Wildland: Return to Zero
12 Capítulo 11 - Provação
Que Deus tenha misericórdia da minha alma. Se estou no inferno, que eu consiga ter o menor dos tormentos, apesar de que sabia que Deus não iria me ouvir daqui, mas havia a chance de ser outro lugar, então jamais poderia abandonar minhas orações.
— “Deus, me deixe respirar o ar livre novamente, quero contemplar sua presença, me dê forças para suportar tudo isso, esse tormento logo passará, confio nas ações do Senhor para com sua filha, não temerei a morte e nem esses demônios, conseguirei ficar em pé com sua força, mesmo diante da tentação e da dor, colocarei minha alma ao seu dispor, faça o que for preciso, me condene, me castigue, mas me deixe sair daqui e olhar para sua face, que seja feita tua vontade, não me renderei jamais ao maligno”
Já haviam se passado quantas horas desde que eu estava sendo mantida naquelas correntes na frente daquelas bestas? Meu corpo estremecia a cada olhar que recebia daquelas criaturas. Eram demônios? Alienígenas? Aqueles monstros tinham o corpo negro e cheio de escamas grossas e algumas rachaduras, possuíam músculos, vários dedos em suas mãos, pernas compridas, uma coluna reta com braços que chegavam até seus joelhos, seus olhos tinham a cor vermelha escura, todos com exceção dos menores tinham chifres de quase um metro pontiagudos e vermelhos, sua boca chegava até as orelhas com tantos dentes negros que eu nem conseguia contar, todos estavam rindo olhando para mim, era um riso estridente e sádico, eles estavam jogando corpos de humanos em uma fogueira enorme em sua frente enquanto me encaravam, alguns tinham recebido a ordem para não me matar ou atacar, mas eu via saliva escorrendo pro suas bocas podres, eles se continham o máximo para não me desmembrarem, eu vi um deles jogando a cabeça do que parecia ser uma criança na fogueira, o odor daquela caverna era horrível o suficiente para me fazer perder a consciência por alguns segundos, mas decidi encarar o mal, eu não fecharia os olhos, pois estaria me rendendo ao maligno, se Deus me manteve viva até agora é porque ele sabe que tenho que lutar, ele me dá forças para não temer essas criaturas baixas. Um deles se levantou ao ver que eu os encarava de volta com furor, ele pegou sua lança de madeira e deu um passo, mas um dos supostos líderes daquele grupo de dez demônios segurou-o pelo braço e o fez recuar. O Demônio médio gritou algo para o maior, no mesmo instante, o maior avançou com sua mão direita até o pescoço do demônio enfurecido e apertando-o com suas unhas afiadas, fez com que a cabeça deste saísse rolando pelo chão, o sangue que jorrava do pescoço da criatura era verde limão, seu corpo caiu no chão e em seguida foi atacado sem dó pelos outros demônios menores ao redor da fogueira, todos pareciam urubus comendo carne, eles não hesitavam em devorar sua própria espécie, eram realmente demônios, talvez eu estivesse no expurgo, no apocalipse, mas não temeria, Deus estava lá comigo. A criatura maior pegou o braço que estava devorando antes e continuou a comê-lo com bocadas grandes, eu cheguei a vomitar várias vezes vendo aquele tipo de cena, talvez já tivesse passado dias, eu fui marcada com ferro e fogo em vários locais, eles tinham um próprio alfabeto e parece terem escrito alguma coisa em meu corpo, mas isso não era nada! Toda essa dor era suportada pela dignidade que Deus me deu para segui-lo, eles podiam me torturar, abusar e tentar quebrar meu psicológico, mas minha alma e coração permanecerão com o Senhor.
— Criaturas infames, o Senhor está chegando com seu cajado e seu exército, vocês irão se tornar pó diante dele, aproveitem agora pois serão jogados em um calabouço de onde nunca mais sairão! – Gritei essa palavra com todas as forças sem saber se eles me entendiam, os menores parecem que não, mas os médios e maiores compreendiam algumas coisas que eu dizia. Durante aquele tempo naquela caverna cheia de corpos, caveiras, musgo e morcegos, eu permaneci acorrentada, nua, sem ser alimentada e sendo chicoteada várias vezes por dezenas dessas criaturas. Eu mal me lembrava como havia parado ali, estava tomando café da manhã orando na mesa de casa quando repentinamente, estava sendo violentada por três pequenas criaturas, um dos maiores os impediu de me matarem e prendeu correntes em meus braços e minhas pernas, me deixando esticada com os membros abertos, pensei que seria estuprada e violentada, mas de alguma forma o ‘líder’ daquele bando não deixava nada acontecer comigo, eles tinham uma linguagem única, não conseguia entender nada, mas talvez eu fosse um tipo de recompensa que eles não queria denegrir. Naquele momento em que falei essas palavras, o líder que tinha me salvado antes entrou naquele local da caverna onde eu me mantinha presa, meus olhos haviam se acostumado com a escuridão, por mais úmido e escuro que fosse, tudo já me parecia normal, o medo e desespero que senti foram aliviados por minha fé, eu sabia que Deus não me abandonaria.
— Shhhhhhh ahsihhhhhhhs, guuuuiu. Agggghshhhhh. – O líder, um demônio 2 vezes mais alto do que aqueles em volta da fogueira, com um corpo mais robusto e chifres enormes e grossos, grunhiu algumas coisas e no mesmo segundo todos os demônios se levantaram, três deles vieram em minha direção e me puxaram pelas correntes, eles começaram a me guiar para o centro daquela caverna, eles já tinham me levado lá diversas vezes para me chicotear e queimar, mas dessa vez, ao chegar no local, não percebi a madeira em que eles me deixavam amarrada, havia apenas uma criatura menor no centro do lugar com uma faca banhada de sangue em suas mãos.
— Ahhhhhhg uhughhhh shhhhhh. – O demônio líder me empurrou, eu caí de joelhos na frente da besta menor, ele tinha um sorriso sádico e salivava muito, a faca pequena tremia em suas mãos com dedos compridos e cheio de bolhas, ao meu redor se formou uma roda com várias dessas criaturas, aquilo me parecia uma coisa; Eles queriam que eu lutasse contra aquele monstro.
Os três demônios que me soltaram tiraram as correntes com um alicate rústico, o líder pegou uma faca parecida com a do monstro em minha frente e jogou em minha direção. Sem esperar, o monstro em minha frente avançou com tudo e a ponta da faca cortou meu ombro, desviei rápido o suficiente para a faca não entrar, causando um rasgo não tão profundo, eu me joguei no chão e segurei a faca que haviam me entregue. Era a vontade de Deus aquilo também? Me fazer lutar? Eram demônios, não pessoas, eu não precisaria hesitar. Se fosse Deus que estava me guiando, eu sentia que sua vontade era de prosseguir. Eu tentei ficar em pé sem tremer, mas minhas pernas estavam fracas devido a falta de bebida e comida, ainda mais em um ambiente onde não havia muito oxigênio, os demônios gritavam ao meu redor, vários tacavam pequenas pedras em mim, eles queriam me testar? O demônio menor voltou a avançar em minha segurando a faca com suas duas mãos, ele mirou em meu estômago e avançou com tudo, apesar de serem mais fortes e aparentemente mais resistentes do que eu, claramente, os menores eram bem burros, eu esperei até ele estar próximo e me inclinei para o lado direito esticando minha perna e fazendo o mesmo cair de boca no chão, vi alguns dentes podres do mesmo rolarem pela superfície quente de pedra, haviam várias labaredas de fogo pelos arredores da caverna, a sombra da criatura o fazia parecer muito maior do que era, mas eu estava empenhada em cumprir meu papel, minha missão era eliminar o mal daquele mundo, mesmo se fosse começando por essa pequena criatura diabólica. Aproveitando enquanto ele se levantava, eu avancei e finquei a faca em suas costas, não tinha força o suficiente, ela mal entrou, o ser me deu um chute e me fez cair sentada no chão, ele se levantou e grunhiu tão alto que meus ouvidos doeram, ele segurou a faca em suas costas e a jogou para longe, ele me olhou com fúria, vários demônios que assistiam pareciam rir, aquilo fez com que a besta abrisse sua boca de forma a mostrar todos os seus dentes, seus olhos pareciam estar possessos de raiva, ele largou sua faca e foi com suas próprias mãos para cima de mim, me segurou pelos cabelos e começou a esmurrar meu rosto, no segundo golpe senti que estava perdendo a consciência, ouvia os demônios ao redor gritarem mais ainda, eles pareciam felizes, felizes em ver uma serva do Senhor no chão.
— “Deus, me permita pelo menos eliminar um destes demônios...” — No quarto soco, eu encolhi minhas pernas e consegui com um chute empurrar a criatura que soltou meus cabelos negros arrancando um tufo, ele bambeou mas voltou a correr em minha direção, tentei ficar calma, fechei os olhos e pensei na força que Deus estava me dando naquele momento de tribulação. – O Senhor é meu Pastor e nada me faltará. – Impulsionei meu corpo para frente e esticando os dois braços segurei na cintura da criatura e levando comigo para frente, em um movimento, joguei-a contra o chão, eu ouvi um som de ossos se quebrando, sangue verde escorreu da cabeça do mesmo enquanto ele se contorcia, eu estava em cima do mesmo segurando seu corpo duro e escamoso, não soltava mesmo com ele me dando socos nas costas e com o cheiro horrível que eu sentia, vi que muito sangue escorria da sua nuca, ele era muito leve, foi fácil movê-lo, ao perceber isso, tendo em vista que ele não tinha nem um metro e quarenta, eu pisei no chão e ainda segurando a criatura me levantei, aquela força que eu tive no momento certamente foi parte do Espírito Santo, então eu voltei a me jogar no chão com a criatura, o impacto dessa vez fez um barulho mais alto de ossos se quebrando e senti sangue jorrando pelo chão, vários demônios começaram a gritar de maneira mais aguda, eu não sentia mais resistência no ser, me afastei me levantando e vi na minha frente o corpo esticado do demônio que teve sua cabeça quase partida no meio, seus olhos esbugalhados e sua boca aberta jorrando sangue me mostravam que ele estava morto. Eu tinha o poder que Deus me concedeu, eu poderia fazer isso, eu não era fraca se estivesse com o Senhor.
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