What Comes After [HIATUS]
19 Capítulo 16
Notas iniciais
A lembrança de Cinna torna o vestido mais confortável. É de seda, longo, num tom de azul que chamariam de ciano, e com alças levemente grossas. O decote comportado é ornamento com pedras azuladas que vão até a minha cintura e formam um corpete relativamente justo.
Eu provavelmente me casaria de calça, entretanto, supus que devia ao meu estilista e amigo um pouco mais; um último ato de consideração. Porque se ele estivesse vivo, seria um dos primeiros a serem convidados. Talvez o primeiro a quem eu diria que estava noiva. Então, de algum modo, ele tinha que estar aqui, presente na menor cerimônia já registrada na humanidade, já que grande parte dos possíveis convidados estão mortos.
Afasto o pensamento. Hoje não, digo a mim mesma.
Saí da floresta, olhando para todos os lados procurando por predadores, à medida que dividia minha atenção com Peeta para planejarmos o casamento, coisa que me deixou um tanto acanhada, e eu não soube em nenhum instante dizer o porquê. Mesmo com meu desconforto evidente, tudo que Peeta fez foi dizer que queria se casar naquele momento. Sem pressupostos. Sem avisar a ninguém. E isso com certeza me deixou calma, quase flutuando. Seríamos só nós dois porque estaríamos atestando o que nós dois sentimos, ele disse, ninguém precisava saber.
Faríamos a cerimônia do pão, tão comum no nosso distrito e, talvez, mais comum ainda para a gente.
Eu subi sorrindo as escadas, então, depois de irmos à casa de Greasy Sae deixar o cão. Ele havia se disposto a fazer tudo. E, sem nenhuma preocupação, sem ter que dar explicações, sem ter que pensar num lista de convidados, num possível vestido branco, vim para o banheiro me arrumar.
São tantos pensamentos para organizar. Primeiramente, a inevitável comparação com o nosso primeiro casamento que por pouco não aconteceu. Eu me senti tão vulnerável e inconformada na época, seguindo à risca todas as ordens de Snow; sendo o entretenimento perfeito para a Capital. Tendo que dar continuidade a um romance fingido enquanto meu coração se assemelhava a casa zoneada de Haymitch. Agora, parecendo uma impossibilidade até, está para acontecer o que eu evitei durante toda a minha vida. Estou para assumir uma responsabilidade que nunca quis que fosse minha.
Olho meu rosto no espelho, tão familiar, mas quase irreconhecível. Mudei tanto. Minhas crenças, ideias, gostos. As maçãs do meu rosto parecem mais rubras que nunca, minhas feições mais felizes e menos sérias.
Balanço a cabeça, como se isso fosse dissapar minhas meditações que tanto me distraem. Estou prendendo meu cabelo, tentando fazer um penteado legal que envolva tranças, a fim de me sentir mais bonita e impressionar Peeta. Logo eu que nunca fiz questão disso, que nunca tive tempo para me interessar por garotos. Logo eu que nunca me imaginei com uma aliança no dedo, ainda mais aos 23 anos.
Contudo, nem preciso lembrar a mim mesma que não sou uma pessoa comum. Nem Peeta. Fomos forçados a crescer rápido, a viver coisas que ninguém deveria pensar em vivenciar. Penso, então, que seja apenas um ato desencadeado por uma cadeia. Como uma sequência de dominós, caindo um por um.
Passo um pouco de batom nos lábios do conjunto de maquiagem que Effie insistiu em me dar na última vez que veio até aqui. Meu reflexo é surpreendentemente belo. Meu cabelo está solto, contudo, fiz um arco com tranças e as prendi com uma presilha dourada que eu nem sabia que tinha.
A mesma felicidade que tomou conta de mim em todos os momentos no lago volta com tudo. No entanto, casamentos trazem boas lembranças à tona. Se fecho os olhos, vejo Finnick olhando apaixonadamente para Annie enquanto dançam. Sinto a mão de Prim contra a minha enquanto rodopiamos pelo salão do distrito 13. Ouço a música. Vejo o bolo perfeitamente decorado por Peeta. E, assim, me forço a pensar só nessas coisas boas, para que, futuramente, quando eu pensar no meu casamento, eu me lembre de que, por pior que eu esteja, tudo pode ser bom novamente.
Saio do banheiro e sigo para a sala com meus pés tocando o piso de madeira, ouvindo o barulho que é feito lá embaixo. Ao descer, encontro Peeta, com as mesmas roupas de antes, arrumando a sala. O cheiro de pão faz com que eu respire fundo. Demora um pouco para que ele note a minha presença, já que está concentrado demais em jogar algumas rosas, dentes-de-leão, íris, georgias, e mais um milhão de flores diferentes no chão. Inclusive primroses.
– Incrível o que você fez em tão pouco tempo – digo, admirada. A lareira está acesa, a sala é iluminada somente pelo fogo, que se espalha também por velas. O mesmo manto da cabana está estendido no centro da sala, da onde ele retirou a mesa de centro.
– Digo o mesmo – Peeta vem até mim, com um sorriso encantador. – Você está linda. Mais que isso. Maravilhosa.
Agradeço a falta de luminosidade, pois minhas bochechas certamente estão num tom escarlate. Não só por causa das suas palavras, mas do seu olhar, no meio da penumbra, que me endeusa.
A noite está caindo e pela janela posso ver a luz da lua começar a dar sinais de vida. Seguro a mão que Peeta estende e sorrio, soltando uma risada quando ele faz com que eu rodopie pela sala.
– Estou me sentindo um mendigo em relação a você. É vergonhoso. Imagino que vá dizer não quando eu perguntar se me aceita como esposo.
Alargo o sorriso, inevitavelmente. E digo, sem pensar, como se alguém houvesse roubado meu filtro:
– Eu deveria, mas já te vi coberto de lama e sangue. Não que isso importe, aliás, porque mesmo que isso te tornasse horrendo, eu te amaria do mesmo jeito. Não pelo que você aparenta, mas pelo que você é e tudo que você faz. Além disso, acho que esse tipo de cerimônia não conta com essa pergunta.
Os olhos azuis de Peeta ganham um brilho desconhecido, demonstrando quase a mesma felicidade que vejo em seu sorriso e em todas as suas feições. Eu vejo carinho e fascinação.
– Merda! – Exclamo repentinamente, me sentindo vulnerável. – Isso está me fazendo ficar tão emotiva! E-eu... Estou dizendo coisas que...
A dose alta de emoção me deixa tão abalada que paro de tentar explicar coisas que nem eu posso entender.
– Katniss, meu amor, não tem nada errado com isso. Eu adoro ouvir essas coisas que você diz, me torna o homem mais feliz do mundo. E casamentos são assim mesmo, você sabe. Por isso existe essa coisa de maquiagem à prova d'água.
Olho para Peeta, seus olhos consoladores e tão confusos com a minha crise abrupta. Acabo me sentindo culpada, e aí é questão de um segundo até que meu peito torne-se um misto de remorso, desordem, lamento e emoção. Preciso dizer a ele. Preciso dizer agora.
Me sinto obrigada a falar o que venho guardando para mim há anos. E então estou chorando, pois a culpa é grande e o medo também. Uma sensação impotente e quase desesperadora.
Eu vou acabar perdendo-o, mas é mais vantajoso do que construir algo em cima de uma mentira. Me jogo nos braços de Peeta, o apertando contra mim, tentando fazer toda a confusão passar. A compunção escolheu o pior momento do mundo para se instalar em mim.
– Eu te amo, Peeta. E eu... Eu não quero que você se case comigo achando que vamos poder formar uma família porque não vamos. Não quero que você continue olhando para mim como se eu fosse a melhor pessoa do mundo – fungo, antes de continuar – e como se eu pudesse ser a melhor esposa do mundo porque eu não sou, nem posso ser. Eu não posso te dar filhos. Eu não posso ser uma boa mãe. Eu não posso – minha voz vai ficando mais baixa, depois não passa de um sussurro sufocado pelo choro.
Continuo ensopando a camisa de Peeta do mesmo jeito, por mais que ele faça carinho nos meus cabelos e tente me acalmar. Sou como uma criança buscando colo e abrigo. Como quando eu tinha 11 anos e o conheci, em meio a árvore que ele tinha no quintal, a lama e a chuva.
Se antes eu quis rememorar esse dia como um dos mais felizes, claramente meus esforços não deram em nada. Agradeço por não estar olhando para Peeta, não sei se seria capaz de aguentar o olhar cheio de dor e decepção. A pressão já é grande o suficiente sem os olhares. Seu silêncio começa a me preocupar, até que, depois do que parece uma eternidade, ele o corta.
– Ei, ei, tudo bem – ele diz, erguendo minha cabeça. Seu dedo toca o meu queixo e Peeta sorri para mim, beijando todo o meu rosto; secando as minhas lágrimas à sua maneira.
"Você poderia viver cem vidas e ainda assim não merecer esse garoto."
A frase em momento algum deixa a minha cabeça. A veracidade dela principalmente.
Se Peeta está escondendo a decepção, está fazendo um trabalho incrível.
– Katniss, sabe por que eu te pedi em casamento? Porque não havia nada maior do que isso para se fazer. Esse é o ápice das demonstrações e é a tal da eternização do amor. Talvez, nem mesmo precisemos disso. Mas eu quero fazer tudo do jeito certo, e não toda aquela encenação forçada para a Capital. Quero mostrar para todo mundo o quanto é real, e quero te dizer isso todos os dias da minha porque quero estar ao seu lado.
"Quero tudo com você, é verdade, porém só o que você puder me dar. E o que a gente tem, o que estamos construindo, o que estamos fazendo bem aqui e agora, é o bastante. A gente conversa sobre filhos em outro momento, você pode pensar no assunto. Mas lembre-se de que, independente da sua decisão, isso não vai diminuir em nada o que eu sinto. Nada vai."
– Me desculpe por isso – digo, segurando seu rosto. Não sei o que mais posso dizer depois desse episódio lastimável, por isso beijo seus lábios cheia de carinho, grata por tê-lo ao meu lado.
Outra vez ele sorri, tocando minha cintura e nos separando.
– Bem, vamos nos casar, então.
Eu sorrio, o abraçando com toda a minha força. Passando meus braços finos pelo seu pescoço, trazendo seu corpo para perto. Seu cheiro é familiar, a textura do seu corpo, o modo como ele se arrepia quando eu beijo seu pescoço. Tudo nele é familiar e, de algum modo, toda essa familiaridade soa perfeitamente certa para mim.
– Vou pegar os pães – ele diz.
– Não, pode deixar – assumo seu lugar e vou para a cozinha. Pego os pães que estão no forno e ponho na cestinha marrom com detalhes vermelhos que está sobre a mesa da cozinha. Peeta certamente já havia escolhido-a.
Ao voltar para a sala, nos sentamos diante da lareira acesa, longe o suficiente para que o calor não nos atrapalhe. Ficamos frente a frente. Entre nós dois há a cestinha com os pães quentes e o anel que acabo de retirar do meu dedo.
Nos entreolhamos rapidamente. Eu ainda estou com a minha cara de choro, mas sorrio, porque realmente estou feliz. Ele me aceita. Ele me ama. Isso é tudo que preciso agora.
Ambos escolhemos um pão. Dividimos em duas partes e trocamos um com o outro.
– Para que você saiba que cada parte de mim, será entregue a você. Até o último dia das nossas vidas.
Então metade do pão que estava na mão dele, vai para o fogo da lareira. E mais tarde virará cinza. As cinzas que nos tornaremos juntos, daqui a alguns anos.
– Para que você saiba que cada parte de mim, será entregue a você. Até o último dia das nossas vidas – repito, e jogo a metade do pão dele que estava comigo.
Vejo seus olhos azuis brilharem. Não por conta do fogo, não por conta da luminosidade que bate diretamente ali. Mas por mim. Pelo que está acontecendo. Espero que ele possa ver que sinto o mesmo.
– A fim de que sejamos um parte do outro – ele ergue o pão, pondo-o na altura de sua boca.
Repito o que foi dito e ergo o meu também, e levamos a boca no mesmo momento. Quando termino, me inclino para frente, capturando seus lábios. Nos separamos e ele diz:
– Se você achar melhor pular os votos, a gente pode simplesmente trocar as alianças. Eu não vejo problemas, não quero te ver chorar outra vez.
Eu seguro sua mão.
– Eu provavelmente vou chorar de um jeito ou de outro. Continuo vulnerável com tudo isso.
Ele põe um sorriso nos lábios e pega a aliança que está no chão. Com extremo carinho e cuidado, pega a minha mãe esquerda. Seu polegar afaga suavemente meu dorso.
– Katniss – sua voz parece acariciar meu rosto e arrepia cada pelo do meu corpo –, não tem absolutamente nada que eu vá dizer agora que você já não saiba. Não existe declaração no mundo que, no mínimo, chegue perto do que eu sinto por você. Estou aqui para repetir um discurso pronto, o que não o torna menos verdadeiro. Eu te amo. Mais do que eu achei que fosse possível amar alguém. Você é o alicerce da coluna que me mantém em pé e me faz querer ser melhor a cada dia.
Só noto que prendi a respiração nesse momento. Contudo, aparentemente, ela está falhando. Estou tendo dificuldade em mandar ar para os meus pulmões. O sorriso de Peeta, seus infinitos azuis, seu rosto, sua mão na minha. Parece um grande complô para que eu me debulhe em lágrimas e minhas pernas fiquem instáveis, ainda que eu esteja sentada.
– Eu quero estar aqui para você todos os dias das nossas vidas. Quero que você seja feliz e espero poder te trazer essa felicidade. Quero que você se sinta amada, que saiba que não importa o que aconteça, nós vamos superar juntos. E, finalmente, quero que se lembre, nos meus e nos seus piores dias, que eu poderia perder a memória e esquecer quem eu sou um milhão de vezes, e, a cada vez que isso acontecesse, seria preciso o fazer mais um milhão para que eu pensasse em te esquecer ou esquecer quem eu me tornei com você.
Ele empurra a aliança com cuidado pelo meu dedo e eu sinto uma lágrima cair no meu vestido. Nada do que ele disse pareceu um discurso previamente planejado. De alguma forma, senti como se ele tivesse pensado em tudo no segundo em que pegou o anel de galhos para colocá-lo no meu dedo. Mas, ora, trata-se de Peeta. E ele só precisa sentir ou estar ligado a uma causa para dizer as coisas mais absurdamente lindas e convincentes. E eu não sou imune a isso.
– Bem – digo com voz embargada –, eu fiz um anel também.
Do decote do meu vestido, tiro um pedaço de barbante; um pedaço de barbante que foi enrolado algumas vezes e enfim amarrado para que tornasse-se uma aliança de casamento.
Noto o sorrisinho sacana que Peeta carrega nos lábios. Antes que ele diga alguma coisa, eu pego sua mão esquerda e olho nos seus olhos quando começo a dizer os meus votos. Uma leve brisa entre pela janela nesse momento. Pressiono a mão forte de Peeta contra a minha enquanto posiciono a aliança em seu dedo.
– Peeta, você sabe quantas vezes fugi. Fugi daquilo que sentia por você e de tudo que se referia a você. Agora, parando para pensar, eu tenho a mais absoluta certeza de que foi por conta da Capital. Você tinha sido escolhido pelo Snow; não por mim. E mesmo com todos os meus esforços para te afastar, lá estava você, pronto para quebrar qualquer barreira que eu impusesse entre nós. Quando eu consegui aceitar, já estávamos prestes a morrer no Massacre. Mas todos os planos foram por água abaixo.
"Mesmo que todas as direções nos levassem a rumos diferentes, você nunca se importou. Você sempre esteve tentando voltar para mim. Sempre quis estar do meu lado para que eu nunca precisasse de nada. E o mínimo que posso lhe oferecer em retribuição ao seu amor, é o meu amor. Não é muito. Não é quase nada. Mas eu prometo que vou fazer com que isso seja o bastante. Eu vou te amar pelo resto da minha vida, com tudo que há em mim. Quando eu não puder levantar da cama, quando eu não puder te dizer isso novamente, quero que se lembre dessas palavras. E espero poder te fazer feliz com isso. Espero poder estar sempre voltando para você, da mesma maneira que você voltou para mim."
Eu estou chorando quando termino de pôr a aliança. Falar foi um pouco difícil dada a situação atual. E está óbvio para mim: eu não chego perto de dominar as palavras como Peeta o faz. Porém, imagino que eu tenha conseguido passar o que sinto, pois ele tem com lágrimas em seus olhos tão bonitos.
Ele pega minhas duas mãos e as leva a sua boca. Seus beijos arrepiam cada pelo do meu braço.
– Seu amor é o bastante para mim, Katniss. É tudo que eu preciso.
– Então você não me verá mais reclamando por isso.
Sorrio e minha boca vai até a de Peeta. O meu marido. As palavras não soam estranhas, como eu imaginei que soariam. Elas soam certas. Quase tão certas quanto o beijo que trocamos.
– Dança comigo?
Em resposta, estendo minha mão e ele a segura. Caminhamos para o meio da sala, e eu envolvo seu pescoço. Fico na ponta dos pés para encostar sua testa na minha.
– Não consigo me lembrar a última vez que dançamos – ele diz, me conduzindo lentamente ao som de uma música inexistente. O
– Eu consigo, mas não é uma boa lembrança.
É acolhedor estar assim com ele. Sendo iluminada apenas pela luz da lareira, das velas e da lua. Com seus braços em minha cintura, sua respiração contra o meu rosto e seus lábios a milímetros de distância dos meus. Posso imaginar a projeção de nossas silhuetas contra o chão enquanto dançamos sem música alguma para embalar o momento.
Minutos depois, suas palavras ecoam, quando estou com minha cabeça em seu ombro, aproveitando seu cheiro gostoso. Eu poderia morar em seus braços. Desconfio da existência de algo mais hospitaleiro que seu abraço.
– Senhora Mellark – a voz de Peeta soa deleitosa, como se ele estivesse testando e gostando de como meu novo nome repercute em sua boca –, nós temos uma lua de mel pela frente.
Ergo minha cabeça, deixando-a frente a frente com a dele. Nossos olhos não se desgrudam. Seus braços me puxam para perto, e a quentura no meu corpo não tem mais nada a ver com a lareira e o calor da sala.
– E onde seria? – indago, beijando seu maxilar.
– No quarto. Nossa estadia lá durará uma semana inteira.
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