What Comes After [HIATUS]
15 Capítulo 12, "Don't Go Away"
Notas iniciais
São cerca de três minutos. Três minutos até que cheguemos à estação da Capital. Peeta está sentado na sala, papel em mãos e um lápis que parece ser específico para o desenho que ele está empenhado em fazer. Haymitch foi até o bar que há noutro vagão, mas isso foi na noite passada, quando pegamos o trem das 21h. Tentamos tirá-lo de lá de madrugada, fazê-lo dormir um pouco, a fim de que ele tivesse uma aparência um pouco melhor quando chegasse à mansão presidencial, no entanto, tudo que conseguimos foi uma conversa que 40 segundos que envolveu gansos, pão doce e carrinhos de licor. E, é claro, Haymitch jogado no chão — ainda com um copo de bebida — com a pior cara que já vi.
Eu aperto o manto grosso que uso contra o meu corpo, me aconchegando no calor que ele provém. Suspiro, absorvendo as primeiras imagens da Capital após anos. Nada mudou. Absolutamente nada. Um calafrio percorre minha espinha, ainda que as roupas façam o seu trabalho de me aquecer. Embora Peeta tenha me dito que uma vida inteira já se passou desde que estive aqui para a 74° edição dos Jogos Vorazes, eu tenho as mesma sensações que já me dominaram uma vez, num passado não muito distante. Parece que serei jogada numa arena para lutar até a morte outra vez. Como se, de repente, eu fosse obrigada a morrer — o mais lentamente possível — para a diversão alheia.
– É desgastante. – Saio da janela onde estive até o momento e digo as palavras junto a um suspiro que sai inconscientemente.
Não consigo estar feliz na atual situação. Estou furiosa, pra ser honesta. Com raiva o suficiente para me enfiar no quarto mais próximo e fazer a coisa mais estúpida que posso: chorar. Bancar a pessoa altruísta não é — nem nunca foi — algo do meu feitio. Fingir, por outro lado, não é nem mesmo uma possibilidade.
Peeta, que agora tem rugas na testa devido a atenção que dá ao desenho que faz com tamanha concentração, olha para mim e põe o caderno de lado. Ele vem ao me encontro, abrindo os braços, totalmente preparado para me confortar. Eu quase consigo esquecer que um dia ele foi telessequestrado; que um dia ele me odiou tanto a ponto de querer me matar. E como em todas as noites, me sinto segura quando ele me envolve e acaricia minhas costas.
– Relaxa, ok? – Seus dedos afagam meus cabelos. – Não vai ser fácil. Eu sei como é árduo lidar com lembranças, mas eu vou estar aqui. E são só alguns dias. A gente pode voltar também, a hora que quiser, você sabe.
– É só... é complicado. Eu sei que você tem noção do quão horrendas são as circunstâncias para mim.
Peeta assente, erguendo meu queixo e beijando meu rosto, numa promessa clara: "Estou aqui. Sempre." Decidido a não deixar eu rememorar toda a agonia, ele diz:
– Acho que nossa maior preocupação agora é tentar tirar Haymitch daqui sem nenhum estrago.
– Então temos que dar um jeito nisso agora – respondo, já vendo a escuridão do túnel que consome o trem. Estamos, praticamente, na estação da Capital.
Vamos até o vagão bar e não posso evitar sentir falta de Effie e do seu comprometimento com horários. Isso não aconteceria se ela estivesse aqui com seu sotaque e eficiência. Quando achamos Haymitch, ele está com uma garrafa de aguardente em mãos, sentado em um dos bancos dispostos pelo cômodo.
– Chegamos – eu digo.
– Ótimo – bufa, com escárnio. – Nada mais revigorante que estar na Capital – sua voz não está embolada. Ele até parece melhor em comparação a madrugada de hoje. Se levanta — sem se despedir da garrafa — e caminha com a gente até a porta. Não falamos nada, porque nenhum de nós tem cabeça para isso agora. Estamos ocupados demais sentindo o ódio e a dor subirem pelas nossas veias.
Nossos pertences, por sinal, serão levados para o carro por guardas, coisa que me alivia um pouco.
Não há absolutamente ninguém na estação quando a alcançamos, enfim, exceto por dois guardas em suas vestimentas escuras que nos cumprimentam brevemente e nos escoltam até o carro que nos levará à mansão.
Tento não me importar com a paisagem conforme a viagem relativamente curta. Tento não manter meu olhar preso num mesmo ponto durante muito tempo. Mas é preciso muito esforço da minha parte para que eu não sucumba à aflição toda as vezes que olho para janela.
– Estive pensando – Peeta sussurra, tirando-me dos meus devaneios. – O aniversário do Haymitch está chegando, devíamos fazer algo especial.
Nosso ex mentor está no outro lado do carro, à nossa frente, sem se importar nem um pouco com qualquer outra coisa que não seja sua preciosa bebida.
– Como o quê, por exemplo? – entro na nossa redoma, a fim de que minha cabeça tome outro rumo que não seja a Capital.
– Um bolo de álcool, talvez?
Sorrio.
– Isso existe?
– Não que eu saiba, mas poderia tentar. Talvez licor pudesse ser a cobertura.
– Seria imperdível.
– E aí, tá dentro?
– Pode crer.
Peeta continua a puxar assunto, falando sobre banalidades, como o nosso quintal que andava descuidado e precisava ser aparado. Depois ele comenta sobre um possível namorado de Delly, o que me faz sorrir um pouco. Ela merecia, apesar de toda aquela conversa fiada sobre o quão legais são as pessoas me deixe a ponto de bala. Em dado momento, Peeta pergunta sobre uma coisa que eu não fazia ideia de que lembrava.
– Você ainda tem aquela pérola?
– Ela era a minha única companhia quando você... eu estive no 13 sozinha – me corrijo. – A única maneira que achei de te manter perto de mim, de alguma forma. Agora ela está no escritório da antiga casa.
Ele sorri para mim, me abraçando forte.
– Sequer passou pela minha cabeça que estivesse com ela por tanto tempo.
– Acho que te amei por mais tempo do que fui capaz de assimilar.
– Eu não posso acreditar no que acabou de dizer. Por livre e espontânea vontade – ele ri de mim e eu olho para o seu rosto e olhos felizes; quase brilhantes. Beijo seus lábios com doçura e lembro do meu pensamento de ano atrás. Um pouco de açúcar não faz mal a ninguém.
– Francamente, isso é demais para mim!
Passamos pelo Círculo da Cidade e o carro para, fazendo com que todos nós olhemos para as janelas.
– Então que bom que chegamos, não é mesmo?! – diz Peeta.
– Nunca achei que pudesse dizer isso, mas sim. Que bom que chegamos nesse inferno – Haymitch sai quase correndo do carro, provavelmente querendo colocar a maior distância possível entre nós.
Estamos em frente à mansão presidencial. Peeta sai primeiro, eu estou logo atrás, segurando sua mão como se minha vida dependesse do ato. Digo a mim mesma para focar a visão em quaisquer lugares, menos em um. Todavia, é exatamente para lá que olho depois de cinco passos que dou. E é a partir daí que meus pés começam a falhar.
Eu miro a direção da barricada que um dia esteve ali. Rememoro, perfeitamente e vividamente, as crianças e os adolescente "protegidos" dentro da barricada. Mantenho meu olhar nessa mesma direção e refaço a bandeira. Minhas mãos pinicam, pois sou capaz de sentir a textura da corda, e novamente assisto um aerodeslizador com a insígnia da Capital se materializar sobre o local. Vejo as crianças indo pelos ares. Os médicos do Distrito 13. Minha irmã. Depois, o cheiro de pólvora me inebria e toma conta do que parece ser todo o meu pulmão. Sinto o calor ardente do fogo que me consumiu de todas as maneiras naquele dia.
Achei que poderia aguentar, mas agora, com a sensação tão vívida em mim, vejo que é impossível. Estou tremendo, posso afirmar. Ou não estou?
Real ou não real?
– Peeta... – murmuro com a voz tão mole quanto meu próprio corpo. O gemido que sai sôfrego pela minha boca faz com que ele me agarre, antes que eu desabe pelo chão.
Sem perceber, eu começo a chorar desesperadamente, nem dando importância ao fato de estarmos em um lugar aberto e do motorista olhar atentamente na nossa direção. Aos poucos, vou perdendo meus sentidos mais comuns.
– Katniss – Peeta procura pelo meus olhos e sua voz soa um tanto desesperada. Mas não posso dizer com convicção, já que meus sentidos realmente não permitem muito e não estão em seu melhor momento. – O que está havendo? Você está pálida – sua mão corre pelo meu rosto e eu suspiro em pura dor. Acho que ele grita alguma coisa que não posso entender para os guardas que estão uns metros a frente, no entanto, não consigo saber se houve algum efeito. A essa altura, mal sustento meu peso sobre minhas pernas e praticamente estou jogada em seu colo; usando-o como meu alicerce. – Ei, amor.
Tento decidir se irei sorrir ou brigar com ele por me chamar de "amor", mas, em vez disso, calo a boca. Não tenho forças para falar nem mentir, considerando que gostei desse apelido e que a menor demonstração de afeto de Peeta me agradou. E, mesmo assim, estou ocupada demais tentando puxar oxigênio, desde que minhas vias respiratórias parecem ter sido fechadas abruptamente. Parece haver fumaça para todos os lados. Mesmo minhas maiores tentativas não desaceleram a minha respiração instintiva — que a todo custo tenta levar uma molécula mínima de oxigênio para o meu corpo — e meu peito que sobe e desce num ritmo desenfreado. O suor já empapa minha blusa fina por baixo do manto de cor escura; posso senti-lo escorrer também pela minha testa. O calor está cada vez mais real e palpável.
Passou algum tempo? Parecem anos nessa tortura a qual me encontro.
Peeta grita outra vez e agora ouço passos, a voz grogue de Haymitch, e, até que eu perca totalmente a consciência e a falta de ar me leve para outra dimensão, ao menos sinto que os seus braços estão em volta de mim.
**
– Ela está acordando.
– Tudo bem. Como combinamos, eu assumo daqui, doutor.
– Avisarei a Presidente sobre o estado da Srta. Everdeen e sua permanência aqui. Depois voltarei para a bateria rápida de exames.
– Ótimo. Obrigado.
Eu pisco o que parece ser um milhão de vezes até me acostumar com a claridade. Tento levantar, mas sou impedida por conta dos fios ligados ao meu braço.
– O quê? – pergunto, segurando os fios sem entender nada. Olho para o lado e vejo a bolsa de soro e a aparelhagem que checa meus batimentos cardíacos, o que apenas reafirma a minha cara de "o que diabos aconteceu?". Minha boca está tão seca que falar é difícil. Peeta, sentado próximo a cama em uma poltrona, tem sua perna boa esticada sobre almofadas. Sinto que milênios passaram-se desde a última vez que abri meus olhos.
– Ei, ei, nada de levantar nem de se esforçar – ele me impede, levantando-se com dificuldade e mancando para o lado livre da cama.
– Sua perna – digo, fazendo cara de interrogação. Não consigo falar devido à secura da minha boca. Peeta estende um copo de água que tira da cabeceira da cama e me dá. Tomo tudo sem titubear e depois o olho aguardando a explicação.
– Te carreguei enquanto esteve desmaiada e posso ter arrumado um pequeno problema com a prótese, mas isso não importa.
– É claro que importa... – ele me corta, com um olhar sério.
– Você teve um princípio de infarto, Katniss. – O olho em choque. – Sua primeira reação pós traumática foi a depressão há alguns anos e o doutor Aurelius achou que seria a única ao fazer sua papelada. Mas parece que essa depressão ocasionou algum estresse que se escondeu em você, e quando você viu a mansão presidencial ele veio com força total pelos motivos que você já conhece. Mesmo após tantos anos sem nenhuma reação, seu estado mental não aguentou e isso gerou uma alteração na sua pressão arterial e houve uma coagulação sanguínea. Uma arritmia também. O que nos levou a uma única conclusão: um grave problema cardiovascular que quase causou a sua morte.
Eu respiro fundo, ainda em choque.
– Katniss – ele diz, com a voz chorosa e baixa, aumentando assim o meu receio –, você apagou por três dias. Três dias. Você entrou em coma. Eu pude jurar que iria te perder em qualquer momento. Você esteve na ala hospitalar por tanto tempo que precisaram injetar soro nas suas veias para mantê-la hidratada e uma quantidade de morfina descomunal, já que você se convulsionou de dor. Só a tiraram de lá porque eu insisti, dizendo que você não suportaria ficar num lugar como aquele. Precisaram trazer milhares de aparelhos para dentro desse quarto – ele faz uma pausa rápida por conta das lágrimas. – Um dos médicos disse que se não houvesse entrado em coma... Eu... eu não posso perder você. Por favor, nunca mais me deixe fazer isso. Não me deixe permitir que você venha para cá outra vez. A gente tem que voltar pra casa agora e você irá ao médico todos os dias se for preciso para verificar isso...
Ele está chorando e meu coração se aperta diante da cena. Muito embora minha saúde me preocupe, tudo com o que consigo me manter focada é Peeta, que parece ter pegado toda a minha dor, multiplicado por cinco e guardado para ele mesmo. Qualquer problema cardiovascular que eu possa ter adquirido é fichinha, quando conheço perfeitamente a sensação de perder alguém que se ama.
Me movo com muita dificuldade, ignorando a dor, os fios e tudo a minha volta e me agarrando a ele, trazendo seu rosto para junto do meu e selando nossos lábios. Não posso apartar sua dor, porque sei que não posso apartar as minhas próprias. Mas enquanto eu puder amenizá-las está de bom tamanho.
– Está tudo bem agora. Eu não vou deixar você – digo, segurando seu rosto e o beijando no meio tempo. As lágrimas entram em escassez e ele parece estar sendo esfaqueado quando suplica:
– Me diz que você vai ficar na minha vida. Para sempre e mais um dia.
Eu sorrio fraco, aceitando seu carinho. Nunca foi do meu feitio agir desse modo, mas estive numa experiência de quase-morte recentemente e há agulhas em mim no momento, não posso me dar ao luxo de fazê-lo sofrer mais ou omitir meus sentimentos. Não posso suportar a ideia de morrer sem deixar claro que ele é tudo que importa para mim agora. Porque só eu sei o quão grande é a dor da perda.
– Eu ficaria mais dois, até.
Ele me abraça, beija a minha testa e conversa comigo. Diz que não viu quase ninguém por ter ficado comigo todo o tempo que pôde, mas ele soube que todos estão aqui, cientes do meu estado e que a reunião foi adiada graças ao meu quadro. Logo depois ele pergunta se há algum problema em ficar mais um dia para ter certeza que estou recuperada e eu afirmo que podemos ficar até o final, como tínhamos planejado quando soubemos da viagem. Peeta tenta me persuadir, todavia, estou certa de que não posso ficar pior. E, se tiver qualquer outro princípio de infarto, não há lugar melhor para se estar que a Capital. Nos beijamos por mais tempo e a cada segundo eu reparo como ele parece ter sentido minha falta.
Meia hora depois há batidas na porta e em seguida esta é aberta por alguns médicos. Fico nervosa no mesmo segundo, e escondo minha cabeça na curvatura do pescoço de Peeta, pois é difícil olhá-los. Ver suas roupas e não fazer ligações com Prim. Exames rápidos são feitos, checam minha pressão, meus batimentos e me tiram do soro, até que só reste uma única pessoa com jaleco branco no quarto.
– Srta. Everdeen, imagino que o Sr. Mellark tenha deixado claro o seu estado delicado.
O doutor Newsome tem cabelos grisalhos e usa um óculos na ponta de seu nariz. Suas feições um tanto cansadas mostram os anos de trabalho e preocupação, assim como as rugas em seu rosto. Me pergunto como foi sua vida durante a guerra.
– Sem dúvidas.
– Bem, dada a atual situação e sua evidente melhora, irei prescrever alguns remédios para manter sua pressão normal e para o caso de haver qualquer tipo de cansaço que a leve a sentir espasmos, falta de ar e aceleração no peito. De acordo com os exames, não há nada de errado, exceto pelo seu sistema imunológico que está com uma pequena alteração vinda desse seu coma, ocasionado pela depressão. Contudo, não é nada que não possa ser controlado com pequenos cuidados, tais como: caminhada regular, atividades que a tirem da sua zona de conforto e que traga algum de felicidade, coisas que a agradem.
Assinto com a cabeça, tentando anotar tudo mentalmente, mas algo me diz que o doutor está fazendo isso por mim, assim como Peeta que escuta tudo atentamente e me abraçando.
– E, por uma ou duas semanas, seria bom a senhorita resguardar-se – e por mais que a fala seja claramente direcionada a mim, posso ver seu olhar duro em Peeta.
Engasgo com a minha própria saliva de repente.
Assinto novamente, querendo intensamente que isso acabe.
– E vitaminas. Muitas vitaminas e ferro; uma alimentação forte e balanceada.
– Pode deixar.
– Já pedi que trouxessem sua refeição.
– Obrigada.
– Dito isso, a senhorita deve ficar de repouso até amanhã, pelo menos – o olho incrédula. Ele soube que eu fiquei de repouso por três dias e que meu corpo a essa altura já está grudado na roupa de cama? Ignoro meus pensamentos, nos despedimos rapidamente e Peeta levanta-se para levá-lo à porta, para pegar a receita médica e as caixas com comprimidos.
A que ponto eu cheguei?, penso, no silêncio noturno que o quarto assume. Está escuro lá fora.
Odeio estar trancafiada dessa maneira e com um estado de saúde tão precário. Por tantas vezes quis a morte que, agora que ela está tão perto, eu me sinto idiota por ter tentando me suicidar outrora. É injusto pensar que permiti-me estrar na vida de Peeta, fiz — ainda que sem vontade própria — com que ele me amasse e agora posso morrer e deixá-lo com um vazio insubstituível dentro de si. A ideia é assustadora e a morte estúpida.
Minutos depois, um representante da Presidente que parece chamar-se Demétrius comunica que o jantar será servido em uma hora. Rolo os olhos. Eu não posso ir, seu imbecil, tive vontade de dizer. E quando ele está saindo, tenho vontade de tacar um vaso que está ao meu lado, mas alguém entra com um carrinho repleto de comida e, honestamente, eu nem tenho forças para levantar o vaso.
– Ótimo – Peeta diz ao ver.
Eu acabo por não dar muita atenção ao que ele dizer, já que olho para a mulher que trouxe a comida e que, para a minha surpresa, não parece ser uma Avox.
– Se precisar de alguma coisa, basta chamar – a morena diz gentilmente e eu assinto, um tanto pasma pela constatação a qual chego.
– Ela é só uma criada. Os avoxers agora tem todo o direito de trabalhar naquilo que quiserem e puderam voltar aos seus distritos, para as suas famílias.
– Isso sim é ótimo – respondo.
Só percebo o quão faminta estou no segundo em que olho para o arroz com passas que cheira muito bem. E depois o pato com molho de laranjas que parece ser a coisa mais maravilhosa que já vi na vida, assim como o nabo e as batatas que estão em tigelas individuais. Há tantas opções que acabo por me perder, mas dou prioridade a tudo aquilo de mais saudável que está a minha disposição, o que, em partes, aconteceu por conta da insistência da pessoa que está dividindo a cama comigo.
Estamos no final do jantar quando a porta abre num rompante e eu vejo duas pessoas entrarem. Duas pessoas que reconheço automaticamente.
– Você é uma desmiolada! – Johanna diz, vindo até mim e se jogando na cama. Não espero por um abraço ou por qualquer cumprimento que represente um reencontro super amigável, mas sei muito bem o quão feliz ela está e o quanto eu estou por vê-la bem. – E aí, conquistador. Parece que finalmente fez jus ao apelido, huh?!
Peeta somente ri, assentindo com a cabeça.
– Mas não aja como se tivesse sido fácil não. E é bom te ver também.
– Nada de pulseirinhas bacanas agora, né? Eu me amarrava nelas!
Rolo os olhos. Por mais que agora os cabelos estejam loiros e com um comprimento ótimo se comparados aos inexistentes de outra época, ela é só a mesma Johanna de sempre.
– Você diz as pulseiras que declaravam o estado instável dele? – questiono com desdém em relação a suas palavras.
– Ah, fala sério! Eram super moderninhas – ela analisa o quarto, parecendo buscar algo. – Nada de morfina por aqui? Eu podia jurar que a encrenca dessa vez tinha sido tão feia a ponto de você precisar. Fizeram quase um hospital inteiro aqui!
– Ei, calma lá. Parece que já está assinando meu atestado de óbito.
– Não é assim também, só achei que a nossa aliança há um tempo atrás poderia durar, não acha? A divisão de morfina foi o nosso ás.
Já não estou comendo. Johanna consegue me entreter, deixando que eu esqueça meus próprios problemas. Posso ver o quão feliz Peeta está por ver que ela conseguiu superar tudo que todos nós passamos.
Aparentemente, nós não fomos os únicos a nos recompor.
E por mais que eu tenha certeza que ela ainda tem milhares de dificuldades, Johanna está muito melhor.
– Que linda a reunião, estou bem radiante como podem ver. Agora vamos a um assunto sério: docinho, você queria me matar, é isso? – Haymitch, que até então se manteve calado, demonstra ter achado a brecha perfeita para se enfiar na conversa.
Faço instantaneamente uma nota mental da sobriedade que ele adquiriu por um motivo que torna-se claro em minha cabeça: o coma no qual estive por três dias.
– O quê? – ergo as sobrancelhas, em dúvida.
– Ele surtou quando soube do seu coma. Sério, você precisava ver! Ficou andando de um lado para o outro como um louco na ala hospitalar. Só não conseguiu superar o seu docinho de coco aí – Johanna explica.
Preciso me esforçar para não rir, já Peeta nem se preocupa, está sorrindo levemente. E aposto que estaria rindo se a situação não fosse, como um todo, realmente preocupante.
– Eu estou ficando velho para essas coisas. Tenta maneirar.
– No entanto, eu vejo claramente o lado bom nisso tudo, viu, Haymitch?! Sua sobriedade não passou despercebida – digo, recebendo, assim, um beliscão da mulher loira que está perto de mim.
– Vira essa boca pra lá. Quase todo mundo infartou junto com você e, pelo amor de Deus, não aguento mais ver gente morta! Agora me corrija se eu estiver errado, mas para a maioria dos residentes dessa mansão você ainda é a queridinha.
– Posso garantir que nunca foi a minha intenção.
Só de pensar na preocupação que suscitei as pessoas que amo, desejo cuidar fervorosamente da minha saúde. E depois do choro de Peeta, tudo em que consigo pensar é em como não quero ser o motivo dele nunca mais.
– Pelo menos tirou a Paylor daquela rotina insuportável dela! Estou aqui há quatro dias e só a vejo andando de um lado por outro tentando controlar os malditos levantes no distrito. Eu poderia enfiar meu machado na cabeça de cada um desses idiotas que se meteram nessa de Rebelião outra vez. Sem falar que todo esses nadas que vêm acontecendo são um verdadeiro pé no saco. Vir para cá para fazer nada – Ela bufa.
Todos os três pares de olhos viram-se para Johanna no exato instante que ela termina de proferir a segunda sentença. Mas quem por fim pergunta o que todos queremos saber é Haymitch, já que ele não está tão estupefato quanto eu e Peeta.
– Como é, lindinha? Volta a fita, por favor.
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