Wild Monsters
1 Prólogo

— É clichê, eu sei, mas sabe, o que você esperava?
A garota acariciava a cabeça do lagarto que repousava em sua perna. Se no ano anterior contassem para ela que ela se associaria ao programa de pesquisa ela riria na cara da pessoa e o chamaria de maluco. Fazia já duas semanas que ela estava “na estrada” e finalmente ela havia encontrado seus “companheiros designados”. E eles não eram lá grandes coisas em sua visão.
Enzo não parecia ter muito o que falar sobre o assunto, sua expressão transpassava algo entre descaso e pesar, como quando alguém fala da fome das crianças em continentes mais pobres. Algo distante demais para que ele se identificasse, mas sério o suficiente para afeta-lo. Miguel, no entanto, deu um suspiro pesado e bagunçou os cabelos da garota, ainda que a garota ainda não o considerasse íntimo, ela aceitou o conforto.
— Vamos dormir. Está escuro e precisamos voltar para a estrada amanhã.
Jackie nunca antes havia contado sua história daquela maneira para estranhos, seus olhos encaravam em transe o fogo na ponta do rabo de sua salamandra. “Parece até a história de um estranho. ”
—x-
Sua jornada havia tido um início forçado. Ela havia voltado para a casa da escola para uma visão conturbada de sirenes de polícia na frente de casa, e muito barulho, deixou a mochila cair no chão e saiu correndo para dentro, desviando dos adultos que tentavam para-la.
Parte das paredes, vigas e teto jaziam no chão, fogo por toda parte, fumaça por toda parte, ela não conseguia respirar, e ouvia aquele barulho que não devia estar lá, um choro de criança, completamente agoniado dentro de sua casa.
Procurando a origem encontrou uma fumaça arroxeada flutuando sobre onde deveria haver a sala, a fumaça possuía o rosto de uma criança chorando e um colar vermelho pesado que começou a reluzir ao quando ela foi avistada. Jaqueline não conseguiu retirar seus olhos da criatura, até desmaiar.
Os bombeiros a retiraram de casa, ela foi cuidada por paramédicos, os bombeiros fizeram perguntas, os policiais fizeram perguntas, e os pesquisadores fizeram perguntas, e lhe deixaram um “Dexter” e uma caixa. Tudo isso quando ela ainda estava em choque, e então sua tia veio busca-la.
Uma semana de existência em choque, se sentava a mesa e mal comia, se deitava na cama e mal dormia, ia para a escola e apenas encarava seu material.
—Temos de fazer alguma coisa, eu não consigo alcança-la... – Ouvia seus tios conversando pela porta do quarto. Era um fardo e sabia disso, não existe um jeito certo de lidar com o luto de uma garota de 16 anos. Seus tios não sabiam lidar com ela, seus primos não sabiam lidar com ela, seus amigos não sabiam lidar. Ela estava assustando sua família.
Provavelmente foi um surto de impulsividade o que a fez abrir a caixa que os pesquisadores deixaram com ela, mas era sua única saída. Jamais consideraria suicídio, mas jamais aceitaria ser um fardo para aqueles que se importavam com ela.
O Projeto de Pesquisas Monstros e Capsulas aceitam treinadores a partir de 11 ano de idade, lhes dão condições de subsistência, emancipação, status, e um pequeno salário. Era sua escapatória perfeita.
Dentro da caixa haviam três pequenas capsulas, cada uma delas marcada com um símbolo sobre sua abertura. Uma folha, uma chama e uma gota. A folha estava apagada como se uma luz interna estivesse desligada. Talvez estivesse vazia, ponderou a garota deslizando a mão sobre as capsulas, por fim, apanhou a com a chama desenhada. E pressionou sua abertura.
Forte luz branca, a capsula pesou muito em sua mão para então ficar extremamente leve enquanto lagarto laranja se desenrolava no chão. E Jackie caia no chão se distanciando da criatura como podia. Ele se levantou nas duas patas traseiras e ergueu a cauda com uma chama flamejante na ponta. Talvez não fosse certo chama-lo de lagarto e sim de dinossauro, um dinossauro de meio metro, e rabo pegando fogo.
Completamente normal, com certeza, nada estranho no fato de um dos monstros estar em seu quarto olhando de maneira curiosa e ter saído de uma bolinha de menos de 15 centímetros, Dexter começou a apitar e brilhar em cima de sua cabeceira e a garota prontamente o apanhou quase que como um escudo. Já havia ouvido falar da tecnologia assustadora usada pelo Projeto de Pesquisas, mas nunca havia testemunhado como funcionava por viver numa das cidades protegidas contra os monstros.
“Charmander, Pokémon lagarto de fogo. Até mesmo os recém-nascidos têm flamas nas caudas. Não familiarizados com o fogo, os bebês acidentalmente queimam-se.”
Dexter falou com sua voz computadorizada ao ser apontado para o pequeno dinossauro que agora mordiscava o tênis da garota que estava se familiarizando com sua presença. Jackie esticou receosa o braço em direção ao animal que aninhou sua cabeça contra sua mão pedindo carinho. Um suspiro de alivio escapou de seus lábios. A pele do lagarto era mais quente que o esperado. Poderia ser aconchegante abraça-lo, mas ela não estava se sentindo tão corajosa. E apesar da leitura, Dexter continuava a apitar.
Fuçando o aparelho encontrou um registro de si mesma com um termo de adesão para se tornar uma treinadora necessitando apenas de confirmação, uma vez que havia “selecionado um companheiro”. Concordou e continuou mexendo no aparelho, encontrando um GPS onde brilhava um pontinho em sua localização e um outro a algumas cidades de distância.
—Gcharr. – A criatura guinchou, ou algo próximo disso retirando a garota de seu transe e colocando em ação. Jackie apanhou a capsula com a pequena chama desenhada e apontou para o monstro. O convocando a retornar. Prontamente o processo da luz se repetiu de maneira reversa. Um raio deixou a capsula e atingiu a criatura que brilhou e desapareceu.
—x-
“Monstros, monstros caralho, e eu estou fazendo carinho em um nesse mesmo instante. ” Ela chorava em silêncio. A companhia dele a reconfortava apesar de tudo. Ele não a julgava como os outros. Em algum momento daquela noite pegou no sono sem nem ao menos perceber.
Miguel e Enzo eram os treinadores que haviam desativado as luzes das outras capsulas que acompanhavam a sua dentro da caixa que haviam recebido e por isso eram um time designado. Uma estratégia aplicada pelo Projeto de Pesquisa para que eles não fossem devorados vivos em sua jornada. Embora os boatos de treinadores desaparecidos, mutilados e mortos não houvesse diminuído nem com a aplicação da estratégia de times. Teoricamente um contrabalancearia a fraqueza do outro, e eles deveriam proteger um ao outro.
Enzo havia sido o primeiro do time a partir em jornada, mesmos sendo o mais novo. Ele havia escolhido o Bulbassauro, outra criatura que se assemelhava a um dinossauro, embora também lembrasse a Jaqueline um pé de alface ou algo assim. Havia uma grande planta nas costas da criatura verde que acompanhava o garoto de 14 anos, que segundo o que havia compartilhado, havia saído de casa para explorar o mundo. O que Miguel e Jackie prontamente interpretaram como “fugido de casa”.
Já Miguel havia sido o último a se unir ao time, tanto que quase não havia o feito. Ele não possuía motivos para siar de casa. Pelo contrário, ele se uniu a aventura por conta de sua casa. Como um soldado que vai para guerra para enviar o dinheiro para sua família. Era exatamente isso que o rapaz disse que estava fazendo. Contou que sua Mãe era solteira e que possuía 3 irmãos caçulas sem ter muito dinheiro e que esta era sua oportunidade de contribuir. Ele não havia escolhido o seu companheiro monstruoso, mas sim ficado com o que sobrará, mas não parecia se incomodar minimamente com esse fato.
Assim como Jaqueline, Miguel acreditava que aquele monstro que os acompanhava era uma necessidade e não um benefício. Sabia que eles seriam apenas um escudo contra os selvagens. E diferente dos outros garotos que estavam rumando para a cidade, ele havia feito o caminho contrário para encontra-los. Estava levando eles para sua cidade natal, porque lá eles poderiam comprar os materiais que precisariam para o trabalho. Como mais capsulas, chamadas pokébolas. Para armazenar os monstros.
Notas finais
"uma fumaça arroxeada flutuando sobre onde deveria haver a sala, a fumaça possuía o rosto de uma criança chorando e um colar vermelho pesado que começou a reluzir"
Fale com o autor