Who are you?
29 É Dia de Ação de Graças.
Notas iniciais
No dia seguinte bem cedo as duas voltaram para Rochester. Era dia de Ação de Graças e Brittany havia marcado um jantar para os amigos em sua casa, precisava voltar para poder organizar tudo. Berta cuidaria da comida, como sempre, mas ela queria que tudo saísse perfeito, ela tinha muito o que agradecer naquele dia. Assim que chegou em casa tratou logo de cuidar de seu filho, liberando Lisa para que fosse para casa de sua família. Ela ficaria responsável pela decoração e limpeza, enquanto Santana de arrumar a sala de jantar e de comprar dos últimos ingredientes que faltavam. Assim sendo, no meio da tarde já estavam exaustas.
— Ser dona de casa é uma coisa muito complicada, aquele supermercado estava um inferno. Por que as pessoas deixam tudo para a última hora? – Resmungou Santana enquanto se jogava no sofá, ao lado de Brittany que tinha Luca no colo.
— Vem dizer isso pra mim? Experimenta tentar organizar a casa com uma criança atrás de você desorganizando tudo. – Elas riram. – Ele acabou de dormir, vai tirar um cochilo gostoso da tarde. – Beijou a cabeleira loira do filho.
— Melhor esse rostinho lindo aprontando, do que milhares de pessoas zangadas em filas. – Deu de ombros. – Eu gostaria muito de me lembrar como foram os meus outros feriados de Ação de Graças, saber se minha família se reunia. Não sei porque, mas tem cara que minha abuela adorava cozinhar... – Suspirou tristonha.
— Nem tivemos oportunidade de conversar direito. Como foi com ela?
— Um desastre. Ela não quer me ver nem pintada de ouro. Me expulsou da casa dela e não quer mais que eu volte a chama-la de avó. Minha abuela me odeia.
— Ninguém pode culpar sua avó por isso. – Sam disse sarcástico ao se aproximar das duas dando um beijo forçado na testa de Brittany e outro na cabeça do filho. – Então, o que teremos de gostoso pro jantar?
— Por que quer saber? Você nunca fica pra ceia mesmo.
— Novas tradições! Esse ano eu vou comemorar com você, meu anjo.
— Mas não vai mesmo!
— Não pode me privar da minha própria casa e da comida que a minha empregada está fazendo.
— Olha, Sam, se tem uma coisa que não vou agradecer é o fato de ter conhecido essa sua boca de peixe morto.
— É recíproco, Santana. – Pegou o controle da televisão e a ligou, se acomodando no sofá.
— Eu vou levar Luca pro quarto. – Levantou-se com o filho e Santana a seguiu.
— Isso é um desastre! – A latina bradou quando já se encontravam na parte superior da casa.
— Nem me fala. Eu não sei nem se Noah vai querer ficar com ele aqui. Dá vontade de dizer que ele só está presente porque não tem um centavo pra gastar em suas baladas com suas putas... – Disse sem pensar, levando a mão a boca ao lembrar que seu filho repousava no berço.
— A situação dele está tão feia assim?
— Ele perdeu tudo o que ele tinha, Santana. Está falido! Está sobrevivendo com o salário da empresa, que não é pouco, mas perto de tudo que ele esbanjava... Tudo o que sobrou de seu patrimônio, sãos os bens que tem em comunhão comigo, mas que estão comprometidos em negócios.
— E como vão fazer pra pagar a dívida?
— Eu tenho estudado, mas tudo o que eu tenho eu ponho no nome do meu filho em conjunto, vai ser complicado reverter tão rapidamente. E eu estava contando que pudéssemos pagar pelo menos dois dos bancos e só iria ficar um pra nos preocuparmos. Mas agora... O prazo das dívidas vão se findar juntos. E mesmo que eu tire capital das empresas pra cobrir, eu só vou estar abrindo outro rombo pra pagar um pouco mais tarde. Uma bola de neve que não acaba, até dar tempo de eu desintegrar meu capital.
— E o pai dele? Você acha justo que você tenha que lapidar algo que seja seu e de seu filho pra poder cobrir uma dívida que não é sua?
— Mas o que eu posso fazer, Santana? Se eu não fizer isso, tudo o que eu tenho vai se perder. A empresa da minha família. É um patrimônio que é de Luca, é meu, é da minha mãe e do meu pai, é da Kitty... Se não pagarmos os bancos, os juros vão nos falir. Enquanto ao senhor Evans, eu sei que ele também depende da empresa, ele anda mal das pernas com as finanças pessoais. Ele conseguiu torrar o dinheiro dele em jogos, você acredita? Sem contar que a esposa é uma dondoca e adora fazer graça. Os Evans não têm nada!
— Essa família é muito ferrada mesmo, né? Não me admira que o Sam seja assim.
— No fundo, bem no fundo, eu sinto dó do Sam. E não me olhe assim, sei que acha estranho. Mas ele só queria o mesmo que eu, ele só queria se ver livre de nossos pais. Eu sei que ele escolheu a forma mais idiota de fazer isso e eu tenho raiva por ele ser tão burro. Porém vendo as coisas por esse panorama, ele só está desesperado como eu estou.
—Você tem razão, ele é um babaca, mas é um babaca vítima desse contrato louco de casamento. – Suspirou fundo pensativa. — Mas e a Polícia Federal? Não acha que eles vão comprometê-la? Você vai estar cobrindo um rombo do seu marido, até explicar isso...
— Eu vou ter que arriscar. Óbvio que vai ficar muito suspeito. Mas eu estou tão desesperada. Parece que eu estou calma, que não tenho dado muita atenção, mas na verdade só eu sei a correria que tenho feito.
— Eu vou pensar em algo para ajuda-la. – Pegou a mão de Brittany e fez um carinho discreto.
— Você já me ajuda e muito! – Sorriu.
Momentos mais tarde, Brittany já se preparava para receber seus convidados. Já havia conferido a comida na cozinha, se a mesa estava posta direito, se as flores estavam alinhadas e se seu vestido estava impecável. Quando ouviu a campainha tocar, correu atender e ao abrir a porta teve uma imensa surpresa. Uma figura loira, de estatura bem menor do que a sua, dos olhos claros e sorriso iluminado, se fazia presente em sua frente.
— Kitty? – Indagou ainda sem acreditar que sua irmã estava mesmo em sua casa.
— Surpresa? – A filha mais nova dos Pierce a indagou. – Qual é, Britt? Até parece que viu um fantasma, mais de três anos que não nos vemos e eu não mereço nenhum abraço da minha irmã?
— É claro! – Brittany a abraçou com certa força. – Eu só não acredito que você está aqui! Você não foi ao meu casamento, não veio conhecer o seu sobrinho, eu devia aproveitar para estrangulá-la. – Falou num tom mais bravo e a irmã riu.
— Me desculpa. Mas a vida se tornou mais complicada do que eu imaginei. Vida adulta. Mas eu estou louca para conhecer o meu sobrinho. Ele é tão lindo! Claro que puxou a titia aqui. – Brittany não pode evitar de rir.
— Eu senti tanta saudade! – Elas se abraçaram com ainda mais força.
— E eu a sua! – Fechou os olhos se aproveitando daqueles braços maternos, ela realmente havia sentido falta daquilo. – Mas agora para, está me sufocando, me leve pra ver o pequeno Luca.
— Santana está terminando de aprontá-lo pra mim... – Foi só terminar de falar a frase pra ver a latina descer as escadas com o filho nos braços. – Aqui está. San, venha, deixa eu te apresentar a minha irmã. – Santana se aproximou com um sorriso nos lábios, reconhecendo a mulher das fotos de família. – Kitty, essa é Santana que eu te contei por Skype. Santana, essa é a minha irmãzinha Kitty.
— Irmãzinha é por conta dela, já estou um pouco velha pra isso. – Foi ao encontro de Santana e a abraçou com cuidado por Luca estar no meio.
— É um prazer conhece-la, Kitty.
— O prazer é meu. Você é muito famosa nos comentários de minha irmã. — Sorriu de forma sincera. — Agora deixe-me dar uma boa olhada nesse meninão fofo. – Pegou o menino no colo. – Meu Deus, ele é a sua cara! E lindo, tão lindo! – Beijou o menino que lhe abriu um imenso sorriso.
— Com o charme do pai. – Sam disse ao entrar na sala, fazendo com que Kitty assumisse uma expressão séria. – Kitty. – Cruzou os braços e ficou a encarando, enquanto se lembrava da última vez que havia a visto.
— Evans.
FLASH BACK.
— Evans! Seu cachorro desgraçado! O que foi que você fez com a minha irmã? – Kitty avançou transtornada pra cima de Sam, não se importava se os dois estavam em um hospital, ela queria machucá-lo de alguma forma. – Você é um babaca! – Deu um tapa em seu rosto.
— Você ficou maluca?
— Maluca? Eu acabei de encontrar com o Noah lá fora, ele me disse por que a Brittany entrou em trabalho de parto antes do tempo. Ela descobriu os seus casos.
— E quem você pensa que é pra vim tirar satisfações comigo?
— Eu sou a irmã dela e quem vai te impedir de machucá-la de novo.
— Você está se ouvindo? Se entrarmos naquele quarto e contarmos que eu desvirginei a irmã dela, você acha que não irá machucá-la? – Kitty ameaçou bater nele novamente, mas ele a segurou. – Não se atreva. – Ela puxou seu pulso de volta.
— Eu estava bêbada, completamente bêbada e chapada. A última coisa que eu me lembro foi você dizendo que me levaria pro meu dormitório naquela noite. Mas de repente eu acordo no seu, na sua cama, com o lençol manchado de sangue. Eu nem sei o que fizemos. Logicamente eu não estava em condições de transar com ninguém naquele momento. E você estava bem, se gabando por já ter fumado tanto que a maconha mal fazia efeito em você, lembra? Quem é mais culpado?
— Agora é fácil jogar a culpa em mim, se isso alivia a sua consciência por saber que traiu a sua própria irmã com o homem que ele amava.
— Não, não alivia. Eu me sinto ainda mais culpada por ter sido desonesta com ela e não ter dito que o filho que eu carregava era seu. Culpada por não tê-la livrado de um casamento infeliz e de um marido sem escrupúlos como você.
— Não faça drama.
— Drama? Você acha que fugir da própria casa pra não apanhar do pai enquanto está grávida é drama? Que ao ligar pro pai do meu bebê a única coisa que pedia pra eu fazer era abortar?
— Não era pra ser. E não foi! Você perdeu a criança e...
— Cala boca, Sam! Você ficou me ligando desesperadamente na semana do seu casamento. Todos os dias me ligava pedindo pra que eu não contasse a verdade a Brittany quando a visse. Suplicou que eu ficasse calada sobre tudo, prometendo ser um homem melhor. Um homem digno da minha irmã, que a faria feliz acima de tudo. E eu fui burra, sabe? Eu nem consegui ir ao casamento, porque eu morreria de vergonha. Morreria por dentro ao me lembrar que eu a traí. Foi ela quem me criou, ela é a minha verdadeira mãe e eu me arrependi tanto de ter sido a filha rebelde de sempre e me entregado a você. E então eu não fui ao casamento e eu sumi nesses dois anos, porque era incapaz de olhá-la.
— E poderia sumir mais! Suma das nossas vidas. Ela acabou de ter o bebê e está atordoada. Tiveram que sedá-la novamente. E se você entrar nesse estado, só vai deixá-la mais nervosa. Então sai daqui. Aproveita e leva aquele seu amigo paspalho com você. E se puder não voltar, eu agradeço, porque se você voltar... Eu mesmo conto pra ela o que você fez. Se você estava tão chapada ao ponto de não lembrar, eu lembro. Você gostou! Gostou de ter o namorado da sua irmã. Eu já tenho o herdeiro, Kitty. Eu tenho tudo o que preciso, não vou perder nada. Mas você suportaria perder o amor da sua irmã?
FIM DE FLASH BACK.
— Eu vim porque a Brittany me disse que todos os anos ela passa sozinha com a Berta e eu queria fazer uma surpresa pra minha irmã. Mas se soubesse que estaria presente, eu teria apenas ligado.
— Sinto muito desapontá-la. – Deu de ombros e saiu rindo pra sala.
— Desgraçado!
— Kitty, por favor, não faz assim. Eu estou com tanta saudade de você, eu queria tanto te encontrar novamente. – Brittany pediu, temendo que a irmã fosse embora.
— Tudo bem, por você e por Luca. E também porque temos muito, mas muito que nos atualizarmos. Além de que quero te conhecer Santana.
— Só pelo fato de você não simpatizar com o Sam, já sei que temos muito em comum. — A campainha voltou a tocar. – Eu atendo. – Caminhou até a porta e recebeu o casal Quinn e Rachel. – Que bom que vocês chegaram! – As abraçou.
— Ah meu Deus! Rachel, será que eu estou tendo uma visão ou aquela é a pequena Kitty? – Brincou Quinn indo ao encontro da mulher.
— Quinn! Sinto que tem mais alguém aqui. – Disse ao abraçá-la. – Rachel! Que bom revê-las.
— Eu que o diga! Acho que a última vez que nos vimos foi há um ano, quando Quinn e eu viajamos pra Europa e visitamos sua exposição.
— Pelo menos vocês tiveram mais consideração do que a minha irmã, que reclama de eu não vim visitá-la, mas nunca foi me ver.
— Culpada! Mas a minha vida tem sido uma loucura esses anos.
— E que tal nos sentarmos na sala? – Santana ofereceu.
— Acho ótimo! – Assim que elas começaram a caminhar, a campainha tocou mais uma vez.
— Eu abro, hoje sou porteira. – As mulheres riram e Santana abriu a porta para Noah. – A diversão da festa chegou! – Anunciou animada, ao ser surpreendida com um forte abraço do rapaz.
— E trouxe presentes. – Exibiu as garrafas de bebida. – Calma, quanta mulher bonita. Eu tô no paraíso! – Abraçou uma por vez e ao chegar em Kitty ficou surpreso. – Olha só o que os bons ventos nos trazem.
— Já vi que eu serei a grande sensação da noite. Adoro! – Todos riram.
Em pouco tempo já estavam todos acomodados na sala conversando animadamente. Puck havia feito algumas bebidas, um especial para Quinn sem álcool, Berta tinha servido alguns aperitivos e os assuntos eram os mais diversos. Brittany estava grudada na irmã, tinha muita saudade e sabia que quando ela saísse pela porta, não saberia quando iriam se encontrar novamente.
— Você ligou pros nossos pais? Eles sabem que você está no país?
— Está de brincadeira? Eu quero distância deles, Britt-Britt. Mas não se preocupe, eu ficarei o suficiente pra matarmos a saudade.
— Você pode vim aqui pra casa, não tem porque estar hospedada em um hotel.
— Eu vou desocupar o quarto de hospedes.
— Com o Sam aqui? Sem chances!
— Pode ficar em casa, Quinn e eu vamos adorar te ter conosco.
— Bom, eu só te convido se quiser dividir a cama comigo. – Elas riram menos Brittany.
— Noah, respeito pela minha irmã.
— Brittany, por favor, sua irmã não é mais nenhuma neném. Ela é uma mulher feita.
— Obrigada, Santana. Eu vivo dizendo isso, mas ela não me escuta. Eu vivo sozinha na Europa tem anos e nunca precisei de ninguém pra me proteger.
— Falem o que quiserem, ela sempre será o meu bebê e eu vou protegê-la de tudo e de todos. – Pegou o rosto da irmã e encheu de beijos, mesmo a contra gosto da loira mais nova.
— Para, você está me envergonhando na frente de todo mundo. – Eles voltaram a rir.
Sam era o único que estava de canto, fingindo não se importar com a conversa enquanto se servia de mais uma bebida. Quinn que não deixava que nada escapasse aos seus olhos, se aproximou dele e parou ao seu lado.
— Arrependido?
— Do quê?
— De tudo. De ter perdido diversas pessoas que te amavam. Você poderia estar ali no meio agora, poderia fazer parte do grupo, mas ao invés disso está aqui deslocado, digno de pena.
— Eu não preciso de sua pena.
— Eu sei que não precisa. Seu problema sempre foi esse, sempre achou que não precisava de ninguém. Mas eu era a sua amiga, lembra? Você confiava em mim. E eu sabia que tinha algo de bom em você. Mas você foi cometendo um erro atrás do outro e não quis saber por cima de quem passava. Pode ser que você tenha se arrependido, mas é orgulhoso demais pra pedir desculpas. Mas olha pra eles. Olha pra essa família que nós somos, você não sente vontade de mudar?
— Quinn, você disse muito bem, nós fomos amigos, não somos mais. Não somos mais adolescentes, não vou correr pra você e contar os meus segredos. E eu não preciso que você me analise e queira me ajudar.
— Não está mais aqui quem falou. Mas... Quando tudo desmoronar, quando você não tiver mais nada, lembre-se desse momento em que teve todo mundo que mais magoou bem na sua frente e simplesmente ignorou. – Deu um leve tapa no ombro dele e se afastou, voltando ao grupo. – Por que a gente não vai comer? Eu estou faminta!
— Meu filho vai nascer uma bola!
— Repete isso e vai dormir no sofá.
— Uhuuul! – Noah provocou. – Briga de gatas.
— Eu concordo com a Quinn, acho que já podemos ir jantar. – Brittany se levantou, mas nesse mesmo momento a campainha tocou.
— Está esperando mais alguém? – Santana estranhou.
— Não. Mas vocês podem ir pra sala de jantar que eu vou ver quem é. – Eles seguiram o que Brittany disse e ela foi atender, mas assim que abriu a porta as suas expressões paralisaram. – Pai? Mãe? Fabio? Caroline? – Foi dizendo à medida que eles entravam na casa.
— Feliz Ação de Graças, Susan. Viemos comemorar com vocês.
— A que devo esse milagre?
— Não diria milagre. Fabio teve essa grande ideia de estragar nosso jantar. Tínhamos reserva num dos melhores restaurantes e ele me trouxe aqui, pra sua casa.
— Caroline, acho que já discutimos o suficiente isso. – Disse duro para esposa.
— Como sabiam que eu faria um jantar? Naturalmente eu só esquento sobras do almoço e abro uma garrafa de vinho.
— Seu marido nos contou. Agora pare de ser mal criada e nos receba.
— Claro, papai. Podem ir pra sala de refeições, vou pedir que a Berta coloque mais lugares. – Falou totalmente desanimada, sabendo que seu jantar especial estava a um fio de ser sabotado.
Quando os quatro chegaram à sala, a conversa na mesa encerrou e um silêncio constrangedor se instalou.
— Olha só se não são os casais mais badalados de Rochester. – Kitty foi a primeira a falar. – Eu achei que fosse Ação de Graças, não dia das bruxas.
— Kitty!
— Olá, mamãe. Senti saudades da senhora também. Continua sendo a marionete desse senhor?
— Você pelo jeito continua sendo a mesma desajustada.
— Antes desajustada que mercenária que vende a própria filha. Que tal todos fazermos um brinde a esse exemplo de casamento? Minha irmã tirou a sorte grande ao se casar com um golpista.
— A noite vai render. – Noah sussurrou para Santana que apenas concordou com um sorriso divertido nos lábios.
— Confusão familiar, quem não adora?
— Pai e mãe, Senhores Pierce, por que não se sentam? – Sam interveio.
— Eles vão ficar pro jantar? Então eu estou de saída. – Kitty se levantou.
— Kitty, você me prometeu e você é bem vinda aqui. – Brittany chegou na sala trazendo mais louças.
— Isso quer dizer que nós não somos? Ótimo! Acho que ainda dá tempo de recuperarmos nossa mesa.
— Faça-nos esse favor. – Santana comentou alto demais, sendo impossível para Quinn segurar a risada.
— Desculpe? Quem é você mesmo? Uma ordinária, qualquer, que está de favor na casa do meu filho. Por que não volta pro país de terceiro mundo de onde veio? Com a sua ralé...
— Oi? É comigo? – Santana apoiou suas mãos na mesa e se levantou. — Só porque eu tenho descendência latina acha que pode me julgar? Olha aqui. Eu sou tão americana quanto você, eu sou de Lima, Ohio. Mas minha família possui negócio em Albany. Donos de uma das maiores cristaleiras. Coisa que talvez vocês já não possam mais comprar porque estão todos falidos. Então quem é mais ralé?
— Joga vinho na cara dela. – Rachel sussurrou para Quinn, esperando que uma cena dramática, digna dos palcos, se desenrolasse em sua frente.
— Já chega! – Fabio finalmente interveio. – Vamos todos nos sentar e jantar.
Todos voltaram a se acomodar, novos lugares foram postos na mesa e o silêncio voltou a se instalar.
— Não foi assim que eu previ essa noite. Dei duro o dia inteiro para que tudo fosse impecável. – Brittany confessou a Santana num tom mais baixo.
— Por que deixou eles entrarem? Não disse que não deixaria mais que eles se metessem em sua vida? Se não os quer aqui, mande-os embora.
— Eles não estão aqui por acaso. Se tem uma coisa que eu aprendi com meu pai é que eles não fazem essa cerimônia toda à toa.
— Bom, já é meia noite, quem quer dar a honra de fazer a prece? – Quinn perguntou tentando amenizar a situação.
— Como um dos patriarcas dessa família, eu gostaria de começar. – Fabio se levantou. – Ação de Graças serve pra nos lembrar do valor da família. Peço licença aos outros presentes, mas as nossas, Evans e Pierce, principalmente, representam uma marca muito importante nesse país. E eu só tenho que agradecer que mesmo em momento de crise, estamos todos aqui, reunidos. Mesmo que por trás os membros se demonstrem furtivos, como é o caso da minha querida nora que denunciou o próprio marido para a Polícia Federal. – Voltou seu olhar para Brittany que ficou vermelha.
— Brittany? Você fez isso? – Sam a indagou surpreso.
— Eu pensei que não tocaríamos nesse assunto. – Gabriely saiu em defesa da filha pela primeira vez.
— Deixa, mamãe. Desde que chegaram eu estava curiosa para saber o que queriam e agora eu sei.
— Não vai nem negar que nos traiu? Traiu seu esposo?
— Vocês querem realmente falar sobre traição? – Brittany estava pronta para entrar na briga.
— E quem disse que foi ela? — Santana interviu. — Fui eu! Eu estive naquela empresa em Queens, eu fiquei por dentro de tudo o que aconteceu. Vocês podem ter seus negócios sujos e desejarem que tudo vá pra de baixo do tapete com algum acordo idiota, ou ameças estranhas. Mas eu não faço parte desse mundo. E liguei com prazer pra fazer uma denuncia anônima. – Mentiu.
— Você é a porra de uma vadia, assassina e desgraçada, Santana. – Sam jogou o guardanapo na mesa e se levantou com brutalidade.
— Engole essas palavras, Evans. – Noah se levantou da mesma forma ameaçadora.
— Chega! Os Evans queriam vim aqui tirar essa história a limpo e tiramos. Não foi culpa da Brittany. Então, vamos continuar com nosso jantar. Sentem-se, rapazes. Ninguém vai brigar aqui, respeitem as damas e o meu neto. – Rafael se levantou tomando uma taça na mão e os dois se sentaram. – Bom, eu quero agradecer esse ano produtivo que tivemos. – Brittany não pode deixar de soltar uma risada debochada.
— Desculpe, acho que engasguei. – Tomou a taça de água em sua frente. — Só não sei se foi com o vinho ou com a lembrança de que estamos a ponto de falir.
— Deixe seu pai continuar, Susan.
— Obrigada. Vou relevar esse comentário de Brittany e aproveitar para agradecer a minha filha. – Agora sim ela se engasgou de verdade e voltou seu olhar surpreso pra ele. – De quem eu tenho muito orgulho por ser essa mulher... – Buscou a palavra por alguns segundos. – Enérgica que é. E que tem guiado as nossas empresas sabiamente, mesmo com tantas dificuldades que nem foi ela quem provocou. — Aproveitou para devolver o insulto aos Evans.
— Com a ajuda do meu bebê, é claro. – Caroline declarou. — Sem ele ao lado dela, não seríamos esse império.
— Seriam melhores! Por que ele ajudou especificamente no que? A dar um golpe na empresa e deixá-la a beira de falir? – Dessa vez foi Noah que não se aguentou.
— Por favor, deixe meu querido papai falar. Não é todos os dias que ele elogia as filhas. Desculpa, filha, porque eu não existo no universo dele. Eu estou até emocionada aqui.
— Isso não vai acabar bem. – Observou Rachel.
— E que orgulho eu deveria sentir de você? Diga-me, Kitty.
— Eu sou uma mulher independente, que não precisa do seu dinheiro, tem o próprio negócio. Mundialmente reconhecida e premiada.
— Como se tirar algumas fotinhas fosse muito complicado.
— Melhor do que me gabar por um negócio que já recebi pronto dos meus pais. Sem ofensa, Britt. Sabe que admiro o que faz, você é melhor que todos eles.
— Quer saber? Já chega! – Santana levantou a voz. – Muitos aqui trabalharam duro para que esse jantar saísse e ele não vai ser arruinado.
Kitty olhou para seu celular que começou a tocar insistentemente e levantou-se da mesa com rapidez.
— Mas pra mim já foi. Me desculpa, irmã, mas aconteceu um imprevisto. Eu preciso ir!
— Kitty, não. – Brittany se levantou também, estava decepcionada.
— É urgente! – Foi até a irmã e a abraçou. – Mas nós vamos nos encontrar ainda, eu só preciso ir agora. Me desculpa. – Falava agora mais baixinho só para que ela ouvisse. – Você sabe que eu te amo muito, não é? Que a minha intenção nunca foi te magoar.
— É só um jantar estúpido. Eu também amo você!
— Eu te ligo amanhã. – Deu um beijo no rosto da loira mais velha e se separou. – Foi um prazer rever vocês Noah, Rachel e Quinn. – Fez questão de destacar os nomes. – E um prazer te conhecer Santana, principalmente meu sobrinho lindo. Desculpem-me abandonar esse jantar tão agradável, mas o dever me chama.
— Não vai se despedir de sua mãe? – Gabriely caminhou até a caçula e a abraçou. – Eu sei que guarda ressentimentos de mim. Mas eu ainda sou sua mãe.
— Então faça um favor pra sua filha, mamãe? Não deixem que acabem com a noite da sua outra filha também. – Saiu às pressas logo em seguida.
— Acho que devemos cear de uma vez. A comida vai acabar esfriando. – Brittany bufou, desejando que a noite acabasse o mais rápido possível.
— Por favor, eu estou com fome, meu bebê também. – Quinn brincou.
— Você está grávida? – Foi à vez de Caroline perguntar.
— Sim, senhora, ela está. Dentro de alguns meses a família estará completa. – Rachel respondeu com um enorme sorriso orgulhoso nos lábios.
— Que vergonha! – Resmungou num tom mais baixo, mas que não passou despercebido.
— Como? – Quinn fez-se de desentendida.
— Eu disse: Que vergonha! Vocês não pensaram nessa criança? Se vocês querem viver nesse mundo de vergonha, não devem arrastar uma pobre criança inocente pra impureza de vocês. E não me olhem como se eu fosse à errada, porque eu não sou. A sociedade fingi entender aberrações como vocês, mas eu não. Desde logo quando soube que essa daí largou um partido como Finn Hudson e que Quinn Fabray que vivia tão grudada com meu filho, compartilhava os mesmos gostos que ele... Soube que não ia prestar...
— Retire o que disse, mamãe. – Sam foi duro ao falar com a mulher.
— Jamais!
— Retire o que disse! – Falou num tom alterado.
— Não fale assim com sua mãe, Sam. Peça desculpas.
— Não antes dela se retratar com Quinn e Rachel.
— Eu recebi Quinn em minha casa, eu fazia gosto da amizade de vocês. Eu não vou me retratar pela vergonha dela.
Rachel pegou a taça em sua frente e executou a cena que ela mesma tinha premeditado em sua cabeça momentos mais cedo e jogou o líquido na mulher a sua frente.
— O que é isso? Sua maluca!
— Nunca mais abra essa sua boca nojenta para falar da minha família. Aberração da natureza só pode ser a senhora que a cada dez palavras, onze são descartáveis.
— Rachel, querida, eu não sei se são os hormônios ou essa sua pose extremamente sexy de defensora do lar, mas eu quero muito fazer coisas impuras com você agora. – Provocou Quinn.
— Você não vai fazer nada, Pierce?
— Mas é claro. – Brittany se levantou. – Pedir que a senhora e seu marido, assim como os meus pais se retirem dessa mesa. Aliás, se retirem da minha casa. Agora! – Gritou.
— Quem você pensa que é pra falar assim comigo?
— A mulher que vai livrar o seu filho, a sua esposa e até mesmo o senhor da perdição total, senhor Evans.
— Brittany, acho bom acabar com esse show! – Advertiu Rafael.
— Show? Vocês acham que eu estou brincando? Vocês não vão sair não? – Brittany segurou na beirada da toalha da mesa e a puxou com força levando toda louça, comida e enfeites para o chão, causando o maior estrondo, para surpresa de todos e diversão de alguns. – Vão embora! – Voltou a gritar.
— Anda, Rafael. – Gabriely foi a primeira a se levantar. – Desculpem-nos. – Saiu na frente e foi seguida pelo marido, que antes deixou um aviso.
— Vamos conversar ainda.
Fabio e Caroline saíram sem dizer mais nada, assim como Sam que apenas se agarrou a uma das garrafas de vinho e subiu pro seu quarto.
— Quinn, Rachel. Perdoem-me por esse vexame.
— Você não tem culpa, Brittany. – Quinn apaziguou. – E além do mais, nada que venha daquela senhora pode me ofender. Mas senti muito orgulho e tesão pela minha esposa. – Beijou o rosto de Rachel.
— E agora? O que a gente vai comer? – Noah lamentou a deliciosa comida que foi ao chão.
— Juro que eu até me arrepiei quando Brittany jogou tudo. – Santana debochou.
— Vamos pegar a torta de limão que eu fiz, ver se dá pra salvar o peru e pegar o resto dos petiscos, pra ir pra nossa casa. Vamos fugir desse clima tenso e comemorar de verdade o Ação de Graças.
— Eu acho essa uma excelente ideia. Vou já pegar as garrafas de bebidas que eu trouxe. – Puck falou empolgado.
Pouco tempo depois, estavam todos confortavelmente acomodados na casa de Quinn e Rachel, com um jantar mais simples, mas bem mais amigável e aconchegante.
— Se vocês não se importam, eu gostaria de fazer a prece. – Santana solicitou.
— Sinta-se a vontade. – Quinn disse com um sorriso.
— Bem, com certeza foram dias loucos pra mim. Eu perdi meus pais, fui sequestrada, sofri um acidente, perdi a memória... E agora estou vivendo um processo lento de recuperação. Mas mesmo assim eu sinto que o Cara lá de cima foi muito generoso comigo, porque eu poderia ter cruzado o caminho de qualquer pessoa, alguém que pouco se importasse comigo, ou que me deixasse pra morrer naquela estrada. Mas ao contrário disso, Ele me enviou a Brittany, que foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. A mulher que eu tanto amo...
— Calma aí, vocês duas... – Puck olhou incrédulo.
— Sim, Noah. Não interrompe. – Rachel o cutucou.
— E vocês sabiam? – Ficou de boca aberta fazendo elas rirem.
— Sim, elas sabiam. E agora que você também sabe, pare de dar em cima da minha mulher.
— “minha mulher”. – Quinn falou num tom fofo e engraçado.
— Continua, Santana. Ignora eles! – Santana concordou com Rachel, embora risse de tudo.
— E além de Brittany, eu conheci vocês. Eu tenho certeza que eu devo ter amigos, que eu espero reencontrar em breve. Mas eu acabei somando mais pessoas maravilhosas em minha vida. Cada um de vocês é parte importante de mim agora. Principalmente o Luca, porque ele é o mais lindo e gostoso de todos. – Eles riram. – Enfim... Minha família é um caos também. Minha avó me odeia, minha irmã gêmea está internada em uma clínica psiquiátrica. Mas vocês são a família que eu não escolhi e são a melhor! Obrigada!
Brittany se levantou e deu um breve beijo em Santana, e depois todos se abraçaram em união.
— Agora sim, vamos comer, por favor!
A noite continuou num clima mais brando, o jantar conseguiu ser salvo e juntos comemoraram aquela data especial que marcava, principalmente, o laço de amizade e amor que tinham.
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