What Comes After [HIATUS]
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Lentamente, depois de muitos dias perdidos, volto à vida.
O sol está nascendo. Eu estou descendo as escadas bem cedinho, com o intuito de começar o dia fazendo qualquer coisa possível pois estou abominando a simples ideia de passar o dia na cama.
O primeiro pensamento é poupar Greasy Sae de seu trabalho, já que, agora, é somente isso que posso fazer até que Peeta entre pela porta da frente e nós possamos começar nosso trabalho com o livro.
Vou à sala, abro as persianas e as janelas, prendo a cortina com a primeira coisas que avisto — não deixando-a, de forma alguma, tapar as janelas. Vejo, desse modo, a fumaça saindo pelos fornos à exatas três casas do distância. Imagino o que esteja acontecendo. Quero ir até a casa de Peeta e chamá-lo para vir logo tomar café, mas me contenho, sabendo que ele virá fazer sua visita regular. Ainda mais no dia de hoje, onde tenho certeza que ele espera algum índice de melhora da minha parte.
Começo meu trabalho. Tiro o pó que está tomando conta de alguns móveis da sala e penso veemente em ir, ainda naquele dia, na floresta. Sentir a brisa, o cheiro, ouvir os barulhos dos animais, o canto dos pássaros, e quem sabe até caçar algum esquilo ou castor que esteja vagando por ali. Seria como estar viva após um longo período de coma.
Faço uma rápida faxina no andar debaixo e dou uma ajeitadinha na cozinha. Dou uma olhada na geladeira, agradecendo à Greasy Sae por pegar meu dinheiro sem permissão e manter a casa abastecida.
– E aí?! Bom dia! – Ouço a voz de Peeta e me viro, parando de descascar as laranjas que separei para um suco.
– Bom dia – cumprimento, vendo-o colocar uma cesta inteira de pães de queijo sobre a mesa. Minha narinas aspiram o delicioso aroma e rolo os olhos; tamanha é a minha felicidade.
– Ao que parece, você está num dia agradável. – Dou de ombros, meio incerta, voltando a atenção para a faca em minha mão. Acho que tenho medo de consentir e depois ver minhas idealizações descendo ralo a baixo.
– Posso dizer que, por enquanto, não está tão ruim. – Pego uma jarra e um pouco de água, à medida que Peeta se dispõe a me ajudar com a mesa, colocando tudo o que precisaríamos nela.
– Começaremos o livro com os papéis que eu trouxe, vai ficar melhor – ele assegura. Suspiro, querendo que ele esteja certo.
– Hoje você realmente levou a sério os meus pães, hein? – digo, numa mínima tentativa de humor. Ele sorri, assentindo.
– Foi uma terapia e tanto! – Garante e eu fico feliz por, bem implicitamente, tê-lo lhe dado tamanho trabalho de modo que ele não focasse em seus fantasmas.
Talvez eu mesma devesse tentar essa tática. Usar uma coisa para esquecer outra. No atual estágio, percebo que não custa nada empenhar-me. Pensar dessa maneira me motiva mais, e a cada segundo sinto-me ainda mais propensa a ir à floresta.
– Estou pensando em dar uma passada no Haymitch, faz um tempo que não o vejo – Peeta diz, tirando minha atenção dos meus constantes diálogos internos e sentando-se à mesa. Olho para ele de soslaio, com uma pequena dúvida, apesar de fingir que esta não existe.
– Uma hora dessas ele deve estar em coma alcoólico. Então, a menos que esteja a fim de levar uma facada, acho que não é uma grande ideia – contraponho.
– Para eu levar uma facada, ele precisaria conseguir segurar a faca com alguma estabilidade primeiro, coisa que nós dois sabemos que não será possível. – Acabo rindo de Haymitch. Ele realmente já teve dias melhores. Aliás, todos nós tivemos.
– Ele virá se precisar de algo, você sabe disso. Se poupe do trabalho.
Ele torce os lábios diante das minhas palavras e eu sei que acabará indo dar uma olhada no cara super gentil e boa-pinta da Vila, de um modo ou de outro. Eu não posso esperar algo diferente, afinal.
Peeta não é do tipo que abandona alguém, por pior que a pessoa tenha feito e/ou tenha sido para ele. Eu sou o exemplo vivo disso. E Haymitch. Mas, de qualquer maneira, só sobramos nós dois para lhe preocupar e apurrinhar. Não é como se fosse possível a existência de algumas mais opções. E talvez seja exatamente por isso que ele faça de tudo para tentar nos manter bem e estáveis.
– Imagino o estado casa dele. Acho que devíamos falar com a Hazelle, fiquei sabendo que está de volta. Quem sabe ela não volte a trabalhar para ele?! – Peeta fala, um tanto esperançoso.
– Essa sim é uma boa ideia – concordo.
Pego o suco, agora já pronto e ponho na jarra. Há um baralho na porta, fazendo com que nós olhemos para a entrada da cozinha, mesmo já sabendo quem é.
– Bom dia, garotos. – Greasy Sae, obviamente. – Oi, Greasy. Como está? – A cordialidade de Peeta ainda conseguia me impressionar. Ele levanta-se para pegar a sacola que ela tem nas mãos, totalmente educado.
– Com a coluna latejando. A velhice tá me pegando aos poucos, querido – ela diz, com um certo sorrisinho nos lábios. Ele não hesita em puxar uma cadeira para ela sentar-se. Eu, por outro lado, já estou devorando meus pães como se não tivesse feito a mesma coisa um dia antes, não conseguindo focar-me em mais nada.
**
– A gente pode continuar depois, se quiser. Você parece agitado – Peeta está com um pincel na mão e ambos estamos sentados no chão da sala, próximos à mesinha de centro. O papel de pergaminhos que Peeta deu-se ao trabalho de pegar no trem que chegou hoje, vindo da Capital, está sobre a mesinha enquanto ele faz alguns esboços neste. – Quer ir no Haymitch, não é?
Estou sentada, vendo-o desenhar, fazendo disso minha terapia pessoal. Ainda é um fato que gosto de observá-lo tão concentrado; isso foi uma das poucas coisas que não perdi com o fim da Rebelião e o Massacre Quaternário. Peeta levanta os olhos, mirando-me.
– Eu vou rápido, juro. Eu só estou preocupado. Ele não tem mais ninguém.
É então que levanto, erguendo uma mão para ajudá-lo a fazer o mesmo já que ele ainda tem certa dificuldade em apoiar-se na prótese. Ele me olha curioso, indagando se estou mesmo apta para aquilo. Apenas digo:
– Tudo bem, vamos os dois. – Caminho para a escada. – Espera só um pouquinho porque eu ainda estou de pijama.
Não espero uma resposta, inclusive já estou no segundo andar quando ele emite algum som. Rapidamente troco de roupa, optando por uma calça e uma blusa de cor clara com mangas. Ainda que estejamos na primavera, a brisa fria é assídua. Faço o que tenho que fazer em tempo recorde e logo já estou na sala de novo, me deparando com um Peeta animado.
– Vamos? – pergunto, indo em direção a porta, onde ele já está.
– Vamos. – É a sua rápida confirmação.
Espero que ele estenda a mão para mim como sempre fez quando saíamos — embora sempre tenha sido para as câmeras que nos cercavam. Mas espero em vão. Ele não o faz. Preciso me lembrar que não há mais câmeras, que nossa vida já não é mais televisionada. Peeta não precisa mais fazer isso. Porém, mesmo com as minhas reivindicações, a minha mão direita pinica, sentindo um vazio abrupto. Eu quero entrelaçar os dedos nos dele.
Caminhamos, em silêncio, lado a lado por um curtíssimo espaço de tempo e, ainda assim, consigo me sentir hedionda por não ter o contato de sua pele na minha.
– Haymitch?!
Nós invadimos a casa enquanto Peeta vai chamando por ele. Andamos pela sala que mais parece um campo minado com tantas tralhas abandonas pelos cantos.
A lareira está a apagada, a casa fria de uma maneira quase agonizante, e há um lixão no lugar da decoração razoável. A cozinha se encontra no mesmo estado. Como o corredor e todo o resto. Diversas porcarias estão à vista: pacotes de biscoitos, algumas migalhas de comida para ganso, e garrafas de bebidas espalhadas e vazias. Somente o responsável pela bagunça colossal não está em lugar algum.
Rondamos a casa inteira e tudo que encontramos é nada.
– Deve ter se afogado nas garrafas de aguardente – suponho.
– Como ele conseguiu encolher dessa maneira é uma ótima questão para os centros de pesquisa da Capital. – Sorrio brevemente, olhando para Peeta. Ele restitui com os dentes branquíssimos.
– Ah! – exclamo de uma hora para outra. – Vamos tentar no quintal – chamo, indo para a porta da cozinha, que dá para a saída dos fundos. Peeta me segue sem titubear. Por fim, encontramos o velho mexendo com a criação de gansos, dando comida para eles. Sem se importar com mais nada.
– Ei, Haymitch! Você está lúcido! – E surdo, penso.
O cumprimento animador de Peeta mostra que ele está feliz ao vê-lo quase sóbrio. Quase porque estamos falando de Haymitch, e se não houver a minha vida ou a de Peeta em jogo não existe qualquer possibilidade dele estar sem umas boas doses de álcool no sangue.
– E você não está parecendo um morto-vivo, garoto! – Ele olha para Peeta, esboçando um sorriso. Seu olhar recai sobre mim e eu vejo o cinismo. Ele iria começar. Ah, se iria! – E, vejam só, a docinho decidiu sair da caverna!
– E você decidiu parar de agir de forma vergonhosa! É realmente um recomeço para todos. – Peeta me olha repreensivo. Rolo os olhos. Ele espera mesmo que nós não nos alfinetemos?
– Perdeu tudo menos essa sua simpatia, não é, queridinha? – Abaixo os olhos por uma fração de segundos, já com vontade xingá-lo.
– Perdeu tudo menos essa sua boca grande, não é, Haymitch? – revido.
Ele para de alimentar os gansos e vem na nossa direção. Peeta está do meu lado e de novo sinto vontade de me enfiar em seus braços, apesar de saber que me contentaria apenas com a sua mão na minha. Me sinto acanhada e quase necessitada da sua proteção.
– Bom saber que sentiu nossa falta. – Peeta diz, sorrindo, impedindo que Haymitch dirija à mim mais algum comentário.
Eu vejo que Peeta não está mais tão tenso com a minha troca de amores com o nosso ex mentor. Acho que ele estava com medo de que Haymitch — como sempre — exagerasse e eu acabasse me enfiando debaixo das cobertas durante mais alguns muitos dias. E embora eu me sinta tentada à isso vez ou outra, procuro lembrar da Prímula antes de cometer qualquer ato impensado.
– Admito que ficar sem vocês me fez um bem danado. Vocês são um pé no saco, garoto.
– Adoro quando você diz essas coisas, porque aí não me sinto mal quando a Katniss xinga você pelos cantos – sorrio de lado, sabendo que agora posso reclamar durante mais algumas horas dos comentários inapropriados e corriqueiros daquele que tanto me estressa.
Dou uma olhada no que está ao meu redor. A grama mal cuidada e verde cobrindo cada centímetro do quintal, os gansos andando de um lado pro outro ciscando o que restou da comida, umas flores que crescem praticamente agarradas ao chão. É um lugar espaçoso e bonito, exceto pela parte relapsa provinda do desmazelo de Haymitch.
É olhando para um dos gansos, sem me importar com a conversa das pessoas ao meu lado, que tenho uma ideia. Meu plano de ir à floresta sairia pela culatra.
– Ei! – peço a atenção das duas pessoas que conversam alegremente. – Eu estava aqui pensando e acho que seria legal se vocês fossem jantar lá em casa hoje.
O meu convite parece chocar ambos. Dou o meu melhor sorriso, apesar da ideia extremamente maliciosa que pesa do fundo da minha mente.
– Tá bom, docinho, pode falar. Você andou pegando uma das minha garrafas escondida, não foi? – é a resposta extremamente adequada de Haymitch. Rolo os olhos.
– Eu só estou tentando ser gentil! – protesto. Ele me olha desconfiado. Peeta somente mantém os lábios repuxados no canto da boca, creio eu que ele esteja feliz com os acontecimentos do dia. Eu estava me saindo muito bem, até.
– Então estarei lá às 20:00! – Haymitch diz por fim, aceitando o meu convite. Quase dou pulinhos.
– Espero que esteja sóbrio. Agora eu e Peeta temos trabalho pela frente, já estamos indo – digo, sorrindo, e andando de volta para a casa. Eu não quero mais ficar e Peeta jurou que seria rapidinho, então. Ouço ele despedir-se de Haymitch e me seguir, conseguindo me alcançar alguns segundos depois. Ele se põe ao meu lado e eu posso ver o sorriso que não sai de sua boca.
– A sua atitude... foi incrível, Katniss! – exprime quando chegamos na minha casa. Conquanto eu tenha feito o convite com péssimas intenções, fico feliz em ter exercido alguma coisa que o agradou.
– Acho que eu precisava dar um primeiro passo – digo, sentando-me no chão esperando que Peeta faça o mesmo.
– E você foi muito bem-sucedida.
Ele então pega o pincel, sorrindo, para segundos depois voltar toda a sua concentração ao desenho que faz. Eu apoio o braço no sofá, olhando o modo como ele desenha com tamanha maestria; com gestos tão precisos e perfeitos. Observo cada detalhe admirada, vendo-o transformar alguns meros rabiscos numa imagem magnífica de Cinna.
**
A noite chega. Eu espero ansiosa a vinda de Haymitch enquanto estou sentada à mesa com Peeta e Greasy Sae, roubando alguns pedaços de frutas que estão num pratinho. A comida já está à postos, somente o prato principal não. Implorei para Greasy Sae que me deixasse fazer a janta e após milhares de reclamações, ela deixou. Fiz tudo praticamente cantarolando, feliz até com o meu furto.
Estou me deliciando em meus pensamentos, louca para tirar a travessa do forno quando o convidado de honra finalmente dá o ar da graça.
– Pensamos que tivesse esquecido – Greasy Sae diz, vendo Haymitch aparecer na porta da cozinha. Eu corro para o fogão, eufórica.
– Boca livre na casa da queridinha? Não mesmo! – Ele riem e eu, que mal consigo me segurar, espero eles se sentarem. Sem forças até para rir ou reclamar.
– Ok. Então, hoje eu quem fiz o jantar e espero que gostem. Principalmente você, Haymitch! – falo, abrindo o forno e pegando a travessa, já com um par de luvas em mãos e indo na direção deles, colocando a travessa na mesa. – Olhe só, assei dois dos seus gansos!
Todos olham para mim embasbacados. Logo depois um emaranhado de palavrões é audível. Eu só consigo rir e desviar a tempo do copo que meu ex mentor taca em mim. Peeta gargalha ao ver a feição furiosa de Haymitch. Greasy Sae se estrebucha de rir, juntamente à mim.
– Bem, queridinha, já que é assim, amanhã o jantar será lá em casa. E se eu não conseguir assar o seu maldito gato, o prato principal será você – ele rosna, antes de tacar uma maçã na minha direção.
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