Wicked
5 Algo mau
As aulas de Adivinhação eram ministradas pelo professor Firenze, e a daquela semana em particular falava sobre a Astronomia e a sua influência na matéria. A quantidade de escadas em Hogwarts fazia com que alguns alunos refletissem sobre a verdadeira acessibilidade da escola. Por exemplo, como Hugo, que era cadeirante, conseguia se locomover escadas acima e abaixo? E como um centauro, como Firenze, conseguia chegar à Torre de Astronomia? A resposta era simples: mágica. Era Hogwarts, oras, como não se adaptaria para situações como essas?
O professor se esforçava para lecionar, mas alguns alunos pareciam não colaborar naquele dia em específico. Pediu vez ou outra para que eles ficassem em silêncio, entretanto todos ali pareciam ignorá-lo.
— Alguém sabe alguma coisa sobre a influência que os planetas têm sobre a Adivinhação? – perguntou Firenze para a turma, na esperança de que eles parassem de conversar e se tornassem mais participativos.
A estratégia não funcionou e somente Rose estendeu sua mão, querendo responder à pergunta. O centauro correu seus olhos pela sala, procurando por outro aluno que parecesse no mínimo interessado, para responder, mas não encontrou, e acabou cedendo para a ruiva.
— Diga, senhorita Weasley.
— Granger-Weasley, por favor, professor – corrigiu Rose, pois apenas “Weasley” lhe dava a impressão de que poderia ser facilmente confundida com Dominique, algo que ela definitivamente não queria – Pelo que já estudei, a posição dos planetas pode nos ajudar a prever eventos futuros, por isso que esse tipo de leitura também é muito utilizada para entender as personalidades das pessoas, uma vez que pode prever relacionamentos, carreira e até mesmo saúde.
É claro que Rose também se destacaria naquela disciplina. Astrologia era uma das matérias que mais tinham destaque e mais eram aprofundadas para os alunos de Uagadou, juntamente a Alquimia e Transfiguração. Firenze já sabia da afinidade da garota com o conteúdo, por isso a evitava durante as aulas, na expectativa de que outros estudantes também participassem.
— Alguém consegue me dar um planeta e o seu significado na Adivinhação como exemplo? – o professor insistiu, quase suplicando por atenção, enquanto rabiscava no quadro, com um giz branco, o nome de todos os planetas do sistema.
Mais uma vez, exclusivamente Rose erguera a mão, balançando-a animadamente no ar, como se não fosse a única a saber a resposta e realmente precisasse que, de alguma forma, seu docente a notasse.
— Alguém além da senhorita Granger-Weasley? – questionou, esperando por uma resposta do grupo do fundo da sala, que parecia distraído trocando bilhetes e fofocas. – Senhor Potter e senhorita Weasley, já que os dois parecem gostar tanto de conversar, poderiam me responder?
Grande parte da conversa que acontecia no fundo, então, se dispersou. Dominique e Alvo eram bem próximos e estavam interagindo entre si desde que a classe se reuniu, sendo o foco de onde iniciou toda a bagunça. Quando o professor se dirigiu aos dois, pegando-os de desprevenidos, a turma se calou por alguns minutos, surpresa.
— Perdão professor, pode repetir a pergunta? – Dominique se pronunciou, tentando amenizar a situação, afinal, não queria problemas com professores.
Rose respirou profundamente, como se tentasse se acalmar. Gostava bastante dos ensinamentos do professor Firenze, e toda aquela falta de respeito com o centauro a estava irritando. Como já era de costume, a ruiva acabou não conseguindo segurar sua própria língua dentro da boca, e virou-se para trás bruscamente, encarando sua colega de quarto que tanto desgostava.
— Talvez se você tivesse calado a sua maldita boca quando a aula começou, saberia qual era a pergunta do professor. Mas acredito que seja difícil demais para você respeitar o próximo, não é mesmo? – criticou a Granger-Weasley, com sua paciência já no limite.
Girou seu tronco para frente, contente consigo mesma por ter conseguido o silêncio de Dominique por pelo menos alguns instantes. Contudo, Rose mal aproveitou o seu feito, pois sua prima não se manteve calada por tanto tempo… Foi só se recuperar do choque que a bronca da ruiva havia causado, que ela respondeu.
— Olha só, a cenoura ferveu – debochou, fazendo referência à cor do cabelo de Rose e ao tom vermelho que seu rosto tinha tomado pela raiva.
A Granger-Weasley só ficou ainda mais incomodada com o comentário, que gerou risadas por todo o ambiente, e preparou-se para lhe dar mais uma resposta rude, já que Dominique não aprendia, mas o professor Firenze interveio, prevendo que a discussão das duas não acabaria tão cedo se ele não se intrometesse.
— Silêncio, por favor! – pediu o centauro, se referindo às risadas de zombaria – Como vocês não parecem muito interessados em estudar planetas, mudaremos o assunto de hoje.
O professor então se virou de costas para a sala e virou o seu quadro a fim de usar o lado que supostamente estaria limpo, sem ter de apagar todo o conteúdo que havia escrito sobre planetas.
Criaturas pertencem à floresta, não a salas de aula.
A frase estampava o verso do quadro, num azul bem vivo, provavelmente à tinta. Firenze pareceu não saber como reagir por alguns segundos, abaixou sua cabeça e ponderou sobre o que havia acabado de ler. A turma finalmente calou-se de vez ao perceber a sentença e a subsequente reação do professor.
— Quem foi que escreveu isso? – perguntou, aumentando o seu tom de voz pela primeira vez desde o início da aula. É claro que Firenze estava bravo e se sentiu ofendido, quem não se sentiria?
Como esperado, ninguém respondeu. Dominique e Alvo Potter também não se atreveram a continuar conversando, depois de terem visto aquilo. Seria desrespeito demais, até para eles.
— Percebo que não obterei resposta alguma, logo, estão dispensados – o professor disse, voltando ao seu tom de voz normal.
Ninguém se moveu, como se ainda esperassem uma explicação. Era absurdo alguém ainda pensar daquele jeito em pleno século XXI... Não era?
— Não me ouviram? Estão dispensados! – esbravejou o centauro, vendo que ninguém havia saído ainda, e os alunos então resolveram obedecer.
Recolhendo seus pertences apressadamente, todos saíram rapidamente, quase chegando a correr porta afora. Rose partia junto com a multidão, abraçando seus livros e apertando-os contra o seu peito, quando resolveu olhar uma última vez para o professor antes de sair.
Firenze parecia cabisbaixo, claramente abalado pela frase preconceituosa escrita no quadro, recolhendo seus materiais da mesa dos professores lentamente. Não achando correta aquela atitude com o professor, resolveu retornar à sala, onde poderia conversar a sós com ele.
— Criaturas pertencem à floresta, não a salas de aula – ela leu em voz alta, chamando a atenção do centauro.
— Não precisa de preocupar comigo, senhorita Granger-Weasley. Estou bem, pode ir jantar com os seus amigos.
— Tá tudo bem, eu não tenho amigos – respondeu Rose, ignorando a sugestão do professor e voltando a se sentar em uma das cadeiras da sala – Tenho alguns feijõezinhos de todos os sabores, quer dividir? – ofereceu, procurando pela caixinha colorida que estava perdida em sua bolsa.
— Não, obrigado. Não estou com apetite no momento.
— Não deveria se importar com comentários de pessoas ignorantes assim, sabe professor? Eu sempre me importo, é claro, mas isso é porque sou boba. O senhor é melhor que isso.
— Perdão, senhorita Rose, mas é que os problemas que vivemos agora não se resumem apenas a algumas palavras maldosas – o professor explicou, se referindo à aluna pelo seu primeiro nome pela primeira vez.
— Como não? – perguntou a ruiva, preocupada.
— Histórias estão correndo por aí. Criaturas falantes e com consciência vêm desaparecendo aos poucos, e eu sinto que algo ruim está para acontecer.
— O quê? Que criaturas?
— Centauros como eu, acromântulas, elfos domésticos e até mesmo os duendes de Gringotes estão sumindo – revelou Firenze, seguido de um profundo suspiro – Entende agora que algo mau está acontecendo no mundo bruxo?
Rose não tinha ideia do que poderia dizer ou fazer que pudesse confortar o professor. Admirava muito o centauro e as suas lições, e vê-lo chateado daquela maneira também a machucava de certa forma.
A vice-diretora Martin adentrou, então, a sala onde anteriormente havia somente o centauro e a ruiva, e Firenze mudou sua expressão repentinamente. De frustrado e chateado migrou para raivoso em questão de segundos, demonstrando claramente que não gostava da professora de feitiços.
— Rose, querida, estava procurando por você, já que não apareceu no jantar. Sua prima Dominique disse que estaria aqui. Não se esqueça de que temos aula amanhã de manhã, não quero que você se atrase por ter acordado fora do horários, já que no dia anterior gastou o seu tempo... aqui— a professora disse, pronunciando suas palavras com desprezo, enquanto encarava o centauro – Não se esqueça que eu espero um comportamento exemplar de alguém que pretende trabalhar diretamente para o ministro.
Ante essa fala, uma ideia se formou na mente da Granger-Weasley… Ela nem ao menos percebeu que os professores ali presentes pareciam se alfinetar e se desgostar, estava preocupada demais com a situação das criaturas no mundo mágico para reparar num possível conflito de adultos.
— Estou certa de que o professor Firenze concorda, não é mesmo? – perguntou a mulher para o centauro, que apenas acenou com a cabeça, ainda de cara fechada.
Madame Martin, enfim, partiu, dando-se por satisfeita com a subordinação do professor e jogando o longo rabo de seu vestido para trás, enquanto partia porta afora.
— Professor! Madame Martin me deu uma ideia – Rose exclamou ao se encaminhar para perto do professor, olhando-o de baixo, devido ao seu tamanho – Se algo de tão ruim acontece no mundo mágico, alguém deve contar ao ministro. Ele vai dar um jeito nisso! É por isso que temos um ministro afinal de contas, não?
— É, Rose, você deve ter razão... – Firenze cedeu, parecendo já esgotado – Agora, você deveria escutar a vice-diretora Martin e ir para os seus aposentos.
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