When Smiled You Knew
2 Capítulo 2-The girl with sad eyes.
Notas iniciais
Enjolras se apressou ao subir as escadas da biblioteca.Suas aulas haviam acabado e ele queria estudar,tudo bem que sua mãe havia pedido para ele aparecer no almoço,para não ser motivo de seu pai falar,mas ele não se importava.
Mesmo o pai dele ameaçando deserdá-lo ,ele não se importava,não ligava para o dinheiro do pai,aquele dinheiro não podia comprar a satisfação que ele sentia quando lia Kafka ou qualquer outro grande escritor ou quando ele se sentava e discutia com seus amigos teorias políticas no Café Musain.
Enjolras cumprimentou a bibliotecária e se dirigiu para a mesa perto da janela que sempre estava vazia,mas chegando la ele teve uma surpresa.A mesa estava ocupada por uma garota que estava entretida demais em seu livro para perceber a presença dele.Enjolras se sentou e colocou seus livros encima da mesa,ele respirou fundo e foi para outra realidade,onde ele não deveria ser outra pessoa sem ser ele mesmo.
Enjolras fazia notas de quase tudo,ele tinha medo,como todo leitor,de se esquecer,alguma passagem ou uma questão.Ele rabiscava tudo em um caderninho preto,com uma caligrafia elegante sem ao menos olhar para o caderno.
Foi só quando ele foi pegar a garrafa de água de sua bolsa,que ele percebeu que a garota sentada ali o encarava,não ele exatamente mas o que ele estava lendo.Ela obviamente não queria ser vista,mas quando ela percebeu que ele a encarava,esticou sua mão e tocou o livro com a ponta dos dedos,como uma criança tentando alcançar o pote de biscoito.Ele a encarou.
Surpreendentemente ela não corou ou pareceu envergonhada.Ela apenas endireitou os ombros e ajustou os óculos quadrados no nariz.Enjolras olhou para o rosto dela,ela era bonita,e parecia que ele já havia visto.A beleza dela,era do tipo que se passasse na rua não chamaria atenção,você teria que olhar bem.Mas ele não tinha como ignorar que tinha algo diferente nela e em como ele tinha a sensação de já tê-la visto antes.
–Dostoiévski- ela murmurou –Podrostok.Esse é bom,mas não o melhor,eu o li mês passado- as palavras que saíram da boca dela pareciam forçadas,automáticas .-Tem problemas com seu pai?- Enjolras não sabia como respondê-la.- Eu gosto de Dostoiévski,mesmo depois de dois séculos o que ele escreveu vale para os dias de hoje.Você sabia que ele se inspirou no escritor francês Victor Hugo?
Era estranho para ele uma garota que lê Dostoiévski,e ele tentou ignorá-la,mas um leve sorriso brotou nos seus lábios.
–Não,eu não sabia.E eu estou começando.E adoraria não ser interrompido.Obrigado.-ele acrescentou um pouco ríspido.
–Por acaso você tem o mesmo pensamento que ele sobre as mulheres?Eu acho interessante como ele sempre mostra a aversão que ele tem as mulheres,mas depois ele percebe que elas são necessárias,ele sempre acaba encantado com elas,mas sem nunca perder o pensamento inicial de aversão.Ele sabe admitir que somos poderosas.
–Interesseiras é a palavra.Interesseiras é completamente diferente de poderosas- Enjolras falou sem olhar para a garota.
–Pois eu digo poderosas.Vejamos no caso de Os irmãos Karamazov...o que uma mulher foi capaz de fazer para conseguir o que queria.No fim todos os homens faziam o que ela mandava na casa e eles nunca descobriram que ela se deitava com todos.Uma pena ele ter morrido antes de terminar o segundo- ela suspirou.
–Ela se prostituia.Grande jeito de conseguir o que quer.
–Machista.- ela falou.-"...Não gosto de mulheres;são vulgares,desastradas,sem iniciativa e,para completar,se vestem de forma grosseira!"–Enjolras levantou a cabeça e a garota esta com o queixo apoiado na mão com um sorriso brincando nos lábios -"Não é para rir"–ela engrossava a voz para parecer de um homem falando-"No teatro,no parque,no passeio público,a mulher,ou melhor,a dama da sociedade,avança pelo caminho como se os homens fossem obrigados a se desviar dela.Um homem sempre dá passagem a outro.Tudo bem,estou disposto a abrir caminho a criatura mais fraca,mas o problema é o ar de arrogância que elas têm.Depois,se alguém as contraria,reclamam de igualdade!Ora essa!E a vulgaridade das roupas?"– a garota fazia caras engraçadas e gestos exagerados tirando risos do tão serio Enjolras que desistiu de prestar atenção no livro para observar a garota de braços cruzados.-"Aquelas saias enormes que se projetam para trás e so servem para ostentar a beleza de forma agressiva.Claro,além de seguir a ditadura da moda.O marido ganha não sei quantos rublos por ano no Senado para que a mulher passeie por ai com uma seda importada.Sei que isso agrada velhos devassos que seguem atrás delas de língua de fora,mas qualquer garoto fica pasmado.Cuspo no chão quando uma dama dessas passa á minha frente."–ela terminou de citar o trecho do livro inclinada sobre a mesa bem perto do rosto de Enjolras.Ela voltou a se sentar-Então concordas com ele?
–Em grande parte sim.Quando ele diz que vocês são vulgares,desastradas e sem iniciativa.
–Ora,ora,ora.Tens problemas em casa com teu pai e concorda com o pensamento dele sobre as mulheres.
–Quem disse que eu tenho problemas em casa?
–Você esta em uma biblioteca,lendo Dostoiévski,fazendo anotações e conversando com uma estranha em pleno horário de almoço.
–Moro sozinho- Enjolras respondeu voltando a atenção para o livro,desconfortavel com a observação.
–Mentira.Porque se você morasse sozinho você poderia ler na sua casa,mas o fato de você estar aqui mostra que seu pai não aprova suas leituras.E se você morasse sozinho por que você estava escondendo seus livros no casaco quando esbarrei com você semana passada?- Enjolras olhou surpreso para ela.Então era por isso que ele tinha a sensação de que a conhecia.Ela tinha novamente o sorriso que não alcançava os olhos- Você se identifica com Dostoiévski.Eu também,por mais que eu não concorde 100% com o pensamento dele sobre as mulheres.
–Você está certa.Agora eu realmente gostaria de poder ler o livro mademoiselle.
Enjolras voltou a ler e eles ficaram uns minutos em silêncio.
–Não vai me perguntar o que eu estou lendo Monsieur?
–Eu realmente não me importo...-Enjolras falou escrevendo no caderno- mas ja que faz questão.O que esta lendo mademoiselle?
Ela trocou o livro sem ele perceber e o levantou.
Enjolras engasgou com a água que estava bebendo ao ler o titulo.
–Os Monólogos da vagina?
A garota soltou uma risada.
–Não,esse é para um trabalho e se fosse qual o problema?Tem problema com a palavra vagina?-ela perguntou achando graça do tom escarlate que o rosto de Enjolras ganhou.
–Não tenho problema nenhum...agora que livro está lendo?- ele perguntou perdendo a paciência,essa garota chega,pega sua mesa e ainda não o deixa ler em paz.Será que ela não sabe que estão em um biblioteca?
Ela passou o livro para Enjolras e ele estudou a capa.
–Le deuxième sèxe.Simone de Beauvoir- ele leu em voz alta.- Então você é feminista?- ele perguntou olhando para cima.A garota estava do seu lado mexendo nos seus livros.
–Eu não sou – ela respondeu sem olhá-lo –Só acho interessante o pensamento dessas mulheres e o que elas tem a dizer.- ela pegou um dos livros na mão- Sartre, L'être et le néant eu o adoro,terminei de ler esses dias.
–Eu ainda não o li,e adoraria conseguir terminar esse para começá-lo.- ele falou,e novamente o subconsciente dele gritou “Seja legal”.
–Você sabia que eles se conheceram aqui?- a garota perguntou voltando a se sentar,ignorando o comentário de Enjolras.
–Eles quem?
–Sartre e Beauvoir.Como assim você não sabia?- ela perguntou incrédula.
Enjolras respirou fundo.
–Não,mademoiselle.Eu não sabia.Agora sem querer ser grosseiro eu realmente gostaria de ler,que foi para isso que vim até aqui.Com licença.
–Claro – ela respondeu esticando a mão e pegando o livro que estava lendo.-Volte para a sua leitura e que o céus não o deixe ter um vislumbre da realidade.
Que seja,ele pensou,e voltou a sua leitura,ate que ouviu a garota sussurrando.
–Ela era necessária.Os outros eram temporários.Eu quero ser necessária.- ela repetiu a frase cinco vezes sem tirar os olhos da pagina do livro.
–Você precisa de alguma coisa?- Enjolras perguntou,por mais que ele pediu para ela ficar quieta,ele não conseguia tirar a voz dela da cabeça e se concentrar em Dostoiévski.
Ela se virou lentamente para ele.
–Non,monsieur.Me desculpe se eu o atrapalhei.- ela balançou a cabeça se repreendendo.
Ela finalmente ficou em silêncio e Enjolras olhava de canto de olho na esperança que ela falasse de novo,que quebrasse o silêncio entre eles com um sorriso que dessa vez chegasse aos seus olhos e algum comentário sarcástico.
Mas ela não falou,ela não tirou mais os olhos do livro,as vezes olhava para sua xícara de café e a levava a boca,e Enjolras percebia esses pequenos movimentos,quando ela arrumava o óculos no nariz,quando ela arrumava o cabelo,quando virava a pagina do livro,quando se arrumava na cadeira.Ele não sabia por quê mas tinha consciência da garota a pouco centímetros dele.
Ela olhou para o relógio do celular e soltou uma exclamação se levantou apressada e juntou suas coisas colocando na bolsa e saiu andando rapidamente.Enjolras em um impulso se levantou e correu atrás da garota.
–Mademoiselle- ele chamou e ela o olhou enquanto estava inclinada soltando a bicicleta- se esqueceu isso comigo na semana passada.- Enjolras tirou o mapa do casaco.
Ela sorriu para ele pegando o mapa e segurando a mão dele
–Então foi você que pegou meu mapa?Muito obrigada por devolver,achei que não o veria mais.O que seria de mim,andando por Paris sem meu mapa?
–Uma garota sem rumo?
–Sem rumo eu já sou...todos somos sem rumo.Rumo é uma meta que traçamos na nossa mente e que nem sempre dá certo,não existe rumo.A não ser que você queira muito que se torne algo concreto.- ela falou voltando para perto da bicicleta vermelha dela e colocando o capacete.Ela se virou e olhou nos olhos de Enjolras- Você é sempre prestativo assim com as garotas sem rumo?- ela perguntou montando na bicicleta.
–Eu...eu- ele não conseguia falar,não sabia o que falar.Para começo ele nem sabia o nome dela- Qu...qual seu nome mademoiselle?
–Je suis Éponine- ela respondeu sem olhar para trás e indo embora.
–Je suis...- Éponine não deu tempo dele responder,ela já estava longe- Enjolras- ele murmurou enquanto observava ela sumir.
Enjolras balançou a cabeça e voltou para dentro e tentou se concentrar em Dostoiévski,mas ele ainda sentia o toque da mão de Éponine.
Éponine era um bonito nome.Combinava com ela.Éponine.
Ele se lembrou de uma conversa que ele teve com Combeferre uns dias atrás sobre seus sentimentos por Augustinne. “Esse é o problema com esse tipo de garota Enjolras,elas parecem inofensivas,a beleza delas não é de se chamar tanta atenção.Elas não tem uma multidão de caras aos seus pés...mas elas tem algo fora do comum.Como colocar uma mecha do cabelo atrás da orelha,ou como as bochechas delas coram com algum elogio.Ou quando elas abaixam o olhar quando o seu encontra o delas.Ou como elas assopram o café antes de levar a xícara a boca.E são nesses pequenos detalhes que você percebe o quanto elas são bonitas,charmosas e sexys,com a sua simplicidade e je ne sais quoi.E quando você percebe o que aconteceu mon mi,já era.Você já perdeu a batalha.Você esta domado e é prisioneiro daqueles olhos que escondem milhões de segredos que você anseia em descobrir”.
Enjolras achava que era besteira tudo aquilo.Achava que o amigo estava ficando louco,estava passando tempo demais com Jehan Prouveire e estava se tornando um romântico estilo byronismo.
Mas agora ele estava começando a entender.Mas não seria possível,eles só encontraram duas vezes e sabe-se Deus quando se veriam novamente.Ele so devia estar a achando interessante,porque era uma garota misteriosa,que falava tudo e nada ao mesmo tempo,que era doce e sarcástica.E que tinha um bom gosto literário.
Enjolras saiu da biblioteca eram mais de oito horas,e tinha esfriado muito.Hoje ele teria que ir direto para casa,todos seus amigos tinham compromissos:Marius com Cosette.Combeferre com Augustinne.Joly tinha que estudar para prova,Jehan ia com seu grupo de cavalariços fazer serenata embaixo de alguma sacada para alguma pobre garota que iria querer se matar com a musica horrivel.O único que ele sabia que encontraria no Café Musain era Grantaire que provavelmente estaria bêbado demais para ter qualquer conversa civilizada que não acabasse com ele gritando “Tô bêbado mas não perdi a ruela,aqui ninguém toca!” e desmaiando logo em seguida.
Enjolras entrou pela porta da cozinha e encontrou seus pais ali conversando.
–Filho – a mãe o olhou –Esperamos você para o almoço.
–Me desculpe fiquei preso na faculdade.
–Na faculdade ou vadiando com aquele seu grupo de amigos?- perguntou seu pai
–Pelo menos meus amigos e eu não estamos tirando dinheiro de quem precisa igual ao seus amigos.-Enjolras rebateu.
–Vocês não vão discutir de novo isso.Está quase na hora do jantar.- a mãe dele implorou.
–Não,mamãe.Não vamos.Agora se me dão licença vou para o meu quarto.
–Isso é tudo culpa sua.Criamos um mau elemento,se você não o mimasse tanto ele não seria esse tormento,que é contra o governo e pensa que pode mudar alguma coisa.Ele é so um moleque.Se cai no ouvido dos meus colegas que meu filho despreza e quer destruir o próprio pai o que vão pensar?- ele pode ouvir o pai da escada e preferiu ignorar.
O pai de Enjolras era um dos deputados e desde que foi eleito,a casa se tornou um inferno.Enjolras costumava admirar o pai por querer ajudar as pessoas,agora havia se tornado apenas mais um ladrão sujo na política.Ele que deveria se envergonhar,não o contrario.
Já no seu quarto,Enjolras deixou sua bolsa encima da cama e se deitou pensando em Éponine.O que faria para tirá-la da cabeça?
Talvez se dormisse resolvesse e quando acordasse ela não passaria de um sonho belo que nunca aconteceu.
Enjolras colocou a mão nos bolsos do casaco e sentiu um pequeno pedaço de papel,ele o tirou,pensando ser alguma anotação dele,mas ao invés disso tirou um papel de bilhete vermelho escrito com uma letra miúda.
“Eu estarei sendo feminista se eu disser que estarei aqui amanhã?E aí ainda acha que não temos iniciativa?”
Enjolras prendeu a respiração e leu aquela frase varias e varias vezes.Ele apertou o papel sobre o peito e soltando a respiração ele percebeu que Combeferre tinha razão.Ele havia sido domado e aprisionado
Notas finais
Acho que isso é tudo.
Xoxo.
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