Notas iniciais
Cá estou eu, um pouquinho surtada por conta daquele trailer, mas passo bem, obrigada. E vocês? Gente, gente, eu tô precisando de ajuda psicológica, juro pra vocês! Tava MUITO bom. Eu esperava algo tão maravilhoso, mas, CACETE, superou todas as minhas expectativas! Fiquei sem palavras! Eu já assisti milhares de vezes e ainda não sou capaz de achar um único adjetivo que defina aquela perfeição. Deus no céu, trailer de mockingjay pt2 na terra. Mas agora vamos combinar, quem aí está super mega ansioso para o filme? Porque, nossa, eu tô D E M A I S! E adivinhem quem foi a sortuda que foi respondida pelo ídolo algumas semanas atrás? SIM, eu! Sério, queria apenas compartilhar com vocês que a melhor coisa da minha existência. Nem acredito que Josh Fucking Hutcherson, o amor da minha vida, me respondeu no twitter! E, como se tudo isso já não fosse o bastante, teve Jennifer Lawrence sorrindo/fazendo palhaçada para os paparazzis em NYC há algumas semanas atrás! Fui ao CTI, mas agora passo bem, obrigada. Só quero dizer que junho foi tudo de mais incrível. De qualquer modo, aí está o capítulo. Meio meladinho, com confusões internas (desculpe, mas são totalmente necessárias apesar do meu ódio por elas), e com personagens que não vemos há tempos. E quero que me perdoem pela demora. Eu fiquei presa na cena do café da manhã e na do encontro também. Eu as escrevi e reescrevi 72727282829 vezes e, mesmo assim, não ficou lá essas coisas. Por isso a demora. Mas acreditem, o próximo capítulo está pela metade. Esperem me ver em breve. Enjoy!

Acabo decidindo pegar a minha camisola, por fim, para que eu possa me vestir no quarto e saio do toalete ouvindo a gargalhada de Peeta antes de fechar a porta. Quero enche-lo de tapas por fazer isso comigo; por me enfiar nesse tipo de condição.

Tento me acalmar rodando pelo quarto, procurando o que fazer — já que voltar a deitar não é nem uma opção. Vejo jornais antigos, artigos, e a arquitetura do quarto surpreendentemente me atrai, mas não é nada que dure mais de cinco segundos.

Ele sai do banheiro vestido e caminha até mim com um sorriso. Eu o ignoro e finjo estar muito interessada na revista — a qual eu nem mesmo sei sobre o que se trata — que está na escrivaninha.

– Você tem que repousar e ficar de resguardo, Katniss – Peeta diz, abraçando-me. – Acredite quando digo que tudo que eu mais quero é ficar naquela cama com você e fazer tudo que pedir, mas você não acha que já colocou sua saúde à prova muitas vezes?

– Você sabe que daria muito bem para... – Ele me interrompe, sem demonstrar incerteza alguma.

– Não, eu não sei. E sabe por quê? Porque você não pode me dizer que seus batimentos não se aceleram assustadoramente, que você não fica trêmula e agitada o suficiente para não dar descanso ao seu coração – explana, ficando na minha frente e buscando meus olhos. Eu fico calada, até porque, contra fatos não há argumentos — embora eu não esteja nada satisfeita em dar o braço a torcer. – Eu já me exaltei o suficiente no banheiro. Katniss, eu não vou ficar velando seu coma outra vez quando eu posso velar o seu sono. Eu te amo demais para permitir que você se deixe levar pela impulsividade de um momento.

Então acontece. Deixo que seu poder de persuasão me afete e é a minha vez de buscar seus olhos azuis que transbordam preocupação. Me ponho na ponta dos pés para beijar seus lábios rapidamente, tentando a todo custo saciar, da maneira que posso, o meu desejo. Contudo, infelizmente, sei que precisarei de bem mais que isso. Conquanto agora isso me pareça suficiente, dada as circunstâncias.

– Você já está com sono?

– Nem de longe – responde.

– Então a gente precisa fazer alguma coisa. Esse quarto está me sufocando – afirmo, em tom de súplica, permitindo-me tocar sua testa com a minha. Ele desfaz o contato por um instante e num estalar de dedos, adquire a expressão de alguém que teve um pensamento sensacional.

– Você toma os seus compridos que estão ali na cabeceira e coloca uma roupa. Eu tenho uma ideia – sorri para mim e beija a minha testa. – Vou lá embaixo checar umas coisas e estarei aqui logo, logo.

A madrugada segue lá fora e transpassa pelos meus olhos através das cortinas. Admiro a noite e a lua que brilha no céu escuro da Capital, que por tantas vezes pareceu extremamente artificial para mim. Engulo os remédios de uma vez com o copo de água, querendo evitar problemas. Na mala, pego uma calça azul escura de um tecido que não conheço, uma blusa grossa de algodão e um casaco cinza que vai até as minhas coxas. Contra a minha vontade, sento na cama para esperar, imaginando o que faremos.

Penso nas possibilidades das ruas gélidas nesse inverno e como isso pareceu nunca ter incomodado os residentes desse lugar; sempre tão dispostos a curtir e viver cada segundo. Mas, se eu não tivesse tido tantos tormentos e vivesse na Capital, eu provavelmente agiria da mesma maneira.

A ampla janela do quarto não abarca uma visão esplendorosa ou grande da cidade, e tudo que posso ver é o jardim, que me faz ter refluxos e sair dali o mais rápido que consigo.

Quando Peeta passa pela porta, depois de um longo tempo, com um sorriso contagiante, sei que estou mais agitada do que nunca. Mesmo porque, depois de todo esse tempo em sono profundo, tudo que eu não estou é cansada.

– Posso perguntar o que vamos fazer?

– Nada demais, só vou lhe tirar desse quarto e tentar com unhas e dentes tirar essa carranca do seu rosto.

Não respondo. Peeta, já vestido em tons tão escuros quanto os que escolhi, volta-se para a porta outra vez. Não é nada demais, ele apenas trocou o pijama por algo mais apresentável.

Aceito a mão que ele oferece quando estamos para sair do quarto.

Os corredores exageradamente grandes da mansão presidencial me deixam tonta a cada três passos que dou. As lembranças que vêm à tona transformam minha cabeça numa bola de neve aterrorizante. Contudo, não posso causar um estrago outra vez. Não tenho o direito de arruinar Peeta caso eu deixe as memórias me levarem para uma zona de tristeza fervorosa. Por isso, eu peço, apertando a mão dele com força:

– Diga alguma coisa. Alguma coisa boa.

Volto para o 74° Jogos Vorazes subitamente depois de assimilar as palavras que saíram, por conta própria, da minha boca. Peeta está ardendo em febre, eu acabei de voltar para a caverna depois de preparar uma sopa, e ele sorri ao me ver, ainda que não seja capaz de omitir seu sofrimento pela doença que o consome. Ele pede, então. Conta uma história. Alguma coisa alegre. Conta para mim qual foi o dia mais feliz da sua vida.

Eu aperto os lábios, reprimindo a repentina vontade de chorar ao pensar na hipótese da morte dele. Ao lembrar o quão perto ele esteve da morte. E sabendo que ele pode chegar perto disso novamente caso eu decida me sucumbir, dou continuidade:

– Diz para mim qual foi o dia mais feliz da sua vida.

Ele olha para mim, com intensidade. Está tentando me ler? Lembro dele ter dito que mostraram os vídeos dos nossos Jogos quando o telessequestraram, certamente essa filmagem foi usada. Mas será que há alguma possibilidade dele, bem no fundo do subconsciente, ter guardado minhas palavras? As verdadeiras? Tudo que realmente lhe disse, independente das mudanças que foram feitas? Será que ele pode ter guardado o seu pedido? Suponho que não. Obviamente, não obtenho confirmação, somente um sorriso ingênuo que não lhe é comum. E sem pretensão alguma de fazer com que ele rememore seus dias enclausurado, o deixo com a possível dúvida.

– O dia em que a gente foi à Campina e você aceitou meu pedido de namoro. Ou quando você foi à padaria e me ajudou com aquela receita. Ou... – ele para por um segundo. – você e Prim. Vocês costumavam ir à padaria olhar as vitrines, não é? – surpresa, eu apenas assinto. Ele lembra. Minha resposta, por algum motivo, o faz sorrir e prosseguir. – Ou quando você tentava tirar Prim da Padaria. Ela, de algum modo, sempre te convencia a ficar lá por um bom tempo. Isso era ótimo porque eu conseguia te olhar por detrás do balcão. Eu tenho essa dívida com ela.

Foco, peço a mim mesma. Olhe as partes boas.

– E esses foram os dias mais felizes da sua vida?

Peeta balança a cabeça.

– Eu não tenho certeza. Às vezes tenho a impressão de que qualquer momento com você, até mesmo em meio aos pesadelos, às dores e às nossas crises, são os melhores. Como se todos esses dias fossem os melhores da minha vida. Não posso dizer com extrema convicção quais foram, porque, no fundo, acho que ainda terei melhores do que os que julgo ter.

Aperto sua mão, apreciando o calor dela, enquanto descemos as imponentes escadas. Peeta me guia por um caminho totalmente desconhecido, e eu me deixo levar, até que paramos em frente a uma porta branca de madeira, no final de um imenso e largo corredor.

– Senhorita – Peeta diz, abrindo a porta e me dando passagem.

– Muito obrigada, Senhor Mellark – respondo, entrando na brincadeira, e fazendo uma breve reverência.

Olho para o cômodo, mas não é possível enxergar muito. O local está num enorme breu, só me permitindo ver o contorno de uma mesa e o vislumbre das paredes por conta da luz que invade o lugar através da janela mediana.

Sinto a presença de Peeta, confirmada pelo seu corpo que está atrás do meu.

As luzes baixas e douradas se acendem, então eu posso ver a mesa central repleta de frutas, doces e o que eu julgo ser um jantar completo. Tudo está extremamente colorido, o que ratifica a ideia de Peeta ter dado um jeito de preparar aquilo com base na minha dieta totalmente saudável. Há apenas duas cadeiras ali, e antes que eu possa me mover na direção delas, ele caminha até uma e a puxa, para que eu me sente.

Sorrio, desacreditada.

– Então você me arrastou para um encontro?

Peeta se senta bem na minha frente e me mostra um dos seus constantes sorrisos de canto.

– Essa é a minha intenção desde que me entendo por gente.

– Não comece a se declarar agora – digo, saindo do meu assento para ir até o dele e tocar seu rosto. – Isso tudo já é o suficiente. Você fez a coisa mais simples e incrível que eu poderia imaginar.

Acho que só nesse instante eu noto a adoração por essa pessoa que está comigo agora. A única pessoa no mundo que me conhece melhor que eu e, certamente, a única pessoa no mundo a qual eu poderia me entregar de cabeça. A qual eu confio, impressionantemente, de olhos fechados.

Cada pedacinho meu foi tocado pelo amor dele. E se antes eu sobrevivia por entre ruínas, agora eu sei que nada pode arruinar minha felicidade momentânea. Felicidade essa que só posso sentir com ele. É loucura saber que me refiz, que todos os pedaços de mim fora regenerados.

– Eu sei o quão minha mente pode ser fértil – Peeta afirma, segurando minha cintura com delicadeza e puxando-me para o seu colo. – Mas nem nos meus melhores sonhos eu imaginaria vê-la com um sorriso tão grande no rosto por causa de algo que fiz.

Minhas mãos rapidamente vão para a sua nuca e eu o olho nos olhos.

– Eu só vou dizer isso uma vez, então preste atenção, tá legal? – ele assente, os dentes brancos à mostra. – O seu amor me mudou completamente. Eu não sei como nem quando começou, mas admito que foi a melhor coisa que me aconteceu em meio à todo o circo de horrores no qual vivemos.

Ele então me beija. Segura meu rosto com firmeza e me traz para si, deixando todos os meus sentidos fora de controle. Separo meus lábios, abrindo passagem para sua língua. E outra vez seu beijo me tira o fôlego. Eu amo ser beijada por Peeta.

Sorrio entre o beijo por conta do meu pensamento. Nunca, nem em um milhão de anos, eu me imaginaria pensando o que pensei.

– Está lembrando do dia mais feliz da sua vida? – ele questiona, me encarando com seus olhos azuis.

– Sim – minto. – Era uma vez uma cabra.

E eu lhe conto a história outra vez, como se fosse a primeira vez. Peeta faz exatamente as mesmas perguntas que fez há anos e aí eu me dou conta de que nunca havia o perdido por completo. Eu já tinha o achado bem antes.

Depois ele faz questão de me lembrar do meu remédio e do horário entre uma refeição e outra, e só subimos para o quarto para depois voltarmos para a saleta. Acabamos comendo no chão, lado a lado, e pouco a pouco damos fim a tudo que estava sobre a mesa.

– É claro que havia muitos mais países antes de Panem.

– Ah, não! Fala sério. Como teriam destruído todos, então?

– Catástrofes naturais, desastres, uma força divina... – Peeta enumera. Eu rolo os olhos.

– Você disse algo em torno de 200 países. Como uma quantidade tão grande teria sido devastada assim? Se fossem tantos deveria ter restado bem mais que aqueles que originaram Panem. E pelo que sei foram 3!

– Guerras poderiam ter arruinado tudo também. E se somarmos com diversos terremotos, tsunamis, vulcões entrando em erupção constantemente... É claro que poderia.

– Nem adianta. Não acredito.

Ele sorri.

– Tudo bem, eu também demorei muito a acreditar que você disse real.

Acabo rindo e ele também. Ainda com um sorriso, Peeta se aproxima, brincando com os nossos narizes antes de beijar a minha boca. Antes de trazer meu lábio inferior para si e arrancar outro sorriso meu com o ato. Me sinto normal, leve, como se estivesse flutuando. Como se toda uma nova perspectiva estivesse suprindo-se de mim. E pela primeira vez em 20 anos, sou uma jovem adulta normal. Não Katniss Everdeen, o tributo feminino do 12. Não Katniss Everdeen, a garota em chamas. Não Katniss Everdeen, o tordo. Agora eu sou apenas a Katniss.

Em meio a alguns beijos roubados e a gestos de carinhos inimaginavelmente românticos, eu tenho a melhor madrugada da minha vida e o meu lado mais doce aflorado.

**

Quando acordo, meio sonolenta, às 9h da manhã, me deparo com Peeta e seus olhos fincados em mim. Adormecemos abraçados no chão e nem mesmo ele tentou superar a preguiça e me convencer a subir, mesmo porque, aquele quarto nada mais é que uma prisão. O aconchego do seu corpo junto ao meu é tão grande que quase perco a vontade de levantar.

Com a voz embargada, pergunto:

– Acordou há muito tempo?

– Acredito que não. Dez ou quinze minutos, talvez.

– Por que não me acordou? Poderíamos ter descido mais cedo, estou faminta.

Ele ri e eu o empurro para o lado, sabendo que eu sou motivo da sua risada.

– Parece que você veio com um código de fábrica programado para comer. Comer muito.

No mesmo segundo fecho a cara.

O que eu podia fazer? Passei fome grande parte da minha vida, eu estou apenas repondo tudo no meu estômago.

– Ah, vamos lá, Katniss – ele aperta seu braço em volta do meu corpo. – Não estou criticando.

– Nem mesmo deveria. Eu estou sob o efeito de antibióticos, não vou me responsabilizar pelos meus atos.

– Você não tem jeito mesmo – Peeta inclina-se na minha direção, erguendo meu queixo e depositando seus lábios ali.

Viro totalmente o meu corpo, ficando de frente para ele, podendo, assim, acariciar seus cabelos revoltosos e vislumbrar suas olheiras que vem aumentando gradativamente. Olho bem para o seu rosto antes de assegurar:

– Você não tem dormido direito.

– Eu tenho sim.

Seguro a parte esquerda do seu rosto, passando suavemente meu dedo polegar na região abaixo do seu olho onde nota-se uma marca escura acentuada.

– É claro que não, você está parecendo um urso panda.

Apesar de nunca ter visto um na minha frente, já que o Distrito 12 não é uma área propícia para a criação, eu já bati o olho em uma ou duas fotos. E Peeta certamente está bem parecido.

– Não exagere – pede, pondo sua mão sobre a minha num gesto carinhoso. Sua barba que começa a crescer roça na minha mão.

– Não me faça de boba – rebato, olhando-o firme.

Ele suspira, beijando minha palma.

– Não tenho conseguido pregar os olhos por muito tempo. Eu apenas não consigo.

– Com o que você está preocupado? Isso está acontecendo desde que chegamos, não é?

As olheiras não existiam há uma semana, então o cálculo é simples. Um mais um.

– Não é a preocupação. Estou sentindo falta da nossa cama, é só – aperto os olhos e isso faz com que ele levante as mãos em rendição. – Ok, ok, fica calma. Esse olhar me dá calafrios!

– Desembucha.

– Sim, está acontecendo desde que chegamos. Desde que você foi parar na ala hospitalar. Eu tenho pesadelos, às vezes flashes. Eu levanto, seguro a cadeira ou a mesa até conseguir diferir o que é real e o que não é. Depois te assisto dormir. Não é particularmente ruim.

Eu mordo meu lábio inferior. De repente é como se uma tristeza me possuísse.

– Como vamos viver assim? – as palavras escapam da minha boca, mas é uma dúvida cruel que paira sobre mim. Como podemos seguir em frente se a cada maldito minuto algo insiste em intervir no nosso caminho?

Pesadelos, depressão, doenças, telessequestro, tudo num ciclo interminável de tortura. Peeta e eu, hora ou outra, acabaremos sendo meros flagelos humanos.

– Exatamente do jeito que vivemos todos esses anos: um do lado do outro – vejo quando ele sorri e continua com leveza – Nós dois contra o mundo.

Eu solto uma gargalhada alta, ainda que uma lágrima escorra pelo meu olho direito.

– Esse é o clichê mais ridículo que já ouvi.

– Quer saber algo ainda mais ridículo? – assinto. – Os clichês só são clichês porque sempre estão certos.

– É um bom ponto.

Sua mão afaga meu ombro e eu apoio minha cabeça no vão entre seu ombro e pescoço. Perdi todo o apetite, mas sei que ele vai me obrigar a pôr alguma coisa no estômago.

– Você tem que comer.

– É, eu sei. Só vamos dar uma passada no quarto para eu escovar meus dentes.

Com pesar, eu levanto e me afasto para arrumar a pequena bagunça que fizemos com a ajuda de Peeta. Saímos do quarto de mãos dadas, vendo as pessoas que passam pelos corredores direcionarem seus olhares à nós, vez ou outra.

– Podíamos pedir o endereço da Effie para a Paylor. Ela ficaria desapontada se soubesse que estivemos aqui e não fizemos nem uma visita.

Com uma mínima animação, dou uma resposta.

– Tudo bem, mas depois disso voltaremos ao comodismo do 12. Esgotei a minha cota de Capital.

Honestamente, tudo que quero é voltar pra casa. Se antes estive minimamente excitada com a ideia de ficar na Capital por algum motivo, isso certamente passou. Não consigo me acostumar com a cama, com o quarto, com a ideia dos flashes de Peeta estarem voltando todas as noites, muito menos com os luxos e com as memórias que serpenteiam a minha volta sem permissão. Eu não aguento. Estou esgotada emocionalmente. Sinto falta da floresta; de casa; da rotina.

**

Ao entrarmos na sala onde será servido o café da manhã, tudo que passa pela minha cabeça é a ideia do possível reencontro que vem me assombrando desde o minuto que soube dessa viagem.

Annie.

Finn.

São esses os principais nomes em minha cabeça. Os que rondam pelo meu subconsciente e fazem com que eu me sinta exacerbadamente culpada.

Quase suspiro em alívio ao ver que não há ninguém na sala. Somente Gale Hawthorne, aquele que um dia fora meu melhor amigo; meu confidente. Não há ninguém no recinto além dele, três criados e dois guardas que guardam a porta.

Vejo seu rosto contorcendo-se em preocupação quando ele olha para mim. Bem, ele não esteve tão preocupado a ponto de me fazer uma visita após o meu coma, então viro meu rosto quase instantaneamente depois da nossa curta troca de olhares.

Estamos próximos à mesa no momento em que meu egoísmo bate na minha cara. Peeta aperta minha mão com uma força que não lhe é comum. Depois disso, é fácil notar o evidente. Os flashes. Não deve ser a coisa mais difícil do mundo tê-los nesse momento tão conveniente, considerando que não há nada a favor dele. A mansão, a vívida lembrança de Snow, Gale. Se aconteceu no nosso distrito, facilmente aconteceria ali, no seu inferno particular.

Uma rápida raiva passa por mim e me corrói. Eu devia ter aceitado sua proposta antes. Devia ter ido embora na primeira oportunidade. Agora, como se uma crise da minha parte não fosse o suficiente, como se a insônia de Peeta não fosse o suficiente, tem também uma outra crise que está por vir. E o que eu posso fazer a essa altura do campeonato? Aliás, eu já não fiz besteiras o suficiente?

Rapidamente olho para Gale, notando que sua receosidade não fora voltada a mim, mas ao Peeta. Ele com certeza lembra-se do que aconteceu em sua visita ao Distrito 12, dois anos atrás.

Seguro o rosto do homem que está ao meu lado, e ele agarra-se a primeira cadeira que vê em sua frente, segurando as costas dela com força. Seus olhos estão fortemente fechados enquanto suas mãos ficam brancas conforme o aperto intensifica-se. Sua mão já não conforta mais a minha, e o vazio que sinto me faz estremecer.

Ele segura a cadeira por tempo o suficiente para me fazer tirar sangue dos meus lábios, tamanho o nervosismo. É claro que um flashe ocuparia uma parte do nosso café da manhã. Como não pensei nisso? Peeta me alertou antes, eu só não percebi. Perdi o talento para ler entrelinhas.

Eu só odeio o que Snow fez a ele. Odeio Snow. Odeio estar aqui.

Péssima ideia ter continuado. Fiz questão de esquecer que Peeta carrega o seu passado obscuro.

Vejo seu maxilar ficar cada vez mais rígido diante do meu toque e acabo apertando o tecido do seu casaco com meus dedos. Me sentir impotente só torna a situação mais devastadora.

Vai passar, digo para mim mesma, sempre passa.

E passa, no instante em que um grunhido e uma risadinha infantil ecoam pela enorme sala de jantar. Não preciso olhar para trás para saber do que se trata.

– Bom dia! – ouço a voz dócil de Annie. Ela vem até nós e nos dá um sorriso, parecendo desconfortável em comprimentar-nos de outra maneira. Mas sei que isso é dela; Annie, pelo que eu lembrava, não aceitava o toque de outras pessoas tão bem. Só o de uma pessoa. – Algum problema?

– Consequências da guerra – murmuro. Ela aperta os lábios, identificando-se.

Escolha errada de palavras, Katniss.

– Mamãe – há um pequeno ser humano nos pés da ruiva, puxando seu vestido, exigindo atenção. O mesmo serzinho que tirou Peeta do meio do seu doloroso flashe.

– O que você quer, Finn? – ela pergunta olhando para o filho, deixando clara a idolatria.

Qualquer pessoa com olhos veria o quanto ela ama essa criança.

Inevitavelmente, rememoro do meu amigo. Aquele que por tantas vezes desconfiei, mas na verdade foi um dos únicos e verdadeiros amigos que tive toda a minha vida. Finnick lutava com unhas e dentes por aqueles que amava, e tenho a impressão de que ensinou isso à esposa.

Admito que admiro a força dessa mulher. Poucas pessoas teriam aguentado o que ela passou e teriam mantido-se de pé, cuidando e fazendo parte de toda a infância do filho. Minha mãe certamente não é uma delas. Annie não se deu o luxo de deixar Finn de lado, mesmo que houvesse perdido seu alicerce, o marido.

– Jujubas!

Ela abaixa-se para explicar o por que dele não poder comer as tais jujubas agora. Então eu olho para Peeta e vejo como seus olhos brilham vendo a cena. Não, não e não! Se isso for causar pedidos para termos filhos eu irei surtar. Irei ter que explicar todas as minhas razões que levarão dias para ser aceitas, e depois terei de vê-lo com seus olhos de cachorrinho gritantes.

Peeta seria incapaz de usar as palavras "isso é tudo que te pedi em todos esses anos", mas meu subconsciente traidor e culpado poderia usar sem dó. Tenho uma lista descomunal de dívidas com ele e estava prestes a adicionar mais uma à ela.

– Mas, mamãe...

– Nem tente, Finn.

E ele põe o maior bico do mundo em seu rosto.

Peeta, pela primeira desde que chegamos, abre a boca.

– Ei, garotão, quer ver um truque? – Peeta indaga. Eu vejo os olhinhos verdes de Finn brilharem enquanto Annie suspira aliviada. Talvez conter aquele pedacinho de gente com roupas sociais fosse mais difícil do que parece.

– De mágica?

– É claro que sim.

A criança no mesmo segundo desfaz o bico e se agita, conforme Peeta ajoelha-se para ficar do tamanho dele.

Vejo-o sorrateiramente tirar uma moeda do seu bolso. Ele a esconde rapidamente entre os dedos e mostra as palmas de suas mãos vazias. Dois segundos depois, ele está tirando uma moeda da orelha de Finn e dando-a para ele.

– Mamãe, viu?! – ele está em êxtase. – Uma moeda! Ele faz dinheiro aparecer! – a criança vira-se para o outro loiro presente na sala. – O senhor poderia tirar uma jujuba também? Ou qualquer coisa de asçúcar? – Por mais que ele fale a maior parte das palavras corretamente, ele se enrola nessa.

Peeta ri.

– Depois do café da manhã eu posso tentar.

E eu soube que Peeta já havia conquistado o filho de Finnick, sem qualquer esforço para.

Nos sentamos à mesa, que já está sendo posta, enquanto uma Paylor agitada entra no lugar junto àqueles que suponho serem seus conselheiros. E Plutarch e Effie. A nossa colorida acompanhante Effie.

– Katniss! Peeta! – estamos lado e lado e levantamos simultaneamente para cumprimentá-la com um longo abraço. – Hoje vai ser um grande, grande dia!

Eu fico um pouco trêmula ao lembrar dos cenários nos quais estive quando ouvi essas mesmas palavras.

– Acredito que sim. Mas o que faz aqui?

Antes que ela responda, Paylor para próxima a nós, nos saúda com um bom dia e segue para seu assento à mesa.

– Sou a principal organizadora de todos e quaisquer eventos da Capital, principalmente os que acontecem na mansão! – explica, com seu típico sotaque.

– Sua vida deu uma tremenda alavancada, então – Peeta brinca.

– Sem dúvidas, meu querido! – Effie sorri e em seguida pega uma mecha do meu cabelo com carinho. – E como vocês estão? Katniss, eu quis te visitar no dia que soube, mas estive com a agenda tão apertada. Me desculpe.

– Ah, não, não se preocupe. É como se nada tivesse acontecido agora – asseguro.

– Eu espero que sim. Como anda a padaria?

Ela senta-se ao nosso lado, devota e realmente curiosa sobre o que aconteceu com a gente todos esses anos. Perguntamos sobre ela, sobre a Capital e ela fica feliz em responder cada questão. Logo uma Johanna furiosa entra na sala e atenção é direcionada toda à ela, que dissipa todas as conversas paralelas.

– Bom dia! – Effie cumprimenta.

– Bom dia? Você já viu que horas são? – pergunta Johanna cheia de sarcasmo e com cara de quem caiu da cama. Effie quase estremece ao ouvir palavras "tão mal educadas saindo da boca de uma dama".

– Por que está acordada, então? – é Gale que indaga, levantando suas sobrancelhas com desdém. Não me surpreendo com o ceticismo, eles nunca pareceram melhores amigos mesmo.

– Porque ninguém aqui respeita meu sono.

A olho sem entender a questão, exatamente.

– A reunião acontecerá após essa refeição – um dos uniformizados representantes explica.

– Até lá, guardem qualquer questão a respeito disso para vocês – Johanna decreta.

– Não fomos avisados – comenta Peeta.

Plutarch com um sorrisinho replica:

– Não os achamos.

Antes que eu possa dizer alguma coisa ou engasgar com um dos meus bolinhos, Paylor interfere, perguntando a respeito da minha saúde. Eu acabo tendo que falar sobre por uns longos cinco minutos.

Passo os olhos pela mesa. Gale está entretido numa conversa com um dos conselheiros. Paylor e Plutarch conversam baixo sobre alguma coisa. Me perguntou o que ele está fazendo aqui. Annie, Finn, Johanna e Peeta falam sobre Finn, que há todo momento argumenta: "eu tô aqui!". Annie diz que o filho foi sua salvação e eu fico genuinamente feliz em ouvir isso. O que me preocupa é Peeta ser incitado a querer filhos. Ainda não tivemos essa conversa, e eu tento adiá-la o máximo que posso, tentando preparar as minhas melhores justificativas. O que é um tanto irônico, já que estarei lidando com o mestre da persuasão.

Eu acabo serpenteando entre um assunto e outro. Ora converso com Effie, ora com os outros. Mas nada prende minha atenção realmente durante um longo tempo.

Quase no final do café da manhã, quando todos nós estamos tomando a última xícara de café, Haymitch dá o ar da graça.

– Quem é vivo sempre aparece – comento, em tom de repreensão.

– Isso não é hora, queridinha. Ainda mais se levarmos em conta que me mantiveram sóbrio a noite inteira!

– É claro que sim, Senhor Abernathy – Paylor diz. – Imagine se alguém houvesse permitido sua bebedeira incalculável. O senhor aceitou vir aqui por um motivo: política. Não espere que ajudemos na degradação do seu fígado ou algum tipo de auxílio para sua insanidade.

Meus olhos provavelmente brilham quando olho para Haymitch com meu semblante vitorioso.

– A reunião começará em 10 minutos. Sugiro que até lá, Haymitch, tenha tomado uma boa xícara de café e esquecido suas bebidas.

Paylor e seus representantes deixam a sala, mas o restante de nós continuamos ali.

– Parece que todos estão contra mim. Isso só pode ser coisa sua! – acusa Haymitch, apontando seu dedo para mim enquanto segue o conselho da presidente e serve-se do líquido preto que está na cafeteira.

– Na verdade, eu fiz questão de cuidar disso pessoalmente – Effie intervém, com sua postura determinada.

Haymitch para por um segundo, olhando para o seu rosto, como se só tivesse se dado conta da presença dela naquele momento.

– Ah, esqueci! Você ainda tá bancando a fada madrinha.

Effie não se retrai nem nada do tipo, mantém o mesmo olhar rígido e responde.

– Sua cabeça só funciona quando não é violada pelo álcool. Do que adiantaria a sua presença se não estivesse sóbrio?

Ele fica calado. Haymitch não é idiota, sabe que está todo errado e não tem argumentos contra isso.

Ao meu lado Peeta brinca com Finn, de algo que eu não tenho ideia do que seja, mas ele canta repetidamente: "pico-pico-picolé, qual sabor que você quer?". O que, hora ou outra, me faz rir. Annie me conta como estão as coisas no 4, com a ajuda que conseguiu de sua vizinha e a pensão que recebe do governo. Nada é muito duro, ela diz, só a saudade.

– Tudo bem, mocinhos. O relógio chama! Vamos, vamos, vamos.

Effie é a primeira a sair do lugar, fazendo com que seus saltos batam contra a madeira do chão e façam barulho por todo o cômodo. A seguimos instantemente.

Quando estamos todos saindo e Annie bate um papo animado com Peeta alguns passos à frente, eu vejo a minha deixa para agradecer Finn por ter apartado a crise do telessequestro, mesmo que o pequeno não tenha ideia disso. Seguro seu bracinho e ele solta o vestido da mãe, parecendo relaxado. Me vê e sorri.

– Aceita um cubo de açúcar?

– Claro, tia – ele diz, estendendo a mãozinha, onde eu ponho meu objeto de memória de Finnick Odair.

– Nossa segredo, ok? Não conte a sua mãe.

– Então posso contar um segredo também, tia?

Eu assinto.

– Eu adoro cubos de asçúcar.

Ele vira-se para sair da sala, mas antes ergue o dedo polegar num sinal de "ok" depois da tentativa frustrada de piscar para mim. Eu rio e sigo com ele as pessoas até a sala de reunião, glorificando por isso.

Essa reunião é a maldita deixa que eu esperava para nunca mais pôr meus pés aqui.

**

Todos entramos na espaçosa sala onde vai ocorrer a reunião. Finn está com uma criada no quarto, prometendo se comportar para que depois possa brincar excessivamente com Peeta. Eu olho a estrutura da sala, vendo a mesa polida de madeira escura e as paredes no mesmo tom. Muito se assemelha a antiga estrutura das casas da Costura, a diferença é que a madeira das paredes aqui é maciça e de primeira mão.

Numa das extremidades da mesa, bem ao fundo da sala, há um grande quadro — bem perto de onde Paylor, seus conselheiros, Plutarch e Effie espalharam-se para se sentar — e sobre nossas cabeças um projetor que está suspenso por um cabo no teto.

A cadeira estofada é confortável. Peeta segura minha mão sobre o apoio do assento e eu aceito o carinho, tentando me acalmar. De repente, é como se eu tivesse perdido a fala ao lembrar da sugestão de Coin há alguns anos. Foi o meu voto que quase colocou crianças para se digladiarem até a morte numa arena. Estou prestes a ter um refluxo e pôr todo o meu café da manhã para fora.

– Está tudo bem? – Peeta sussurra, enquanto eu finjo prestar atenção nos slides que Plutarch preparou.

– Daqui a pouco fica – digo, mais tentando convencer a mim do que a ele. Peeta entrelaça seus dedos aos meus e acaricia o dorso da minha mão como pode.

O que parece uma vida depois, Paylor levanta-se e toma a fala, finalmente dando um sentido a toda a visita planejada há algumas semanas.

– Como vocês notaram, há indícios e especulações de levantes em alguns distritos. É claro que isso acabaria acontecendo em algum momento, nós só não esperávamos que tão rápido. Minha suposição é que esses rebeldes estejam aproveitando a mudança de governo para derrubá-lo, pois seria bem fácil nesse momento do que em um mais consolidado.

"Portanto, solicitei a presença de vocês aqui hoje para que tomemos providências. Nós não queremos ser radicais, mas metade do meu conselho deseja isso, enquanto a outra se opõe veemente. Vocês participaram da Rebelião e vivem nesses distritos, vocês fazem parte da população e acredito que saibam, melhor do que eu, agora, como reagir a isso."

Johanna a interrompe.

– Você quer a nossa opinião para dar um fim a isso?

– Exato.

– Se eu tivesse meu machado de volta talvez...

– Não é momento para piadinhas, Senhorita Mason – um conselheiro reclama.

– E quem foi que disse que é alguma piadinha? Durante 75 anos a pacificação nos distritos foi à base de mortes, medo, e jogos, e se a Katniss não tivesse inventado de fazer um milhão de estrepolias ainda estaria sendo assim.

– Mas do jeito que estava a qualquer momento uma centelha iria eclodir. Se não fosse a Katniss seria qualquer outra pessoa que tivesse um pouco mais de coragem para dizer que todo aquele circo estava errado! – Gale rebate já se enfurecendo. Eu sei que ele faria tudo de novo e exatamente do mesmo jeito se pudesse.

– Não estou me referindo ao governo narcisista e perverso de Snow, mas ao modo radical. Essa não é a marca do governo de Paylor e olhe onde estamos! Numa sala tentando evitar as possíveis formações de novas rebeliões!

Eu aposto que Gale teria dito alguma coisa se não fosse Peeta, olhando atentamente para os slides e balançando a sua cabeça ao afirmar:

– Isso não tem fundamento.

Toda a sala se vira para ele, mas Johanna é a única que diz algo.

– É claro que não, mas eles não percebem. São apenas crianças que só viram o lado ruim do país e pensam na possível existência de um favoritismo em relação ao 12. Enquanto outros não passam de mimados.

– Mas, infelizmente, com o peso e influência certa eles podem levar todo um distrito a ter o mesmo pensamento. E isso, possivelmente, levaria a uma queda do governo.

– E é exatamente por isso que estamos aqui, bonitão – ela diz como se fosse óbvio.

Eu, com os nervos à flor da pele, apenas balbucio:

– Vocês têm que apartar tudo isso o mais rápido.

Paylor, o mais controlada que pode, direciona um olhar pacífico à mim.

– E o faremos. Contudo, precisamos de ideias e opiniões, e elas têm que vir de vocês.

– É o seu Distrito, afinal. Talvez você devesse saber como dar um jeito nisso – digo, querendo que tudo vá para o seu lugar num passe de mágica.

– Eles acham que estou contra eles.

– Por que não mostrar a eles de que lado está, então? – questiona Annie, abrindo a boca pela primeira vez.

– Porque não é tão simples.

– Na verdade, é sim. Basta conversar, nesse primeiro momento. Deixar claro que já sabe das intenções, convocar alguns dos líderes desse movimento e explicar tudo isso. Não vai dar certo para a maioria, mas você também deve perguntar o que eles buscam. Na cabeça deles, existe um motivo e é nesse motivo que deve basear-se para que dê os próximos passos.

É Peeta. É claro que é ele. O menino altruísta que conheci noutrora. O mesmo garoto que apanhou e queimou pães para me ajudar. O que consolou a morfinácea na praia, no meio do seu leito de morte. O que perdeu sua perna para que eu não perdesse a minha vida. Aquele que tem um poder de palavras invejável. Aquele que nunca foi telessequestrado. É o garoto com o pão.

– O que sugere?

Haymitch diz o que eu tenho certeza que é o que Peeta diria:

– Eu acredito que essas pessoas estejam buscando mais oportunidades, coisa que ninguém em Panem nunca teve. Pelo menos aqueles que tiverem fazendo isso com base em algo consistente.

– Ah, saquei! É isso! – Johanna dá um tapa na mesa, entusiasmada. – Às vezes, por exemplo, pessoas que nasceram no 11 querem fazer algo que só é ensinado no 4. Alguns não conseguem se adaptar ao que são submetidos.

– Sim. Isso – Peeta sorri. – Então por que não abrir um leque de opções? Permitir viagens para a profissionalização e aumentar o foco em escolas? Com a educação certa, todos caminharão.

– Concordo com tudo. Menos com a frase feita e extremamente altruísta do final – a loira sorri, começando a batucar as unhas na mesa.

– Mas é importante saber que, no começo, vai haver resistência. E o governo tem de estar preparado. Ou seja, uma prisão para os que ainda manterem-se com esse pensamento babaca e decidirem atacar diretamente a democracia – Gale dá a ideia. Bem, ele ainda é o mesmo. Sempre pesando os pós e contras. O cara calculista o suficiente para fazer as armadilhas que ajudavam a sustentar a minha família nos piores dias.

– E um tribunal também. Para julgar isso. Mas um tribunal formado por pessoas sensatas. E isso não deve ocorrer somente onde há revoltas, em todos os distritos. A ordem seria mais comum dessa maneira. Acho também que seria válido fazer um programa que abarcasse aqueles que já passaram pelas escolas e não podem voltar. Os mais velhos que quiserem se capacitar em outra área, devem ter o direito de o fazer – Peeta complementa.

Olhamos todos para Paylor e seus conselheiros, esperando uma resposta diante da enxurrada de ideia. Eles estão um tanto embasbacados. Como eu.

Como podem acreditar tanto no futuro de pessoas que insistem em regredir? Como podem esperar tantas coisas boas? Que tudo flua perfeitamente? Não reclamo. Espero que dê certo. É tudo que mais quero. E, honestamente, estou feliz que todos estejam tão distantes do caos que me encontro.

Peeta olha para mim, com um sorriso esperançoso, quase infantil. No fundo, sei que o antigo Peeta está pulando por estar ajudando as pessoas assim, porque esse é exatamente quem ele é.

Notas finais
E aí? O que acharam? Perdão pela demora, sério mesmo. :( Até logo. ask.fm/lwrenci, @lwrenci.