White Link

1 Prólogo - Feline Eyes - ??? POV.


Notas iniciais
Eu tenho o costume de fazer histórias e não acabar, mas já estou com seis capítulos prontos, então acho que temos uma chance com essa! ò-ó
Essa história foi pensada originalmente para um RPG, mas como eu estou realmente inspirada para escrever, por que não transforma-la em fic? :3
Boa leitura~

FELINE EYES

O vento noturno envolve os fragmentos de memória;

Um conto sobre o passado.

??? POV

O vento noturno me acariciava enquanto eu esticava meu pescoço para fora da janela do hotel. Eu sempre gostei do vento noturno. Era gelado, melancólico, reconfortante. O hotel era, como sempre, desconfortável e abafado, nada diferenciava ele de qualquer um dos anteriores. Ao menos nós iriamos embora dali na manhã seguinte.

Bem, mas não é como se o hotel que viria depois daquele fosse ser de alguma forma menos desconfortável e abafado.

Eu pessoalmente preferia quando acampávamos: desse modo era sempre possível sentir o vento noturno e as estrelas ficavam brilhando em cima de mim. Detestava como ela sempre apagava todas as luzes.

Nós acampávamos mais que ficávamos em hotéis, mesmo ela preferindo dormir neles, então eu costumava deixar quieta minhas opiniões sobre o vento e as estrelas até quando ela decidia fechar a janela.

Esse era o nosso dia-a-dia: Viajávamos para uma cidade estranha, dormíamos num hotel, fazíamos nosso show por um tempo, depois voltávamos a viajar. De vez em quando éramos perseguidos também. Ela detestava quando nos encontravam, mas eu achava mais divertido: shows eram legais, mas batalhas eram ainda melhores.

Ela ainda era fraca, mas havia crescido muito desde o dia que nos encontramos pela primeira vez. Como era ruim em batalhas, eu que tinha que fazer tudo, mas as estratégias que elaborava eram o que faziam com que nós continuássemos vencendo de qualquer oponente que viesse até nós.

No dia que nos conhecemos o vento e as estrelas estavam bem confortáveis também. Eu nunca havia viajado antes e meu bosque e arredores eram tudo que eu sempre havia visto. As vezes sinto falta de minha cidade natal, mas não me arrependo de ter decidido seguir caminho com ela. As vezes eu me pergunto se ela também sente falta do lugar que nasceu, por caminhos distantes que eu não cheguei a conhecer.

Na primeira vez que nos vimos ela também estava sendo perseguida, mas estava sozinha. O inverno estava chegando e eu, assim como todos os outros que viviam naquele bosque, estávamos correndo para conseguir alimento suficiente para passar o inverno. Minha mãe havia morrido no ano anterior e eu nunca cheguei a conhecer meu pai, então aquele seria minha primeira vez cuidando de tudo sozinha.

Não me entenda mau. Eu era forte. Não é tão difícil sobreviver quando se é forte. Mas era desgastante, isso eu não podia negar. Por isso aproveitei que o vento e as estrelas estavam confortáveis e fui dar uma volta pela noite.

Ouvi passos vindo em minha direção e por instinto decidi me esconder. Eu era forte, mas não era a mais forte do bosque. Foi quando vi ela pela primeira vez. Era bem menor do que é hoje – apesar de continuar bem maior que eu – seu cabelo estava todo desgrenhado e haviam cortes profundos por todo corpo. Havia entrado no território de algum Pokémon perigoso do bosque, só assim conseguiria aquelas feridas, supus. Ela corria cambaleando e não parecia acostumada a com terrenos com muitas plantas, pois logo tropeçou numa raiz e se espatifou no chão, bem perto do meu esconderijo. Me mantive estática para que ela não me ouvisse ou sentisse minha presença, não sabia ainda se era seguro sair.

Após vários segundos sem reação e com a poça de sangue se formando em volta dela, me perguntei se estava morta. Aquela era a lei do bosque que minha mãe havia me ensinado: apenas os fortes sobrevivem.

Já estava me preparando para sair de meu esconderijo quando o barulho de passos rápidos se aproximando se tornou claro do lugar que a menina havia vindo. Entrei em alerta novamente, com meu sexto sentido me alertando que algo ruim estava prestes a acontecer. Já planejava sair do local quando um jato de fogo incendiou uma arvore perto de mim. Não havia mais vento refrescante, apenas um bafo quente, as estrelas iam sendo tampadas pela fumaça e a arvore chiava em desespero enquanto tinha seu tronco queimado, o fogo se alastrando como um vírus pelo bosque.

Meu coração disparou e eu me vi impossibilitada de sair de lá pelas chamas. O culpado, um Pokémon cão enorme, pulou rosnando para o mar de fogo, sendo seguido por um homem musculoso com uma expressão debochosa e olhos que queimavam na mesma intensidade do ambiente. Ele estendeu a mão apontando para a garota morta e o Pokémon cão reagiu, percebi que ele lançaria outro Flamethrower, mas dessa vez, o alvo seria a garota e tudo que estivesse ao redor dela, incluindo eu mesma.

Apenas os fortes sobrevivem no bosque. Essa era a lei que minha mãe havia me ensinado: Ou eu lutava, ou morria.

Com um salto rápido, aproveitei que os oponentes ainda não haviam me notado e desferi um Scratch nos olhos do Pokémon cachorro. Percebi claramente que eu mal o havia machucado, mas fez com que este desviasse o rumo do ataque, mirando para o lado esquerdo. Senti minha pele ardendo ao ser pega de raspão pelo golpe, mas aquilo seria o suficiente para que pudesse fugir. O humano ao lado do Pokémon cachorro lançou um olhar de ódio que quase me paralisou.

Mas o olhar não era para mim.

A minha frente a garota havia se levantando, segurando o abdômen machucado e sujando a mão de sangue. Percebi, entretanto, que a ferida já não jorrava tanto quanto antes. Humanos sempre tiveram recover?

Não. Apenas por olhar nos olhos da garota, percebi que havia algum motivo real pela perseguição.

Ela me segurou pelo colo contra minha vontade e voltou a correr por entre o fogo. Resisti contra os braços dela, desferindo uma série de arranhões seguidos, mas ela não parecia se importar. Ela era lenta e os perseguidores já estavam atrás de nós, as chances de escaparmos era 0, as de derrotarmos aquele Pokémon também eram 0. Me perguntei se era meu fim. Meu bosque queimando a minha frente era a visão mais avassaladora que eu já tinha tido.

Senti algo gelado esfriando meu corpo quente, mas não era a brisa da noite. Nós estávamos dentro do rio que normalmente se congelava no inverno. Eu costumava beber água lá, mas detestava entrar dentro dele. Uma vez eu caí por acidente e minha mãe teve que pular para me salvar. Era gelado e aterrorizador.

O contraste da água, do fogo e da noite que me deixava com náuseas me fez perder a consciência.

Quando acordei haviam algumas berrys pouco a minha frente. Estava com fome. Cheirei uma pecha e dei uma mordida, me deliciando com o suco doce. Percebi que que a garota me observava e ericei os pelos, ficando em alerta. Os olhos frios e vazios dela sorriram para mim e isso de algum modo me acalmou.

As feridas dela já estavam completamente curadas, mas minhas queimaduras ainda ardiam.

Percebi então o cheiro de fumaça. Meus olhos se arregalaram quando vi meu bosque reduzido a carvão a muitos metros de distância. Alguns Pokémons familiares andavam sem rumo pelos arredores, as expressões na mesma desolação que a minha. Todo nosso estoque, nossos lares, ninhos. Todos destruídos, e tão próximo do inverno. Não sabia o que fazer.

Senti uma mão quente na minha cabeça. Os olhos prateados dela me lembravam a lua. Ela não ousava mais me encarar, como se pedisse desculpas.

Naquele dia, ela me contou toda a história dela, e eu contei toda a minha vida no bosque. Era difícil conversar com humanos, eles eram tolos e ignorantes, minha mãe sempre dizia, mas com ela era fácil.

Como nós não tínhamos outro lugar para ir, decidimos viajar juntas. Foi assim que começou nosso dia-a-dia.

Hoje eu estou mais forte. Sinto que se tivesse a foça de hoje naquela época, talvez pudesse impedir que meu bosque fosse queimado ou mesmo derrotar o Pokémon cachorro, mas se eu não tivesse perdido nunca teria me tornado mais forte. Ela também ficou mais forte. Ela ainda não batalha, mas os olhos prateados e vazios dela brilham muito mais agora do que antes. Com os comandos que ela me dita, não há batalha que não vençamos.

Decidimos abraçar o destino incerto de viajantes e seguir nosso caminho juntas. Meu objetivo e o dela é o mesmo: não ser capturadas e derrotar os homens maus que tentam nos capturar. Eu faço isso pelo meu bosque, ela faz isso pela família dela. Nós somos justiceiras.

— Lilth? – Ouvi a voz sonolenta dela se levantando da cama e logo suas mãos me carregaram para fora de meu vento noturno. – Já é tarde. Vamos seguir viajem amanhã. Durma.
Grunhi, percebendo que ela fechara a janela. Eu odiava quando ela fechava a janela. No dia seguinte, nosso ciclo de viagens recomeçava.

Lilth POV Off.

Notas finais
Obrigada por ler até aqui ♥

Eu gosto de mudar o POV de vez em quando, mas a maioria vai ser da garota que a Lilth mencionou.
Lilth é uma Purrloin. Isso não foi mencionado no texto, mas nos próximos capítulos vai ficar mais claro.
Até semana que vem ~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.