Wildland: Return to Zero

5 Capítulo 04 - Sem Solução


"In interdum est optimum exitum mortis"

— Mocinha, vou te dar a opção de voltar lá pra onde você tava sem alarde, eu falo pro pessoal que esse traidor aí tentou te ajudar mas eu deitei ele, então quer dar o fora? – Eu não conseguia parar em pé, meus joelhos estavam duros, as pernas moles ao ponto de parecerem manteiga, tudo que queria era estar morta, só de lembrar da cena que vi anteriormente de Ângela, meu estômago se revirava, eu certamente iria ser morta, mas, em um lapso momentâneo, tentei analisar mais a fundo a situação comparando com a minha chegada naquele local.

“Considerando a maneira com que saí daquela ilha, o fato disso poder ser um jogo...Se eu estou mesmo em um roteiro de um jogo, assim como da ilha, sempre há uma possibilidade de sair da situação e achar um caminho. Eu tinha que resolver o quebra-cabeça do mar, na verdade, era só eu tentar atravessar, o jogo não seria feito para te impedir de avançar, existem formas de se avançar em um jogo, então não seria diferente nessa situação. O sistema me colocou em uma causalidade de vida ou morte, com certeza existem jogos difíceis, mas nunca impossíveis. Então existia uma forma, existia uma saída. Eu precisava pensar como um jogador, sendo fria, analisando todo o contexto ao meu redor, cada detalhe. Eu não tenho como fugir daqui, se eu correr, Castiel me mata, se eu voltar para a sala onde eu estava, certamente seria sacrificada assim como Ângela, mas, se eles estavam me mantendo viva até o momento, significava que eu tinha alguma diferença em relação à Ângela? Por quê ela foi primeiro? Será que apenas escolheram aleatoriamente? Eu tinha que usar todas as cartas que possuía.”

— Eu volto, mas me fala, por que não me mataram até agora? Querem fazer o que comigo? Se for o que fizeram com a Ângela, prefiro que você me mate agora. – Eu disse isso obviamente não querendo ser morta, mas precisava saber porque não fui a primeira, talvez isso poderia me salvar.

— E eu vou saber? Não fico questionando. Mas realmente não querem que eu te mate, então vai ser um problema ter que te parar sem cortar um pedaço.

— Então se eu tentar fugir agora, o que vai fazer?

— Com um teco eu te desmonto sabe. – Com a habilidade que o rapaz tinha, ele parecia estar dizendo a verdade, mesmo se eu tentasse fugir ali, ele me desmaiaria e me levaria pra sala novamente, mas a informação que ele deu já foi útil, eu poderia mesmo ter algum valor para aquelas pessoas lá. Se fosse mesmo um jogo, então havia um gatilho que eu poderia usar para driblar aquela situação, talvez eu devesse mesmo voltar para a sala e encontrar lá alguma coisa, mesmo que fosse... alguma coisa que pudesse usar para matar aquelas pessoas.

5 ANOS ATRÁS

— Você achou mesmo que eu poderia apenas esquecer tudo isso? Infelizmente, não. Quero que saiba que eu não estou aqui apenas para te intimidar ou dar uma lição de moral, que fique bem claro isso, quando você olhou para o Michel eu já vi que tinha algo errado, e não pense que pode me enganar com esse papinho furado de amigos de infância, se você o conhece há mais de dez anos, vinte ou quarenta, eu quero que se foda, você acabou mexendo com a pessoa errada, não sabe que não deveria tentar pegar o que é seu, sua gatuna?

— Você é louca... Não pensa que vai ficar assim não, amanhã mesmo você estará expulsa da faculdade e sua reputação vai acabar, acha que pode se livrar disso sua puta? Eu vou precisar chamar o meu advo... – Antes que a garota pudesse dizer mais alguma coisa, Livia cravou uma lapiseira em sua mão enquanto segurava a garota pelo pescoço pressionando-a contra a parede. A menina de cabelos negros até os ombros começou a gritar tentando se soltar, mas a força que Livia impunha era maior.

— Essa dor é suficiente para você aprender a tirar o olho do que não é seu? Ou você não entendeu ainda? – Livia ignorou tudo que a garota havia dito anteriormente, seus olhos estavam apenas repletos de raiva e uma intenção assassina.

— Louca! Você é doente! Amanhã você vai tá presa, pode escutar! – Enquanto a garota gritava e chorava, Livia a empurrou para o chão, ela caiu ajoelhada, e logo em seguida, teve seus cabelos agarrados por Livia e sua cara jogada contra a parede, o choque fez com que a testa da menina se cortasse, sangue começou a escorrer por seu rosto, a garota tentou se levantar cambaleando e colocou a mão em sua face cobrindo-a com sangue.

— E aliás, esqueci de falar, caso o que aconteça aqui se espalhe, terei que espalhar aquelas fotos que você mandou pro Michel, tipo, pra cidade toda. Imagina o seu pai, influente como é e tals, ficar sabendo que a filha manda foto pelada pra um cara que namora. Eu posso até ser processada, mas, diria que sua reputação que estaria no lixo. – Com as palavras de Livia, a garota que chorava de soluçar tentando sair daquela sala de aula vazia tentou retrucar, mas ela se via sem argumentos.

— Não tem comparação! Você quase me matou!

— Oi? Quem garante? Tem provas? Tem câmeras aqui? Tem gravador de voz? Acho que não tem hein. Mas eu tenho as fotos suas, seus áudios pra ele, tenho tudo. Quer mesmo comparar? – Livia sorriu sadicamente enquanto a garota saiu correndo deixando um rastro de sangue espalhado. Livia puxou uma carteira e se sentou respirando fundo, mas seus olhos ainda estavam repletos de raiva. Mesmo após enfiar uma lapiseira na mão da garota que cursava seu mesmo curso, ela não sentia remorso nem culpa. Livia prometeu que se ela voltasse a dar em cima do seu namorado, a mataria.

Quando me dei conta eu já estava com a visão embasada, parecia que havia tomado várias pancadas em minha cabeça, minhas mãos doíam como se eu não as sentisse, ao abrir meus olhos por completo me deparei com várias pessoas vestindo mantas pretas em minha frente, todas me observando enquanto conversavam, eu tentei olhar para os lados mas meu pescoço parecia imóvel, vi que uma das pessoas se aproximou de mim e colocou sua mão feminina sobre meu queixo e levantou aos poucos minha cabeça, enxerguei aquela sala, a mesma em que havia visto Ângela há alguns minutos, o cheiro de sangue, enxofre e óleo era enorme ali, vi que haviam algumas decorações de seres nas paredes cinzas juntamente com várias estátuas da mesma mulher que havia visto na entrada daquela fortaleza, também haviam candelabros vermelhos, todos acessos, além de vários machados acoplados pelas paredes e a iluminação no restante da sala era bem fraca, não consegui contar direito mas pareceu ter umas 10 pessoas.

— Ela ainda tá bem dopada, não sei se vamos conseguir alguma coisa.

— Deixa que a dor a acorde. – Percebi que o homem que estava falando com a moça que se aproximou de mim era o Lorde Kiriel, ele devia ser um dos líderes daquela seita maldita.

— Onde.. – Tentei falar mas percebi naquele momento que, se eu começasse, eles poderiam me torturar, era o que a fala de Kiriel deu a entender, mas eu não podia simplesmente ficar quieta, eu estava presa, foi quando olhei para o lado direito e vi minha mão presa com um prego grosso de chumbo no meio da palma, pregada em uma superfície de madeira, meus braços estavam esticados, ambos pregados, eu não sentia dor, mas só de ver aquilo meu estômago já ficou embrulhado e comecei a gritar.

— Acho que tá voltando ao normal. Prepare a recepção. – A mulher fez sinal chamando outro dos encapuzados ali. Ele chegou em minha frente com um chicote negro e enorme em suas mãos, eu não sabia mais como reagir, sabia que gritar não adiantaria, no final, eu seria morta, só poderia pedir para que me matassem logo, mas acho que essa não era a intenção.

— Se querem me matar, façam isso, sou algum tipo de sacrifício? Esse mundo é insano. – Eu falei em um tom de deboche para mim mesma, naquela altura, já nada mais importava tanto.

— Escute, você responderá agora tudo que falarmos, ou nem precisa na verdade, só pense nas respostas. Samanta, podemos começar? – Kiriel segurou a mão de uma moça que tirou o capuz preto e revelou seu rosto que parecia ser de uma mulher de trinta e poucos anos com cabelos longos e castanhos, ela parecia norte americana pelos traços, ela estava com um olhar cabisbaixo e a expressão bem abatida como se estivesse com dor. Ela desenhou no ar alguma coisa e naquele instante um círculo azul apareceu com alguns símbolos no meio, nesse momento senti um leve choque na minha cabeça, algo parecia ter entrado em meu cérebro.

— Muito bem, com quantos homens você fez sexo até o momento? – Kiriel me fez aquela pergunta com tranquilidade, eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, eu já nem pensava mais em como sair daquela situação, mas lembrei que devia ter uma forma, algum puzzle que eu devia completar caso aquilo fosse mesmo baseado em um jogo, mas assim que o homem me perguntou, automaticamente lembrei dos quatro rapazes que já dormi na vida, e em seguida, o homem que segurava o chicote negro nas mãos o esticou e, indo do meu lado, começou a chicotear meus ombros e pescoço, ele deu duas chibatadas seguidas e eu já pude ver sangue voando pelo chão, a mulher que mantinha o círculo azul em sua frente com a mão esticada sussurrava algo para Kiriel, ele fazia uma cara de nojo enquanto olhava para mim.

— Foram quatro mesmo? – De alguma forma parecia que aquela garota com o círculo estava conseguindo ler minha mente. O que eles pretendiam? Eu não podia mais pensar em nada, independente do que me perguntassem, por mais que os pensamentos não pudessem ser controlados. Eu devia pensar em uma maneira de sair dali. “Pense, pense sem parar, não ouça o que Kiriel pergunta, apenas pense em como sair dessa situação. Se isso for baseado nas regras de um jogo, quer dizer que há um método de sair, mas qual seria? Estou com a duas mãos pregadas, eu não posso simplesmente arrancar os pregos e rasgar minha mão, não tem chance de sair dali a não ser que alguém me tire, então preciso convencer alguém a me soltar? Mas quem? Todos ali estão do mesmo lado, se eles não me mataram é porque querem algo de mim, se estão tentando tirar respostas de mim, é porque eles precisam saber alguma coisa, certo?” – Em seguida, Kiriel fez outra pergunta.

— Quantas vezes pensou em outros homens enquanto namorava ou se relacionava com alguém? – Eu não pude evitar ouvir, tentei desviar meus pensamentos mas deixei escapar a vez que me senti culpada por pensar em Rodrigo mesmo estando com o Mi, não me perdoava por aquilo. Senti o chicote sendo arremessado até meu pescoço e minhas costas indo até minha cintura fazendo um grande rasgo, dessa vez apenas uma chibatada, mas foi o suficiente para arrancar parte de minha pele, tendo em vista que só havia dado conta que estava nua naquele momento. Apesar daquilo eu ainda não sentia tanta dor, mas aposto que logo depois do efeito da suposta droga que me deram passar, eu iria agonizar.

— Pra que isso? O que querem de mim? Me respondam e posso cooperar, respondo tudo que quiserem!

— Não é necessário. Ler sua mente é melhor que ouvir suas mentiras, duvido que conseguiria mentir pra sua consciência. – Quem falou dessa vez foi a mulher que estava ao lado e Kiriel, ela parecia ter um sorriso sádico em seu rosto.

— Mas o que querem? Apenas me torturar?

— Precisamos expurgar suas impurezas antes do sacrifício, aquela moça tinha muitas, ela teve que sofrer muito antes de ser degolada, acho que passamos mais de uma hora nisso, ela desmaiou antes mesmo da trigésima chibatada, será que vai ser necessário isso pra você também? – Kiriel respondeu com seu tom de voz calmo e sua expressão pacífica como sempre. Havia algo de errado, eu não conseguia pensar em um método para escapar daquela situação. “Se isso é baseado em um RPG... Um RPG...Lembro que na adolescência joguei Perfect World com dois amigos, joguei pouco mas lembro de umas coisas, íamos em grupos para enfrentar uns chefes e matar uns animais... Espera, um RPG? Mas se eu estiver certa, então quer dizer...” – Quando Kiriel ia fazer a próxima pergunta eu ouvi a porta do fundo do salão se abrindo, e de lá, surgiu uma pessoa.

— O que...? – Kiriel moveu seus olhos até o local, eu não consegui ver direito mas aquilo não parecia um ser humano.

— Mas o que é isso? – Um dos encapuzados daquela sala foi em direção ao que tinha acabado de entrar. Ao se aproximar ele havia caído no chão gemendo de dor.

— Acendam! – A mulher ao lado de Kiriel gritou e no mesmo tempo acenderam as luminárias da sala, meus olhos, mesmo ainda embaçados, enxergaram uma cena horripilante que me fez lacrimejar e me contorcer de pavor por dentro. Era Ângela, mas ela estava com sua face deformada, haviam parte de sua arcada dentária a mostra, sua barriga estava aberta com seus órgãos à mostra, não havia mais humanidade, era apenas uma criatura sem alma, seus olhos estavam esbugalhados e vermelhos, mas apesar da falta de humanidade, ela estava se movendo, não parecia ter consciência, mas se movimentava até mais rápido do que um humano normal. Ela se aproximou do rapaz que estava no chão e avançou com tudo sobre o mesmo, subiu em cima do tronco do rapaz e mordeu seu rosto arrancando pedaço de sua bochecha esquerda enquanto ele tentava empurrá-la, mas sua força parecia superior à do rapaz. Um dos encapuzados se aproximou de Ângela com um facão e desferiu um golpe contra a cabeça da mulher, e mesmo a lâmina sendo cravada em sua nuca, ela ainda parecia com vigor suficiente para continuar mastigando o rosto do homem no chão.

— Um summoner, tem um summoner aqui! – Haviam 9 pessoas fora o rapaz sendo devorado naquela sala, Kiriel se aproximou da porta e a fechou, todos começaram a se olhar suspeitando um do outro, o homem tentava tirar a faca da cabeça de Ângela mas ela segurou a mão do mesmo e o arremessou contra o chão, um dos encapuzados retirou seu gorro, era um homem louro de uns 40 anos aproximadamente com cabelos compridos e expressão agitada, ele carregava um cajado consigo, mirou até Ângela e disparou uma bola de fogo, e mesmo esta atingindo Ângela e a cobrindo com chamas, ela se levantou parecendo não sentir nada, ao mesmo tempo, correu em direção a este rapaz e antes de se chegar face a face, Kiriel disse algumas palavras e várias estacadas surgiram da terra e perfuraram o corpo de Ângela, uma passou por sua cabeça, outra pelo seu tórax e uma das pernas, mas ela ainda parecia estar viva, rugia de forma descontrolada rasgando sua pele tentando sair, a mulher que estava ao lado de Kiriel pegou um martelo quase maior que ela e partiu Ângela ao meio, mesmo com o corpo dividido em duas partes ela ainda continuava a se mexer, sua metade tentava esticar suas mãos para alcançar a mulher, ela moveu seu martelo rubro e reluzente para cima de esmagou o braço daquela criatura no chão fazendo uma enorme possa de sangue. Tomada pela raiva e o medo, a mulher deixou o seu capuz cair e vi em seu rosto uma jovem com cabelos curtos de aproximadamente 20 anos, ou até menos, ela começou a bater violentamente contra o corpo de Ângela esmagando-a no chão, eu pude ver seus órgãos sendo esmagados com vários golpes seguidos, vomitei na primeira marretada, estava passando mal ao ponto de segurar para não desmaiar. Aquilo era o inferno mesmo, não podia estar em outro lugar se não lá, coisas assim não eram comuns, não em nosso mundo nem em um maldito jogo. Queria apenas morrer, eles podiam acabar com meu sofrimento de uma vez. Quando percebi o corpo todo de Ângela já estava triturado no chão, seus ossos cobertos com carne espalhados, havia sangue em todas as paredes, todos da sala retiraram seus capuzes, estavam perplexos com a cena que viram, a mulher que esmagou Ângela parecia sorrir de maneira insana, ela respirava fundo ofegante com seus olhos arregalados, depois de deferir uns trinta golpes ela soltou seu martelo e caiu ajoelhada no chão, mas Kiriel tomou a frente e direcionou a fala para todos com o tom de voz alto, o que era anormal no caso dele.

— Ninguém sai dessa sala até acharmos quem fez isso. Ninguém aqui que eu saiba tem a classe summoner, então, temos um mentiroso, diria, espião, no grupo. Eu tentei recobrar a consciência que ainda me restava, dentre aquelas 9 pessoas que restavam na sala, Liss estava lá. Ela evitava olhar para mim, parecia bem impactada com a cena que acabara de ver, apesar deles serem um grupo de doentes loucos psicopatas.