Wild Things
1 Pérolas e diamantes negros
Notas iniciais
The Heart asks Pleasure—first—
And then—Excuse from Pain—
— Emily Dickinson
Janeiro de 1980
Naquela semana, Eva Yaxley descobriu que havia poucas coisas mais difíceis do que organizar uma festa para pessoas que se julgavam importantes demais para confirmar presença.
Lucius Malfoy confirmara a dele duas vezes. Na segunda, perguntara se os Yaxley dispunham de uma sala adequada para conversas reservadas.
Eva respondera que sim, embora por pouco não acrescentasse que também tinham teto.
Agora, sentada numa bergère junto à janela, de roupão de seda e com uma xícara de chá esfriando ao lado, ela acompanhava a passagem de uma bandeja que flutuava pelo corredor. Havia uma mancha na prata.
— Essa volta.
O elfo doméstico que vinha atrás dela parou tão depressa que a bandeja oscilou.
— Senhorita?
— A bandeja. Volta para ser polida.
Ele inclinou a cabeça e desapareceu com um estalo. Eva pegou a xícara, provou o chá e tornou a pousá-la.
Do salão chegava o ruído de móveis sendo arrastados. Durante anos, a família abrira aquele cômodo apenas para ocasiões que exigiam mais cadeiras do que afeto. Agora, os lustres estavam acesos, as cortinas haviam sido limpas e dois elfos trabalhavam exclusivamente na prataria e nas porcelanas. Pelas janelas, Eva via os jardineiros aparando os últimos arbustos sob um céu que ameaçava nevar.
Tudo estaria pronto. Ela precisava apenas sobreviver às pessoas encarregadas de ajudá-la.
— Eva.
Adam, seu irmão, estava à porta, segurando duas listas.
— Por que há nomes riscados nesta?
— Porque não vêm.
— E por que estão nesta outra?
— Porque vêm.
Ele olhou de uma folha para a outra.
— São os mesmos nomes.
— Sim. Mudaram de ideia.
Adam soltou o ar pelo nariz e se sentou no braço da poltrona.
— Malfoy perguntou ao pai se a adega estava bem abastecida.
— Que gentil. Deveria ter trazido a própria.
— Acho que estava oferecendo ajuda.
— Tenho certeza de que ele também acha.
O irmão sorriu.
— O pai mandou subir o vinho de oitenta anos.
Eva pousou a xícara.
— Aquele que comprou em junho passado?
— O comerciante garantiu que foi envelhecido com um Vira-Tempo.
— O comerciante garantiu que não queria perder a venda.
— Diz que passou por três gerações da mesma família.
— Em pouco mais de seis meses? Devem estar exaustos.
Adam riu.
— De qualquer maneira, são só seis garrafas.
— Então não deixem Malfoy perto delas.
Eva pegou uma das listas de sua mão, fez uma correção e a devolveu.
— O rapaz que você acrescentou fica perto de você.
— Severus?
— Se esse for o nome.
— Você estudou na mesma escola que ele.
— Estudei na mesma escola que muita gente. Não prometi guardar todos.
Adam examinou a indicação de lugar.
— Ele não vai gostar de ficar perto de mim.
— Então já temos alguma coisa em comum.
Ele bateu de leve com as folhas no ombro dela antes de se levantar.
— Você está insuportável.
— Espere até os convidados chegarem.
Quando ficou sozinha, Eva olhou outra vez para o salão.
Sua avó materna teria conduzido aquilo tudo sem erguer a voz. Possuía uma maneira de fazer perguntas que levava as pessoas a corrigirem os próprios erros antes de descobrirem que haviam sido repreendidas. Eva, por enquanto, precisava apontá-los.
Sentiu falta dela.
Depois viu um elfo atravessar o corredor com um arranjo de flores grande o bastante para esconder metade dos convidados.
— Na entrada — ordenou. — Se puserem isso na mesa, ninguém vai conseguir conversar.
Pensou por um instante.
— Na mesa do Malfoy, talvez.
***
O vestido oliva-cinzento venceu depois de três tentativas e uma breve discussão com o espelho.
Marcava sua cintura sem restringir os movimentos, deixava os braços descobertos e assentava melhor do que o preto, embora o espelho insistisse no contrário. Eva decidiu que ele tinha uma predileção pouco saudável pela sobriedade.
Prendeu o cabelo num coque frouxo. Alguns fios ruivos escaparam junto às têmporas; ela os deixou ali. Delineou os olhos, passou um pouco de brilho nos lábios e recuou para se examinar.
Faltava alguma coisa.
Abriu a caixa de joias da mãe e encontrou as pérolas.
A gargantilha estava fria quando a colocou. Lembrava-se da mãe, Lowri, diante daquele mesmo espelho, levantando o cabelo para que o pai fechasse o colar. Às vezes ele demorava de propósito, só para fazê-la reclamar.
Eva passou o polegar sobre uma das pérolas.
Fechou a gargantilha sozinha e se afastou um passo do espelho.
Os primeiros convidados chegaram enquanto ela ainda colocava o segundo brinco.
***
Lucius Malfoy encontrou uma imperfeição no salão antes mesmo de aceitar uma bebida.
Olhou para a disposição das poltronas, para as portas abertas das salas adjacentes e, finalmente, para Eva.
— Uma escolha interessante.
— Também achei.
— Referia-me ao salão.
— Eu também.
Narcisa, ao lado do marido, baixou os olhos para a taça. Eva suspeitou de um sorriso, mas não conseguiu confirmá-lo.
Conhecia os Malfoy das visitas à família, embora Lucius quase sempre conversasse com seu pai e Narcisa raramente demorasse mais do que a cortesia exigia. Eva ainda não descobrira se ela achava graça do marido.
Naquela noite, pretendia lhe oferecer algumas oportunidades.
Ao longo das horas, a casa se encheu de vozes, perfumes e cumprimentos cuja cordialidade dependia de quem os ouvia. Homens que se tratavam como irmãos examinavam os lugares uns dos outros à mesa. Mulheres comentavam o tempo, as joias e ausências que pareciam importar muito mais do que qualquer presença.
Eva circulava entre eles com facilidade. Sabia quem precisava ser apresentado, quem preferia ser deixado em paz e quem exigia as duas coisas em intervalos de cinco minutos.
Os irmãos Carrow discutiram perto da lareira até descobrirem que estavam sendo observados. Alecto afastou-se primeiro. Amycus terminou a bebida como se isso encerrasse o assunto.
Nott pediu notícias de Damian.
Um homem cujo nome Eva não lembrava beijou sua mão por tempo demais.
Severus Snape recusou a bandeja de um elfo e continuou sentado junto a uma estante, com um copo praticamente intocado.
Adam conversava com ele. Ou tentava.
Eva aproximou-se a tempo de ouvir o fim de uma frase do irmão.
— …e disse que podia ser preparado em três horas.
— Pode — respondeu Snape.
— Então qual era o problema?
— Ele levou duas.
Eva riu antes de conseguir evitar.
Snape ergueu os olhos para ela.
De perto, parecia ainda menos interessado na festa.
— Está faltando alguma coisa? — perguntou Eva.
— Silêncio.
Adam levou o copo à boca.
— Receio que isso só amanhã — disse ela. — Posso oferecer outra bebida.
— Esta serve.
Eva olhou para o líquido que ele mal havia tocado.
— Que bom. Seria uma pena interromper uma relação tão duradoura.
Snape não sorriu, mas Adam quase engasgou. Eva seguiu adiante antes que o irmão decidisse se ofender em nome do convidado.
Quando o Mestre chegou, as conversas perderam volume sem que ninguém pedisse.
Eva o viu atravessar o salão e se deter junto de Damian Yaxley, seu pai. Alguns homens se aproximaram. Outros passaram a conversar mais baixo.
Ela endireitou os ombros e foi conferir as salas de jantar.
***
Pouco depois da meia-noite, um dos convidados começou a rir alto demais.
Eva o ouvira antes, contando alguma história a dois homens perto da lareira. Quando voltou ao salão, ele tinha uma nova plateia e outra taça.
Um elfo parou ao lado dela com uma garrafa vazia.
Eva reconheceu o rótulo.
— Quantas?
O elfo ergueu dois dedos.
Ela olhou para o homem.
— Claro.
A discussão começou com uma correção. Alguém contestou um detalhe da história, e o narrador, um bruxo largo de ombros chamado Vane, recebeu aquilo como uma acusação pessoal.
Eva não teria se interessado se as vozes não estivessem aumentando.
— …porque você chegou depois — disse o outro homem.
— Eu estava lá.
— Então deve ter fechado os olhos.
Uma risada veio do pequeno grupo. Vane ficou vermelho.
Eva entregou a garrafa ao elfo e se aproximou.
— Senhores. Se pretendem discutir quem chegou primeiro, posso pedir as listas de presença.
O homem que fizera a correção sorriu.
Vane não.
— Vá cuidar das bebidas, menina.
Eva sustentou o sorriso.
— É justamente o que estou fazendo.
Ao redor deles, duas pessoas se afastaram um pouco.
Vane deu um passo em direção ao outro homem. Eva percebeu a mão dele descer até a lateral das vestes.
— Não vale a pena — disse ela, mais baixo.
— Saia da frente.
Ele nem olhava mais para ela.
O outro bruxo deixou a taça sobre uma mesa.
Eva tirou a varinha da dobra de seu vestido.
A ponta da varinha de Vane já aparecia quando Eva ergueu a sua.
— Imperio.
O braço dele parou.
Por um instante, Eva sentiu uma resistência brusca, confusa. Firmou o pulso.
Baixe a varinha.
Vane obedeceu.
Entregue-a.
A mão dele se abriu diante dela. Eva pegou a varinha e sentiu a própria respiração retornar ao ritmo normal.
O silêncio se espalhara pelo salão.
— Adam — chamou.
O irmão estava a poucos passos. Olhou para a varinha na mão dela antes de se aproximar.
— A sala de visitas. Água e café.
Eva tornou a atenção para Vane.
— Acompanhe meu irmão.
Ele se virou com a docilidade de alguém que acabara de concordar com uma sugestão razoável. Adam abriu caminho, embora seu olhar, antes de sair, prometesse uma conversa posterior.
Quando os dois atravessaram a porta, Eva desfez o feitiço.
O homem que permanecera junto à lareira olhou para ela.
— Eu tinha a situação sob controle.
Eva baixou os olhos para a taça que ele abandonara.
— Então pode recolher seu copo.
Um pequeno movimento atrás dele chamou sua atenção.
O Mestre estava perto da entrada do escritório.
Assistira.
Eva sentiu o calor subir pelo pescoço. Guardou a própria varinha, ainda segurando a de Vane.
Seu pai se aproximou primeiro.
— Eva.
O tom dele fez o estômago dela apertar.
Damian olhou para a porta por onde Adam saíra.
— Poderia tê-lo desarmado.
— Ele poderia ter tentado de novo.
— É meu convidado.
Eva abriu a boca, mas uma voz a interrompeu.
— E foi convidado para atacar alguém na sua casa, Damian?
Seu pai se voltou.
— Naturalmente que não, meu Lorde.
O Mestre olhou para Eva.
De perto, a palidez do rosto fazia a luz dos lustres parecer ainda mais amarela. Ela manteve os olhos nos dele, embora quisesse olhar para o pai.
— Ele resistiu?
— Um pouco, meu Lorde.
— E você?
Eva apertou os dedos em torno da varinha alheia.
— Eu queria que ele baixasse a varinha.
Houve uma pausa.
— E ele baixou.
Ela não soube se aquilo exigia resposta.
O Mestre estendeu a mão.
Eva entregou-lhe a varinha de Vane. Ele a examinou brevemente e passou-a a Damian.
— Devolva quando seu convidado estiver em condições de usá-la.
— Sim, meu Lorde.
— Uma intervenção precisa — acrescentou, voltando os olhos para Eva. — Damian não mencionou suas habilidades.
— Minha filha cuidou de toda a recepção — disse o pai.
— Eu percebi.
O Mestre se afastou em direção ao escritório. A conversa ao redor deles recomeçou aos poucos.
Eva só soltou o ar quando ele já não podia ouvi-la.
Damian ficou olhando para a varinha que recebera.
— Não faça disso um hábito.
Ela assentiu.
Do outro lado do salão, Lucius Malfoy ergueu ligeiramente a taça para ela.
Eva não respondeu ao gesto.
Estava ocupada tentando esconder o sorriso.
***
Às três da madrugada, havia menos convidados, mais copos e uma discussão numa das salas de jantar que ninguém parecia disposto a abandonar.
Dessa vez, sobre um assunto que não parecia exigir varinhas.
Eva bocejou atrás da mão.
Adam a viu e ergueu as sobrancelhas.
Ela atravessou o salão.
— Por favor, continuem à vontade. Meu irmão permanece à disposição para tudo o que ainda precisarem.
— Tudo? — perguntou alguém.
— Dentro das capacidades dele. Convém não esperar demais.
As risadas foram suficientes para encobrir a resposta de Adam.
Eva foi ao escritório, onde o Mestre se recolhera com alguns dos homens, e pediu licença para se retirar. Recebeu um gesto breve de consentimento.
Só começou a subir a escada depois de conferir que nenhum elfo estava levando comida para o salão errado.
No patamar, uma das janelas dava para os jardins.
Havia alguém lá fora.
Eva parou.
A figura estava próxima à balaustrada, imóvel sob a luz que escapava da casa. Não parecia um empregado. Tampouco alguém que tivesse saído para buscar alguma coisa.
Olhou para o vidro frio, depois para o relógio no corredor.
No inverno. Àquela hora.
Foi ao quarto, pegou a varinha e vestiu o primeiro casaco que encontrou.
Desceu pela escada dos criados.
***
O frio alcançou seus tornozelos assim que ela saiu.
Eva fechou o casaco e atravessou o trecho de pedra que levava ao jardim. O chão úmido exigia mais atenção do que seus sapatos permitiam, e ela já estava preparando uma observação sobre a estupidez de passear naquelas condições quando a mulher se virou.
A frase desapareceu.
Era Bellatrix Black.
Eva a vira de passagem no salão, perto de Narcisa, sem conseguir se aproximar. Conhecia o nome e ouvira comentários suficientes para ter curiosidade, mas nunca haviam sido apresentadas.
Agora, a poucos passos dela, esqueceu por um instante tudo o que ouvira.
O vestido era de cetim branco, ajustado ao corpo, com alças finas e renda nas costas. Os cabelos negros estavam presos de maneira displicente, mas alguns cachos haviam escapado e se moviam com o vento. Uma gargantilha de prata repousava sobre a pele, os diamantes escuros absorvendo quase toda a luz.
Eva reparou na boca, depois nos olhos.
Bellatrix a observava havia tempo suficiente para ter percebido as duas coisas.
— Achou alguma coisa interessante, garotinha?
A voz saiu baixa.
Eva apertou a varinha dentro do bolso.
— Talvez.
Bellatrix olhou para o movimento.
— Pretende me enfeitiçar também?
Eva tirou a mão vazia.
— Ainda não decidi se vai ser necessário.
Estendeu-a.
— Eva Yaxley.
A outra não se moveu.
— Eu sei quem você é.
Eva recolheu a mão.
— Então já estamos apresentadas. Você me poupou metade do trabalho.
Um canto da boca de Bellatrix se alterou.
Era pouco. Eva decidiu aceitar.
Aproximou-se da balaustrada, mantendo alguma distância. Dali, as janelas faziam da casa um conjunto de retângulos iluminados. As vozes chegavam abafadas, interrompidas pelo vento.
— Este lugar é mais agradável quando não está congelado — disse Eva.
— Gosto do frio.
Eva esfregou as mãos.
— Vou pedir que preservem um pedaço para a sua próxima visita.
Bellatrix voltou o rosto para o jardim. Eva acompanhou seu olhar, tentando encontrar algo além dos arbustos escuros.
Não encontrou.
— Seu pai não pareceu satisfeito — disse Bellatrix.
Eva olhou para ela.
— Ele teria gostado menos de limpar sangue da porcelana.
— E foi nisso que pensou?
Eva demorou um instante.
— Pensei que ele devia parar quando eu pedi.
Bellatrix voltou os olhos para ela.
Eva desejou ter preparado uma resposta melhor.
— Parou — disse Bellatrix.
— Depois de alguma insistência.
— Você desfez o feitiço cedo.
Eva franziu a testa.
— Meu irmão estava com ele.
— Foi o que eu disse.
Eva soltou uma risada antes de perceber que Bellatrix não sorria.
— Adam sobreviveu.
— Uma noite bem-sucedida, então.
— Até agora.
Bellatrix a examinou por um momento.
— Não deveria estar na cama? Seu pai sabe que está aqui?
— Meu pai confiou em mim para organizar uma recepção para os convidados que ainda estão bebendo lá dentro. Imagino que me permita atravessar o jardim.
— Organizar uma festa não é a mesma coisa que saber escolher companhia.
— Nesse caso, talvez devesse ter examinado a lista.
Dessa vez, Bellatrix sorriu.
Eva sentiu o efeito daquele sorriso com uma intensidade irritante.
— Você fala demais.
— Disseram isso antes de você.
— E não aprendeu nada?
— Aprendi a variar os assuntos.
Um ruído de passos veio da casa. As duas olharam para a porta, mas era apenas um elfo recolhendo uma taça esquecida junto à entrada. Ele a pegou e desapareceu sem se aproximar.
Quando Eva voltou a atenção para Bellatrix, encontrou-a olhando para as pérolas.
Levou os dedos à gargantilha.
— Eram da minha mãe.
— Eram?
— Ficaram comigo quando ela morreu.
Bellatrix olhou outra vez para o colar.
Eva abaixou a mão. Não queria passar o resto da conversa recebendo condolências.
— Os diamantes também vieram da sua família?
— Está fazendo um inventário?
— Tentando variar os assuntos. Você reclamou.
A risada de Bellatrix foi curta e inesperada.
Eva sorriu também, satisfeita demais para disfarçar.
Bellatrix percebeu. A expressão dela se fechou um pouco, como se tivesse concedido mais do que pretendia.
— Agora volte para dentro.
— Você costuma dar ordens nas casas dos outros, Bellatrix Black?
Ela se afastou da balaustrada.
— Black por enquanto. Em breve, Lestrange.
O sorriso de Eva diminuiu antes que ela pudesse corrigi-lo.
Bellatrix viu.
Naturalmente.
— Meus parabéns — disse Eva.
— Que entusiasmo.
— Rodolphus Lestrange?
— Foi o nome que os pais dele escolheram.
Eva baixou os olhos por um instante. Uma pequena pedra soltara-se do caminho e estava junto à ponta de seu sapato. Empurrou-a de volta com cuidado.
Quando ergueu o rosto, Bellatrix ainda a observava.
— Você é bastante mal-educada.
— E você ainda está aqui.
Eva sorriu.
— Estou.
O vento levantou um dos cachos junto ao rosto de Bellatrix. Ela o afastou com uma mão. O anel tinha a mesma pedra escura da gargantilha.
Eva pensou no casamento.
Em Rodolphus.
Na maneira como Bellatrix dissera o sobrenome futuro, sem hesitação e sem alegria perceptível. Não sabia o que aquilo significava. Queria saber.
— Você o ama?
A pergunta ficou entre elas.
Pela primeira vez, Bellatrix não respondeu de imediato.
Eva sentiu uma satisfação breve, logo atravessada pela consciência de que tinha ido longe demais.
Os olhos negros se estreitaram.
— Isso não lhe diz respeito.
Ela poderia ter pedido desculpas.
Pensou nisso.
— Ainda assim, eu quis perguntar.
Bellatrix se aproximou um passo.
Eva permaneceu onde estava, embora a distância agora exigisse que levantasse um pouco o rosto.
— Está acostumada a receber resposta para tudo, Eva Yaxley?
Ouvir o próprio nome naquela voz foi pior do que ouvir “garotinha”.
— Não — respondeu. — Só a insistir.
Bellatrix a examinou por mais um momento.
Então passou por ela.
Eva acompanhou o movimento, mas não tentou impedi-la.
Perto da porta, Bellatrix parou.
— Vai ficar aí congelando?
Eva olhou para as próprias mãos, avermelhadas pelo frio.
— Gosto do frio.
Bellatrix soltou uma risada baixa.
— Mentirosa.
Entrou antes que Eva encontrasse uma resposta.
***
Adam estava no corredor quando a irmã voltou.
Olhou para o casaco, para os sapatos e para o rosto dela.
— Onde você estava?
— No jardim.
— Faz um frio desgraçado.
— Percebi.
Ele se afastou da parede.
— Malfoy quer saber se pode levar duas garrafas.
Eva parou.
— Do vinho?
— Do vinho.
— Depois desta noite?
— Disse que a safra é extraordinária.
— A safra aconteceu numa terça-feira de junho.
Adam sorriu.
— Posso dizer que você autorizou?
— Pode dizer que acabou.
— Ele viu as garrafas.
— Você também pode levá-lo para a sala de visitas. Já sabe o caminho.
— Prefiro que não me entregue mais nenhum convidado enfeitiçado.
Eva tirou o casaco, agora que o calor da casa começava a alcançá-la.
— Vane ficou muito zangado?
— Perguntou por que eu estava oferecendo café.
— E você?
— Disse que era de oitenta anos.
Ela riu.
Adam abriu espaço para que passasse.
— Vai dormir. Eu cuido do Malfoy.
Eva subiu a escada enquanto o irmão voltava ao salão.
No quarto, retirou as pérolas e as deixou sobre a penteadeira. Desprendeu o cabelo, tirou os sapatos e se sentou à beira da cama.
Pensou no instante em que a varinha de Vane parara.
No olhar do Mestre.
Depois, na mão recusada.
Na risada de Bellatrix.
Na pergunta que ela não respondera.
Não havia motivo para estar tão satisfeita com aquela conversa. A mulher a chamara de garotinha, mandara-a embora e anunciara que se casaria com outra pessoa.
Eva deitou-se e continuou sorrindo.
— Você não me escapa, Bellatrix Black — murmurou.
Ficou olhando para o teto.
Depois virou o rosto para a porta, como se alguém pudesse ter ouvido, e riu sozinha.

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