What Comes After [HIATUS]

9 Capítulo 8, "Fall to Pieces" - Parte I


Notas iniciais
Atrasadíssima, eu sei! E lamento por isso, mas sei que explicação alguma pode suprir ou apagar o erro da minha demora. Porém estou aqui, firme e forte e com um capítulo para vocês que, adivinhem só, será divido em duas (ou três!) partes! Feliz Natal e Ano Novo atrasado, espero que vocês sejam super felizes nesse 2015 e desejo tudo que possa haver de melhor para cada uma! Vocês são maravilhosas! O próximo capítulo vai chegar super em breve, eu prometo. E, lindas da minha vida, o grupo no whatsapp já está feito! Quem quiser entrar por favor fale comigo e mande o número! Eu ando soltando uns spoilers lá e até uns pedacinhos dos capítulos. Sem falar que é super gostoso interagir, então espero por vocês. O convite está feito! Quero lembrar que graças a minha demora e peso na consciência, não revisei o capítulo. Então me perdoem pelos erros. Agora, sem mais delongas, aí está:

"– Gale está vindo?"

Minha pergunta muito se assemelha a um sussurro; tão baixa que eu mesma mal posso me ouvir. Chega a ser assustadora a possibilidade de Gale vir para casa, ainda que só para uma visita, tão cedo.

– Sim, querida, não sabia? – Hazelle me analisa, franzindo as sobrancelhas, parecendo achar estranho.

Eu nego com a cabeça delicadamente. Meus músculos de repente parecem ter ficado imóveis. Estou estática e diria até que desacreditada.

Minha voz acaba saindo da minha boca, sem que eu possa me dar conta disso, para que eu esclareça o motivo da minha surpresa.

– Eu e Gale não nos falamos há algum tempo.

Por mais que eu tenha ficado bastante aliviada em saber que ele estava no distrito 2, existe uma parcela de dúvida em mim que indaga se é realmente alívio o que estou sentindo agora que sei a respeito de sua volta.

Para mim, ainda é difícil não ligar a morte de Prim a Gale. Pelo contrário, é uma tarefa árdua a qual eu nunca sei se posso ou não sair por cima. Eu nunca soube ao certo como controlar meus sentimentos, ainda mais quando se tratavam de acesos de fúria. E, inevitavelmente, lembrar que minha irmãzinha foi feita de tocha humana por causa de uma bomba do meu ex melhor amigo provoca esse tipo de aceso às vezes.

Quando essa raiva não toma conta de mim, eu sinto falta da época que era feliz na floresta com ele ou então o quero o mais distante possível.

– Imagino que ele vá lhe fazer uma visita – ela afirma, pondo uma caneca na minha frente e enchendo-a com um líquido fumegante.

Trêmula diante de tal eventualidade, respondo, sem nenhum débil fio de esperança que possa sequer pensar o contrário no fundo da minha cabeça:

– É provável.

Conforto não é uma palavra que eu usaria para descrever minha atual situação. Estou confusa com os meus sentimentos e tenho medo deles oscilarem o bastante para que eu cometa erros irreparáveis. Tenho medo de acabar de vez com a sanidade de Peeta, e machucar Gale outra vez ou não machucá-lo como deveria. E, mesmo com um leque de opções, nenhuma delas me parece agradável.

– Bem, vamos direto ao ponto então. O que os trouxe aqui?

Hazelle se senta na cadeira à minha frente com uma xícara cheia de desenhos, como a que tenho em mãos. Eu beberico meu chá e só então limpo a minha garganta para que eu possa falar direito.

– Haymitch não consegue mais se manter sóbrio, como sempre, e a casa está uma zona novamente. Acaba que o trabalho sujo sobra para eu e Peeta – suspiro, rolando meus olhos. – Antes poderíamos lidar com isso, porém nós já temos duas casas para cuidar e eu ando querendo parar de dar tanto trabalho à Greasy Sae. Então como você já cuidou da casa de Haymitch, supomos que seria uma boa ideia perguntar se aceitaria o trabalho novamente.

Hazelle sorriu dócil para mim.

– É claro que eu aceito. Vai ajudar bastante e irá me tirar um pouco mais de casa – ela alargou o sorriso e eu retribuí.

– Do jeito que andam as coisas, você podia ir três vezes por semana, e, se houver alguma melhora por parte do Haymitch, o que eu duvido muito, passa a ir de duas em duas.

Ela solta uma risadinha para então responder:

– Está ótimo para mim.

Sorrio, tomando um gole do chá.

Conversamos durante algum tempo. Hazelle conta sobre a reconstrução da cidade, das pessoas que estão voltando aos poucos e preenchendo as casas vazias, e então me põe a par dos feitos do governo, dizendo que tudo está correndo muito bem.

Gale manda uma pensão mensalmente que vem do seu trabalho e dos ganhos pelos serviços prestados na Rebelião. Ela diz que agora pode comprar mais brinquedos para Posy, dar uma vida melhor às crianças e que não tem mais tanta preocupação com a falta de comida. Isso tudo somado ao fato da alta probabilidade de emprego para Rory.

Eu fico incomensuravelmente feliz. Ver as coisas dando certo às vezes me leva a um surto de felicidade que eu particularmente gosto. Se um dia eu lutei por algo foi por isso; para tirar as pessoas da miséria e injustiça em que se encontravam.

– É ótimo saber que está tudo indo tão bem, faz valer a pena para mim depois do que houve – digo com um suspiro. Hazelle põe a mão sobre a minha e aperta em forma de consolo, ela sabe das minhas dores. O canto dos meus lábios repuxa num sorriso frouxo e inseguro, ainda assim é um sorriso.

Ela abre a boca para dizer alguma coisa, e é nesse momento que Peeta aparece na porta da cozinha com Posy empoleirada em seu colo. Ele está fazendo mais barulho que a própria. Tenho dificuldade em saber quem tem um sorriso mais feliz nos lábios.

– Mãe, mãe! – Posy diz, sem conseguir conter a agitação. – O Peeta é o Sr. Dingols!

Eu, sem querer, acabo rindo ao ouvir sua frase.

Quando olho para Peeta percebo que nunca o vi dessa maneira. Ele nunca pareceu tão lépido, nem mesmo antes do telessequestro, quando ainda era o mesmo menino com o pão. Sua reação ao ouvir a doçura e a adoração na voz daquela criança o deixa tão contente que chego a me surpreender quando percebo que ele poderia colocá-la num pedestal.

Ele nunca, em nenhuma circunstância, esteve feliz desse jeito.

– Filha, por favor, você já está bem grandinha para ficar no colo – Hazelle adverte, após ter rido comigo do "Sr. Dingols".

– Mas eu gosto, mamãe – ela murmura com a voz arrastada e fazendo manha, se agarrando ao pescoço de Peeta que a recebe de bom grado e rindo ao vê-la pôr a cabeça em seu ombro.

– Está tudo bem, Hazelle – ele assegura, fazendo cócegas na cintura dela que ri dengosa. – Assim eu ganho mais chá.

– Como é? – pergunto, não me contendo e colocando minha própria xícara de lado.

– Estamos fazendo algo parecido com um chá da tarde. E se eu carregar essa mocinha aqui para cima e para baixo e ela ficar bem felizinha, eu ganho mais chá.

– Isso é inédito – digo.

Sorrio para eles, vendo Peeta se agarrar a Posy como se a felicidade dele dependesse disso. Embora eu sinta que, de alguma maneira, isso é verdade. A palavra criança sempre foi uma das suas favoritas e agora eu entendo o porquê.

**

Acabamos fazendo o caminho mais longo de volta para casa quando eu finalmente convenço Peeta, ao afirmar duas ou três vezes, que estou mesmo bem e que posso olhar a cidade sem ter nenhum ímpeto preocupante.

Eu quero ver a regeneração do Distrito, pois toda vez que contemplo as casas e lojas ressurgindo do cimento tenho um tênue momento de satisfação.

Desde que deixamos a casa de Hazelle, meu receio em não conseguir esconder a vinda de Gale fortificou-se. Mas, no instante em que consigo parar de pensar no assunto, é fácil ocultar o sentimento que crescia dentro de mim. Peeta não pode nem desconfiar do que está para acontecer ou então eu acabarei tendo que dormir sozinha, coisa que eu simplesmente não permitirei.

– Preparada para perder? – Ele pergunta com um sorriso brincalhão nos lábios.

Eu o olho já cantando vitória.

– Preparada para comer muito!

Ainda resta algum caminho para que cheguemos a Vila dos Vitoriosos, e há algo em Peeta que não permite que eu não sorria quando ele também o faz. Ele tenta esporadicamente me arrancar alguma risada minha e imagino que a causa disso seja sua própria felicidade. Estar com Posy parace ter o feito bem.

– Você só pensa nisso! – ele acusa, rindo da minha careta.

– É claro que sim – digo, rindo também.

Conforme andamos e eu paro de prestar atenção nas construções, percebo, somente agora, que as pessoas mantêm seus lóbulos oculares vidrados em mim e em Peeta, fazendo com que eu me lembre de que ainda sou um tipo de celebridade que nunca quis ser.

Ser dona de tamanha atenção nunca esteve na minha lista de coisas preferidas no mundo.

Devo ter passado tempo demais focada no trabalho dos operários governamentais para não me preocupar em ser o centro dos holofotes novamente. Todavia, uma coisa é certa: ainda odeio que as pessoas fiquem me olhando deste modo; como se quisessem saber todos os meus honorários.

Num lampejo, olho para Peeta querendo saber se ele percebe o que está havendo, entretanto ele apenas tem um sorrisinho meigo nos lábios, com a sua simpatia típica sem dar nem um terço da importância que eu dou. Preciso de um esforço para dizer a mim mesma que ele é quem está certo.

As pessoas que estão me olhando agora não são os monstros da Capital que me jogaram numa arena para lutar até a morte em prol do entretenimento unilateral.

Mas, mesmo que eu diga isso, ainda dói. Ainda há uma dorzinha pungente no meu coração e ainda existem momentos nos quais eu preciso separar o presente do passado e tentar arrancar o pesar de dentro de mim. Tentar não ceder aos meus fantasmas internos que vêm e vão.

É aí que Peeta me tira dos meus devaneios.

– Eu estou pensando em reconstruir a padaria. O que você acha?

O olho e imagino que haja um enorme brilhos nos meus olhos.

Eu apenas não posso conter a emoção. Eu sorrio. Abertamente, livremente e mais espontaneamente que em anos. Essa simples frase significa tanto que mal posso me dar conta do tamanho colossal da euforia que consome cada parte do meu corpo.

Essa sua simples ideia é uma prova de que estamos conseguindo seguir em frente. É uma prova de que a Capital não nos destruiu completamente. Tirou muito de nós, isso é verdade, mas não foi capaz de roubar tudo. Porque é nesse momento que vejo a faísca de esperança que cintila em seus olhos com o meu entusiasmo abrupto.

Abraço Peeta com uma força que eu jurava não poder ter. Em momento nenhum pude achar que estaria assim, tão fora do que eu julgo ser normal para mim. Tão conhecedora da felicidade.

Ele ri comigo e, de repente, parece que estamos mesmo felizes. É a esperança de que o amanhã possa ser melhor que o dia de ontem. Tenho um sentimento bobo, como se nosso passado fosse feito apenas de boas lembranças. Nada de perdas, dores, nem problemas.

– Foi a melhor ideia que você já teve – sussurro contra o seu corpo quando finalmente consigo me controlar. Seu aperto em torno de mim se intensifica e eu permito a mim mesma me esconder no seu abraço e me aconchegar nas suas roupas quentes.

– Eu fico feliz que você faça parte disso – murmura, ao afastar sua boca dos meus cabelos. Eu nada respondo, apenas o aperto contra mim mais uma vez, levantando a cabeça por um segundo para o olhar e sorrir levemente. – Eu fico feliz que você esteja comigo.

– Eu não poderia estar em qualquer outro lugar – digo rapidamente, antes que perca a coragem que há dentro do nosso surto de romantismo. Porque quando este acabar, eu quero que Peeta tenha algo para lembrar e afirmar para si mesmo o que sinto por ele. Para que ele não se esqueça da veracidade que há na minha última frase.

Quando eu estiver deitada na minha cama sem conseguir obter motivos para levantar, não quero que ele saia porta à fora certo de que deve desistir de mim. E para que isso aconteça ele precisa lembrar dos nossos bons momentos. Precisa lembrar de que ainda há esperança. Precisa se lembrar de nós.

Finalmente o solto do nosso abraço, e ajo como uma criança quando toco em seu ombro e digo "Está com você!". Saio correndo como se a liberdade estivesse a meu alcance, como se nada pudesse mais aprisionar o júbilo que há em mim.

Mantenho uma velocidade quase infantil por conta da perna de Peeta, mas ele ri atrás de mim quando me envolve com os braços depois que diminuí ainda mais a corrida.

Eu lhe dou um tapa fraco por seu falso cansaço e então Peeta me abraça mais forte, me virando na sua direção. Está tão contente quanto eu. Tenho uma débil visão da entrada da Vila dos Vitoriosos no instante em que ele cobre meus lábios com os seus e aí sou dominada totalmente pelo contato.

Por mais inusitado que pareça, quem corta o beijo sou eu.

Abro os meus olhos para que então eu possa me deparar com os seus infinitamente azuis. Peeta sorri e move delicadamente seu polegar para o meu queixo, deixando nossos lábios mais uma vez na mesma altura e depositando um último e singelo beijo, antes que eu desgrude nossos lábios outra vez.

– Devíamos fazer isso mais vezes – diz baixinho, com sua boca próxima à minha.

Não reajo por um segundo, somente quando acabo exprimindo certo contentamento diante da possibilidade, o que, de algum modo, me faz corar. Peeta ri baixinho ao ver minha reação e segura a minha mão, ainda sorridente, e fazemos o breve caminho que resta até a casa de Haymitch.

Como de costume, nem batemos à porta. Adentramos a casa como se fosse nossa e vamos direto para a cozinha, onde Haymitch tem o hábito de ficar. Nunca entendi por que tamanha afeição dele por aquela parte da casa, embora eu acredite que tenha a ver com as facas que alojam-se ali.

Talvez ele ache mais fácil dominar os pesadelos dessa maneira. Perto de objetos cortantes ou de coisas que possam, na teoria, o manter seguro.

Eu passo os olhos pela casa me perguntando como meu ex mentor conseguiu colocá-la de cabeça para baixo em menos de três dias. Por mais que eu esteja feliz, é impossível não bufar ao constatar o que ele fez. É o cúmulo.

Eu com certeza deveria ter pedido que Hazelle viesse hoje mesmo.

– Melhor você acordá-lo – digo para Peeta ao ver Haymitch dormindo com a sua cabeça apoiada na mesa de madeira. – Dá última vez que eu o fiz ele surtou.

– Você sabe que isso tem a ver com a água gelada que jogou na cabeça dele, não é? – indaga, numa tentativa mínima de fazer piada, porém mal escuto o que ele diz.

A minha atenção acaba tornando-se toda de Haymitch. O sufoco que emana do homem que dorme a poucos metros de mim toma conta do meu corpo. Sei exatamente o que ele está passando. Entendo cada uma das suas dores. E, de repente, tudo que quero é me afogar nas minhas.

Eu ainda consigo sentir cada tremor que vivenciei na época da turnê da vitória; consigo ver os pesadelos passando, um por um, pela minha mente. É estranho sentir a sensação de felicidade vacilar dentro de mim, como se estivesse prestes a dar adeus sendo que acabou de chegar.

Aperto a mão de Peeta, tentando preservar o meu estado ameno. Entretando, conservar qualquer tipo de alegria não é fácil. Não agora.

– Ei, você está bem? – ele questiona. Balanço a minha cabeça e tento dizer algo sem sucumbir à tortura interna.

– Só o acorde, por favor.

Eu só quero ir embora, penso. Só quero que pare de doer. Em mim e nele.

Ele solta a minha mão, deixando-me na entrada da cozinha. Anda até Haymitch e, sem muita brutalidade, começa a mexer em seus ombros. Demora cerca de cinco segundos até que nosso ex mentor pule da cadeira eufórico e assustado, e então abra um pequeno corte no rosto de Peeta.

Assim que vejo o sangue correndo pela sua bochecha, caminho em passadas largas até o banheiro, onde lembro-me que há uma caixa com curativos. Conforme volto para o lugar onde estava segundos antes, tento não pôr nada no centro dos meus pensamentos.

– Desculpe, garoto – Haymitch diz com a voz arrastada. Parece preocupado. Tenho certeza que se importa com Peeta, mas sei que não é esse o motivo da preocupação que existe nos seus olhos.

Não, é claro que não é. São os Jogos. As baixas.

Vou até a mesa e abro a pequena caixa que ponho sobre ela. Puxo Peeta para a pia da cozinha comigo, abrindo a torneira e pedindo para que ele lave. Com a gaze, limpo rapidamente o corte que não tem muita profundidade nem grande comprimento, contudo conseguirá sem dificuldades entrar para a lista de cicatrizes dele. Passo um dos remédios para desinfetar e logo depois coloco um curativo pronto sobre o risco presente em sua bochecha esquerda.

Quando meus olhos recaem sobre meu trabalho, é inevitável não lembrar de Prim e da minha mãe. Me pergunto como ela está no 4.

– Eu vou sobreviver – Peeta diz, fazendo-me me correr para longe do meu estado emocional preocupante. Mas, muito embora eu tente, não consigo sorrir com a brincadeira.

Vamos nos sentar nas cadeiras dispostas em volta na mesa, observando Haymitch que tem os lóbulos oculares presos em algum ponto distante na direção da porta que dá para o quintal. Eu sei que ele se sente mal, sei que não teve a intenção. Peeta, talvez, saiba ainda melhor que eu. E é por isso que vejo nele a necessidade consolar Haymitch pelo incidente.

Todavia, tem alguma palavra que possa ser dita? Algum consolo que possa apartar ou amenizar a culpa e o sofrimento?

Tratando-se de todas as mortes que Haymitch já viu nos Jogos nos quais era mentor, de presenciar várias vezes a experiência de quase morte, de fazer parte da crueldade dos Jogos Vorazes... existia algum maldito dicionário que pudesse conter uma palavra que ao menos chegasse perto de afastar um sentimento tão latente?

A atitude com a faca foi um mero reflexo originado de uma vida duradoura no Distrito 12; na antiga Panem.

**

– Hoje vocês demoraram, hein?! – ele consegue dizer, depois de um longo tempo no qual passamos sentados esperando-o criar forças para retornar à realidade. Ele toma um gole do conteúdo de uma de suas milhares de garrafas de licor, sentado à mesa com um expressão não muito contente, apoiando a cadeira nos pés traseiros. Troco um olhar com Peeta antes de eu mesma abrir a boca para responder e ser interrompida no ato. – Decidiram assumir?

Ele aponta a garrafa de bebida para algo em nossa direção e eu sigo a linha imaginária, vendo que seu fim é justamente na minha mão entrelaçada à mão de Peeta sobre a mesa.

Minha resposta às suas palavras seria repelir a mão dele, como se estivesse pegando fogo em contato com a minha. Mas, dado o dia de hoje e o recente acontecimento, eu simplesmente a aperto mais. Não dando a confirmação de um relacionamento nem de nada, porque nem eu mesma sei se quero, mas dando uma certeza cega à mim de que é disso que preciso. É disso que preciso para não sucumbir à todo estrago que me foi causado.

Olho para Peeta que parece surpreso diante do meu intenso aperto em seus dedos.

– Eu ainda estou aqui, vocês se importam?

– Na verdade, não – eu digo cínica, abraçando Peeta para desafiá-lo.

Prefiro fazê-lo se exaltar com brincadeiras do que permitir que ele continue correndo para os seus fantasmas. E estando dessa maneira com Peeta, percebo como meu peito fica aquecido por esse júbilo absurdo que lembro de ter sentido esta manhã.

Por alguns segundos duvido que eu esteja sã.

– Eu vou expulsar vocês à base de gansos – rosna.

Nós rimos ao vê-lo dessa forma. Significa, ocultamente, que já está melhor. Que já está em seu estado normal.

– Pode se acalmar, Haymitch. Não encostarei sequer um dedo na sua docinho – graceja Peeta.

– Ah, ótimo. Imagina se eu iria querer ver o que vocês dois arrancando as roupas na minha cozinha.

– Como é?! – questiono, adquirindo vários tons de vermelho.

Como se não bastassem os meus recentes pensamentos inapropriados, vem Haymitch verbalizar a ideia conseguindo, assim, deixá-la ainda mais constrangedora.

Meus beijos com Peeta, depois de toda aquela história de amantes desafortunados, nunca foram nada além de beijos. E abraços. Além disso, ficar nua na frente de alguém que não seja parte da minha equipe de preparação soa como uma piada para mim. Durante muito tempo não me senti à vontade com isso e acredito que nunca conseguirei. E, como se toda essa história já não fosse incongruente o bastante, há ainda a permissão para toques no meu corpo.

Não, não e não. Isso não vai acontecer.

Eu nem mesmo gosto de pensar no assunto. Às vezes, como agora, suponho que jamais serei capaz de fazer isso, independente do tamanho do meu querer. Há breves resquícios de medo em mim e eu não tenho ideia de onde vêm. Há vozes em mim que quase gritam dizendo o quão absurdo é.

Repilo com o maior gosto todos os pensamentos sobre o assunto, deixando de lado tudo que envolva, sem a menor intenção de fazer quaisquer debates internos depois.

– Então, Haymitch, nós fizemos uma visita à Hazelle – Peeta muda de assunto imediatamente, movendo toda a atenção de nosso ex mentor para a sua fala.

– Fizeram, é? – profere as palavras com doses de sarcasmo. É notável que ele não está nem um pouco animado com a ideia.

Sem um pingo de paciência tomo a fala.

– Sim, fizemos, e ela virá amanhã. Goste você ou não.

Evito olhar para Peeta, pois sei a exata quantidade de repreensão que está em sua íris. E sei também que hora ou outra eu provavelmente lhe darei um tapa por causa desse olhar. Talvez minha impaciência com Haymitch vá para Peeta.

– Acontece, queridinha – diz, fazendo pouco caso –, que a casa ainda é minha e eu decido.

Olho no fundo dos olhos do meu ex mentor quando vou responder.

– Haymitch, escuta bem. Eu não vou permitir que esta casa transforme-se num chiqueiro e muito menos que você viva nele. Não estou com tempo para ser sua babá e, além disso, ter que ser sua faxineira. A babá aqui, desde que voltamos ao 12, era para ser você. Não o contrário. Então, sim, Hazelle vai vir. A decisão não é sua.

Haymitch bebe uma dose exagerada de licor no mesmo segundo em que Peeta me faz olhar para ele e ler seus lábios que dizem: "pega leve".

Tento relaxar, entender que meu ex mentor não está fazendo por mal. Tento de todas as formas falar de maneira calma, porém soa impossível. Eu sei perfeitamente que não sou compreensiva e sim manipuladora, e que, de modo algum, dou o braço a torcer. Então não, não sou capaz de pegar leve, ainda que eu saiba o que se passa com ele.

– Docinho, eu não estou pedindo que banque a babá nem que faça nada disso. Então será que você parar de armar esse circo à troco de nada? – ele pergunta, um tanto furioso. Aperto a mão de Peeta novamente, já que estou quase atacando meu ex mentor.

– É o seguinte, Haymitch. A Katniss tá totalmente apreensiva com o seu estado de saúde e com a sua possível deterioração, ainda que ela não queira admitir isso. Então vamos fazer do jeito fácil e não deixar que ela estoure seus miolos por uma coisa boba como uma faxina, certo?

Agradeço Peeta com um gesto de cabeça. Ele sempre saberá ser sutil, doce e bom com as palavras, independente da situação em que esteja. O seu poder de persuasão é intocável. Eu confesso que admiro isso. Não temos uma resposta após a prescrição dele, entretanto sabemos que Hazelle poderá vir amanhã sem nenhum problema.

Minutos depois Haymitch esquece da nossa mínima discussão e voltamos a conversar normalmente. Comentamos sobre a cidade que está se reerguendo das cinzas, como as crianças brincam num novo parquinho que fizeram e como as pessoas têm voltado apesar de tudo. Ele fala pouco e pergunta se abriram alguma loja de bebidas e fica insatisfeito com a resposta negativa. Peeta tenta balancear dizendo que ao menos quase todos os comércios já voltaram à ativa, mas ele continua demonstrando desinteresse.

E mesmo que ele não evidencie, percebo que está tão feliz quanto nós dois.

**

Estamos indo embora. Peeta está ansioso para ir ao Edifício da Justiça, eu devo uma ligação ao dr. Aurelius e também prometi que ligaria para Effie para saber se ela poderia ajudar com os materiais da padaria. É claro que teríamos alguns problemas com todo o luxo e todos os enfeites excessivos típicos dela, porém seria só questão de mandar de volta para a Capital depois.

Quando já nos encontramos em frente à porta, eu me dou conta de que temos uma interrogação para ser resolvida.

– Ei, Haymitch – digo, já cantando vitória e lançando meu melhor sorriso presunçoso para o garoto ao meu lado. – O Peeta não cozinha melhor que qualquer pessoa nesse distrito?

Por um segundo ele nos olha desconfiado pela minha pergunta nada com nada.

– Sim, é claro. Inclusive só venha mandar comida aqui para casa quando tiver sido preparada por ele, porque aquela sua gororoba... – Ignoro a provocação dele e sua falta de educação para com a minha comida e me volto para Peeta. Com Haymitch eu me resolveria depois.

– Eu acho que você terá que ir ao açougue – esbanjo ironia quando o olho nos seus olhos. Ele retribui o sorriso amplo que há no meu rosto e então concorda.

– Então é melhor eu já ir andando, não acha?! – Assinto com a cabeça à medida que abrimos a porta sem nem nos despedir de Haymitch.

Somente Peeta quem se dá ao trabalho de dizer um "tchau", enquanto eu rio sozinha, feliz com a vitória. Ele me abraça de lado e eu me retraio por um milésimo de segundo, permitindo logo depois que meu corpo reaja positivamente ao afago. Não posso evitar responder aos seus mimos.

– Ele estava bêbado, Katniss – sussurra contra os meus cabelos.

– Golpe baixo, eu sei. Mas de nada impede a minha vitória – o olho ainda sorrindo. Ele abre a boca para responder, mas a frase parece perder-se em sua boca.

– Está certo, então. Te vejo mais tarde. – diz, beijando meus cabelos uma última vez antes de ir. Acompanho sua caminhada aos portões da Vila dos Vitoriosos até que esta já não pode estar mais presente na minha visão.

Estou feliz, essa é a verdade. Mesmo que eu tenha me deixado abalar mais cedo, não consigo conter esse sentimento radiante em mim.

Ando até a minha casa em pouquíssimos passos e cumprimento Greasy Sae quando a vejo na sala arrumando algo sobre uma das mesinhas ao lado do sofá.

– Teremos cozido de carneiro para o jantar! – aviso, toda contente. Greasy Sae me analisa por um segundo.

– Você parece estar muito bem.

Sorrio de lado, sabendo que não apenas pareço, como também estou muito bem. Ela então volta-se para a mesinha outra vez e eu a acompanho com os olhos, sentando-me enquanto o faço.

– Há algo errado? – pergunto, um tanto curiosa. Normalmente só tem um vaso ali, o telefone e uma gaveta que não guarda absolutamente nada importante.

– Não. Apenas chegou esta carta endereçada à você e ao Peeta.

Assinto, estendendo a mão para pegar a carta um tanto receosa, o que explica o fato de eu não olhá-la realmente. Primeiro me pergunto quem seria capaz de endereçar uma carta à mim e Peeta, já que, para o resto de Panem, nós não estamos mais juntos. Suponho que, talvez, o remetente apenas consiga se agarrar aos poucos fios de esperanças que a vida às vezes deixa.

Leio a frente do envelope. Annie Cresta. Distrito 4.

Não quero ter que pensar muito a respeito do nome e a respeito de tudo que ele traz à tona, por isso rasgo o envelope de uma vez e pego o seu conteúdo. Não é exatamente uma carta.

Trata-se de uma foto. Com uma pequena legenda.

"Conheçam o meu Finn."

Prendo a respiração. Sinto que vou me sufocar. Passo incontáveis segundos sem deixar que o ar entre em meus pulmões e só consigo respirar no instante em que a situação no meu corpo está crítica. Mas... o que eu estou fazendo respirando quando uma criança recém-nascida e indefesa crescerá sem pai por minha causa?

Notas finais
Quero a opinião de vocês porque eu escrevo essa fanfic não só com as minhas ideias, mas também com as de vocês. Luvs, espero do fundo do peito que tenham gostado. Essa Katniss feliz me mata de amores e adoraria que fosse sempre assim. Bem, é só isso. E mais uma vez quero lembrá-las do grupo, meus amores. Enfim, me aguardem que logo logo me verão! hahaha. Caso não queiram entrar no grupo e queiram falar comigo, meu twitter é @lwrenci. Estou sempre lá! E se tiverem qualquer dúvida e quiserem falar sobre WCA, mas estiverem com vergonha de dar as caras, venham cá http://ask.fm/lwrenci. Eu amo falar com vocês! Bem, lindas, até mais.