Notas iniciais
Hello! Estou aqui outra vez, graças a Deus bem rápido, e com um capítulo relativamente pequeno. Mas acontece que eu não quero tornar os capítulos massantes nem redundantes, por isso não estou me estendendo muito. Um agradecimento breve a Pipi, que leu isso aqui e me xingou ao menos cinco vezes em questão de minutos. Eu te amo. Obrigada por esse apoio constante. E galerinha do Joshifer Squad: HAHAHAHAHA, amo vocês, perdão. #VemOscar ♥ De qualquer forma, aí está e, por favor, não me matem!

No começo, é só uma dorzinha aguda que posso suportar facilmente sem me mexer ou fazer qualquer estardalhaço, mas é o suficiente para me tirar o sono no meio da madrugada. Trinta segundos depois, aperto os lençóis da cama, sentindo meu abdômen gritar por algum alívio. Dez segundos após, a cólica é intensa demais para que eu possa aguentar calada.

Começo a me contorcer. É possível sentir cólicas tão fortes no meio da gravidez? Ainda mais com treze semanas?, me pergunto, tentando a todo custo lembrar de ter ouvido Doutor Art falar sobre isso.

Um grito estridente escapa pela minha garganta antes que eu possa impedir. Peeta sobressalta ao meu lado no mesmo instante. Ele coça os olhos, acende o abajur e de repente é como se eu fosse tudo que ele vê.

— Meu bem, o que houve? O que você está sentindo?

Eu quero responder, em vez disso, solto um gemido de dor. O semblante de Peeta apresenta uma preocupação maior ainda no momento seguinte.

— Vem, vamos ao hospital.

Ele retira o cobertor do meu corpo enquanto eu me esforço para me sentar. Solto um grito de horror ao olhar para as minhas pernas.

Sangue. Que jorra continuamente. Estive tão concentrada no incômodo abdominal que nem mesmo senti o líquido escorrer com intensidade pela minha coxa. Peeta está tremendo ao se levantar.

Ele vem para o meu lado, e com lágrimas nos olhos — exatamente como eu — segura o meu rosto ao dizer:

— Eu vou chamar Haymitch. Você precisa de alguma coisa? Você consegue falar?

— Consigo. Consigo sim. Só, por favor, vai rápido, e não sai de perto de mim.

Estou apavorada, essa é a verdade. Não comigo, nem de longe. Eu sou uma sobrevivente. Mas o nosso filho, o filho de Peeta... O sangue pode ser dele. Quais as chances de eu estar o perdendo? Não preciso ser uma especialista em medicina para dizer com convicção que são altas.

Peeta aperta meu rosto e eu vejo como minha angústia está refletida em sua íris. Contudo, nele a coisa toda parece se agravar mais. Não é só o filho, é a esposa também. Meu choro aumenta quando noto isso e ele corre para a porta. Eu berro, então:

— Eu te amo!

Não sei por qual razão. As palavras simplesmente saem, como se por vontade própria. Estou me enganando ao dizer que não estou preocupada comigo. Esse sangramento pode virar uma hemorragia. As cólicas podem não parar. Fecho os olhos, sentindo as lágrimas rolarem com força.

Pego o copo dágua que dorme ao meu lado na cabeceira da cama e tomo num só gole. Minhas mãos tremem, minha camisola está manchada e minhas pernas têm um tom vermelho. O cobertor e o lençol que cobrem a cama são uma poça escarlate. Quem estou querendo enganar? Sou a personificação do desespero.

Levanto-me com pressa, tentando me mexer antes que eu permita que a dor leve meus movimentos também. Me agarro à parede e caminho até a porta. E ela se abre nesse momento, revelando um Peeta preocupado e um Haymitch com rosto inchado e assustado.

— Docinho, que encrenca, hein.

Tenho que concordar dessa vez.

Ele pega casacos no cabideiro de pé e põe um sobre as minhas costas.

— Vem, amor. – Peeta diz com a voz embargada ao me pegar no colo. Meto o rosto no pescoço dele, chorando baixinho enquanto corremos para o hospital. Haymitch fica, fazendo o que parece ser uma mala. Provavelmente para o caso de haver uma internação. Dois ou três minutos depois, no meio do caminho, ele nos alcança e diz a Peeta que pode me carregar e que ele não deve forçar a perna. Mesmo assim, meu marido não me solta por um momento.

Ao chegarmos ao hospital, a primeira coisa que fazem é me tirar dos braços dele e me porem numa maca. Eu choro ainda mais ao sentir a ausência dos braços dele e vê-lo puxar os cabelos enquanto grita que é o meu marido e que tem que estar comigo. Ponho as mãos na minha barriga, quase como tentando confortar meu filho, embora eu nem saiba como a saúde dele está.

É enlouquecedor estar no escuro dessa maneira e ter que lidar com toda essa impotência. Sem saber o que fazer, sem saber o que se está passando e, pior ainda, ficar longe de Peeta bem no meio desse caos.

Duas enfermeiras conversam entre si. Eu aguço a audição tentando compreender algo, mas nada faz sentido. E a coisa toda só piora quando eu pego frases picadas e palavras solitárias. "Aborto". "Saco gestacional". " Ultrassom". "Hematoma". “Provavelmente”.

A incerteza me fere.

Fecho meus olhos, dizendo para mim mesma que vai acabar logo. Porém, nos minutos que se seguem meu abdômen continua a receber pontadas internas. Ao abrir meus olhos outra vez, tudo está borrado. Minha cabeça está girando, a dor finalmente se torna distante. Mesmo beirando a loucura circunstancial, estou na sala do doutor Art, tenho certeza. E ao meu lado há um monitor para ultrassom.

Mas... Onde está Peeta?

Minha cabeça dói. Estou soluçando.

De repente, tudo que enxergo é Prim.

Ela brinca na campina com Rue. Elas escalam árvores. Minha irmãzinha rala o braço à medida que Rue explica como ter mais agilidade para subir. Logo atrás, está Cinna com um vestido amarelo brilhante e outro azul marinho. Prim corre. Rue caminha com mais delicadeza; os mesmos passos desenvoltos e ligeiros.

Finnick agora pendura um balanço na árvore que as meninas antes brincavam. Ele dá nós firmes para que não haja nenhum perigo. Num lago, a um ou dois metros de distância, Mags se senta na beirada e molha o seu rosto. Ela olha para o homem de cabelos castanhos avermelhados com um amor maternal.

Legg 1 chuta uma bola para Boggs. Avisto meu pai, com o mesmo sorriso que um dia conheci, enquanto ele corre para se juntar a eles.

Depois, tudo está em chamas.

**

Acordo gritando por Peeta, sentindo lágrimas rolarem mais uma vez.

— Shh, shh, calma. Estou aqui. Respira fundo – Ouço sua voz e me acalmo subitamente. Me viro na cama e olho para o meu marido, que tem o seu rosto tão vermelho e inchado como estava antes.

Lembro então do sangramento no meio da noite e da corrida até o hospital. A sala branca e familiar começa a fazer sentido para mim.

Peeta aperta minha mão, fazendo com que eu me dê conta de que ele esteve a segurando o tempo todo, enquanto mantinha-se sentado ao meu lado na poltrona de acompanhante. E, de repente, na distância entre meu leito e essa poltrona parece caber um país inteiro. Me sinto desolada.

Busco forças em meu interior para indagar, depois que tomo o copo de água que ele oferece:

— Eu apaguei por quanto tempo?

— Não muito dessa vez. Uma hora.

— Parece ter sido uma vida.

— Para mim também. – Fecho meus olhos novamente. – Como você está se sentindo?

— Não sei, de verdade. Não sinto mais as cólicas, mas... – Me interrompo. E antes que eu faça a pergunta, engulo o choro. – E o nosso bebê?

Ele encara os meus olhos, só para que eu perceba que ele sabe tanto quanto eu.

— Eu não sei, meu amor. Aparentemente estão checando seus exames.

— Peeta... – Abro meus braços, chamando-o para mim. Ele não hesita antes de se apertar na cama comigo. E em um segundo já está me tomando em seus braços, passando todo o calor e aconchego corporal de que preciso, ainda que infelizmente não leve a dor que passa a corroer cada celular que há em mim. – O nosso filho...

Já estou chorando outra vez. Coloco a cabeça em seu peito, soluçando. Demorei tanto tempo para tomar a decisão, fiz aulas de ioga, perdi várias e várias noites de sono, passei três meses inteiros sabendo que uma vida crescia dentro de mim... E a troco do que agora?

— Eu matei o nosso filho, Peeta! Eu não sirvo nem para isso! Ele não me quis! Eu matei até o nosso filho!

Seus braços me envolvem com mais intensidade e eu o ouço fungar antes de afirmar:

— Nunca mais diga isso! Nunca mais, Katniss! Se isso realmente aconteceu, a culpa não foi sua! O nosso filho não morreu por sua causa, você não o matou.

— Ele estava dentro de mim! E eu não consegui nem mantê-lo vivo, eu não consegui proteger esse bebezinho indefeso...

— Meu amor, não foi sua culpa. Não foi! – Ele insiste. Mas nada que Peeta diga me faz tirar essa ideia da cabeça, porque até mesmo ele, sendo o poço de otimismo e esperança que é, está inclinado a achar que nosso bebê não vive mais.

Algum tempo depois, doutor Art passa pela porta. Limpo minhas lágrimas e me sento na cama, me preparando para ouvir o que ele tem a dizer. Contudo, não é como se eu tivesse feito um curso para poder lidar com isso. Eu sei que vou desabar assim que ele disser que o cadáver do meu filho está dentro do meu útero nesse instante.

Peeta segura as minhas mãos e beija a minha testa, conforme eu ponho minha cabeça em seu ombro, tentando controlar o choro que virá a qualquer momento. Choro esse que, agora, eu já não poderei mais culpar os hormônios da gestação.

— Sinto não ter vindo antes. Saí de casa o mais rápido que pude. Senhor Mellark, lamento ainda mais que sua espera tenha sido tão grande. Precisávamos esperá-la. – Ele aponta sua prancheta na minha direção. – O que acaba de acontecer é o descolamento do seu saco gestacional, Katniss. É aquele saco onde eu disse que o seu bebê está crescendo na sua última visita. Infelizmente, ele descolou da sua parede uterina. Quando isso acontece, nós chamamos de hematoma subcoriônico e isso é um início de aborto. O seu hematoma tem três centímetros, e é um tamanho médio se comparado ao saco gestacional. Para que isso suma eu só preciso que você tome progesterona e fique de repouso absoluto. Cama, banheiro e banheiro, cama. Apesar desse susto gigantesco, o filho de vocês está bem. E vai continuar se seguirem à risca a minha recomendação.

Enfim eu posso respirar novamente. É como se somente agora o ar tenha voltado para os meus pulmões e eu tenha estado submersa esse tempo todo. O abraço que troco com Peeta a seguir quase me machuca tamanha a força que ambos aplicamos. Ele sorri para mim depois, tirando meu cabelo do rosto e sussurrando com sua boca rente a minha:

— Eu disse para você, meu amor. O torradinha vai ficar bem. Fomos dois idiotas precipitados.

Eu sorrio para ele e assinto, já com total ciência de que farei tudo que está ao meu alcance para manter o meu filho vivo. Nada nem ninguém vai tirá-lo de mim. Muito menos um hematoma estúpido.

— Aqui está a receita. Basta mostrarem na recepção para que uma enfermeira lhes dê o medicamento. O repouso será absoluto durante quinze dias, e então quero você aqui para fazer outra ultrassom.

— Se o saco gestacional voltar para o lugar pode ser que eu ainda tenha algum risco ao longo da gravidez?

— Bem, Katniss, riscos sempre existem, mas estaremos fazendo o pré-natal para assegurar que não haja nenhum. Se você está se referindo a alguma sequela deixada por esse hematoma, a resposta é não. Noventa por cento dos casos de gestantes que passam por esse mesmo problema levam a gravidez sem maiores contratempos. – Como se tivesse lembrado-se de algo bruscamente, o doutor continua. – Você vai ficar aqui mais dois dias, ok? Para se acostumar com o medicamento e para que eu possa monitorá-la. E devo alertar que acontecem sim pequenos sangramentos ao longo do tratamento, mas quando em baixa quantidade não precisam gerar muita preocupação.

— Obrigado, doutor – Peeta agradece quando Art se despede e se encaminha para porta. Ao abri-la, eu vejo Haymitch plantado ali fora, erguendo a pequena mala que fez.

— Desculpe, pois não?! – Doutor Art vira-se para Haymitch.

— Eu sou um acompanhante também. Na verdade, o avô dessa criança. Disseram para eu esperar aqui e que logo, logo eu poderia entrar, então... Aqui estou eu.

— Ah, é claro. Por favor. – Ele dá espaço e Haymitch entra, mexendo no cabelo.

— Avô, hein, Haymitch?! – Peeta brinca e nosso ex mentor faz sua melhor cara de pouco caso. Eu acabo sorrindo com isso.

Nem reparo que Art ainda está ali, até que ele fale:

— Eu já ia esquecer. Papais, eu tenho o sexo do bebê de vocês. Havia certa agitação durante o ultrassom, mas mesmo assim foi possível ver. Vocês querem saber?

Esqueço completamente dos riscos que me trouxeram até aqui ou do possível risco que ainda paira sobre o meu filho. Porque estou tão desesperadamente disposta a cuidar da saúde dele que não há dúvidas para mim. É a esse bebê que darei a luz daqui a seis meses. Eu farei o impossível para não permitir que cheguemos perto disso outra vez.

Troco um olhar com Peeta e sei que Concordamos plenamente à respeito do assunto. Respondemos juntos:

— Sim.

Meu marido acaricia o dorso da minha mão e eu estou tão ansiosa quanto ele pela resposta. Apoio ainda mais a minha cabeça em seu peito enquanto o abraço, sentindo a afobação tomar conta de mim.

Doutor Art diz, afinal:

— É uma menina.

Abro a minha boca, um tanto espantada. Estamos chamando-a de “o torradinha” há tanto tempo que descobrir que é uma menininha é algo estrondoso. Sorrio para Peeta, com uma felicidade tão antiga brotando em mim a cada segundo. Ele me abraça mais ainda, compartilhando comigo o exato mesmo sentimento. Acabamos os dois rindo, sem qualquer motivo aparente. E só nos soltamos quando a voz de Haymitch se faz audível.

– É, garoto, você não poderia estar mais ferrado.

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Não deixem de dizer. Obrigada pelos comentários no último capítulo, fiquei muito feliz com cada um deles. E, Jesus, vocês são rápidos! HAHAHA. Até o próximo, orem pelos meus bloqueios. Beijos e mais beijos. @lwrenci