" Eu nunca contei para vocês, Soluço sabe o básico, mas resumindo, a minha vila foi destruída quando eu tinha 6 anos, pedi tudo naquela época, minha família, casa, amigos, tudo, eu fui a única sobrevivente de um massacre enorme.

Eu também nunca disse, mas o meu encontro com Luna e Amarok não foi nada parecido como de vocês, a minha ilha não era caçadora de dragões, nós achávamos que viver em harmonia com ele era necessário, não chegava ao ponto de termos cavaleiros ou que os dragões vivessem conosco na vila, eram eles nas floresta e nós nas casas, ele não incomodavam enquanto nós também não, porém eu era aventureira, queria saber como era um desses animais tão grandes e fascinantes de que meu pai me contava, e como ele adorava falar desses contos — um suspiro — e não tinha como ficar curiosa, eu andei e andei até achar um ninho, não sabia da espécie já que nunca tinha visto um antes, havia apenas um ovo, sozinho, eu observei de longe e esperei os pais chegarem, mas nada, fiz isso por mais 2 dias, até que percebi que eles realmente não iram aparecer e pensei em como aquele filhote ficaria triste sem os pais, sem imaginar as consequência, eu comecei a cuidar daquele pequeno ovo de casca preta, levei para casa e guardei no meu quarto entre cobertas, depois de um mês, Luna nasceu, e eu não fazia ideia de como cuidar de um dragão. — uma risada leve, pude ler que eles abriram um pequeno sorriso. — Afinal eu era uma criança de 6 anos, fiquei uma semana a alimentando com leite de cabra quando finalmente eu percebi que precisava de mais ajuda e iria contar tudo para o meu pai, o pior dia da minha vida aconteceu,a invasão, o fogo, tudo. — Morgana fechou os olhos e respirou fundo tentando espantar as imagens. — Vocês não precisam saber como foi, só que no final da noite, eu estava sozinha, em meio aos destroços com Luna no meu colo e sem lugar para ir, e foi ai que eu conheci Amarok, ele já era um dragão adulto e eu nunca entendi o porquê de ele ter me salvado, ter me colocado nas costas e me tirado de lá.

Contudo, ele não era leal na época, acho que ele sentiu pena de mim, mas não queria ter que cuidar de uma criança humana, em uma ilha próxima, eu fiquei assistindo aquele dragão azul simplesmente nos deixar lá, sozinhas, uma criança com bebê de Fúria da Noite apenas com uma semana de vida e foi embora. Eu não sabia o que fazer, tudo o que eu conhecia tinha sumido de uma dia para o outro, sem nada e ninguém, e na quele mesmo momento que eu pensei em desistir, vi que Luna dormia pacificamente em meus pequenos braços e foi ai quando percebi que outra vida dependia de mim e eu tinha que arranjar um jeito de sobreviver e não foi fácil, nada fácil. Eu não sabia o que podia ser comido ou não, não conseguia pescar, não achei um lugar para nos abrigar, ou água potável, no máximo do meu esforço, só obtive êxito ao esmagar algumas amoras e conseguir alimentar Luna com elas, depois de três dias assim, eu já não achava que ela ou eu sobreviveríamos.

Mas foi no quarto dia, quando eu estava ensopada em meio a uma chuva horrível, encostada no pé de uma árvore, tremendo de frio, mas tentando proteger Luna com o meu pequeno corpo da melhor foram possível que as coisas mudaram e até hoje eu não sei classificar se aquilo foi algo bom ou não, pois eu conheci o Viggo. — Todos seguram a respiração. — Na verdade, eu conheci o pai dele, você ainda não sabem, mas Ryker tem um irmão, ele se chama Viggo e é menos troglodita e mais esperto, foi ele que eu vi parado em meio aquela tempestade na minha frente, ele me pegou no colo e levou nós duas para o abrigo dos caçadores que mais tarde eu descobrira que tinham ancorado na ilha por suprimentos, ele só tinha uns 15 anos na época, mas já era muito inteligente, tanto que conseguiu convencer o seu pai a me deixar ficar, ele conseguiu que uma serva me limpasse, arrumasse e alimentasse, o mesmo com Luna, a diferença era que eu não deixava ninguém toca-la, e quando tentaram tira-la de mim, eu surtei, tentei fugir, mas Viggo me impediu, ele acalmou todo mundo, me disse que todos só queria ajudar e eu acreditei, ele disse que eu podia ficar, não iria mais passar fome, e eu acreditei, ele parecia uma pessoa tão boa e eu estava desesperada por algum conforte, em ter uma casa de novo, então eu acreditei e me arrependeria muito disso anos depois.

Ragnar era o nome do pai do Viggo e Ryker, ele era conhecido com o Rei dos Caçadores, título que eu não conhecia na época, um homem puramente mal e interesseiro, nunca cheguei a conhecer a mãe dos dois, mas diziam que o homem ficou ainda mais amargo de coração quando ela morreu, e isso fez com que Viggo e Ryker ficassem muito mais unidos. Ragnar, era impetuoso, caçou, matou e vendeu tantos dragões que não seria possível contar, ele tinha um império enorme de bandidos para fazer o seu trabalho e mercenários para trabalhos ainda piores. O problema era que eu nunca soube nada disse, Ragnar era esperto e por isso ele mentiu por anos para mim e convenceu a todos fazerem o mesmo.

*FLASHBACK*

— Viggo, porque o senhor Ragnar viaja tanto? — Uma pequena garotinha, de longos cabelos negros trançados mais cedo pela serva Odalya, que ela tinha acabado de fugir para encontrar o "irmãozão" Viggo no seu quarto, tentava olhar o mapa em cima da mesa, ele a estava ensinando a ler, e ela não podia esperar tanto para continuar a historinha sobre o grande rei, além do mais, a serva queria que ela aprendesse a ser mais uma dama, e Morgana não tinha interesse nenhum nisso.

— Porque esse é o trabalho dele, e o meu e de Ryker também. — Viggo respondeu, depois de ajudar a pequena a sentar na cadeira ao seu lado, ele olhou para o chão e viu que a filhote de Fúria da Noite, hoje, três mês depois de serem resgatadas, a dragão já podia andar e se alimentar sozinha, tinha também crescido uns bons centímetros, mas ainda era um filhote.

— Mas por que vocês não podem ficar mais tempo? Toda vez que vocês vão embora por dias, eu tenho que ficar aturando a bruxa má sozinha. — A garotinha se esticou mais um pouco tentando ler as anotações do adolescente, mas este puxou o papel para longe discretamente, rindo um pouco ao ver o bico que se formou na cara da pequena emburrada.

— Não chame Odalya assim, Morgana, ela cuida bem de você enquanto estamos fora. — A pequena virou o rosto não querendo admitir que estava errada. — Além do mais, você gosta quando eu volto e sempre trago um presente para você.

A menina realmente não podia reclamar disso, adorava receber presentes.

— Mas eu não entendo, o que vocês fazem que precisam viajar tanto? — Naquela época, a pequena não entendi a importância dessa pergunta e se ela soubesse identificar as mentiras que contariam depois, muito coisa teria sido diferente.

Viggo suspirou, antes de tirar a tenção completamente dos papeis importantes de um leilão e volta-se para a garotinha totalmente. — Porque Morgana, nós trabalhamos com-

— Trabalhamos em uma missão muito importante de salvar os dragões. — Uma voz vinda da porta do quarto interrompeu os dois, era Ragnar, o líder da família havia acabado de entrar e tinha ouvido a conversa toda.

— Sério?! — O brilho nos olhos da pequena com as palavras do homem era visível, o que ela não percebeu foi surpresa e depois descontento na cara do adolescente presente.

— Sim, querida. — Ele se ajoelhou ao lado dela na cadeira, e levantou a mão para fazer um carinho em Luna, a filhote recebeu muito feliz. — Nós somos salvadores de dragões, viajamos pelo mundo procurando aqueles que achamos estar em perigo de serem caçados, e os levamos para um lugar especial onde vão ser cuidados por novas pessoas.

A gentileza nas palavras dele escondiam o sorriso sínico que ele mostrava e que a inocência da menina não a deixava enxergar.

— Isso é verdade? Então vocês são salvadores? É isso mesmo Viggo? — A menina se virou para receber a confirmação do garoto que a tinha salvado e ela sabia, que se ele falasse que era verdade, então era verdade.

— Isso mesmo, pequena guerreira, nós ajudamos muito dragões, igual ajudamos você e Luna.

A menina não percebeu o olhar trocado pelos dois.

— Você quer ver?

— Eu posso? Posso mesmo ir com vocês? — Ela praticamente pulava na cadeira.

— Claro que pode, seria bom você já começar a ver o trabalho, porque no futuro, você também vai ser uma salvadora, não é?

— Sim! Eu vou ser uma salvadora tão bom quanto você, senhor Ragnar! — Ela pulou da cadeira e saiu correndo do quarto com Luna ao seu alcance. — Vou arrumar as minhas coisas.

O líder dos caçadores ficou olhando pela porta com um sorriso tão maligno, que deu arrepios em Viggo.

*FIM DO FLASHBACK*

Foi depois disso que eu comecei a viajar com eles, Ragnar sempre estava comigo, me vigiando para eu não olhar o que não devia, ou perguntar demais. Toda a tripulação, os bandidos, até a serva que cuidava de mim, foram intruidos a continuar com a mentira. Viggo me ensinou a ler, a navegar, Ryker cuidou para que eu entendesse tudo sobre luta, ele me treinou com todas as armas possíveis, como atacar e como me defender, e Ragnar, ele me ensinou tudo sobre dragões, todas as espécies, suas fraquezas, suas forças, a onde encontrar e como capturar, eu achava que era para que quando eu finalmente lidasse com os dragões pessoalmente, as informações seriam úteis e me ajudariam a regatá-los sem ferir nenhum. Porém, eles na verdade estavam me treinando, me preparando para uma lavagem cerebral que eu não conseguia perceber, porque eu nunca pensaria que as pessoas que tinha me salvado pudessem ser tão ruins assim.

Foram 4 anos assim, eu só podia observar eles pegando os dragões, achava que as gaiolas eram para manter a segurança, eu até perguntei qual era a necessidade delas, mas Ragnar conseguiu me convencer novamente de que ele queria ajudar os dragões, mas eles não compreendiam isso, e ele não podia arriscar a minha segurança e a dos seus filhos.

Viggo sempre agiu como irmão para mim, então ficar perto dele nas viagens, eu nem precisei pensar direito, e acho que porque na época eu tinha acabado de perder um pai, procurei outra figura paterna em Ragnar, que eu precisava, e ele agia assim comigo, depois de alguns meses ele me chamava de "a filha que ele nunca teve, mas sempre sonhou, obediente e bonita", ele dizia com tanto orgulho que eu só queria fazer mais, participar mais só para receber um elogio de novo. E foi assim, nesses 4 anos eu só observada, mas eu estava farta, queria ajudar a salvar os dragões, as criaturas que eu amava tanto e eu finalmente podia fazer algo quando Luna finalmente estava crescida o suficiente e eu pensei em um jeito único de ajudar, um modo que nem o Viggo ou Ryker poderiam ajudar, eu aprendi a voar.

*FLASHBACK*

Viggo e Ryker olhavam de bocas abertas para a pequena garota de 11 anos dando luppings, girando e planando montada na Fúria da Noite, já o rei dos caçadores tinha um sorriso enorme no rosto, do alto, a menina achava que era de orgulho, mas qualquer um no convés podia ver a maldade e cinismo no rosto de Ragnar. A dupla pousou na madeira da embarcação.

— Então o que vocês acharam? — Ela saltou de cima de Luna com um sorriso enorme e inocente no rosto.

— O que nós achamos?! Isso foi incrível, pequena salvadora! — Ragnar caminhou direto e ergueu a menina no ar, que soltou uma gargalhada de felicidade. — Você não sabe o quanto isso é precioso para o futuro dessa família.

Atrás deles, Ryker, capitando os pensamentos do pai, abriu o mesmo sorriso cínico do velho. Contudo, havia alguém que também sabia das intenções do pai, mas sabia do perigo da menina descobrir a verdade só iria aumentar, e apesar de ser muito inteligente, Viggo não sabia como isso realmente iria afetar o futuro daquela família.

— Isso quer dizer que eu vou poder ajudar agora?! — Morgana perguntou esperançosa, porém as sua ideia de ajudar era bem diferente da de Ragnar.

— Claro, pequena, acredito que agora você está realmente pronta para ajudar.

Morgana voltou correndo para abraçar Luna e mais uma vez não viu o sorriso que o caçador abriu.

*FIM FLASHBACK*

E eles finalmente me deixaram ajudar . — Astrid percebeu que agora Morgana falava tão abertamente que parecia que estava tirando um peso enorme das costas, ela precisava dizer aquilo para eles, a verdade por fim, e ela fazia isso tão perdida nas lembranças e não olhava para ninguém, apenas para o chão e Astrid já não sabia se Morgana percebia alguém na sala. — Por Thor, eu estava tão animada. — Então as primeiras lágrimas começaram a cair e todos ofegaram surpresos. — Eu queria todas as missões e Ragnar me dava, eu conseguia cercar os dragões, e ele estava logo lá para coloca-los em jaulas, eu o questionava toda vez, mas ele insistia em dizer que era para a segurança, que nós estávamos ajudando os dragões, mas eles não sabiam disso e por isso precisava das amarras, das correntes. Eu era tão burra! — Morgana segurou a cabeça nas mãos. — Mas tão burra! Quando eu conversava com membros da tripulação sobre o quanto era bom ajudar os dragões e os preservar, eles riam da minha cara e concordavam de forma sarcástica, eu nunca entendia, mas estava tudo na minha frente, tudo!

Todavia, o pior estava por vir. Ragnar nunca me deixava saber para a onde ele "realocava" os dragões, disse que era burocrático e eu era muito nova, eu tentei insistir com Viggo, mas esse tentou me enrolar dizendo que nem ele sabia, mas eu sabia que era mentira porque já o havia visto falando com o Ragnar antes, e acho que foi quando eu comecei a desconfiar, acabei ignorando isso e aceitando. Mas foi alguns meses depois que eu já não podia mais ser tão inocente, foi quando Ragnar apareceu com o Osso Voador.

*FLASHBACK*

— É lindo, não é? — O chefe dos dragões mostrou a bela e nova arma para a tripulação. Um bumerangue gigantes, era da altura do homem, em uma cor bege nobre, parecia até brilhar como novo.

Morgana olhou curiosa para a peça, parecia lisa como um osso polido.

— A onde o senhor a conseguiu? — a pequena perguntou curiosa.

Ragnar voltou a atenção para a pequena, entregou a arma nova para o filho mais velo ver. — Foi uma encomenda minha para um velho amigo meu e você minha pequena salvadora, foi a que mais contribuiu para isso.

— Não entendi. — A menina jogou a cabeça para o lado em confusão, e ficou surpresa quando a tripulação inteira começou a rir como se estivesse compartilhando uma piada, e Morgana percebeu que ela era a causa disso.

— Logo, você vai entender tudo e tenho certeza que vai ajudar a construção de muito mais dessas armas.

Aquela era a primeira vez que Morgana havia reparado que o sorriso de Ragnar não era tão caloroso assim, na verdade, a menina sentiu medo e começou a perceber que ele sempre foi assim.

*FIM FLASHBACK*

— Então, quer dizer que o Osso Voador...? — Perna de Peixe deixou no ar, mas Morgana tinha entendido.

— Sim, o Osso Voador foi feito dos dragões que eu passei meses achando que estava salvando. — Morgana não teve coragem de olhar ninguém, mas ela pode ouvir Perna de Peixe fungar.

— Eu não entendo, como você ficou com ele? — Astrid perguntou e pela cara que Morgana fez, ainda tinha muita coisa a ser contada.

Eu comecei a desconfiar, fazia 1 ano e meio que eu comecei a trabalhar e por algum motivo, o nome do Osso Voador, me incomodava demais, e acho que por aquilo ter ficado martelando tanto na minha cabeça que eu comecei a finalmente abrir os olhos.

Como eles sabiam tanto assim de dragões? Por que as informações eram sobre como os abater? Por que usavam táticas tão violentas enquanto eu conseguia levar os dragões para o navio com conversa e carinho? Não era necessário aquelas celas. Por que eles nunca me falavam sobre para a onde iam os dragões sendo que até a criada que cuidou de mim sabia?

Então, eu percebi que se quisesse respostas certeiras, eu teria que parar de ser a garotinha inocente. E eu fiz isso, comecei a perceber que todos os homens são iguais, ego grande e uma boca maior ainda, era fácil embebedar a tripulação e não foi necessário um esforço muito maior para os fazer falar depois, e eles disseram, o quanto eu era idiota e burra por ter acreditado neles tão cegamente, como todos riam pelas minhas costas, "pequena salvadora", era mais a "pequena iludida", que na verdade eles eram todos caçadores, que cada dragão que eu tinha salvado, cada um tinha sido vendido ou usado como material para a construção de Osso Voador e que os próximos seriam usados para fazer armas para eles. Eu não aguentei mais, fui para o meu quarto e chorei, chorei tanto, e Luna podia ver toda a minha tristeza e ela também tinha entendido que os amigos dragões que ela havia feito já não estavam mais conosco. Depois de toda tristeza, veio a decepção, eu percebi que tinha que ir embora, levantei com um pulo da cama e fui arrumar as minhas coisas, mas parei e olhei bem para tudo o que tinha, minhas roupas, meus livros, tudo tinha sido vindo daquela gente ruim e não queria ter mais nada relacionado a eles, então peguei apenas o meu caderno de desenho, e os poucos pertences que tinha relacionados a minha vila antiga. Assim, quando eu montei na sela de Luna para nunca mais ver aquela gente, veio a raiva, mas a minha raiva foi tão grande, mas tão grande, que eu não podia ir simplesmente embora, eu precisa ouvir da boca dele, de Ragnar, de como ele me enganou e me fez acreditar em todas as suas mentiras. Então decidi, pela última fez ter uma conversa com ele.

*FLASHBACK*

Morgana se escondia nas sombras, Luna logo atrás, apesar de ser um dragão, as suas escamas tão escuras quanto a noite a ajudavam bem a se camuflar, além disso, ter embebedado a tripulação mais cedo acabou contribuindo muito para que não tivesse um guarda a vista, Ragnar também tinha um ego grande demais, não pensava que alguém teira coragem de ir atrás dos Reis dos Caçadores, apelido que Morgana também havia descoberto naquela noite.

Morgana se esgueirou para mais perto da grande porta que dava acesso aos aposentos do caçador, podia ver a luz acessa e pela fresta, viu o bandido sentado em sua mesa, Viggo e Ryker não estavam no navio, eles estavam nos vizinhos, acompanhando a última carga. Vendo aquele homem, tão sem preocupações, Morgana quase desistiu, não sabia como confrontá-lo, mas ao se virar para ir embora, algo chamou a sua atenção, bem do lado da porta estava apoiado o Osso Voador e ela não aguentou, aquilo era a prova de todas as mentiras e só fez a raiva toda voltar.

Ragnar levantou a cabeça quando viu a porta se abrir lentamente e a viu a morena, junto com a Fúria da Noite bem atrás, ele arcou uma sobrancelha, confuso ao ver o olhar dela e da dragão, ambas estavam de cara fechada, e a dragão, em posição defensiva.

— Morgana? O que você esta fazendo acordada ainda? Amanhã temos uma nova missão para você, precisa salvar um Tufão Merangue nas ilhas do Sul. — Ele voltou a atenção para os papeis a sua frente.

Para a surpresa dele, a menina soltou uma gargalhada.

— Nossa, eu realmente foi idiota demais por acreditar nessa história ridícula.

Aquilo fez Ragnar abandonar completamente o que estava em sua mesa.

— O que você disse?

Morgana andou lentamente até o Osso Voador que estava mais perto dela da porta, o pegou e voltou para frente da porta.

— Sabe, se você não tivesse dado esse nome ridículo para isso, eu poderia ter ficado mais algum tempo sem saber de tudo.

Para, agora, surpresa da menina, o homem apenas relaxou as costas na poltrona.

— Oh, então você finalmente descobriu tudo. — Ele falou aquilo com tanta casualidade que só irritou ainda mais a morena.

— Finalmente? Finalmente?! Vocês mentiram para mim! Por Thor, você me disse que estava ajudando, que estava salvando! — Ela praticamente cuspiu as palavras com ódio.

— Ora, mas você estava ajudando, só que não era o lado que você achava. — Ragnar levantou e fez menção de se aproximar da garota, mas Luna soltou um rosnado, a dragão não iria mais deixar que o homem se aproximasse de sua humana, nunca mais. Ragnar deu de ombros e se voltou para um canto da cabine, chegando perto de algumas caixa, ele as começou a abrir. — Você me deixou ainda mais rico, não sei o porque de se importar tando assim com esses répteis, nossas espécies são inimigas naturais, sempre foi assim, eu só resolvi lucra com isso.

— Você é nojento! — O desgosto era visto no semblante da menina. — Você os matou e ainda usou os ossos para fazer uma arma contra eles! — Ele apertou o laço do Osso Voador.

— Ah querida, eu fiz muito mais. — Ele tirou uma pequena bola de dentro da caixa, parecia envolta em algum tipo de tecido. — Esta vendo isso? É uma nova criação minha, não foi testada ainda, mas tenho certeza que vão me render um bom dinheiro no mercado negro, bombas de gás Ziper-Arrepiante, cortesia da sua ultima "salvação".

Morgana sentiu seus ombros caírem em desolação, não podia ser, ela se lembrava do dragão, ela o havia tirado de uma praia, a asa estava quebrada, ele era azul, tão claro quantas as águas dos oceano, ele havia confiado nela, mesmo quando ela o fechou em uma jaula, acreditando que ele seria levado a um curandeiro, como disseram a ela. Nunca esqueceria o olhar final de alívio que o dragão a tinha dado, acreditando tanto quanto ela que ele estaria melhor. Lágrimas voltaram a cair dos olhos da criança.

— Você é um monstro!

— Ah por favor! — Agora o caçador estava irritado. — Eles são só animais, nós a raça dominante! Não precisa ficar tão sentimental, além do mais, você é ótima no seu trabalho, uma cavaleira de dragões, tão útil. Quando Viggo quis te salvar, eu achei desnecessário, mas quando ele me mostrou o filhote de Fúria da Noite no seus braços, sabia que você teria algum potencial,iria esperar até que você tivesse idade o suficiente, mas você parecia tão animada, tão cheia de vontade de ajudar, que eu vi uma oportunidade, então tive que criar a minha pequena mentirinha, mandei que os meus dois filhos te ensinassem, a ler , a lutar, e eu te ensinei sobre os dragões, tudo para que você trabalhasse para mim. Cheguei a pensar que depois de alguns anos, você pegaria gosto pela coisa e não se importaria com a mentira.

— Mentira? Você me enganou completamente e ainda queria que fosse anos assim?! Eu achei que por você aceitar Luna, não tinha como odiar os dragões assim.

— E eu não os odeio, criança, amo todo o dinheiro que eles podem me dar. Além do mais, eu teria vendido Luna quando ela tivesse o tamanho suficiente, mas como você aprendeu a montar, foi muito mais proveitoso para os meus bolsos.

— Você teria feito o quê?!

Aquilo tinha sido a gota d'água. Vender Luna! Sua melhor amiga, sua família. Mas a garota respirou funda, já havia ouvido tudo o que tinha que ouvir, até chegou a pensar que Ragnar poderia se sentir mal por mentir para ela, que realmente a tinha visto como uma filha, mas ela sempre foi só uma arma em potencial, nada mais que isso. E tinha servido o seu papel direito. Mas não mais, sairia dali para nunca mais voltar. Ela se virou para a porta.

— E a onde você pensa que vai? — A raiva era presente na voz do homem, Morgana não sabia se era porque ela estava saindo ou se era porque ainda estava com o Osso Voador em mãos.

— Eu já ouvi tudo que você tinha para cuspir para mim, eu vou embora, daqui e da vida de vocês.

— Você pensa que pode simplesmente sair assim, ainda mais com algo que pertence a mim? — Ele apertou mais o objeto redondo em sua mão, devido a raiva.

— Você mandou fazer o Osso Voador com dragões que eu... — Ela engoliu em seco. — ... capturei, ele pertence a mim.

Aquilo fez uma veia de raiva aparecer no rosto do homem, se tinha uma coisa que Ragnar era, era ser processivo, o que era dele não podia ser tirado e tudo o que ele queria era dele, e não seria uma criança a mudar isso.

— Você, sua pirralha, é minha, a sua dragãozinho é minha, essa arma é minha e você só vai sair desse navio se eu quiser!

Morgana podia ver que o homem já não raciocinava direito devido a irritação, mas ela era melhor que isso, ela apenas suspirou, olhou calmamente para o homem e começou a dar as costas de novo e aquilo foi o máximo para o caçador.

Tudo aconteceu muito rápido, Morgana sabia que ele estava bravo e podia fazer algo imprudente, mas ela ficou surpresa quando viu o homem levantar a bomba acima da cabeça e lançar em direção a menina, sem qualquer outro tipo de opção, Morgana apenas colocou o Osso Voador na sua frente, tentando ao máximo proteger a si e a Luna, que por seu tamanho, não havia cruzado a porta com a menina, mas estava parada do lado de fora.

Ragnar realmente não tinha pensado na consequência de suas ações, pois quando o bomba se chocou com o material duro do bumerangue, ela ricochetou e se abriu no ar, ele desviou o olhar para o lampião acesso sobre a mesa, mas já era tarde demais, talvez se fosse apenas uma bomba, o estrago não teria sido aquele, mas haviam caixas na quela sala, não havia outro final.

A explosão foi tão grande que Viggo e Ryker não tinham como não ver, estava tudo tranquilo, uma noite como outro qualquer após uma boa aquisição, eles bebiam e riam, quando o navio principal, aquele que estava o seu pai, se despedaçou completamente e uma fumaça verde subiu aos céus. Completamente sem reação, os dois irmãos viram os pedaços de madeira flutuando no oceano após a fumaça começar a abaixar, nenhum ser humano poderia ter sobrevivido aquela explosão. Viggo apertou os punhos e desviou o rosto, pensou o pior de seu pai, e confirmaria isso mais tarde ao acharem só corpos sobre a água, mas algo não fazia sentido, o seu irmão e ele sabiam da nova invenção do pai, e aquela fumaça verde não poderia ser outra coisa, assim a primeira coisa que passou na sua cabeça foi que eles tinham sofrido um ataque, seu pai nunca seria imprudente assim de deixar que aquela explosão tivesse sido um acidente, a não ser que alguém tivesse causado aquilo com o intuito de matar o seu pai.

— Viggo! — Viggo se virou para o irmão ao ouvir Ryker praticamente rosnar o seu nome, o irmão mais selvagem apontava para o céu, Viggo segui a direção e franziu a testa ao ver um dragão no céu, era um Pesadelo Monstruoso azul, sabia que o irmão não faria tanto caso de um dragão comum assim, então percebeu que Ryker na verdade apontada para o que o animal carregada e apesar da distância, Viggo pode ver que era um Fúria da Noite e um humano, e ele sabia muito bem quem eles eram. Contudo, o que realmente surpreendeu o viking e fez a raiva subir por todo o seu corpo era o bumerangue gigante que estava preso ao corpo incoincidente de Morgana. Agora eles sabiam o que tinha acontecido, e aquela menina iria pagar por isso, não importa quanto tempo leve, ela iria pagar por ter matado o Rei do Caçadores.

*FIM FLASHBACK*

— E foi assim, agora vocês sabem a minha história com essa escória de vikings. — Morgana terminou seu relato e finalmente ergueu a sua cabeça, para a sua surpresa, Cabeça Dura e Cabeça quente estavam com lágrimas nos olhos.

—Eu não entendo. — Perna de Peixe começou. — Como vocês sobreviveram?

— O Osso Voador pode ser considerado um escudo perfeito, até melhor que Ferro de Gronkel, mas o que realmente nos salvou foi o fato de que Luna e eu estávamos na porta, a explosão me jogou para fora da sala, Luna acabou me envolvendo com o corpo dela, como dragões são a prova de fogo, não sofremos tantos danos além do impacto, o navio acabou afundou, inconsciente, Luna não podia fazer nada. E no final, pela segunda vez, sem eu saber o por quê e nem como, Amarok apareceu e nos salvou, ele retirou Luna e eu do meio dos destroços na água e eu acabei perdendo a consciência depois disso.

— E Ragnar? — Astrid fez a pergunta que estava na cabeça de todos.

— Ele estava próximo demais dos explosivos, não tinha como sobreviver... Agora vocês sabem como eu sou uma pessoa horrível.

— Morgana. — Astrid chamou ao se ajoelhar na frente da morena. — Você não tem culpa de nada, você foi enganada durante muito tempo, ainda era muito pequena para duvidar das pessoas que te salvaram, e a morte de Ragnar foi culpa dele mesmo.

— Como vocês podem não me olhar com nojo ou horror?

— Porque você é nossa amiga agora! — Foi Cabeça Quente que falou agora.

— É, se ficarmos bravos com vocês quem vai cozinhar para gente. — Cabeça Dura completou.

Morgana deu uma leve risada em meio as lágrima, Astrid chegou mais perto e a abraçou.

— Não importa o motivo, você faz parte do time agora e é a minha melhor amiga, nunca vamos deixar você, ok?

Morgana assentiu e enterrou o rosto no ombro da amiga para chorar. Perna de Peixe fungou e limpou as próprias lágrimas. Eles a tinham aceitado, apesar de tudo o que ela fez, de tanta dor que ela havia causado, eles ainda estavam dispostos a ser a sua família, se havia alguma dúvida do amor que Morgana sentia por essas pessoas, ela morreu agora, e por causa desse amor, ela jurou tirar todos dali, junto de seus dragões, nem que ela tenha que encarar o seu passado mais uma vez.

Notas finais
esse capítulo se chama O passado (parte 1), mas que o próximo não vai ser uma parte 2, o resto da história da Morgana vai ser ainda contada em seu tempo durante a série, porque ainda tem muita coisa para dizer como o que aconteceu com ela depois dos caçadores, o que aconteceu com a sua vila e muito mais, eu já tenho tudo isso não minha cabeça e posso dizer que estou apaixonada em como a história que vai se encaixar certinho, espero que vocês também gostem na futuras atualizações kiss.