Whirling Crescendo
16 Drowning
Tic.Tac.
O relógio ornamentado e de aparência cara, mantinha o ritmo monótomo.
Tic.Tac.Tic.Tac.
Sona não estava naquela sala a mais de 5 minutos, mas havia avaliado todo o ambiente. Ficou surpresa quando a carruagem a trouxe para fora da cidade, para uma mansão antiquada e bela. Pensou por um instante que poderia ser a casa de campo de Swain -Por que não? Era comum em Demacia.- mas mudou de ideia ao ver a decoração interior. Por algum motivo, achava que as paredes tons pastel e todas as rendas e brocados não combinavam com o Grão-General.
A luz do sol fazia os grãos de poeira dançarem no ar a sua volta, e o estofamento do sofá era bem convidativo para uma soneca.
Enquanto ponderava se poderia se dar ao luxo de descansar os olhos por alguns segundos, um barulho abafado a deixou em alerta.
Segundos depois uma figura entrou na sala, pisando firme no assoalho de madeira. O casaco longo militar esfarfalhando atrás de si. A mulher parou dramaticamente em frente a Sona, o pequeno cristal preso no seu cabelo negro, que estava todo repuxado e caído no ombro direito, balançava com o movimento. Arrumou o óculos estilo secretária que usava, e exclamou:
–Soooona! Finalmente nos conhecemos. — o sorriso nos lábios da mulher era levemente psicótico, e Sona estremeceu. Talvez tenha notado o olhar apavorado da mais nova, pois logo de apresentou:
– Sou Layla Ravenscar , e lhe dou as boas vindas a minha casa. — Continuou sorrindo, inclinando um pouco o rosto. Havia algo tão apavorante naquele sorriso, que Sona não suportou encará-la por mais de 2 segundos. Abaixou os olhos, procurando algum outro ponto para olhar.
A anfitriã estava bem vestida, Sona reparou, mas também tinha um que de provocante. Suas calças de couro marcavam bem suas coxas, e o casaco estava bem apertado na cintura, delineando suas formas. No bico da bota, uma placa de metal com pequenos spikes. Sona fez uma careta, não queria estar perto caso Layla chutasse alguém.
E rezava que não fosse ela no caso.
Layla se aconchegou numa poltrona próxima ao sofá, a sua frente. A garota fez um esforço para olha-la novamente, e ficou feliz por aquele sorriso macabro não se encontrar mais em seu rosto.
Passou-se alguns minutos naquela situação. Tic.Tac. Layla a encarando, quase que a despindo com os olhos, agora mais séria. E Sona se encolhia cada vez mais, querendo se enterrar no sofá. Tic.Tac.
Afinal, não tinha ido até lá para se encontrar com Swain? Quem era essa mulher?
– JERICHOOOO!- A musicista a olhou assustada, quando do nada, ouviu a mulher gritar. — Ele já deve estar vindo, não se preocupe.
Sona assentiu, desejando estar em qualquer outro lugar que não fosse aquela sala.
– Deve estar se perguntando por que te trouxeram pra cá, não é? — O sorriso voltou, mas dessa vez mais gentil. — Imagino que esperava o Alto Comando. Mas acredite, aquele lugar não é lugar para alguém como você.
Sem saber muito bem como interpretar “alguém como você”, Sona se ajeitou melhor no sofá. Layla continuou.
– Queria muito conhecê-la, e pedi para Swain trazê-la até aqui. Na verdade, eu e ele que temos muito, muito interesse em você. — Se inclinando para frente, ela tocou delicadamente na mão de Sona, e ela sentiu um choque percorrer por todo o seu corpo. O cristal no seu cabelo balançou novamente, num ritmo lento e hipnotizante. Piscou os olhos algumas vezes, até conseguir se ver livre do transe. Uma figura alta parada próxima a ela lhe chamou atenção.
Swain se encontrava presente, a observando com interesse. Por quanto tempo ficara hipnotizada? Sequer o vira entrar na sala.
Sona se levantou num salto, os longos cabelos dançando inquietos a sua volta. Fez uma referencia desajeitada, e ouviu um risinho, que só poderia ser de Layla.
– Senhorita Buvelle. — Apoiando-se em seu cajado,Swain pegou suavemente a mão da musicista, e levou até os lábios encobertos pela mascara negra que usava. — Fico feliz que tenha aceitado meu convite.
Se diz feliz, mas seus olhos não demonstram nada. Sona só conseguia pensar sobre esses olhos rubros e sem expressão. Apenas a encarava, como que esperando que ela o impressionasse, algum entretenimento.
– Peço perdão pelos modos de Layla.
Layla estava com os braços cruzados, subitamente irritada com essas palavras.
– Você que se atrasou e deixou uma garota esperando. Não vai conseguir uma mulher nunca, se continuar com esses modos.
De uma das janelas abertas, Sona ouviu um bater de asas e logo uma forma negra entrou voando pela sala. Beatrice deu algumas voltas pelo comodo, antes de sentar no ombro de seu mestre.
Sona acompanhou com os olhos, espantada. Quando a ave parou, ela pode identificar que com certeza era o mesmo corvo que encontrara na Arena. Ou corvos de 6 olhos eram comuns por aqui, o que ela duvidada.
O corvo também parecia reconhecer a garota,a encarando fixamente e fazendo leves cliques com o bico. Casualmente, Swain levou uma mão ao pássaro, alisando suas penas.
– Vejo que já se conhecem. Espero que Beatrice não tenha lhe assustado.
A garota se lembrou do breve pânico que sentiu quando a ave se aproximou no dia anterior. Balançando a cabeça em negativa, Sona sorria fracamente.
Swain abaixou o rosto, olhando para Layla que desviava o olhar. Depois de alguns segundos, Layla se levantou amarga, levantando os braços e se apoiando no encosto do sofá onde Sona estava.
O Grão-General se sentou no lugar cedido de não muito boa vontade, e Sona tentou conter o riso, ao ver a cara de emburrada da mulher estranha ao seu lado.
– O que mais eu poderia fazer por vocês? Um chá, biscoitos? — Ela disse em tom de escárnio.
– Um chá seria ótimo, Layla. Obrigado por oferecer.
Draven estava certo, afinal. Sona sorria, tentando esconder o rosto com a manga comprida do kimono.
–Fico triste que nos conhecemos em circunstâncias tão trágicas, senhorita Buvelle. — Ele repetia praticamente as mesmas palavras de quando se conheceram naquela noite. — Aprecio muito seu dom, Sona. Posso lhe chamar de Sona?
A garota assentiu, sorrindo timidamente. Num bater de asas, Beatrice levantou voo, e foi até o seu colo. Surpresa, Sona observava enquanto a ave se acomodava entre os panos ricamente estampados do seu obi. Suas garras a incomodavam um pouco, mas o pássaro parecia estar tomando cuidado para não machucá-la.
– Até mesmo Beatrice gosta de você, e isso é uma coisa rara.- Dessa vez Sona escutou um timbre divertido na voz de Swain, e sorriu em resposta. — Aquela noite, quando ouvi suas notas... Sua música mexe com a alma, no sentido mais literal da palavra. Seus acordes me trouxeram sentimentos que a muito achei que seria impossível sentir novamente.
Sona o observava atentamente, sentindo o nervosismo crescendo. Ela notou uma mancha negra no ombro do homem a sua frente. Demorou uns instantes para perceber que era sangue.
– Mas não foi só o seu talento musical que me interessou. A mim, e a outros aqui em Noxus. Percebo um grande potencial, desperdiçado em você. É verdade que consegue se comunicar com Draven?- Sem esperar qualquer resposta, prosseguiu:
– Por que justo ele? De todas as pessoas do mundo, você sabe por que?
Sona deu de ombros, inocente. Ela via e sentia a aura de Draven diferente das outras, mas o motivo disso acontecer... realmente desconhecia.
Swain recostou-se melhor na poltrona, cruzando as mãos sobre o colo.
– A mente é algo poderoso, Sona. Poderoso e perigoso. A sua capacidade de telepatia, mostra quanto potencial você tem. Se é capaz de algo assim, sem nenhum tipo de instrução...
Os olhos escarlates brilharam ao ver as palavras ditas fazerem o efeito desejado. Baixando os olhos, Sona cerrou as mãos forte, tentando se focar. O que ele queria dizer com isso? O que ele pretendia?
Lembrou do que Draven lhe disse, que ela poderia pedir ajuda para Swain. Será que Sona finalmente poderia aprender mais sobre esses poderes estranhos? Será que ela poderia descobrir o que era, com a ajuda do homem a sua frente?
Gesticulando em línguas de sinais, perguntou o que ele queria dizer com isso. O seu olhar suplicava por alguma explicação. Layla chegou naquele momento, com uma bandeja com 3 xícaras de chá. A deixou de lado numa mesinha, e ficou ao lado de Swain, apoiada no encosto da poltrona.
– Seremos breves, querida. Também não desejamos tomar o seu tempo. — Layla disse,tirando os óculos e os colocando no topo da cabeça. Sona notou como seus olhos eram de um tom de rubi vivo, quase que rosas com a luz dourada da janela.- Temos uma proposta para lhe fazer. É simples, se você negar, pode sair por essa porta e voltar para Demacia nesse mesmo instante.
Sona trancou a respiração. Beatrice se mexeu no seu colo, mas voltou a dormir.
Layla ergueu um pequeno frasco, com um liquido roxo dentro. Sona jurava que aquilo não estava com ela em momento algum, mas de alguma maneira surgiu.
– Considere isso como uma demonstração do que Noxus é capaz de fazer por você, Sona. — Swain disse, sua voz rouca ecoando pelo cômodo. Layla ergueu o frasco em sua direção, e a garota apenas a olhou, a duvida estampada em seu rosto.
Swain prosseguiu:
– Fique conosco. Todas as suas duvidas, todos os seus medos serão sanados, aprenderá a controlar esse seu dom magnifico.
Por quê? Por que eu faria isso? O que vocês ganhariam com isso? Sona tinha muitas perguntas na cabeça, mas então uma pergunta maior surgiu, uma que gritava , abafando o som de todas as outras.
Por que não?
Sona apontou para o frasco,e perguntou o que era.
Layla sorriu, aquele sorriso macabro. Mas a garota não desviou o olhar.
– A sua voz, pequena prima donna.
Perdendo o folego, Sona estendeu a mão e pegou o frasco, e sem pensar muito, entornou o conteúdo da garrafinha. Desceu gelado, e Sona sentiu como se todo o seu sangue gelasse junto.
Olhou para os dois, esperando alguma coisa. Layla a olhava curiosa, igualmente ansiosa, e Swain apenas a avaliava com os olhos cerrados.
Quando começava a perder as esperanças, sentiu uma dormência na garganta. Algo que no começo era apenas uma leve irritação, começou a aumentar até que ela sentisse como se estivesse engolindo cacos de vidro. Se levantou de súbito, levando as mãos até a garganta, sentindo sua pressão cair, um peso na cabeça como se o teto estivesse caindo sobre si.
Despencou de joelhos, com as mãos ainda apertando a garganta, quase afogando em lágrimas. Só conseguia pensar na dor,como se mil navalhas lhe cortassem repetidamente, sem lhe dar a esperança de uma morte para cessar a dor.
Vomitou sangue, que encharcou o tapete e a borda do seu kimono. Sentindo as bordas da sua visão enegrecerem, o som abafar, e o chão se aproximar de seu rosto.
Foi engolida pela escuridão, mas o que mais a amedrontava não era as trevas.
Ela não conseguia mais ouvir Etwahl.
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