Wicked Game
9 Fight for You
Notas iniciais

"I know you know it, you know it
But you can't choose who's inside
But if you just show it, let me know it
Then I'll fight for you tonight
I'll fight for you
I'll fight for you tonight."
[Tobias]
"Beatrice Prior é cercada por paparazzis enquanto fazia compras em Shopping em Nova York."
A atriz Beatrice Prior (ganhadora do Oscar pelo filme Carmim de 2013) de 22 anos foi flagrada nessa sexta (10) fazendo compras em um shopping de Nova York. Beatrice tentou se disfarçar, mas logo foi reconhecida e cercada por fotógrafos e fãs alucinados. Em questão de minutos o local tornou-se palco de uma grande baderna e o pessoal só se dispersou quando a polícia foi chamada (...) A atriz teve que sair escoltada do local."
Mira terminou de ler a notícia em um site de fofoca qualquer. Ela me olhou por algum tempo, um silêncio pesado caindo sobre nós. Até o ar parecia áspero.
— Você vai voltar?
Ela perguntou por fim, quebrando o silêncio que até então, me parecia bem cômodo. Sentou-se ao meu lado e apoiou sua mão sobre minha coxa, suavemente. Mira era o mais próximo que eu tinha de uma família naquele mundo, era minha amiga, companheira e tinha um jeito todo maternal de cuidar de mim.
— Ainda tem dúvida?
Minha pergunta foi retórica, mas ela ainda sim a respondeu.
— Não. Não tenho. Vou comprar as passagens.
Pegou o celular na bolsa e foi até a varanda fazer a ligação. Agradeci internamente pelo momento de solidão. De verdade. Estiquei-me sobre a cama e fechei os olhos.
"Ela foi atacada. Jogaram pedras nas nossas janelas e a atacaram no shopping. Ela não deveria estar enfrentando tudo isso sozinha, Tobias. Não deveria...”.
As palavras da senhora Prior se repetiam na minha cabeça como um refrão de uma música muito pegajosa.
Senti a raiva crescer em meu interior, apertando meu peito, eu só conseguia pensar no quanto eu sou estava sendo egoísta e fraco. Deixando-a passar por tudo aquilo sozinha, eu era o único culpado, eu deveria estar sofrendo, não ela. Ainda me lembro das palavras do taxista na noite da festa. Ela estava drogada, fora de si. Eu era um monstro mesmo, aproveitador e baixo. Eu deveria ser apedrejado. Beatrice estava furiosa e tinha bons motivos para não me querer como pai do seu filho ou como homem, suas palavras no hospital pareciam menos loucas agora, ela tinha toda razão.
E eu precisei que uma garota desconhecida me dissesse isso. Meu ego era tão grande que precisei ouvir a verdade crua e dura de uma estranha para perceber isso.
— O voo sai amanhã, às oito.
A voz de Mira tirou-me do meu transe, ela veio até mim e sentou-se na ponta da cama, eu permaneci deitado, não queria encarar seus olhos. Não queria ver a acusação vindo dela também.
— Mandarei servir seu jantar às nove. Tudo bem?
Assenti minimamente com a cabeça e fiquei em silêncio.
— Tente dormir um pouco. Será uma longa viagem.
Falou antes de se levantar.
— Muito obrigado, Mira. Não sei o que seria de mim sem você.
Levantei-me depressa e segurei sua mão em um gesto de gratidão quase desesperado. Mira era tudo que eu tinha naquele lugar, nem mesmo minha família poderia me ajudar. Só ela.
— Seria um homem morto. ─ Afirmou.
Ela riu e apertou minha mão com tranquilidade. Saindo em seguida, me deixando um beijo e uma boa noite muito solene.
Mira parecia ter envelhecido uns vinte anos nos últimos meses. Tinha olheiras fundas e um ar de cansaço pertinente. Isso também era minha culpa.
*** ***
Cheguei ao aeroporto trinta minutos antes do voo sair, Mira estava aflita e quase teve um ataque quando eu fui reconhecido por algumas pessoas. Talvez ela estivesse esperando para mim a mesma reação que tiveram com a Tris. Não poderia estar mais enganada, fui abordado por duas garotas, adolescentes e apesar de muito eufóricas, comportaram-se muito bem. Houve também um casal de namorados, fãs de Anjos da Noite, e uma senhora já de idade que disse que eu e "a garota grávida" éramos a vida da sua neta e pediu um autógrafo para a garota. Depois disso não fomos mais perturbados.
Eu e Mira nos sentamos num canto discreto na sala de embarque e esperamos por dez minutos longos e silenciosos até que a voz mecânica da locutora nos avisou que meu voo estava partindo.
— É a sua deixa.
Mira levantou-se e meu deu um longo abraço apertado.
— Nos vemos em três dias. Vê se não arruma nenhum problema, sim? Me liga quando chegar e não se esqueça de...
Interrompi sua fala com um novo abraço, desta vez mais apertado e cheio de significado. Eu a amava, minha querida Mira.
— Obrigada, Mira. Eu ficarei bem. Cuide-se também. — Falei sem soltá-la.
— São duas semanas. Tente ficar vivo sem mim. Agora vai. Anda logo.
Ela iria para Atlanta, resolver, junto com Bill, meu advogado, as questões da quebra de contrato e mais um monte de burocracia estúpida das quais eu não queria saber. Eu iria para Nova York, encontrar Tris.
*** ***
No momento que passei pelos policiais, me senti um pouco mais leve. Eu estava indo ver Tris, finalmente assumir uma responsabilidade que deveria ter tomado a frente desde o início e, aquela era uma sensação boa.
Cumprimentei a aeromoça, e ela me indicou com um sorriso minha poltrona. Atravessei o pequeno corredor de carpete vermelho, ocupando a cadeira da janela. Seria uma viagem curta, assim eu esperava.
Fechei os olhos por um momento, ouvindo as pessoas adentrarem quando alguém sentara ao meu lado e eu quase gemi quando ouvi o clique de uma câmera de celular.
— Meu Deus, Tobias Eaton! — A garota disse animada e eu me forcei a abrir os olhos. Ela era meio gordinha, de rosto sardento e cabelos loiros.
— É... Hum... Sou eu. — Sorri forçado.
— Eu não acredito, que coincidência! — Ela riu.
Mantive o sorriso meio forçado, tentando ser o mais simpático que meu humor me permitia naquele momento. Merda, Deus, você não existe, mas está me punindo?
— Então... Que rolo né? Você e aquela atriz lá.
A garota comentou como quem não queria nada e eu já perdi um pouco do meu mínimo bom humor pelo jeito com que se referiu a Tris. Apenas acenei esperando que ela se tocasse e cala-se a boca. Ato falho.
— Não tô querendo ser machista, mas ela é muito burra por não ter usado proteção. Ou muito inteligente por ter conseguido se promover com esse golpe velho.
Golpe? Que ótimo, eu realmente merecia isso. Esse devia ser o desgraçado do tal carma cósmico que Tris tentou me falar outro dia. E eu não quis ouvir. Isso universo! Pode se vingar, é justo.
— Sabe, o bebê não foi feito apenas por ela.
Comentei tentando não demonstrar todo o nojo que sentia pela garota ao meu lado. Ela poderia me processar ou algo assim.
— Sim, eu sei, mas...
— Mas nada. Escuta aqui, senhorita. Eu não estou disposto a deixar que você e toda essa sua pretensão fajuta, venham me encher desses seus conceitos machistas atrasados, chamar minha amiga de golpista porque simplesmente ela transou e saiu do estereótipo de atriz teen boazinha ou qualquer coisa mais estúpida que esteja passando por sua cabeça. Qual o seu problema, senhorita? E qual o problema da Beatrice estar grávida? E qual o problema de dizer o nome dela?! Tem medo de que engravide também?
A garota ficou estática ao meu lado, um tanto desconcertada e por um momento achei que tivesse sido rude até demais. Isso até ela abrir a boca novamente.
— Beatrice é uma puta que ganhou na loteria ao abrir as pernas pra você e, você é um otário por ter caído nessa. Babaca.
Ela dissera cinicamente.
— Tomara que sua carreira afunde de vez.
— Tomara mesmo, assim vou poder criar minha família longe de parasitas feito você. Agora, se puder me dar licença, eu não sou obrigado a dividir o ar com você. — Falei, levantando-me.
Eu me afastei até achar a aeromoça.
— Por favor...
Pedi, tocando o ombro da mulher.
Ela arregalou de leve os olhos. Merda, mais uma...
— Ahm... Está tudo bem, senhor?
Disse, tentando manter o ar profissional.
— A mulher na poltrona ao meu lado não consegue manter a boca fechada, ela me ofendeu, senhorita.
Comentei e a aeromoça assentiu de leve.
— Vo... O senhor quer trocar de lugar? Temos umas poltronas vazias na cauda do avião.
— Eu gostaria, sim. Obrigado.
Ela sorriu levemente.
— Tudo bem, é só me seguir senhor Eaton.
A moça dissera simpática, ajeitando os cabelos muito negros no coque apertado em sua cabeça.
Eu suspirei, seguindo-a até a poltrona vazia no fundo do avião que estava colocada perto do corredorzinho, já que a da janela estava ocupada por um senhor de idade que dormia profundamente.
— Quer beber alguma coisa, senhor?
A aeromoça perguntou assim que consegui me acomodar, suspirando aliviado.
— Não, obrigado.
Agradeci e dei um meio sorriso. Ela se afastou rapidamente, eu agradeci por isso também.
Fechei os olhos, sentindo-me um pouco mais tranquilo. Logo chegaria a Nova York.
*** ***
Minha chegada fora breve e como se fosse uma pessoa comum, eu passei por todos os homens e mulheres apressados sem ser notado, isso até eu colocar o pé para fora do aeroporto e ser bombardeado por alguns paparazzis e seus flashes insistentes.
— Tobias, olha pra cá! — Berrou uma mulher.
— Olha pra cá! Tá com medo agora que comeu a santinha do pau oco?
Aquilo fora o suficiente para que meu dedo médio fosse colocado em riste para todos aqueles paparazzis. Malditos abutres.
Por sorte, um táxi parou logo que dei sinal, o que me possibilitou uma fuga daqueles paparazzis antes que começasse a soltar todos os palavrões que conhecia e ameaçar quebrar a cara e a câmera de alguém.
Fechei os olhos por alguns momentos, ouvindo meu celular tocar e torci os lábios ao ver de quem era o número.
— Jeanine.
— Tobias, que prazer em saber que você já chegou causando polêmicas! Brigando dentro do avião...
— Ossos do ofício. — Comentei sarcástico e pude ouvi-la suspirar ruidosamente. — O que você quer?
— Existem muitas coisas que eu quero, e uma delas seria forçar a senhorita Prior a abortar aquele feto, mas infelizmente isso é impossível no momento. O que eu quero é que venha me encontrar porque precisamos conversar.
— Não vai acontecer Jeanine. Estou aqui pela Tris e até onde eu me lembro, você foi afastada desse assunto... Tris ameaçou te processar por perseguição, não foi?
— Beatrice é uma cretina presunçosa e dissimulada. Além de mal agradecida... Eu fiz tudo para ajudá-la e ela me agradece assim... Eu acho...
— Jeanine!
Interrompi sua ladainha irritante com um quase grito. Ela ficou em silêncio.
— Sabe o que eu acho? Que sua implicância é de cunho pessoal. Você não suporta imaginar que, depois de tanto ter flertado comigo, me mostrado seu decote, lambido os lábios, se maquiado inteira, tentado me beijar na sala de reuniões da Lionsgate, eu tenha escolhido a Tris. E sabe, foi o melhor sexo da minha vida, Jeanine. Pena você não entender isso.
A linha ficou muda por um momento apesar de ser possível ouvir a respiração dela, o que me fez rir com gosto.
— Pois é... Mundo estranho, não? Tenha um bom dia! — Falei com um sorriso, desligando o telefone.
*** ***
O único lugar que eu iria era para a casa de Tris, mesmo que soubesse que a mesma estava rodeada de paparazzis, eu atropelaria todos se impedissem meu caminho.
Levei meia hora para encontrar a casa da mãe de Beatrice que ficava num bairro rico de Nova York, e como eu esperava, os abutres estavam lá. Paguei o taxista e segui com passos rápidos até o portão, sentindo os flashes em minhas costas e os berros de "vire-se" que eu tratei de ignorar até a mãe de Tris atender o interfone e dois seguranças vir para impedir que os fotógrafos entrassem. Beatrice, a pessoa mais livre que já conheci, deveria está sofrendo muito com todo esse cerco.
Eu suspirei, seguindo os dois homens para dentro da residência, imaginando o que teria nos jornais e revistas amanhã envolvendo tanto minhas brigas com os fotógrafos quanto com aquela garota do avião. Parabéns, Tobias! Ao invés de ajudar, atrapalha tudo.
A mãe de Beatrice sorriu fraco ao me ver, abraçando-me de maneira maternal antes de suspirar.
— Ela está lá em cima, Tobias.
— Eu posso vê-la?
— Deve.
A senhora Prior riu pelo nariz, fazendo um gesto para que eu subisse as escadas.
Em minha mente, eu já tinha montado um pequeno discurso de desculpas que talvez ela me deixasse terminar. Talvez.
Dei duas batidas na porta e respirei fundo quando a ouvi se levantar da cama e a porta ser destrancada.
Tris parecia ainda menor, meio cansada e com olheiras, os cabelos não pareciam mais tão curtos e ela estava mais magra, apesar dos seios estarem maiores. Vestida em um pijama surrado, com estampa de florzinhas azuis, muito infantil. A barriga era menos que um suave curva acentuada. Estava bonitinha assim, apesar de tudo, bonitinha, de beleza suave e muito delicada.
— Tris, eu queria...
Ela pousou os dedos em meus lábios, puxando-me devagar para que pudesse juntar nossas bocas em um beijo ansioso e desejoso. Beijamos-nos por muito tempo, era suave e doce, sem pressa, apesar da necessidade. Toquei a cintura dela com cuidado. E apesar do ar estar faltando, não queria que o beijo acabasse. Queria morrer afogado nela.
— Não diz nada. Só me beija, Tobias. Esqueça-se de tudo.
Ela abraçou meu pescoço e me puxou para o quarto. Eu tive que me esticar para fechar a porta com ela ali, agarrada ao meu pescoço, beijando e mordendo.
— Faça amor comigo como se o mundo fosse acabar.
Ela pediu, ofegante pelo beijo urgente, parecia quase felina, me olhando com seus olhos verdes amendoados. Eu obedeci.
Fizemos amor pela noite inteira. Suave e carinhoso, cheio de carícias dedicadas e gemidos abafados para não perturbar os outros moradores. Foi tudo tão sublime que até os fogos de artifício tiveram uma luz mais leve, mais doce. Por uma noite, nada daquela peça trágica existia, era só uma sombra distante e turva que, por aquela noite, não podia nos assombrar.
Lutar Por Você — Pia Mia feat. Chance The Rapper.
"Eu sei que você sabe disso, você sabe disso.
Mas você não pode escolher quem está dentro.
Mas se você apenas mostrar isso, deixe-me saber disso.
Então lutarei por você esta noite
Eu lutarei por você...
Eu lutarei por você esta noite."
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