Wicked Game
14 Capítulo Bônus - Aquarius
Notas iniciais

And love will steal the stars
14 de Novembro de 2014
"Você pode até acreditar que já sentiu todas as maiores e mais poderosas sensações e todos os sentimentos humanos, sejam bons ou nem tanto. Mas você nunca poderá compreender a plenitude e magnificência de sentir seu bebê movendo-se em seu ventre, é grande, intenso e poderoso como se todo o universo e tudo que há nele existisse apenas para que você vivesse aquele momento. É assim que eu me sinto cada vez que meu bebê se move, a cada novo chute, novo empurrão, aquela pontada sob as costelas... Eu sinto como se tudo que eu sou, eu sou apenas para viver este momento."
Trecho do Discurso de Beatrice Prior, feito durante a inauguração do "Jovens mães solitárias".
[Beatrice]
(23 semanas antes)
A clínica Sta. Anne tinha uma sala de espera acolhedora apesar de tudo, paredes em tons delicados de ciano e rose, vasos de flores e pinturas de mulheres grávidas por toda parte, mesclando a frieza clínica do lugar com um ar um tanto artístico, meio pueril, mas não de todo ruim. Havia poucas pessoas na sala, mulheres grávidas e seus maridos, basicamente, havia uma aura de aconchego e ansiedade naquelas pessoas, assim como havia em mim, eu quis ficar por ali mesmo, mas não poderíamos, não no meio de todas aquelas pessoas completamente humanas e normais, é claro que não. Tínhamos que ficar numa saleta pálida e insossa que chegava a me causar náuseas, ao lado do consultório do médico que nos atenderia logo mais.
Eu queria mesmo sair dali o mais rápido que minhas pernas pudessem correr. Eu odiava hospitais, mais ainda quando estar em um não era minha vontade.
Eu tinha minha terapeuta particular, ela era ginecologista com toda essa baboseira de doutorado que Tobias exigira para que ela fosse a responsável por meu parto, ele até havia indo em algumas visitas comigo, mas não lhe pareceu do agrado que o "consultório" fosse em uma estufa envidraçada e cheia de plantas, ele quase teve uma síncope quando viu aquilo. Mas aos poucos ele aceitou.
Eu, minha mãe e Tobias estávamos vivendo em Nova York, numa belíssima mansão que Tobias comprara às escondidas de mim, era um lugar sofisticado e clássico, o que me deixava um tanto irritada, mas havia uma estufa e um Jardim amplo onde eu faria uma linda Horta orgânica. Tudo estava indo bem até a mãe dele despencar-se da Inglaterra até nossa casa, com o único e verdadeiro propósito de transformar meus planos de ter um parto humanizado, imerso em águas mornas e sob a lua, quase que uma missão impossível.
A mulher era uma histérica, chegou revirando toda a rotina da casa, encheu o ar com cheiro de chá e toda a pompa e circunstância que só os ingleses mais tradicionais tem, mais isso nem era o pior dela, o pior mesmo era o preconceito, Evelyn enchia a boca para dizer que bebês não são cogumelos para nascerem no meio da selva, bebês devem nascer na maternidade, com uma junta médica e blá blá blá, parei de ouvir na parte do "Meu neto não vai nascer em nenhuma comunidade hippie se é o que está pensando, Senhorita Prior."
— Meu bebê, "MEU" irá nascer onde eu quiser e bem entender, fui clara Senhora Eaton? — A mulher apenas resignou-se a torcer o nariz e me chamar de malcriada, partiu rumo à cozinha, murmurando algo que não pude entender. Essa fora apenas a primeira de muitas brigas que tivemos na última semana, a vontade que eu tinha era de socar a cara dela, aliás, eu tinha vontade de socar a cara de muita gente ultimamente.
— Senhorita Prior, o Doutor Howard vai vê-la agora. — Uma jovem de cabelos Channel surgiu à porta e sempre com um sorriso discreto, nos guiou até o consultório.
O consultório é uma sala larga, com paredes de um tom pastel de rosa, dividida por um biombo de fibra de vidro baço, de um lado a sala de consulta e do outro os equipamentos para exames. Eu me retraio ao ver as hastes e fios dos equipamentos, não quero estar ali. Me seguro no braço de Tobias.
— Tobias... Eu não quero.
— Tris... Por favor, sei que está sendo difícil, mas o Doutor Howard é um dos melhores médicos de toda a Europa, minha mãe teve um trabalho enorme para trazê-lo até aqui. Faça esse esforço por mim e pelo nosso bebê, sim?
— Eu não me importo, não quero isso e meu bebê está bem, não precisa disso aqui. — Esbravejei. — Não quero ninguém me cutucando, fazendo exames e mais exames como se eu fosse um maldito rato de laboratório!
— Tris... Um exame só. Para acalmar minha família e também, a mim. Eu quero ver meu bebê, Okay? Pare de agir como se vivêssemos na idade média. — Tobias fala num sussurro baixo, eu não tenho tempo de responder, pois logo o médico levanta-se da sua cadeira e vem nos cumprimentar.
— Senhorita Prior, Senhor Eaton. — O homem de meia idade me cumprimenta com um sorriso leve, fazendo o mesmo com Tobias logo em seguida.
— Sentem-se por favor.
O sotaque britânico carregado do médico me lembra de onde ele veio e para quem ele trabalha, a irritante e preconceituosa Sra. Eaton, eu podia ouvir todo aquele discurso estúpido, que ela repetira pela semana, ecoando pelos cantos da sala junto com a voz do doutor Howard.
— É a sua primeira consulta, Senhorita Prior? — o médico perguntou me tirando do meu devaneio. Era um homem de meia idade, calvo, mas com um rosto forte, anguloso. Seria muito bonito se eu não estivesse prestes a vomitar por sua causa.
— Não, eu já tenho uma médica que está acompanhando minha gravidez. — Respondi.
— Uma terapeuta holística na verdade... — Tobias acrescenta a minha resposta, como se quisesse me lembrar de que a Doutora Harper não era uma médica de verdade. Aquilo me irritou profundamente.
— Uma Doula, uma profissional altamente qualificada. — acrescento por fim, olhando para Tobias em desafio.
— Entendo. Aqui diz que a Senhorita sofreu duas ameaças de aborto espontâneo por tensão. Isso procede?
Tobias fica tenso com as perguntas, como se algo elétrico houvesse tocado sua pele, talvez seja culpa.
— Eu não diria que foram duas, o primeiro episódio foi uma queda de pressão apenas. Eu estava sob muita tensão e a gestação ainda era desconhecida. — afirmo tentando amenizar a tensão no ar. Tobias parece pior a cada segundo.
— Você teve um sangramento leve na segunda ocasião, certo? — O médico pergunta enquanto examina meus prontuários.
— Sim. O médico que me atendeu disse que minha gestação era delicada. — afirmo.
— E mesmo assim, a senhora prefere acompanhar sua gravidez com uma terapeuta holística ao invés de uma junta médica? Isso poderia ser considerado negligência, Senhorita Prior. — O doutor Howard tem uma cadência quase presunçosa na voz. Isso me põe em nervos, lembro-me da terrível Senhora Eaton repetindo este mesmo discurso pela casa, um milhão de vezes.
— Sabe Doutor Howard, eu vim até aqui por um pedido do Tobias, ele quer ver o bebê e também saber o sexo, do contrário, eu estaria bem longe desse lugarzinho sufocante. Então, faça o seu trabalho e pare de repetir a maldita ladainha da Senhora Eaton, que essa eu já decorei de trás para frente, sim? — Questiono retoricamente e um silêncio incômodo se instala, o médico não parece nenhum pouco desconcertado. Sorri e se levanta.
— Muito bem... A senhorita é quem sabe, senhorita Prior. Seu corpo, sua criança. — Ele afirma.
— Exatamente. — Eu assenti.
— Sigam-me, por favor, vou prepará-la para o ultrassom.
Ele se levanta e vai até o outro lado do biombo, entra por uma porta lateral e desaparece por alguns minutos, esperamos.
— Você realmente não facilita, não é Tris? — Tobias sussurrou em meu ouvido, não consegui distinguir se estava bravo ou divertido com tudo aquilo. Não me importava muito, quando toda essa palhaçada de médico acabasse ele iria ouvir, ah se ia.
O médico voltou acompanhado da sua assistente e nos guiou até a sala atrás do biombo, ali havia uma maca de couro sintético azul, uma poltrona logo ao lado e três monitores acima, disposto na parede. Havia mais uma vasta gama de aparelhos que não me interessavam muito, a assistente do médico me entregou a camisola hospitalar e me direcionou ao trocador. Quando voltei o Doutor explicava algo a Tobias sobre um dos monitores baixos.
— Está bem, Senhorita Prior, deite-se aqui e deixe que minha adorável assistente ajude-a a posicionar-se da melhor maneira.
A mulher de uns trinta anos tinha olhos dóceis e um sorriso tímido, me ajudou a deitar na maca e abriu minha camisola na região da barriga, expondo meu ventre já volumoso, perguntou se eu estava confortável. Respondi que sim, apesar de não estar.
— Muito bem... Vamos ver este bebê? — O médico pergunta com um sorriso e Tobias segura minha mão, parece ansioso e então, sua expressão apreensiva e fascinada me lembra que às vezes, os sacrifícios valem a pena por sua causa.
— Obrigado.
Ele sussurra em meu ouvido e beija minha mão com delicadeza. O médico aplica o gel sobre minha barriga e comprime o aparelho na base do meu ventre.
— Vamos lá...
O gel é gelado, mas aquela sensação tornava-se agradável a cada momento. Franzi de leve as sobrancelhas, observando com curiosidade os monitores.
As manchas escuras aos poucos vão tomando uma forma nítida e bem, um frio atravessa meu estômago quando de um dos monitores começa a soar um par de pulsos, um mais pesado que outro.
— Ouça o coração do seu bebê senhorita Prior...
This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
O doutor Howard gira um pequeno botão em um teclado ao seu lado e aos poucos um dos pulsos diminui seu volume, restando só o outro, uma batida forte, rápida e urgente. Não consigo conter as lágrimas.
— Vamos ver com quem se parece... Olhe para o terceiro monitor, por favor.
Eu dirijo meu olhar ao terceiro monitor da parede e aos poucos uma imagem vai se formando, em um tom de sépia, a imagem do bebê adquiri relevos e logo é uma forma em três dimensões, um rostinho redondo, uma boquinha pequena e olhinhos fechados, segura o lábio inferior sob o superior.
— Vê? Está fazendo charme.
Tobias sussurra em meu ouvido e eu sorrio entre as lágrimas.
— E está mesmo, senhorita Prior... Seu bebê é uma menina graciosa e gentil feito a mãe.
Tobias ri da piada, mas eu não consigo reagir a nada. Uma menina? Menina? Eu serei mãe de uma menina? Soluço alto, meu peito se enche de uma ternura morna e doce, se alastrando por meu corpo como se uma chama estivesse brotando em meu peito.
— Linda como você, meu amor. Tobias afirma e me beija, um beijo quase puro, inocente e grato, beijo-o, também com os mesmos sentimentos.
(Digital Daggers – Aquarius)
Primeiro verso
E o amor irá roubar as estrelas.
Segundo verso
É o alvorecer da era de aquário.
A Era de Aquário.
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