Wicked Game
7 Bittersweet Tragedy
Notas iniciais

"I'm done with your bittersweet, bittersweet tragedy.
It's no fun, when I'm sitting all alone.
You're right in front of me...”
***
Eu podia jurar que era seguida até quando estava em casa, trancada e sozinha. E até mesmo nas horas de maior silêncio eu podia ouvir o ruído do pânico através das paredes, enchendo meu corpo de um pavor fervente. Não há sensação pior no mundo e aquilo mais se parecia com um pesadelo do que uma vida propriamente dita. E, como de usual, a culpa era total e inteiramente minha. Culpada por transar "bêbada e sem proteção", por estar grávida. Por ser uma vadia. Era meu dever como mulher dizer não. Isso, entre outras coisas tão terrivelmente doentias, era o que eu tinha de ler e ouvir vindo de todas as partes. Todos queriam atirar sua pedra e eu, era sua Maria Madalena.
Nunca pensei que ouviria isso das pessoas, nunca pensei que elas me tratariam como se fosse à escória da sociedade pelo simples fato de que não seguia os padrões estabelecidos por eles, por mais avançada que fosse nossa sociedade, as pessoas ainda conseguiam ser antiquadas e mesquinhas. Cruéis de uma forma assustadora, como se aquele sentimento fosse matar tudo que existe e talvez essa seja a terrível verdade humana.
{Tris Prior para Ellen Degeneres, 22 de Setembro de 2014.}.
*** ***
{Tris}
Apressei o passo e mantive os óculos de sol colados em meu rosto e o lenço ao redor da cabeça, cobrindo meus cabelos, apesar de que aqueles fotógrafos pareciam saber que era eu independente do modo que tentava me esconder. E qual não foi minha surpresa quando escutei alguém gritar “É a Tris Prior!”. Fora como atear fogo em pólvora, instantaneamente eu não conseguia mais ver um único local aberto do shopping, pois o mesmo foi ficando cada vez menor e os corpos me cercavam terrivelmente.
Gritavam.
Tentavam puxar meu lenço, meu braço como se desejassem arrancar um pedaço de meu corpo. Era terrível. Eu senti o ar faltar e meu desespero se tornava mais evidente quando tentava encontrar uma brecha naquela multidão. Os flashes me cegavam, as folhas estendidas bloqueavam meu caminho, os rostos desapontados, excitados e as câmeras me sufocavam como um grande e vivo travesseiro. Os gritos invadiam meus ouvidos como um ranger metálico.
As perguntas. "Deixe-nos ver como está a sua barriga!" uma voz gritou e em seguida uma mão puxou minha blusa na região da barriga, quase rasgando o tecido, aquilo me atingiu como um poderoso choque e como se meu corpo não me pertencesse mais, eu desferi um soco contra o braço de quem quer que fosse.
"Meu Deus! Eu agredi alguém. Eu machuquei alguém... Eu só queria proteger meu bebê... Eu machuquei alguém.” Os pensamentos ferviam em minha mente, meus olhos se turvaram e por um segundo eu me vi desabando ali mesmo, sob aquela multidão. Mas havia algo maior dentro de mim, uma força visceral que me empurrava para longe da inconsciência e para mais perto de uma saída.
Uma brecha. O banheiro estava aberto.
Passei correndo, desculpando-me com as pessoas que eu atropelava em meu desespero, entrando no banheiro feminino e com uma força até então desconhecida, afastei as pessoas de mim sem dizer uma palavra, puxando a lata grande de lixo sobre a porta. Sabia que aquilo não iria segurá-los, mas... Por Deus, eu só queria comprar roupas!
─ Eu só queria... ─ Minha voz desaparece em meio ao choro. Encolhi-me quando ouvi vozes e a porta sendo empurrada, fazendo-me arfar antes de correr até o pequeno corredor dos banheiros, trancando-me no último Box. Mordi a carne do dedo indicador na tentativa de abafar um soluço, mas o medo e a ansiedade que antes não me incomodavam, vieram com força.
Meu corpo tremia e eu tentava desesperadamente me encolher naquele cubículo, desejando que ele me consumisse ou que fizesse as pessoas sumirem. E ali, eu chorei, abraçando meu ventre que ainda não dava sinais de gravidez, soluçando baixo porque não aguentava mais ter de sentir aqueles olhares de repulsa, ver os tabloides fantasiando sobre meu bebê.
Meu e de Tobias.
Por mais que ele tivesse se afastado por medo, ainda era o nosso bebê. Um pedaço dele unido eternamente a uma parte de mim. E por mais infantil que fosse, desejava que ele não sentisse medo, não tanto quanto eu. E que de alguma forma pudéssemos estar ali um para o outro, juntos, e não lidando com aquele medo cada um em um lugar do mundo. Queria que os sentimentos ruins não nos tivessem atingido. O medo, a culpa. O que quer que fosse... Queria que ele estivesse comigo. Conosco. Junto minhas mãos sobre meu estômago e peço a qualquer força superior que possa existir que proteja meu bebê.
Devagar, e ainda soluçando, tirei meu celular do bolso, ter o aparelho não me agradava muito, mas essa foi a única maneira da minha mãe me deixar sair. Apertei os números com cuidado até ver o nome de minha mãe, engolindo a vontade de chorar antes de levar o aparelho à orelha.
— Atende mãe... A-atende... — Murmurei com um nó na garganta, mas caíra na caixa postal. — Droga mãe! — Exclamei meio frustrada e meio raivosa.
Desliguei o celular, mantendo-o firme em minhas mãos trêmulas. Ainda podia ouvir os gritos do lado de fora, o que me fez me encolher ainda mais. Podia ouvi-los e até senti-los se não fizesse isso. Suas mãos ansiosas, seus gritos, as fotos e canetas que desesperadamente pediam para ser assinadas. Os flashes de câmeras...
Então me lembrava dos tabloides:
"Gestação inesperada ameaça pôr em crise as poderosas do cinema jovem."
"Segundo filme de franquia milionária é adiado devido a gravidez de protagonista."
"Bebê de UM bilhão de dólares: gravidez inesperada provoca prejuízo incalculável."
"Vazam fotos exclusivas de Tris Prior e Tobias Eaton em hospital após a confirmação da gravidez.”
"Carreira arruinada ou golpe de Marketing?"
"Tris Prior foi vista hoje indo a uma clínica de aborto."
E então, o público que assistia a tal espetáculo horrendo com sádico deleite expressou também a sua opinião sobre isso e essa foi a pior das coisas que tive que enfrentar desde que descobri a gravidez.
“Vadia, arruinou a carreira do Tobias”.
“Tomara que perca esse bebê e morra!”
“Puta.”
“Ordinária. Se fazia de boazinha, mas estragou com os filmes. Deveriam arrumar outra atriz e colocá-la no olho da rua.”
"Ainda pensou em matar o bebê! Devia ter pensado antes de abrir as pernas."
"Isso é marketing... Puta mercenária faz tudo por dinheiro."
Eu soluçava compulsivamente. Queria que tudo aquilo acabasse de uma vez, que eu pudesse ser uma jovem mulher comum que acabara grávida e pudesse decidir sem influências de mídia, fãs e expectativas sobre o que fazer da minha vida. Golpe? Era um bebê! Meu bebê... Eu o escolhi acima do dinheiro e eles ainda me chamavam de mercenária. Ah... Isso está tão errado.
Eu pulei de susto quando ouvi duas batidas leves na porta. Recusei-me a dizer o que quer que fosse, porque podia muito bem ser algum paparazzi maluco, mas... Não escutava nada além daqueles sons mais longes do lado de fora.
— Está tudo bem, já espantamos uma boa parte deles.
Era uma garota, e parecia sozinha, ou talvez quem quer que estivesse com ela, estava em silêncio absoluto.
Levantei-me bem devagar, destrancando a porta do box e voltei a minha posição encolhida contra a parede. Vi uma menina talvez um pouco mais nova do que eu, ruiva, olhando-me com preocupação verdadeira. Não do modo abismado que me olhavam ultimamente, mas... Como se eu fosse uma pessoa.
— Você quer beber água? — A ruiva indagou, fazendo um breve sinal para que alguém se aproximasse. Outra garota, de pele morena e olhos castanhos que trazia uma garrafinha de água em mãos. Assenti minimamente, sentando-me um pouco menos encolhida para que pudesse segurar a garrafa de água enquanto as duas garotas se sentavam no chão do lado de fora do Box.
— Você quer que liguemos para alguém? — A morena perguntou baixo.
Mordi os lábios, tirando o celular do bolso. — P-pra minha mãe... T-tem o número dela aí. — Falei, apesar de minha voz sair esganiçada e de dos soluços me fazerem gaguejar compulsivamente.
— Thay, liga lá, eu fico aqui com ela. — A ruiva sorriu fracamente.
A menina de nome Thay arregalou de leve os olhos, mas assentira, fuçando em meus contatos até encontrar o nome de minha mãe.
Abracei meus joelhos. — Como vocês...
— Colocamos todo mundo pra fora? — A ruiva comentou serenamente. — Bem, não fomos nós, mas... A polícia, às vezes, pode ser bem persuasiva. — Ela deu um meio sorriso.
Tentei sorrir, mas o repuxar em meus lábios provavelmente não convencia muito, o que me fez suspirar baixo. — Eu só... Queria comprar roupas novas.
— Não se preocupe com isso agora, tudo bem? O importante é você ficar bem. — A ruiva comentou baixo. — Me chamo Claire, falando nisso... Quando vimos a confusão aqui perto e ouvimos seu nome, nós chamamos a polícia e aproveitamos que todo mundo ficou bem ocupado para entrarmos.
Bebi um gole de água, respirando fundo.
— Obrigada...
— Não precisa agradecer.
— Claire... Er... Ahm... Fala aqui com ela que... Er... Oi, Senhora Prior! Er... Ahm...
A ruiva esticou a mão, apanhando meu celular.
— Senhora Prior? Olá, não se preocupe, isso não é um sequestro, ok? Tris está aqui, está assustada, mas não está ferida. Ela volta logo para casa, sim?
Não sei o que minha mãe respondeu, mas a garota se despediu educadamente e desligou a ligação. A outra garota me ajudou a ficar de pé, ela tinha um cuidado delicado e trêmulo. Sorria nervosa. Claire, para minha surpresa, começou a mexer no meu celular e depois de alguns clicks, o colocou no ouvido.
— O que você está fazendo? — Perguntei.
— Ligando para o Tobias.
Claire acenou para mim, pedindo que ficasse calma. A garota ao meu lado olhava-a horrorizada.
— Pro Tobias?! Não! — Protestei indignada. — Não, pra ele não! Não liga pra ele!
Claire fez beicinho. — Tobias? Opa, tudo bom? É... Sim, é do celular da Tris, ela está bem aqui na minha frente. Não se preocupe, ela está bem... Ah, você não se importa? Bem, então é melhor parar de pensar nisso. — Ela deu risada. — Eu não sou ninguém que você conheça, mas isso não importa. O que realmente importa é que por algum acaso do destino eu estou aqui e vou dizer pra você parar de ser uma criancinha medrosa e trazer seu traseiro pra Nova York. Por quê? Que tal o assédio que estão fazendo com a mãe do seu filho? Ou o fato dela estar lidando com tudo isso sozinha, até apedrejada ela foi, Tobias. Não, não se preocupe com isso porque também falarei com ela. Apareça logo de uma vez e assuma essa criança, ninguém está pedindo pra vocês casarem, mas esse bebê vai precisar dos pais, que são vocês então é mais que uma questão de gosto e não gosto.
Eu olhei nervosa para a garota ruiva, tentando imaginar o que raios Tobias tinha dito. Ela logo desligou o celular e me devolvera, respirando fundo por alguns momentos.
— Tris.
— Por que você ligou pra ele?! Não era pra fazer isso! — Esbravejei irritada. — Ele queria matar meu bebê e você o chamou?!
— Tris...
— ELE QUERIA QUE EU ABORTASSE, COMO A JEANINE, COMO A LIONSGATE, COMO TODO MUNDO!
Claire pousou as mãos em meus ombros, olhando-me com seriedade.
— Sim, a Lionsgate nunca escondeu que queria que você abortasse, por isso mesmo nós mandamos um dedo médio pra eles. Jeanine é uma marionete deles e não tem personalidade, agora... Tris, acha mesmo que o Tobias faria isso com você? Que iria ficar contra você sendo que ele tem culpa no cartório também?
— ELE FOI AO HOSPITAL E...
— Me deixa adivinhar, você ficou histérica? — A garota ruiva arqueou as sobrancelhas. — Como está agora, histérica... Tris acalme-se. Isso não é bom pra você e muito menos pro bebê, está bem? Sente-se. — Ela indicou a bancada da pia.
Meu bebê... Mas eu queria brigar, eu não tinha terminado ainda! Como aquela garota fazia isso?! Claire me ajudou a sentar enquanto sua amiga nos olhava estática.
— Ele não quer o bebê...
— Você já perguntou pra ele? — Claire indagou com simplicidade e senti suas mãos magras serem colocadas sobre meus cabelos, fazendo um carinho em meu couro cabeludo que me deixou repentinamente arrepiada, mas logo me relaxou. — Ou simplesmente o viu e ficou gritando o que a Jeanine te manipulou a pensar?
Senti meu estômago se revirar. Ela estava certa, aquela estranha estava certa.
— Eu me deixei levar... Eu estava com medo...
Minha voz saiu fraca e trêmula.
Thayla segurou minha mão em um aperto suave e gelado, ela estava nervosa e ainda sim estava tentando me acalmar.
— Tudo bem, Tris. É normal ter medo, não é um crime. — Ela sorriu serenamente. — Mas... Lembre-se de que você não é a única, ok? Você e o Tobias estão juntos nisso.
Uma parte de mim aceitava aquela perspectiva, mas em contrapartida... Havia o remorso, a culpa e ainda o ódio que sentia de seu completo descaso naquela reunião. Talvez fosse uma tarefa difícil aceitá-lo, mas... Meu bebê precisava de um pai.
Ou melhor... Nosso bebê.
Eu agradeci aquelas duas garotas quando elas me ajudaram a ficar de pé, deixando-me com uma policial gentil de cabelos loiros que me levaria de volta para casa em segurança.
Sem paparazzis, sem gritos...
Apenas eu e meu bebê.
Melanie Martinez – Bittersweet Tragedy
Eu estou cansada da sua agridoce, tragédia agridoce
Não tem graça, quando estou sentada sozinha
Você está bem na minha frente.
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