Notas iniciais
Um capítulo relativamente pequeno, mas feito com todo o meu amor. E, por sinal, foi o meu favorito e o mais fácil de escrever. Podem me chamar de sádica, massssssssssssssssssss só disse a verdade. E ah, não posso esquecer a dedicação. @camzMF, você fez com que eu me sentisse nas nuvens com suas palavras tão cheias de amor e carinho. Sou incapaz de dizer o quão grata sou por tudo que li. Acho que nunca inflei como um balão como aconteceu ontem/hoje. Obrigada por isso. Maria Eduarda Correa, eu te amo. Se não fosse por você, pelos seus comentários e opiniões ao ler cada um desses capítulos, eu não sei o que seria dessa fanfic. E eu não sei o que seria de mim sem você (e de todas as minhas outras fanfics também). Obrigada por entrar na minha vida. E querida Emma Fendrizzi, acabo de ler seu comentário (estava prestes a postar o capítulo quando o vi) e tinha que colocá-la no meio desses agradecimentos. Por favor, dê as mãos para a @camzMF, pois tudo que disse a ela claramente pode ser dito a você também. Obrigada, responderei daqui a pouco o seu LINDÍSSIMO comentário. ♥

Haymitch olhou para nós dois durante um longo tempo até que conseguisse dizer alguma coisa. E quando conseguiu, eu preferia que tivesse se mantido calado em vez disso.

– Ah, claro que casaram. Essa é a única explicação plausível para essa coisa animalesca entre vocês nessa última semana.

Quatro dias depois, numa conversa rotineira depois do almoço, Peeta descobriu que Haymitch havia entrado em nossa casa durante a nossa "lua de mel" atrás de alguma carne, uma boa e velha garrafa de cachaça e uns doces, e ele foi surpreendido com o que chamou de "sons do inferno”. Claro que não parou aí. Haymitch não cansava nunca.

Agora, depois de aproximadamente três anos do acontecido, eu chego a dar risadas às vezes, apesar de ainda sentir vontade de dar na cara do meu antigo mentor.

Olho para a cabeceira da cama, empoleirada com lenços, água, uma bandeja de café da manhã e uma cartela de comprimidos para dor de cabeça. Tomei um há 30 minutos, aparentemente em vão. De qualquer modo, eu já devia esperar por isso. São anos de crise e raras as vezes nas quais os comprimidos funcionam.

Sonhei com Prim esta madrugada; ela tinha duas tranças loiras na cabeça, sua blusa com a cauda para fora, e um olhar aterrorizado no rosto. Era o dia da colheita. Ela caminhou firmemente para a fila de crianças e adolescentes que esperavam pelos nomes e torciam para que o seu não fosse chamado. Ao lado da minha irmãzinha, uma menininha com cachos igualmente loiros, soltos e balançando com o vento. Parecia sossegada e descansada com tudo que acontecia, apesar de eu ter certeza que ela tinha sido inscrita na colheita. Tive a impressão de que o mundo desabava em torno dela, e mesmo assim ela sorria.

Prim a segurava protetoramente perto de si. Acariciava suas costas e dizia que tudo iria ficar bem, ainda que a outra estivesse um pouco despreocupada com tudo. A menininha sorriu. "Eu sei, tia", ela disse com uma voz meiga, doce e infantil.

A voz de Effie Trinket ressoou pelo microfone, estridente e feliz, anunciando o 90° Jogos Vorazes. A multidão calada e desesperada.

– Primeiros as damas! – Effie disse, antes de caminhas até a bola que servia como urna e retirar de lá uma tirinha de papel. O silêncio tornou-se ensurdecedor e foi como se eu pudesse sentir as respirações que as pessoas prendiam ao meu redor. Para a minha surpresa, não era o meu nome no papel. Muito menos o de Prim. – Claire Mellark.

O nome da minha mãe, disso eu tinha certeza. Apenas o sobrenome que não pertencia a ela. Independentemente, a junção dos dois pertencia a alguém. Uma criança. A menininha ao lado de Prim. A filha de Peeta.

– Não! Não! – Era a minha voz. Era eu, com o rosto molhado pelas lágrimas, atordoada, saindo da fila dos adultos com um Peeta igualmente assustado e emocionado ao meu lado. Ele tentava me conter, afinal, não havia nada que pudesse ser feito. – Eu me voluntario! Eu me voluntario como tributo! – Berrei, mas ninguém pareceu dar muita atenção. Todos estavam concentrados demais na garotinha que caminhava em passos graciosos para o palco.

Agarrei Peeta, chorando no seu colo, vendo a menininha caminhar e logo depois olhar para trás. Ela manteve o sorriso em seu rosto enquanto eu a via partir. Eu quase podia senti-la escorregando das minhas mãos.

– É a minha filha! O meu bebê! Minha filhinha!

Peeta tentava me consolar, mas estava impossibilitado de fazer qualquer coisa. Estávamos os dois de mãos atadas à medida que sentenciavam nossa filha à morte.

– Peeta, tira-a de lá! Por favor!

Continuei a berrar, gritar, odiando a impotência que tomava conta de mim. Odiando o desespero e o medo colossal.

Não muito distante, minha filha olhou para nós dois, e eu a vi tocar o pequenino nariz com o indicador duas vezes. Estranhamente soube o que significava. "Está tudo bem. Vou voltar para vocês."

Com raiva, me sentindo repentinamente exausta, explodi. Gritei milhares de palavrões, querendo deixar claro que aquilo não era certo. Que eles não podiam tirá-la de mim assim e ainda fazê-la acreditar que iria voltar, porque era uma ideia remota e impossível. Porém, apesar dos meus esforços, foi o que eles fizeram.

Eu acordei soluçando, com a respiração falha, como se estivesse tendo um ataque de asma.

– Meu amor, o que houve? – Peeta perguntou, sonolento, e nem um pouco assustado. Era uma cena típica. O que havia de incomum nela era o fato de eu ter levantado sozinha, não com Peeta me despertando para dizer que se tratava de um pesadelo.

Com o sonho ainda ecoando em cada parte de mim, eu me afastei de seu toque no mesmo segundo. Minha voz ríspida serpenteou pelo quarto:

– É tudo culpa sua! Não encoste em mim!

Levantei da cama e voei para o banheiro para lavar o rosto. Estava trêmula, descontrolada, e com raiva do meu marido, que apareceu na porta do banheiro enquanto eu secava o rosto com uma toalha.

– Foi apenas um pesadelo, você sabe que não pode deixar isso te afetar assim – ele disse, não tão calmo quanto normalmente estaria. Entretanto, isso certamente devia-se às minhas palavras há um minuto.

– Na verdade, eu posso sim. Você não tem noção de tudo o que eu tenho sonhado desde que você teve aquela ideia ridícula a respeito de filhos! Então me perdoa se eu estou me abalando vendo minha possível filha sendo sorteada para os Jogos enquanto eu a vejo sendo morta pela minha própria irmã, que, por sinal, também foi sorteada!

Pela primeira vez em anos, Peeta aumenta o tom de voz, só não o eleva tanto quanto eu estou fazendo.

– Não existem mais Jogos! Põe isso na sua cabeça, Katniss!

– Tá, mas quanto tempo até que haja novamente? Não há nenhuma garantia! Talvez você apenas devesse deixar esse egoísmo de lado e entender que isso não é apenas sobre você! Até porque, quem vai carregar sou eu. E, adivinhe só, quem vai vê-los partir também sou eu!

Peeta balançou a cabeça. Ele não gritou, não disse nada. Eu soube que ele poria fim àquela discussão no mesmo segundo. Então, num tom neutro, apenas rebateu:

– Escute o que você está dizendo. Quem está sendo egoísta aqui? Não me refiro a sua decisão. Não quer filhos, tudo bem, eu apenas pedi para você pensar, nada mais que isso. Mas agir como se eu não me preocupasse com o seu bem estar, como se você fosse carregar uma criança sem que eu estivesse do teu lado o tempo todo... Não foi essa a mulher com quem eu me casei.

E ele me deixou no banheiro, enquanto eu xingava a mim mesma por estar fazendo tudo errado. Voltei para a cama, tendo perdido todo o meu sono e me corroendo por dentro. Peeta só apareceu no quarto quando o dia começou a clarear e foi para pegar uma roupa para poder ir trabalhar. Perguntou como eu estava, e eu somente balancei a cabeça, distante. Ele deixou uma bandeja na cabeceira da cama antes de ir à padaria e ela continua intocada, bem ao lado dos comprimidos que ele também se deu o trabalho de buscar.

Não sinto fome. É como eu se eu quisesse desaparecer. Quero fugir do mundo, me esconder em uma cova e viver lá para sempre. Estou machucada, com raiva de mim mesma. E o que posso fazer além de me julgar? Quando se está com o pé num buraco, só lhe resta se jogar lá dentro de cabeça.

Dolorosamente, lembro da conversa que tive com Peeta dias atrás e que pôs o nosso relacionamento numa corda bamba. Qualquer passo em falso parecia que nos levaria a rios que correm em direções opostas.

Estávamos no sofá da sala, assistindo a um daqueles filmes água com açúcar que me deixam com refluxo. Mais uma das inúmeras produções desnecessárias da Capital, a meu ver. Meu humor, que já estava terrível desde o meu último período, só piorou com aquele filme.

Um casal comum, com uma vidinha comum, filhos comuns. Nada que prendesse a minha atenção. Porém, aparentemente, atraiu toda a atenção de Peeta.

Já no final da programação, ele virou-se para mim:

– Nós podíamos tentar.

– O quê?

– Ter filhos. Você poderia pensar nisso – ele disse suavemente, mas eu me desgrudei dele no mesmo segundo, sentando-me ereta no sofá.

– O quê? – Repeti, dessa vez, mais alto.

– Você entendeu, querida. Ter filhos, uma família não muito grande, alguém para perturbar Haymitch além de você, correr pelo quintal. Você sabe.

Fechei meus olhos, abominando suas idealizações. Onde Peeta estava com a cabeça?

– Não, não. Isso é loucura. E eu mesma disse quando nos casamos que não poderia te dar isso, não é justo você me pedir.

– Não é algo imediato, é claro. Eu só queria que você pensasse sobre – seus olhos de cachorrinho quase me convenceram.

– Mas eu já tomei minha decisão. Eu não quero! Eu não posso fazer isso! E eu ficaria muito grata se você parasse de insistir..

Ele arqueou uma das sobrancelhas.

– Insistir?

– É, eu não aguento mais isso.

– Katniss, é a primeira vez que conversamos a respeito disso.

– Não importa, não quero mais falar sobre isso, tá legal?! Você pode respeitar?

Peeta mordeu seu lábio inferior. Talvez eu tivesse pegado pesado.Talvez eu não devesse me comportar como se fosse dona da verdade.

– Eu... Peeta, eu...

– Não precisa dizer mais nada, ok?

E então ele se levantou e rumou para as escadas. Quando subi, uma ou duas horas depois, ele não estava no quarto. Encontrava-se no seu ateliê, exatamente como eu esperava. Fingi que estava dormindo quando Peeta foi tomar banho, momentos mais tarde, e então fui ao seu ateliê.

Olhei seus desenhos com admiração, observando a precisão e perfeição com a qual ele retratava cada imagem. Muitas delas eram minhas, inclusive. Num canto, o mais distante possível de todos os outros quadros, eu vi a mulher de cabelos negros sentada na Campina sob uma árvore. Trajava um vestido branco que esvoaçava com o vento, e seu ventre levemente ressaltado deixava claro a gravidez recente. Eu era a mulher.

Voltei para o quarto a tempo, e quando Peeta deitou-se na cama, eu o abracei. Pus minha cabeça em seu peito e pedi desculpas. Expliquei que não estava me sentindo bem e que sabia que não havia sido justa. Disse que estar mal não justificava a minha dureza, mas que não tive a intenção de machucá-lo com as minhas palavras. Por fim, prometi:

– Vou pensar com carinho.

Só agora vejo que não passou de uma grande mentira. Eu só disse o que disse para apartar o assunto, ao menos por um momento. E consegui, pelo menos até que eu explodisse outra vez.

Caminho até uma caixinha de jóias que tenho sobre um dos móveis do quarto, de lá tiro o anel de galhos com o qual fui pedida em casamento. Volto para a cama e o ponho lado a lado com o atual. As diferenças são nítidas: o que está em meu dedo foi feito com ouro, na mesma modelagem que o de galhos, e tem algumas pedras nele. O segundo, por mais que soe desprezível ao lado do que foi trazido da Capital por Effie, tem o meu favoritismo.

Sinto como se jamais fosse capaz de levantar outra vez. Nem mesmo sinto vontade de fazer isso.

Tudo que consegui foi afastar Peeta de mim e estou extremamente envergonhada pelas minhas atitudes. Ele não merecia ouvir nada daquilo e sei que minhas palavras foram como cortes que o magoaram profundamente. Sei porque ele surtou após nossa briga, já que fui capaz de ouvir os objetos sendo quebrados no andar debaixo. Eu não só causei problemas para mim, mas para a pessoa que mais se importa comigo nesse mundo. Eu fiz tudo errado.

Agora só posso continuar na cama, sentada, chorando e olhando para o vazio. Pensando nas mortes, em toda a destruição e dor que causei.

Rue, Cinna, Finnick, Prim, Boggs, Messala, Pollux, Legg 1 e 2, cidadãos do 12, os milhares de mortos da Rebelião. Basta eu fechar os olhos para que todos peguem uma pá e me enterrem viva na Campina. Mais um pouco e até mesmo Peeta se junta a eles.

Notas finais
Pessoal, muito obrigada pelo imenso apoio. Recebi tantos comentários e elogios no último capítulo e até agora não estou sabendo como me sentir. Vocês são maravilhosos. E todos vocês que estão sempre aqui, mesmo com a minha demora. Queria poder agradecer a cada um de vocês por isso. Até breve. @lwrenci