Wildland: Return to Zero
2 Capítulo 01 - Mar Vermelho
“Qua resurget ex favilla, Judicandus homo reu”
O meu maior medo era de fugir de todos os problemas que me cercavam, de correr e me esconder em algum lugar que ninguém pudesse me achar. Por muito tempo evitei abrir aquela porta que me levaria para um caminho sem volta, apesar de toda dor que devia lidar, ainda assim, era melhor do que simplesmente ser covarde, mas parece que toda fraqueza que nutria dentro de mim se concretizou quando pela nona vez olhei para aquele mar vermelho em minha frente. Meus olhos se focaram na água imóvel rubra, no horizonte, apenas colinas pontiagudas, algumas pareciam ter a cor azul celeste, já outras eram desbotadas, em outros cantos não conseguia ver nada devido a neblina, tudo que poderia pensar eram apenas duas possibilidades: Eu morri e vim parar no purgatório, ou então, eu estou em coma em um sonho eterno no mesmo lugar, o maior problema é que eu não conseguia me lembrar de muita coisa, minha última lembrança concreta foi quando eu estava pegando o metrô para a faculdade, fora isso, não vinha nada, nenhum flash do que poderia ter acontecido. Talvez um acidente com o metrô? Um infarto? Bom, se isso fosse o limbo, não era tão ruim. Apesar de estar a quase duas horas naquela ilha – aparentemente, pois não estava com meu celular para verificar o tempo – não vi nada de anormal, fora algumas árvores um pouco diferentes das brasileiras e também aquela água vermelha e as planícies meio incomuns, se fosse outro país, diria que se assemelharia mais com a Austrália ou Ásia, nunca havia viajado para esses lugares, mas diante de algumas fotos que já vi na internet, aquilo era o mais próximo que poderia imaginar, mas no caso eu sabia já que não estava em meu mundo, eu sentia o clima diferente, algo que me tirava a ansiedade que eu tinha na minha cidade, e além disso, no meu pulso, havia um dispositivo metálico, parecia uma pulseira, mas sem números nem nada, obviamente ao acordar me senti angustiada, gritei por quase uma hora e procurei alguma saída, mas só havia eu naquele pedaço de terra, não devia ter nem 1000 metros quadrados, eu já caminhei por todos os lados, achei apenas árvores, plantas, rochas, galhos e insetos que também existiam em meu mundo.
— Se isso for mesmo o purgatório, talvez eu fique presa nessa ilha por um bom tempo? – Eu não era de uma família religiosa, não acreditava muito em coisas divinas, mas tinha uma vaga ideia sobre o purgatório, um lugar onde as almas eram mandadas em busca de remissão antes de serem chamadas para o céu. De alguma forma essa ideia não colava pra mim. Era racional demais para acreditar nesse tipo de coisa, o ponto aqui é que preciso atravessar esse oceano, do outro lado talvez tenha algo que me ajude a saber onde estou.
Mais duas horas se passaram, o sol daquele lugar não me deixava mal, era bem agradável, pro purgatório, não tinha nada que me fizesse sofrer, talvez, se esse for mesmo o caso, a solidão e o isolamento sejam o fator principal aqui? Não era nisso que devia me importar. Pensei em muitas coisas para atravessar para o outro lado, o lugar mais próximo parecia ter uns 60 metros, eu não poderia nadar tudo isso, nem sabia o que tinha naquela água, apesar de tê-la analisado e visto que parecia com a água que conheço, apenas de outra coloração, mas não me arrisquei a toma-la. Pensei até na rasa possibilidade de fazer uma jangada, isso foi um tanto idiota, visto que eu nem poderia cortar aquelas árvores ali, e duvido que eu saberia construir alguma coisa, ainda mais sem materiais. De alguma forma eu não tinha fome, mesmo após 4 horas, não tinha necessitada de tomar água também ou fazer minhas necessidades, talvez eu estivesse morta mesmo, ou era apenas a adrenalina que não me fazia pensar nessas coisas. Quando me sentei em uma rocha para pensar melhor – ou ao menos tentar, já que minha cabeça parecia estar a mil – eu ouvi um bip e um pequeno choque em meu pulso, olhei para aquele dispositivo metálico instalado em meu braço que, aliás, eu não consegui tirar, e vi duas luzes verdes se ascendendo. Após isso, uma mensagem azul surgiu em inglês “Vá para o ponto inicial e fale com Dolori. Tempo Estipulado: 30 minutos.” Depois de alguns segundos a mensagem desapareceu e apenas apareceu um cronometro contando os 30 minutos.
— Isso é piada né? – Olhei para os arredores e vi no céu, a noroeste de onde eu estava, uma seta vermelha que apontava para um local específico, talvez fosse esse tal de ‘ponto inicial’ citado na mensagem. Eu não era muito adepta a jogos virtuais, mas aquilo certamente parecia um sistema parecido com de um RPG’s, eu devia mesmo estar em um sonho, afinal, Deus não seria tão sacana e gamer pra criar um purgatório assim. De alguma forma eu sabia que se não chegasse naquele lugar, algum ruim poderia acontecer.
— “Pense Livia, pense logo.” – A ansiedade já tomava conta de mim, eu pensei várias vezes em começar a nadar, mas não tinha confiança nisso, eu mal tinha feito 7 meses de natação, e ainda foi há uns 15 anos, 10 anos depois, o que eu poderia fazer? Não costumava ir em praias nem nada, mas ao bater os olhos no timer do dispositivo e ver que faltavam 15 minutos, meu coração começou a bater mais acelerado. Comecei a correr pela ilha procurando algo que ainda não tinha visto que poderia me fazer sair dali, foi então que percebi que já tinha visto todos os cantos dali umas 10 vezes.
— Não tem nada que eu posso usar, não tem nada. Que porra, vou ter que nadar? Se for um sonho ou um purgatório talvez eu não me afogue. – A ideia de morrer afogada era algo que me impedia de entrar na água, mas eu estava ficando sem tempo, faltavam apenas 10 minutos, e quando o cronometro chegou no 10, um pequeno bip começou a ser emitido pela pulseira e isso me deixou ainda mais aflita. – Não tem jeito, tenho que tentar. Minhas pernas começaram a tremer mas tomei coragem e dei os primeiros passos naquela água com meus tênis brancos, ela estava bem gelada, na verdade, aquilo era um lago ao invés do mar? Eu não poderia saber ao certo por não conseguir ver onde a água acabava ou ia, mas se fosse um lago, as chances de ser mais raso eram reais, mas ainda assim... Olhei para o outro lado e era muito longe! Não tinha como eu chegar, eu devia esperar na ilha e ver o que acontecia? Tentar e morrer? Claro que a alternativa de esperar era melhor! Mas eu não sabia o que iria me acontecer. Se eu fosse morrer de todo jeito, pelo menos morreria tentando? Foi então que comecei a olhar para aquela seta vermelha no céu novamente. – Se isso for parecido com a porra de um jogo... Por que eu estaria em um lugar que não me daria possibilidade para chegar do outro lado? Eu não joguei muitas coisas na vida, mas sei que um jogo assim não existira, eles precisam dar acessibilidade ao jogador, ainda mais em um aparente começo de game, então eu TENHO obrigatoriamente uma chance e um meio de sair daqui. Será que deixei passar alguma coisa? Será que eu não vi algo que era a chave? Não, eu revirei toda aquela maldita ilha, não tem um meio de atravessar, será que eu tenho alguma habilidade de nadar? Não, espera, em um jogo, eu teria que ver isso, não teria como simplesmente sair nadando. Então a única possibilidade era... – Foi então que percebi o meu grande erro. Pensando naquilo como um jogo, era fácil demais. Comecei a caminhar até o meio daquele ‘oceano’ e de alguma forma, não ficava mais fundo, a água mal passava dos meus pés, foi então que me dei conta de que ela tinha o mesmo nível. Eu não podia ver aquilo por conta da cor vermelha da água, mas aquilo era realmente um lago, me deixei levar, me senti a maior idiota do mundo, mas quando percebi aquilo faltavam 7 minutos, eu comecei a correr rapidamente até o outro lado, realmente não ficou mais fundo. Quando cheguei naquela superfície com uma areia mais escura, vi que havia uma floresta em minha frente onde eu tinha que entrar para chegar no ponto vermelho. Me joguei no meio dos galhos sem pensar em muitas coisas, não parecia ter nada de diferente, era como fazer uma trilha na chácara dos meus pais, já me aventurei várias vezes quando menor, não tinha nada a temer, exceto pelo fato de que o ponto vermelho parecia mais longe do que eu tinha visto lá da ilha. – Puta que paril, eu pensei que estava mais perto. — Olhei para o tempo, faltavam 4 minutos, eu comecei a correr desesperadamente, o suor corria da minha testa, no meio daquela mata fechada o ar ficou mais úmido, os galhos secos cortavam minha pele, eu tropecei em vários cipós, alguns até bateram em meu rosto me impedindo de ver, mas eu focava na seta vermelha no céu nas pequenas aberturas das árvores que podia ver, eu tentava não perde-la, mas isso me fez tropeçar várias vezes e ir de cara no chão, meu joelho havia se cortado, o sangue começou a escorrer de maneira rápida, mas precisava ignorar aquilo, se eu tivesse sido mais rápida e pensado em andar pelo maldito lago... Comecei a tentar correr mais rápido mas meu fôlego já estava no fim, não senti mais força nas pernas, olhava para o relógio e em seguida para o céu, o ponto vermelho parecia mais perto mas não o bastante para chegar em 2 minutos, foi então que ouvi uma voz que parecia estar muito perto, olhei assustada para o lado e vi uma garota que não aparentava ter nem 20 anos gritando.
— Moça, pera! – Ela tinha cabelos louros meio dourados bem longos, não parecia uma brasileira, ela tinha cara daquelas norueguesas famosas de instagram, olhos claros, pele delicada, uma pessoa improvável pra se achar em uma floresta tropical daquelas, mas de alguma forma a presença de outra pessoa ali me acalmou, ela tinha umas roupas bem estranhas, uma saia com detalhes um pouco arcaicos, umas botas acinzentadas, uma blusa com um colete marrom por cima e um colar com uma pedra branca, além de usar uns brincos bem grossos que não combinavam nada com ela.
— Quem é você? Sabe onde estamos?
— Você tá na missão do ponto inicial? Deixa eu ver – A garota se aproximou de mim, pegou em meu pulso e olhou para o cronômetro. – Desse jeito não vai dar, ativa o seu boost.
— O meu o quê?
— Fala ‘boost’ perto da pulseira. – Não entendi o que a garota queria dizer, mas sabia que ela tinha experiência naquele lugar, confiando nisso, fiz o que ela pediu.
— Boost. – Foi meio vergonhoso isso, mas ao falar aproximando minha boca da pulseira, senti que meu corpo ficou mais leve, uma aura azulada surgiu à partir dos meus pés.
— Agora corre até o lugar, me acompanha que sei o caminho mais aberto daqui. – A garota deu alguns passos pra frente em uma velocidade que não parecia de uma pessoa normal, eu tentei não ficar parada e fui atrás dela, logo já percebi que minha velocidade tinha aumentado também. Será que esse boost era pra isso? O que porra era aquilo? Ignorei esse detalhe e apenas a segui, ela estava indo rápido demais, pulei algumas pedras no caminho e vi um lagarto enorme vermelho parado em uma rocha distante, voltei mais olhos para frente e vi o local de onde a seta vermelha se originava, faltavam 40 segundos, eu coloquei todas as forças que restavam em minhas pernas e finalmente consegui chegar faltando 20 segundos, era um campo aberto com grama rala ao redor, tinha dois caras, uma mulher de meia idade e um adolescente esperando lá também, além da garota que me guiou.
— Puts, chegou em cima. – Um dos rapazes que estava sentado olhando calmamente para mim começou a falar enquanto fitava em seguida a garota que me ajudou.
— Vocês são as últimas? O que tá havendo? Sabem de alguma coisa? – O outro rapaz que estava ao lado do adolescente começou a falar em um tom de voz alto, ele tinha um jeito estranho demais, era careca e as roupas estavam bem surradas, não tinha sapatos e parecia ter caído várias vezes, assim como eu. Aliás, eu nem percebi mas estava sangrando em uma das pernas e no meu braço esquerdo, mas de alguma forma não sentia dor, apenas um pequeno ardume.
— Agora vocês tem que esperar! Vai aparecer uma mensagem na pulseira, mas... Não. É hoje? – A garota loira que me guiou mudou seu semblante do nada, ela olhou para sua pulseira que parecia bem mais colorida do que a minha e seus olhos se arregalaram, o homem sentado percebeu isso e se levantou, mas quando fez isso, uma flecha atravessou seu crânio. Eu apenas vi a ponta de ferro passando por sua nuca e atravessando bem no meio da sua testa, ele não fez nenhum som, apenas o vi caindo no chão enquanto via sangue esguichando da cabeça. Olhei para o lado e o rapaz alto e careca tinha duas flechas cravadas em seu peito, ele ainda teve reações e segurou uma das flechas que havia atravessado, mas logo em seguida uma flecha acertou em cheio sua cabeça arrancando seu olho esquerdo que rolou pelo chão junto com sangue, ele caiu fazendo um estrondo, minhas pernas ficaram bambas e caí para trás, foi quando percebi distante dali uma horda de criaturas verdes, deviam ter mais de 100, todas com flechas e lanças. Aquilo podia ser nem um purgatório e nem um jogo, mas sim, o inferno.
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