Whatever It Takes, I Will Be With You.
1 Dormindo sobre a vida.
Notas iniciais
Os efeitos já não eram os mesmos de algumas horas atrás, quando fui espetada. Na escuridão tão confortante da noite, eu nunca soube não falar com a consciência. Mas, dessa vez, havia um corpo cansado, exausto e uma mente em disfunção.
Respirar era difícil e, no sentido literal da palavra, era terrível. Eu estive disposta a ser considerada uma louca suicida, mas a sorte (ou o azar) me ajudaria mais tarde. Ajudou um pouco, posso dizer assim.
Ainda me sinto viva, porém destruída.
Passar os dias sem me mover, sem falar, sem saber o real e o imaginário, amenizou ou, quem sabe, adiou meu prévio adeus, embora eu sinta que aos poucos, me vou...
Eu vago por mundos criados, ideias inoportunas, e um quase-medo que se faz sempre presente: viver depois do que ocorreu. Não é que a minha história tenha sido tão ruim, não é que eu tenha sido uma menina má, não é que eu tenha chegado ao fundo por causa de alguém ou alguéns e sim por que o destino é tecido de surpresas.
Para alguns, ótimas surpresas. Para outros, como eu, castigos.
Eu devo ter merecido. Ou não.
Doença? Não considero doença o vazio que se acomodou em mim agora. Só falta constatarem que, no meu estado impossibilitado de comunicação ou gestos, devanear é um distúrbio!
...
Algumas vezes desejo ir, já que o próprio vazio não será preenchido. Se desaparecer aos poucos é inevitável, então que toda a honra seja citada ao pronunciarem meu nome, que toda a coragem seja lembrada ao relembrarem o que eu fui, porque eu não desisti. Eu não desisti por mim ou pelos outros. Eu não desisti por conta do meio termo. O meio termo que melhor se define em medo, novamente o medo.
O medo de ir-se e nunca mais voltar.
Para onde? Fazer o quê?!
Não, pensando bem, não é exatamente um medo e sim um receio. Não temo morrer. Não temo deixar. Eu temo ser deixada, abandonada... É isso o que o silêncio ecoa durante as noites. Eu estou sozinha? Talvez. Se estar sozinha é sentir-se sozinha, então eu estou.
Todavia, eu já havia dito, não é culpa de qualquer ser. Nem minha, nem deles. É o que foi programado e desprogramar tudo agora seria em vão.
É uma bomba-relógio prestes a explodir...
Eu não sei o início e menos ainda o fim. Eu não sei as razões e isso seria o pior sobre toda essa guerra que travei comigo mesma, seria o martelo que bate com toda a força em minha cabeça e só me deixa sumir daqui quando durmo, relutante por causa das substâncias que entram em minhas veias e circulam por dentro, mantendo o meu controle. Ou tentando mantê-lo.
Meu nome é Susan e me encontro em um hospital.
Pra ser franca, já me imaginei nessa situação por outros motivos, mas sofri um grave acidente. Estou aqui há dias e ouço vozes, vejo pessoas, mas não me comunico.
Sim, em coma.
Aparelhos, dores pelas feridas que me foram causadas e nenhuma voz, nada para extravasar a não ser... meus pensamentos. E no meio desses pensamentos confusos, sempre pelas noites, eu choro.
Algo que parecia inofensivo se tornou o meu pior pesadelo. Eu não esperei muito de um simples passeio, mas esse passeio me esperava para cumprir sua tarefa: me trazer para cá.
Ouço sempre dizerem que Deus sabe o que faz. E o que Ele fez comigo, eu ainda não entendi. Se Ele sabia o que fazia, por que eu? ...
De novo. Estou entrando em contradição, citando que eu já havia tido como ideia fixa de que era o destino programado.
Antes era tudo tão certo do que eu pensava, fazia. Depois do acidente, acho tudo sem pé nem cabeça. Contudo, acho válida a minha confusão.
17 anos, acidente de motocicleta, traumas pelo resto da vida e uma porcentagem de 15% de recuperação total de toda a saúde física que antes eu tinha. Não é de assustar qualquer pessoa, de qualquer idade? É.
Eu me lembro pouco do dia em que me acidentei, mas lembro bastante de como eu estava me sentindo feliz. O mundo finalmente parecia sorrir.
Liberdade, como amo!
Andava pelas ruas à noite com a moto do meu irmão Raymond, ele finalmente havia me emprestado. Mas... eu não estava sozinha. Esqueci de lembrar que perigo existe em qualquer canto. Assim, quando a irresponsabilidade não-querida me veio à tona, eu já estava aqui.
Não lembro quem, não lembro como. Por isso não culpo ninguém, nem a mim mesma. Quem preveria tamanha desgraça?
**
Eu era uma adolescente normalzinha até. Bebia, fumava de vez em quando e tinha um namoradinho chamado Harry.
Digo tinha, porque depois dessa, eu não sei se ainda o tenho. Harry não apareceu no hospital ainda e ele sabe do ocorrido. Somos vizinhos, como ele não saberia?
Comecei novamente a me sentir triste. Primeiro, por causa do acidente; segundo, por Harry e terceiro, por mim.
Houve um tempo em que me excluí do mundo, foi quando pensei em suicídio. Mas foi o Harry quem me salvou de mim mesma e sem ele... eu estaria absolutamente sensível ao toque do beijo da morte.
Se antes era chato por ser apenas um motivo, que era a relação pouco amigável entre eu e familiares, agora eram quatro: Harry (que antes me salvara e agora me ajudaria, inconscientemente a pretender o fim por alguns momentos), o acidente, minha família torta e eu.
Sobre o acidente, ouvi diagnósticos dolorosos à meu respeito.
"Ela vai ter sequelas na coordenação motora. Ela vai usar sonda para se alimentar. Ela corre o risco de não andar nunca mais. Ela não sei o quê, ela não sei o que lá."
Quanta consideração com meu lado humano e sentimental!
Comentar isso perto de alguém no meu estado acreditando que eu me esqueceria se ouvisse ou que eu não estivesse até mesmo ouvindo era anti-ético, eu considero.
Médicos hoje em dia são tão... desumanos. O mais irônico é ver como eles fazem de tudo para salvar uma vida, mas acabam com a mesma em questão de segundos, mentalmente falando, ao detectarem um futuro sem expectativas sobre o antes e o depois.
Ok, é certo que a verdade prevaleça, mas não, não é certo fazer isso perto de um acidentado, o mais necessitado de saber como tudo se resolverá. Nesse caso, eu prefiro a distância da verdade. Prefiro sabê-la depois.
Enquanto eu estiver deitada e "vegetando" dentro do meu coma, com meus olhos abertos e atentos e ouvidos ativos, eu só aceito minhas confusões, tristezas que já existiam, as que passaram a existir e lamentações pelo que virá com a recuperação, acreditando na recuperação, ainda assim por causa de Harry, já que ele me importa mais do que qualquer coisa no mundo, mesmo mantendo-se ausente de mim quando mais preciso.
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