito.

Claire sentiu-se inútil, não havia nada que pudesse fazer pelo seu amigo. Tentou passar a mão em suas costas, querendo confortá-lo de alguma maneira, mas notou algo que fez seu sangue gelar. Sua pulseira de tramazeira não estava mais em seu braço.

— Pessoal – chamou Claire – As pulseiras!

Suas amigas verificaram seus pulsos e assim como a dela, as pulseiras haviam sumido.

— Merda – exclamou Lydia.

— Ainda podemos lutar, todas com suas armas – disse Lydia.

Antes que Claire pudesse obedecer, o corpo de Stiles começou a ter espasmos e o garoto perdeu a consciência.

— Stiles! — Claire ficou desesperada, nunca tinha visto ele daquele jeito. Mesmo nos piores ataques, nunca foi tão horrível assim. Sentiu seu coração apertar de medo.

Ela procurou por um travesseiro e o colocou debaixo da cabeça de Stiles.

Stiles convulsionava no chão quando a porta do quarto foi arremessada para dentro com muita força e velocidade, atingindo Allison. A demônio loira apareceu, sorrindo maleficamente.

A garganta de Claire apertou e em um péssimo timing sua mente se lembrou da noite horrível na boate gay em que um lagarto gigante atacou as pessoas. Exceto que as pessoas não iriam só ficar paralisadas, elas iriam morrer.

Lydia atirou com sua arma, mas a loira foi mais rápida e desviou dos projéteis. Avançou rápida como um vulto e acertou Lydia em cheio no rosto, apagando-a.

Ela então se virou para os dois, parando ao notar o que acontecia.

Claire congelada de medo, com as costas pressionadas contra a cama e Stiles se debatendo no chão de dor.

A loira levantou uma das sobrancelhas e se aproximou vagarosamente. O corpo todo de Claire tremia, parecia sem forças e a cada passo da demônio, ela sentia que estava mais próxima de morrer.

A mulher se abaixou, virou o corpo de Stiles e levantou sua camisa, revelando a marca bem negra em suas costas.

— Hum, que quebra de expectativa – disse a loira. Sua voz era doce, o que contrastava horrivelmente com suas ações — Bem, eu não posso matá-lo.

Ela então se virou para Claire e deu um sorriso. Claire sentiu seu coração parar.

— Mas você eu posso.

Quando a loira se moveu para atacar, foi atingida por uma flecha no ombro, outra passou raspando por sua orelha. Allison, desvencilhada dos destroços da porta, meio sentada no chão, estava com o arco levantado, já tirando outra flecha. O quarto estava em uma penumbra, mas Claire ainda conseguia perceber uma expressão selvagem no rosto da caçadora.

— Sua vadia – disse a loira.

Ela avançou na garota muito rápido para a Allison conseguir reagir, retirando uma adaga de suas vestes e cravando no estômago de Allison.

— Allison – Lydia soltou um grito alto e horrível.

Claire sentiu como se tivesse sido atingida por um vento muito forte e repentino. Daqueles que te desequilibram e mostram como são poderosos. A janela do quarto se estilhaçou e pelo barulho, outras pela casa também.

A loira tapou os ouvidos e se abaixou, como se sentisse dor. Allison caiu no chão novamente.

— Uma banshee – disse a loira surpresa e com o mesmo sorriso malicioso – Ah, o chefe vai gostar de ter você na coleção dele.

Ela avançou em direção à Lydia ainda apavorada com o ferimento de Allison.

Naquele momento, naquele milésimo de segundo em que a mulher pisou no chão em direção à ruiva, Claire soube que não haveria salvação para elas. Por mais armas que tivessem, a demônio era mais rápida, mais forte e as três garotas estavam presas no quarto. Não chegaria um herói para salvá-las, não teria um milagre a espera delas.

Elas iriam morrer.

Por mais mórbido que fosse, aquilo destravou seu corpo. Elas morreriam de qualquer jeito, ficar parada não ia adiantar nada. Pelo menos, se lutasse, talvez conseguisse ajudar Lydia fugir. Se lutasse... não iria facilitar para os demônios.

Claire, ainda se tremendo de medo, se jogou em cima da loira, que caiu, surpresa, no chão. Aproveitando o atordoamento dela, Lydia e Claire tentaram segurar a loira, jogando o peso de seus corpos nela em um esforço inútil. Duas humanas, muito facilmente matáveis.

A loira ganhou novamente o controle e lançou Lydia contra a parede e a ruiva bateu a cabeça, desmaiando. Logo também se desvencilhou da morena e com sua mão apertou a mandíbula de Claire, cravando suas unhas na pele da garota.

Clare olhou bem nos olhos azuis da demônio e sentiu ódio ferver dentro dela.

— Que bonito – a loira desdenhou – União das garotas para salvar o idiota que se meteu onde não devia.

Claire tentou acertar alguns golpes no rosto da loira, mas com a outra mão a demônio prendeu seu pulso e a prensou contra o chão, se sentando sobre a morena.

— Em uma outra ocasião, seria excitante você assim – a loira sorriu maliciosa – Mas eu tenho um trabalho a fazer.

Sentindo sua arma em seu short contra sua pele, Claire deixou toda aquela ira tomar conta de si. Em um movimento muito rápido, pegou sua arma e disparou contra a perna da loira.

A demônio gritou, retirando sua mão da mandíbula da morena e colocando em sua perna.

Ao mesmo instante, Claire trouxe seus braços acima, em direção ao tronco da demônio e disparou sua arma em uma rápida sequência, para não deixar a loira se recompor.

A demônio loira foi alvejada por balas de prata e numa explosão de fumaça preta, sumiu.

Claire ainda ficou em posição por alguns minutos, respirando rápido e sentindo o coração tentar pular por sua garganta.

Lentamente, abaixou os braços e relaxou o corpo, permitindo aquele pequeno momento de alívio tomar conta. Logo teria que verificar suas amigas e ficar pronta para mais ataques, ver como Stiles estava...

Stiles!

Em um estalo, Claire se sentou e virou para o amigo. Stiles parara de se debater, estando terrivelmente parado.

Claire chegou mais perto do amigo e viu ele abrir seus olhos.

— Stiles – Claire, esquecendo a arma a seu lado, se ergueu e foi ajudá-lo.

Claire ajudou a levantar Stiles e ficou a seu lado, apoiando-o. Ele bambeou por uns instantes até se manter firme. Estava pálido, suado e tinha uma expressão ilegível no rosto.

— Como se sente? — Claire perguntou, preocupada.

Stiles se virou para ela. A druidisa então notou pela primeira vez seus olhos.

Os olhos castanhos, antes brincalhões, sarcásticos e calorosos estavam frios e maliciosos.

Aquele não era Stiles.

Antes que pudesse processar aquela informação, sentiu a mão dele apertar sua garganta. Com o fluxo de ar interrompido, novamente o medo tomou posse de si.

Não-Stiles a empurrou para trás até estar prensada contra a parede e a levantou pelo pescoço.

Claire tentou chutá-lo, abrir a mão em volta de seu pescoço, tentou socar seu braço, seu rosto, mas Não-Stiles estava impassível, com uma nova força em seu corpo. Era como lutar contra uma parede. Não-Stiles abriu um sorriso horrível.

Sentiu desespero como nunca antes. A falta de ar causava pânico em seu cérebro e sentiu lágrimas descerem pelo seu rosto. Ainda lutava contra Não-Stiles, se debatendo, mas estava perdendo forças, sua cabeça doendo e visão escurecendo.

Então Não-Stiles foi lançado para trás.

Claire caiu como uma boneca de pano no chão, puxando o ar desesperadamente. Olhou para a nova presença ali e viu ser Scott. O lobisomem e Não-Stiles lutavam ferozmente no meio do quarto.

Claire tateou seu short em busca de sua arma, não se lembrando do objeto largado no chão, em vez disso sentiu a tampa da seringa. Puxou o objeto com um líquido transparente.

Scott e Não-Stiles pareciam ter um nível parecido de força, pois os dois encontravam dificuldade de vencer o outro. Segurando um ao outro, eles pararam com Não-Stiles de costas para Claire. Ele deu uma risada baixa e maldosa.

— Ainda tentam lutar tanto – disse Não-Stiles parecendo divertido com a situação — Não vê que já está tudo acabado? É só uma questão de tempo até eu ressurgir.

— E quem seria você?

— Eu sou Tenko e esperei muitos anos para voltar, vocês não vão me impedir.

— Acho que não nos conhece direito então. Não somos de desistir – Scott rosnou.

Não-Stiles novamente riu e antes que outra luta se iniciasse, Claire cravou a seringa no pescoço dele.

Não-Stiles empurrou Scott e se virou rápido para ela, com uma expressão de ódio, mas seus movimentos foram ficando lentos, seus joelhos dobrando e logo ele desabou no chão, paralisado por veneno de kanima.

Claire ficou parada ali, olhando para o corpo inconsciente, com a seringa bem segura na mão. Ainda não processara direito tudo aquilo.

— Claire! — Scott chamou e a menina olhou para o lobisomem. Seus olhos brilhavam em vermelho.

O lobisomem se aproximou da garota e pôs suas mãos no rosto da menina, vendo seus machucados e então olhou para seu pescoço manchado de roxo e vermelho.

— Você está bem?

O cérebro de Claire lentamente voltou a funcionar.

“Allison”

Claire tentou dizer ao se lembrar do ferimento na caçadora, mas nenhum som saía de sua boca. Era como se suas cordas vocais não vibrassem.

— Claire? — disse Scott, preocupado.

A menina tirou as mãos de seu amigo do seu rosto e apontou para outro corpo caído próximo a uma porta partida em pedaços.

Scott correu para socorrer Allison.

Claire respirava pesado, dolorida e com os batimentos irregulares. Sua mente estranhamente vazia, considerando tudo o que acontecera.

Claire fechou os olhos, cansada.

...

Algumas horas depois, todo o bando estava na casa de Scott. Por algum milagre nenhum deles havia morrido. O mesmo não podia ser dito para as famílias ao redor da casa de Danny.

As baixas não foram tão altas quanto poderiam ser, entretanto. A guarda montada do lado de fora e o aviso de Stiles ajudou o bando a reagir mais rápido, atacando os demônios e até matando alguns. Quatro demônios haviam morrido, incluindo a loira psicopata. Quando viram que o bando estava bem preparado e organizado, os demônios se retiraram.

Além do ataque à Claire e seus amigos, ninguém na festa foi diretamente ferido. Houveram confusões, algumas brigas e muitos ataques de pânico, mas todos que se mantiveram na casa ficaram seguros.

Allison e Lydia foram levadas às pressas para o hospital.

A ruiva estava com o rosto inchado e uma concussão, mas depois de fazer exames, foi liberada pelos médicos com prescrição de uma boa dose de analgésico.

Claire foi avaliada, mas logo foi liberada também.

Allison havia passado por cirurgia e precisou de transfusão de sangue. Ainda estava inconsciente quando o bando se retirou do hospital, pálida e em estado de observação. Chris Argent ficara para acompanhar a filha.

Derek, Isaac e outros caçadores amigos do Sr. Argent tiveram variados níveis de ferimentos, uns mais graves que os outros, mas no geral, todos estavam vivos.

Stiles foi levado para a casa e estava sob a supervisão de Deaton. Ainda não havia acordado.

Claire se sentia esgotada e com toda a situação e o clima pesado na sala, ela decidiu que precisava de ar fresco.

Ela se dirigiu até as árvores ao redor e sentou-se na grama. O céu escuro e o silêncio da noite deveriam ter feito Claire se sentir um pouco nervosa de estar ali sozinha, mas ela se sentia estranhamente bem. Fechou os olhos para apreciar melhor a sensação.

O vento frio da noite em sua pele, o som das folhas chacoalhando e dos animais em volta, o cheiro da grama. Tudo ali era reconfortante, como se tivessem abraçando-a. Sentia-se em casa.

Claire nunca havia sido uma garota de gostar de ficar entre a natureza, mais por falta de interesse do que por aversão. Se soubesse que era tão bom estar ali, tinha feito a mais tempo.

Sua respiração ficou mais longa, profunda, mais calma. Seu corpo relaxou e sua mente esvaziou. Toda dor, preocupação, medo foram substituídos por uma calmaria, um equilíbrio.

Então, aos poucos foi sentindo uma sensação engraçada nos dedos, como um formigamento. Logo essa sensação subiu seus braços e então todo seu corpo foi tomado por isso.

Era como se... ela pudesse sentir a natureza.

Como se pudesse sentir sua imensidão, sua liberdade e seu caos, seu estado calmo e acolhedor, mas também destrutivo e selvagem. Um sentimento de estar presente perante algo grandioso.

Como se pudesse sentir o seu poder.

Um poder imenso e muito antigo.

Se lembrou então de sua conversa com Deaton. Ele estava certo, ela se sentia muito bem ali, protegida, confortável.

Claire riu. Uma risada leve, infantil, como uma criança que brinca na natureza e se suja de terra.

— Olá — ela disse ainda dando risinhos.

Uma brisa morna passou entre seu corpo, como se tivesse cumprimentando-a também. Como se dissesse “bem-vinda de volta”.

— Claire? — chamou uma voz familiar.

— Oi Scott.

— Você está bem?

— Nunca me senti melhor.

— Eu só... queria dizer que o Stiles acordou.

Aquilo lhe chamou a atenção, mas a sensação de calma ainda estava presente.

— Ele está bem?

— Sim, ainda paralisado, mas esteve consciente e falando conosco. Ele voltou a ser completamente nosso Stiles.

— Que bom. Está sentindo alguma dor?

— Ele disse que não, mas não sabemos ainda como ele vai reagir. Ele estava muito cansado e nós o levamos para meu quarto para dormir.

— Muito bem. Eu gostaria de dormir junto dele.

— Não, Claire, é melhor não. Não sabemos se ele vai acordar possuído ou algo assim.

— Durma conosco também então. Você pode me proteger se ele me atacar novamente.

— Claire...

— Eu fiquei muito preocupada com ele, Scott, ainda estou. Mais do que estou com medo dele. Pelo menos hoje, não queria ficar longe nem dele nem de você.

Scott passou a mão no rosto e coçou seu cabelo, nervoso.

— Tudo bem, mas a qualquer sinal que não seja o Stiles ali, você grita por mim.

— Ok.

— Você vai entrar?

— Eu queria ficar mais um pouco aqui. Os druidas são um povo conectado à natureza.

— Tudo bem, mas não fique muito tempo, pode pegar um resfriado.

Claire sorriu para o amigo e acenou com a cabeça. Ela sabia que poderia ficar ali a noite toda e não pegaria um resfriado, mas obedeceria Scott em nome de seu pobre coração estressado.

Se Claire pudesse, poderia ficar ali para sempre.

...

Stiles acordou entorpecido, como se estivesse fora de seu corpo e sua mente ainda estivesse dormindo. Era como se não sentisse nada, fisicamente ou emocionalmente.

Ele olhou para o teto branco e as paredes cinzas. Parecia familiar. Estava deitado de costas, confortável em uma cama, aquecido, mas não era seu quarto.

Um movimento ao seu lado o fez virar sua cabeça para esquerda.

Claire estava ao seu lado, acordada, o cobertor até seus ombros. Sem maquiagem, os cabelos soltos e deitada de bruços, ela estava linda. O corpo de Stiles deu o primeiro sinal de vida ao acelerar seus batimentos.

— Oi – Claire sussurrou. Sua voz saiu difícil e arranhada.

— Oi.

Ela se virou para olhá-lo melhor, ficando de lado. A posição mostrava todo seu rosto e o pescoço.

Seu olho direito estava com uma mancha vermelha, tinha arranhaduras na bochecha. Stiles desceu seu olhar e notou o pescoço com marcas roxas e vermelhas ao redor.

A visão fez seu cérebro destravar.

Stiles se virou para ela, encarando-a de frente, e levou devagar sua mão em direção à menina. Sua mão pairou sobre ela, movimentando-se entre o rosto e o pescoço dela, sem chegar a tocar na pele.

Os olhos dela pareciam se encher de tristeza.

Então com um click as memórias da noite passada voltaram com força em sua mente.

A festa, o ataque, a luta com os demônios, a sensação de não controlar mais o próprio corpo. Uma imagem em específico inundou sua mente.

Sua mão apertando o pescoço de Claire contra a parede, seus pés se debatendo no ar, o rosto vermelho com lágrimas.

Voltando à realidade, Stiles puxou sua mão de volta, horrorizado, ao perceber que foi ele quem fez aqueles machucados.

— Meu Deus – sua respiração ficou mais rápido.

— Stiles, calma – a voz da menina estava rouca.

— Meu Deus, me perdoa – ele pediu, seus olhos marejados – Me perdoa.

— Stiles, ei – a mão de Claire tocou o rosto do menino — Não tem o que você se desculpar comigo. Você foi possuído, não estava em controle do seu próprio corpo.

— Me desculpa – algumas lágrimas desceram pela bochecha de Stiles – Eu nunca faria isso com você.

— Eu sei que não — disse Claire, enxugando a lágrima com o seu dedão — Eu vou ficar bem, você não precisa se desculpar.

— Preciso sim. Eu te machuquei.

— Não foi você, Stiles, eu falo sério. Se precisa tanto me ouvir dizer, então, ok, eu perdoo você, mas eu sei que você não quis fazer isso.

— O que eu posso fazer por você? Como eu posso me redimir?

— Você não...

— Por favor, Claire – Stiles implorou – Deixa eu fazer algo sobre isso. O que eu posso fazer por você?

Claire olhou bem para os olhos castanhos de Stiles, tão torturados. Não pareciam nada com aquela pessoa que a estrangulou. Aqueles olhos eram do garoto de quem ela virou amiga, que implicava com ela, mas que a protegia com unhas e dentes. O garoto que havia pedido desculpas por ser infantil com ela, que lhe abraçou tão forte alguns dias atrás.

Quando ele convulsionou no chão do quarto na noite passada, ela sentiu como se fosse perdê-lo a qualquer minuto. Um sentimento tão forte de desespero que doía. Ele teria partido de uma forma tão trágica.

Ela não queria mais sentir aquilo. Queria ele vivo para poder continuar a implicar com ela, passar tardes conversando e não fazendo nada, queria ficar perto dele, assisti-lo jogar lacrosse, mesmo que não fosse tão bom. Ela queria estar com ele.

— Você pode fazer uma coisa por mim – Claire disse com um sorriso tímido.

— O quê? — Stiles parecia que aceitaria qualquer coisa.

— Você pode me levar naquele cinema com você.

Stiles piscou confuso.

— O quê?

— Você disse que quando tudo isso terminasse, você queria ir ao cinema.

— Ah, sim, isso mesmo.

— Você me leva junto para assistir com você.

Claire o olhou bem nos olhos e viu Stiles compreender tudo o que ela quis dizer com aquilo. Para seu alívio, Stiles sorriu, os olhos marejados, mas felizes.

— Ok, cinema então. Podemos jantar depois.

— Combinado, mas eu escolho o filme. Seu gosto pra filmes é horrível.

Stiles riu de leve e sorriu para ela. Uma expressão ainda muito culpada, mas esperançosa.

Num impulso que ela não teria coragem se ambos estivessem levantados e arrumados, em vez de pijamas, ela o beijou.

Foi um beijo simples, mas longo.

Um beijo que fez um arrepio descer suas costas e seu coração bater mais rápido. A sensação dos seus lábios, o conforto de estar perto dele era tão bom quanto estar na natureza.

Eles se separaram e Claire notou novas lágrimas se formarem nos olhos de Stiles.

— Me desculpa – ele acariciou os cabelos castanhos de Claire.

A menina aninhou-se junto a ele e o abraçou, buscando mais de seu conforto e oferecendo também. Stiles repousou seu braço nas costas dela, trazendo-a para mais perto. Estavam abraçados ali, em um momento pacífico em meio ao caos.

— Você está desculpado – disse Claire.

Ali próximo, encostado na parede do lado de fora do quarto estava Scott. O lobisomem havia acordado cedo e se levantado para uma rápida checada na casa, antes de voltar para o quarto. Ao escutar a conversa, Scott sentiu o peito apertar. Um momento que seria tão bonito parecia tão trágico para ele. Scott estava lutando para salvar Stiles, estava lutando pelos seus dois amigos, mas ver os dois se envolvendo dessa forma doía.

Porque em um canto profundo em seu coração, Scott não tinha certeza se Stiles sobreviveria.

Notas finais
Quando fui passar o capítulo para o site, o texto saiu duplicado, então se tiver algo estranho no capítulo me avisem, por favor :) Não esperava que o capítulo ficasse tão longo, é o maior já feito por mim. Pensei em dividir em 2 partes para postar logo a primeira, mas achei que faria mais sentido tudo junto, por isso demorou tanto. E aí??
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.