Notas iniciais
Um gostinho das coisas. Boa leitura e espero que esteja bom!

Eu estava congelando até o osso, minhas roupas encharcadas, meu cabelo, meu tudo. Eu segurava a mochila contra o corpo na tentativa meio falha de proteger o pouco que tinha ali da chuva e de quebrar o vento que batia na parte de frente do meu corpo.

Entrei em um estacionamento, e eu só queria saber de um carro mais protegido da chuva pra entrar e me aquecer. Estava tão desesperada que só fiz correr para o veículo mais perto do mercadinho ali, que estaria mais guardadinho da chuva, e sem ligar para o fato de que estava destrancado, entrei.

Me enrolei pateticamente no banco de trás, querendo me aquecer. Estava tão frio que minha respiração fazia fumaça (!) ao sair. Deixei minha mochila no chão do carro, tremendo, me encolhendo, desejando calor.

Droga. Em Portland eu não tinha o problema de ser sem teto. Em Portland eu ficava ou na casa da amiga, ou junto do meu namorado, ou...

Droga. Eu tinha feito de novo.

Empurrei todas as memórias deles pro “baú” mais fundo de minha mente, de novo, esquecendo-me à força de Portland, e me encolhi mais ainda, sentindo as roupas aquecerem de leve.

Aí eu ouvi a porta abrir e um grito, e eu soube que estava perdida.

Pulei no banco e me afastei o máximo possível de quem estava na porta do motorista. Claramente uma mulher, loira, parecia estar um pouquinho à frente na meia idade, usava roupas simples e o cabelo estava amarrado.

− Quem é você? – A mulher gritou. Pronto, tinha acabado meu descanso.

− Desculpe... Fui arrastando-me de leve até a porta aberta, mas tão de leve que era provável que eu nem estivesse mesmo me mexendo.. – Eu... Minha moto morreu no meio da estrada, eu estava levando pro mecânico, mas começou a chover, e eu estava morrendo de frio... Eu só queria me esconder da chuva...

Ela me encarou. Usava óculos e estava com o guarda-chuva aberto, as roupas dela eram simples e estavam invejosamente quentinhas e secas. Ela ficou me olhando por mais alguns segundos, e quando eu ia terminar de me arrastar pra fora, ela suspirou e fechou a porta, entrando no carro no lugar do motorista.

− Eu vou me arrepender disso – A mulher disse pra si mesma. – Vamos pra minha casa. Você deve estar exausta.

Assenti, freneticamente. Bom, parecia que Deus decidiu me dar uma folguinha e fez com que eu entrasse no carro de uma mulher que fosse com minha cara. Pelo menos isso. Valeu aí, fera.

O caminho foi rápido e aconchegante, não fossem as roupas frias e molhadas. Quando chegamos, ela me estendeu seu guarda-chuva para me deixar sair do carro mais protegida (embora, para as minhas roupas, não fizesse muita diferença mesmo). Eu estava agradecendo a Deus e a tudo que tivesse me levado àquele carro.

A casa era bem iluminada e quentinha e aconchegante (mais do que as ruas lascadas e molhadas pela chuva) e, se eu não tivesse decência, teria apagado no sofá.

− Espere aqui. – A mulher sumiu em um dos quartos, e não demorou para ela voltar com roupas quentinhas e secas. – Pode se trocar naquele banheiro. – Ela me mostrou uma porta, sussurrei um obrigada e fui.

Eu me troquei, aquecendo-me em instantes com aquela roupa e apreciando a sensação de algo que não fosse molhado e grudasse na minha pele. Ficava um pouco folgada, mas oquei, era melhor que minhas antigas vestimentas ensopadas.

Olhei meu rosto no espelho. Eu, linda, mas com o cabelo bagunçado, molhado e parecendo deplorável, a pele pálida, magra, os olhos cinzentos mortos. Uma garota de rua. Uma fugitiva, como eu realmente era.

Decidi dar uma fuçada no que ela tinha e detalhe: tinha uma tinta para colorir o cabelo, de cor azul. Segundo o resultado, só deixaria o reflexo, ou seja, você teria que descolorir as mechas antes se quisesse um verdadeiro azul.

Quando voltei, ela estava no sofá, com travesseiros e um lençol.

− Olha, muito obrigada por estar fazendo isso. – Eu pedi. – Estava desesperada.

− Tudo bem, adoro ajudar. Sou Edith. – Ela me estendeu as coisas que segurava. – Depois da porta do banheiro, à direita, tem a porta de um quarto de hóspedes. É seu, pela noite.

− Muito obrigada. – E agora, o que eu diria? Como me apresentaria? Eu não fazia ideia...

Um raio, e um trovão súbito chegaram ali.

− Nossa, esse foi perto. – E foi bem vindo, porque ele me deu uma ideia muito boa.

− Foi mesmo. A propósito, sou Jane. – E fui para o quarto de hóspedes, agradecendo a Deus a alma gentil que Ele tinha posto em meu caminho. Deitei-me na cama, quentinha, e escutei o som da chuva lá fora. Sem que eu estivesse sendo congelada por ela, a chuva era boa, muito boa. Principalmente pra dormir.

Ok, eu tinha acabado de adquirir o nome de Jane. Dizer que meu sobrenome era Foster seria abusar demais, afinal eu estaria me dizendo namorada de Thor! (Aliás, valeu pelo trovão, migo. Me salvou bem na hora.) Então estava na hora de pensar mais em Jane, em outros detalhes, como e quem ela seria...

E tive uma ideia relacionada à tinta azul.

Notas finais
Nos vemos na próxima! Obrigada por lerem!