Wesen Para Vingar

3 O diário de Jane


Notas iniciais
Oláááá, leitores! Obviamente, voltaaaamos! Então, novo capítulo, obviamente, escrito na base de comida e muito da música The Diary Of Jane (de onde veio o título), do Breaking Benjamin. Eu amo tanto essa drogada falsa que sei lá, só... Amo! Então, vamos lá! Citação de início da mesma música do título. Boa leitura!

“Algo está no caminho, algo está prestes a ocorrer, e eu tentarei achar meu lugar.”

*

Eu e Gabi estávamos jogando Clash Of Clans na maior emoção, ela saqueando uma vila e eu atualizando minhas instalações quando Kira chegou, com suprimentos.

Era uma típica tarde de domingo, só que tínhamos sido dispensadas, nós víamos tevê e comíamos algumas besteiras e bebíamos e dormíamos e blá blá blá. Era um dia bom de descanso, e eu estava feliz.

Revelar que era Wesen havia deixado as coisas melhores. Nós nos entendíamos melhor, nós podíamos falar do assunto mais livremente, e apesar das duas ainda não gostarem de eu continuar me drogando, elas entendiam o porquê e pegavam mais leve, apesar de que eu estava tentando parar, indo só de dois em dois dias. Tinha sido tipo sair do armário, só que era um armário Wesen.

Era bom. Minha vida era boa.

− Ainda jogando? Eu saí daqui e vocês estavam grudadas nesse troço! – Kira deixou a sacola com a comida tailandesa em cima da bancada. – Ainda não entendo esse jogo.

− Você não sentiu a magia de ser uma guerreira em um clã, que combate e saqueia e guerreia – Rebati. – Clash é tudo.

− Clash é vidinha – Gabi completou. – É amor.

− É companheirismo.

− É alegria...

− Ok, ok, entendi – Kira se rendeu, sentando entre nós e rindo. – Eu sou a única infeliz daqui, pelo jeito.

− Exata... – Eu comecei.

− Mente. – E Gabizinha completou, como boa amiga que era. Nós começamos a rir, todas juntas.

− Vocês são horríveis. – Ela distribuiu a comida entre nós assim que pausamos o jogo. – Só isso que fizeram?

− Yup. E você?

− Fui comprar o almoço e tive a conversa mais estranha de todas com o penúltimo paquera da nossa amiga loira aqui e tive que jogar nele a terrível verdade de que ele tinha sido trocado por um cara de “dotes” mais avançados. – Eu comecei a rir ao pensar naquilo, mas não podia negar que me trazia lembranças. Ora, eu mesma já não havia trocado um namorado por outro?

− Aiiiii, não era pra ter dispensado ele! Eu tava deixando o Jacob de molhinho, descansando, enquanto eu refletia... – Ela fez bico.

− Isso é sacanagem, Gabi. O cara gostava de você de verdade, não era pra fazer isso com ele, deixar ele esperando por uma resposta que nunca viria.

− Mas, poxa, eu não conseguia me decidir! Os dois são tão... Tão... Ah... – Ela suspirou, e foi como se eu me ouvisse falar do Michael e do Renard. Era a mesma coisa, a mesma indecisão, o mesmo “eu não consigo me decidir!”. A mesmíssima dúvida.

E eu decidi ajudá-la, porque eu sabia como era.

− Mas, Gabi, você não só dorme com esses caras, sua promíscua acesa? – Ela riu do jeito que eu a chamava, de vez em quando, só pra enchê-la.

− Geralmente, sim... – Ela comeu mais um pouco da sua porção. – Mas é que, hm, eu realmente gostava deles. Eles me faziam feliz. De verdade. E eu queria muito ficar com os dois, porque eu sentia que, sei lá!...

− A Gabrielle tá apaixonadaaaa... – Kira cantarolou, e eu dei uma risadinha seca, porque eu sabia como era. Eu entendia Gabi, sabia qual era a dor do coração dela.

Sabia quão difícil era de se achar a resposta, mesmo que ela fosse óbvia; tinha vezes que você não quer escolher, você quer os dois, porque alguém se magoa no processo. E geralmente você vai junto, isto é, se você já não for o primeiro ser magoado da equação. Amar duas pessoas é muito difícil.

− Bom, escolha o que você amou depois. – Elas me encararam. – É a lei. Se você ama duas pessoas, escolha a segunda...

− Porque se amasse a primeira, nunca teria se apaixonado pela segunda. Eu sei, Johnny Depp, mas mesmo assim é difícil abrir mão de um! Ele era tão carinhoso... Até a Kira mandar ele pra longe! – Gabi bateu os pés e deu um mini piripaque. – Obrigada! – Ela bradou ironicamente.

− Opa, sempre. – Eu ri e continuei comendo.

As coisas estavam boas em Santa Monica. O vento soprava, as pessoas eram felizes, eu estava vivendo bem, não havia nenhum problema, nenhum cachorro Wesen me farejando. Haviam se passado seis meses desde que eu havia deixado Portland, e eu não havia sido encontrada, embora imaginasse que era procurada, e sem sucesso.

E isso me deixava feliz. Porque eles não me achariam, e eu não queria ser achada.

*Nick*

No momento, eu estava no trailer, sem quase nada pra fazer.

Bom, não era nenhum caso que envolvesse Wesens, pelo menos por enquanto tudo estava bem comum e o nosso suspeito ainda estava em custódia, apesar da aparente inocência e falta de woge. Então, como estávamos estacados e eu pedi a Wu que investigasse mais uns detalhes curiosos que eu duvidava, Hank foi comprar café e rosquinhas e eu fui pro trailer.

E adivinha o que eu estava fazendo?

Vendo o vídeo da Alicia.

Era sério, eu estava entrando em desespero. E pelo jeito não era o único, já que tinha sido chamado pelo capitão um dia desses para falar do assunto.

Da minha irmã.

O quesito estranho vai de um a “Ei, preciso falar com você sobre sua irmã, mesmo que eu só a tenha visto duas vezes na vida”.

− Sim? – Entrei na sala, logo após ele ter chamado meu sobrenome, direto do batente. – Devo fechar a porta?

− Melhor. – Olhei a bengala pendurada em um dos vários cabides, e me perguntei quando ela sumiria dali. Dava um jeito mais Doutor House ao capitão, e ele já era bem rabugento por si só. Faltavam só as piadas de humor negro, um loiro e uma mulher pra sermos a equipe completa; eu seria o Taub e o Hank, o Foreman. Quer dizer, a Adalind poderia ser a Cameron, então só faltava o loiro. Coitados de nós. – Há dois dias atrás Bárbara e Michael foram à minha casa, querendo falar da Alicia.

E meu cérebro entrou em potência máxima. O nome de minha irmã era como um gatilho pro meu raciocínio.

− O que tem ela?

− Eles fizeram umas perguntas, se eu sabia pra onde ela tinha ido, mas acabaram surgindo uns pontos interessantes. O resumo de todos eles, basicamente, é que não foi Alicia no meu apartamento na noite em que fui pro hospital.

Franzi as sobrancelhas, meio confuso, mas vendo que havia um fundo de sentido ali.

− Mas você disse que a viu... Se bem que eu achava isso estranho. Não faz sentido deixar que ela te visse, a não ser que tivesse certeza que você fosse morrer.

− E aí está outra coisa. Bárbara me disse que, se Alicia quer matar, ela não espanca. Ela faz certeiro, corta a garganta ou coisa assim.

− Mas depois ela ateou fogo no seu apartamento.

− Outra coisa que não faz sentido. Se pensar bem, mesmo que o fogo me matasse, ela estaria chamando muito a atenção, era muito teatral. Alicia não era assim, era? Você pode me dizer isso bem. – E eu pensei naquilo.

Sim, Alicia era bem prática, simples, quando era pra fazer, fazia. Eu não lembrava de ela ficar fazendo esse tipo de drama ou show. E fazia sentido o que Bárbara falou.

− Mais alguma coisa? – A ideia de que não era Alicia começou a gelar o sangue em minhas veias. E se, no vídeo, já fosse a pessoa impostora? E se alguém desconhecido tivesse entrado no trailer da tia Marie?

Quase senti meu coração parar com a ideia.

− Eles disseram que ela estava se vestindo estranho quando eu falei que ela estava usando capuz, mas o detalhe mais forte. A woge. – O silêncio se instalou ali por três segundos. – Não era dela.

− Mas como saber? Ela quase nunca wogava e a woge dela em si era confusa.

− Os olhos de Alicia ficaram negros nas escleróticas. – E isso foi definitivo. Porque os olhos de minha irmã não eram negros. – Como se ela estivesse possuída. E eu vi aquilo, mesmo que tenha sido muito breve.

− Os olhos da minha irmã eram vermelho e amarelo. Era uma falsa Alicia. – Mordi os lábios. – O que mais te fez perceber que ela estava estranha?

− Ela estava muito... Desprezível. Com todo o respeito. – O capitão fez uma cara de dor logo em seguida e uma de suas mãos foi para a coxa, esfregando.

− A perna? – Perguntei, e vi ele tirar umas pílulas da gavetinha do lado dele, na mesa.

− Sim, ela voltou a doer. Está horrível. – Ele engoliu os analgésicos com uns goles de café. – Bom, era isso. Alguma coisa quanto a ela?

− Nenhuma. Ela sabe como sumir, quando precisa. – Ele mordeu o lábio inferior, e foi estranho. Eu nunca o tinha visto fazer aquilo.

− Se incomodaria se eu fizesse minha própria pesquisa, Nick? – Fiquei confuso. Por que ele queria achar Alicia? O que ela tinha de importante pra ele se empenhar naquilo, gastar seu tempo naquilo? Só porque eu queria achá-la?

− Vou pensar. Mas, por enquanto, sim. Me incomodaria. – E saí.

E fiquei com isso na cabeça por DOIS DIAS. Até que eu fiquei agoniado demais pra continuar com aquilo e vim analisar o vídeo de novo.

No dia que fiquei sabendo, eu vim direto pra cá e analisei tudo o que eu lembrava que estava ali, dos livros às poções às armas. Algumas facas tinham sumido, e aquilo me deixava terrivelmente angustiado. Mas só duas ou três, de resto, nada havia sido alterado. A chave continuava no seu lugar, e o vídeo...

Eu o assisti, como sempre, mas esquadrinhando o fundo, a roupa de Alicia, suas ações. Bom, eu não via nada de anormal na roupa dela, ela não usava um capuz. Então eram altas as chances de ser a Alicia verdadeira, até porque aquele trailer estava escondido agora e eram poucas as pessoas que sabiam sua localização.

E, agora, eu o assistia mais uma vez, mas dessa vez, eu procurava qual era a mensagem que ela tinha me deixado escondida. Eu sabia que não era nada óbvio, mas também não deveria ser nada muito difícil a ponto de eu não entender, como disse Juliette. Deveria ser algo bem disfarçado...

O que era?

Então chegou no momento que ela ficava calada, e eu ouvia aquela mesma frase que já tinha escutado mil e uma vezes.

You think I woulda notice...

Você acha que eu notaria.

Notaria...

A frase deu um estalo na minha cabeça. “Você acha que eu notaria.”! Poderia ser pura coincidência, apenas uma besteira da minha mente desesperada em achar qual era a mensagem subliminar, mas aquilo era relacionado à notar. Você acha que eu notaria.

Alicia achava que eu iria notar sua mensagem.

Será que era isso?

De qualquer maneira, era uma pista.

Poderia ser uma imensa bobeira, uma muito tosca, eu deveria estar viajando, mas peguei meu celular e joguei a frase, entre aspas, na internet. E o resultado quase me fez gritar de alegria, porque eu tinha achado Alicia.

Santa Monica. Era uma música, a que tocava no fundo do vídeo. E, agora, se eu ignorasse a voz dela, eu conseguia ouvir a letra, ouvir a frase.

“And I remember the time, when you left for Santa Monica...”

Era onde minha irmã estava.

E era de onde ela voltaria para Portland, assim que fôssemos buscá-la.

*

Eu fiquei muito animado, tanto que passei uma meia hora deitado só tentando me acalmar. Mas era minha irmãzinha, eu achava que a tinha perdido pra sempre e não tinha. Ela estava bem ali, tinha me deixado ao alcance dela. E eu a havia alcançado. Embora eu não pudesse ter evitado o que ela me pediu para tentar evitar (“não fique vendo esse vídeo várias vezes”), pelo menos aquilo me trouxe algo bom. Eu a reencontrei. E mesmo que talvez não fosse o totalmente necessário dela, mas era o meu totalmente necessário. Eu queria minha irmã mais nova de volta.

Então, quando estava mais calmo, fui de volta para a delegacia, e no caminho eu ficava pensando “será que conto pro capitão? O que ele teria a ver com Alicia?”. Bom, eu não sabia de nenhuma relação entre eles fora que ele a tinha ajudado a me encontrar, ou seja, sem motivo para falar.

E isso me fazia lembrar que ele estava querendo procurá-la, também. Mas por quê? Eles haviam virado colegas, amigos, parceiros, qualquer coisa do tipo e eu não sabia? E quando isso?

Bom, provavelmente quando ele a ajudou a me encontrar. Eu sabia que eles se falavam algumas vezes, até naquele plano de proteção, mas eu não sabia mesmo se...

E me caiu a ficha de uma coisinha.

O plano de proteção partiu dos dois. O capitão nos chamou pra ir pra casa dele, e Alicia já estava lá. Eles haviam arquitetado aquilo tudo juntos, e não era possível que fossem falar daquilo totalmente à toa...

Será que... Eles eram parceiros?

Explicaria o porquê do interesse dele em tê-la de volta a ponto de se esforçar e querer dedicar seus próprios meios a reencontrá-la, e isso faria o fato dela ter supostamente atacado o cara ainda mais estranho. E se eles fossem aliados, parceiros, mesmo?...

O que será que Alicia fazia pro capitão?

Eu só esperava que, se ela voltasse, não tentasse matar a Adalind, mesmo que todos nós quiséssemos, e ela merecesse, porque infelizmente a loira estava com o filho do capitão no útero e, se ele morresse, eu sabia que o Renard ficaria furioso e aí seria guerra. E eu tinha medo de que caminho aquela guerra tomaria, conhecendo os dois.

Bom, que eles fossem só aliados mesmo e ela fosse boazinha de me ouvir e não querer buscar minha vingança no segundo que visse a loira, embora a votação para dar carte blanche à Alicia fosse quase total. (E, se o fizesse, deixasse um pouco pra mim. Eu tinha muito o que descontar na cara dela.)

Mas eu não havia chegado a um acordo quanto a contar ao meu chefe que tinha achado minha irmã. Então, primeiro decidi contar ao meu melhor amigo e parceiro, apresentando: Hank Griffin.

− Finalmente, hein? Depois de meses... – Eu o encarei com meu olhar mais sarcástico. – Mas por que contar ao capitão?

− Bom, já teve umas duas ou três vezes em que o capitão mostrou interesse em ter a Alicia de volta, e não pra prendê-la. Então... – Deixei a frase em aberto, porque eu não sabia como terminá-la.

− Mas você não acha isso estranho? – Ele opinou. – Quer dizer...

− Sim, eu acho, mas no fim das contas ele quer o que nós, ou melhor, eu quero. O que ele tentar depois, a Alicia pode lidar com. Eu acho.

− Bom, eu só contaria por um motivo: se ele a quer de volta, por quaisquer que sejam seus motivos, esconder essa informação dele o deixaria meio bravo.

− O que me preocupa são os planos dele. Se ele incluiu minha irmã nos seus planos, como nós éramos até um tempo atrás, se ela não é um peão dele, que ele vai mover para confrontar com outro e então poder avançar com segurança.

− É, bom ponto. Mas, se ela era aliada dele, então talvez ele não a usasse dessa maneira. Até porque, segundo você, ela não deixaria isso barato.

− Bom, por enquanto eu vou falar com uma amiga dela, confirmar minhas suspeitas, ver se conseguimos alcançá-la. Mas não me sinto confortável falando sobre Alicia com ele... Tinha que sentir o que eu senti quando estava na sala dele, falando sobre minha irmã. Hm, e você ainda duvida dela?

− Ela ter fugido é estranho, mas não posso negar que era uma boa garota.

− Só agora você acha isso. – Nós rimos, mas aí Wu apareceu com uma nova pista e nós tivemos que voltar à ativa depois da breve pausa.

*Alicia*

Eu estava me sentindo tonta, meio molenga, e com uma dor pulsando suave nos meus músculos. Gabi e Kira estavam vendo tevê, mas minha cabeça tinha começado a pulsar e eu senti dor e vim me deitar.

E eu estava delirando, bom mencionar.

Tipo, tinha umas sombras se arrastando pelas paredes do quarto, e eu tentava me levantar, mas as minhas pernas balançavam pateticamente de um lado para o outro na cama. E então eu ouvia o som do meu alarme, mas depois de usar todas as minhas forças eu pegava o meu celular para desativar o som irritante e via que não tinha nada tocando. E eu estava ficando com calor, muito calor, um calor infernal...

E o quarto estava ficando iluminado?

Sério, parecia que o sol tinha saído de trás das nuvens e tinha se aproximado pra me dar um oi, porque estava um calor e uma luz infernal naquele quarto. Eu me revirei na cama, mas a luz estava em todo lugar...

Aí...

Eu fui...

Apagando...

Depois do que deveriam ter sido horas, eu despertei, e o colchão era macio e o edredom era uma delícia de fofinho, como se tivessem transformado a névoa em pano, e o cheiro do meu amante estava por todo o lugar, e era uma delícia aquele amadeirado masculino.

Eu sentia o pano roçando contra partes do meu corpo que não estariam tocando os lençóis diretamente em uma situação normal, e era tão bom, tipo um carinho, de tão macio que o pano era.

Então eu senti a pele grosseira dele, mas ao mesmo tempo suave e, de algum modo, macia. Suspirei enquanto sua mão passeava pelo meu pescoço, então pelo ombro, depois descia por um dos seios, e então tocava meu abdômen e ventre tão delicadamente que as borboletas acordaram todinhas e bateram suas asas, voando para perto dos dedos dele.

Então a mão de Renard deslizou entre minhas coxas, e foi divino. Eu suspirei e entreguei os pontos para ele, tremendo com a sensação e a antecipação do que viria, enquanto buscava o peito dele para me apoiar e inspirar o cheiro dele direto de onde vinha. Todos os músculos, firmes, deliciosos, me deram apoio enquanto eu redescobria todo um outro universo, pertencente só aos amantes.

Então depois eu estava relaxando contra ele, sua outra mão fazendo carinho nas minhas costas.

− Eu te amo... – Suspirei, enquanto sentia a respiração dele contra minha cabeça, esquentando meu cabelo, longo, encaracolado e totalmente negro. Eu sentia seu peito subir e descer, e ouvia os batimentos pesados de seu coração, tão fortes que eram como um trovão, mas suave e uniforme. Deslizei minha mão, com as garras para fora, pela sua pele, arranhando, ouvindo-o suspirar.

Eu era Alicia de novo... Que alívio.

− Também te amo. – Sean levou a minha mão transformada aos seus lábios, e beijou com uma delicadeza que era surpreendente. Eu deixei a palma descansando contra seu ombro, e nós dois ficamos ali, aproveitando que nada nos perturbava pela eternidade.

Aí toda a luz foi absorvida de volta enquanto eu tentava desesperadamente me apegar a algo dali, daquele pequeno céu que eu tinha achado em Portland, com um homem que eu amava e que, mesmo que por poucos dias, tivesse me amado. Embora nunca tivéssemos dormido juntos, eu sabia que ele queria, e eu também...

E eu acordei de volta no corpo de Jane.

Tudo me parecia estranho demais, ver o teto de gesso branco com algumas rachaduras, o ventilador girando, com a lâmpada em seu centro, o cômodo despido de qualquer tipo de luxo. Eu olhei para a parede que ficava de frente pra cama.

E lembrei de Ruby.

Ela era minha filha, filha de Alicia, e logo nos primeiros dias que fugi eu tive um sonho com ela. Na época, eu ainda me escondia em hotéis, e aquele era um de estrada, com umas árvores logo atrás, um mini bosque.

No sonho, eu e ela e o Renard estávamos correndo, mas não era uma fuga desesperada, era como pega-pega. Ruby estava sentada nos ombros do pai, gritando “mais rápido! Mais rápido!” animada, e dando risadas, e eu ria com ela e com seu pai de sua animação.

Então a luz do sol ia ficando mais escura, e o céu ficava todo nublado, e na verdade eu que estava fugindo, correndo pra longe deles, minhas roupas sendo retalhadas pelos galhos e minha pele, cortada, meus pés estavam em carne viva de tanto correr e topar com pedras, e eu ouvia o chorinho da minha filha, pedindo pra eu voltar, correndo pelos próprios pés:

− Mamãe! Mamãe!

E também havia Renard, chamando meu nome, me pedindo para ficar, pela nossa menina, por ele, por mim.

Mas eu não os ouvia. Eu continuava correndo, e minha energia nunca acabava, até que eu estava muito longe para eles me pegarem, e os dois estivessem muito cansados, e ele tinha que se sentar contra uma árvore, parecendo totalmente velho e desgastado com os cabelos brancos e algumas rugas, consolando nossa filhinha, que chorava inconsoladamente, jovem, mas raquítica e pálida de morte.

Então eu os observei definhar em um desfalecimento solitário enquanto permanecia linda e jovem.

Quando eu acordei, percebi que estava chorando. Sim, chorando. Aquele sonho tinha me mostrado o que eu sabia: eu tinha praticamente abandonado os dois, matado minha garota. Ela nem existia nem nunca existiria, mas eu a amava, e não conseguia fazer nada que a afetaria de um jeito ruim.

Até ali.

Só que Renard continuaria bem, então aquela parte de meu sonho estava errada. Ele não precisava de mim, era solteiro convicto, eu percebi aquilo. E mesmo que quisesse uma namorada, ele poderia arrumar qualquer miss de Portland ou até uma modelo russa, austríaca, europeia, qualquer coisa. Ele era lindo e todas se ajoelhariam (opaaaaaa) pra ter uma chance com o príncipe de Portland.

Eu as invejava e queria todas mortas. Como eu queria matar todas.

Mas agora não dava mais pra voltar atrás. Eu era Jane, agora. Eu tinha conhecido Gabi e Kira na lanchonete, elas tinham virado minhas melhores amigas em dois dias, e elas me deram sua casa, também. Para elas, eu era a garçonete Lebensauger que se drogava por um passado péssimo de abusos dos pais e pelo Wesen que era.

Eu não era nada mais que aquilo, e era daquela maneira que as coisas deveriam ficar.

Mas eu sentia falta de Portland, mais do que tudo. Agora que me permitia pensar naquele lugar, era como se algo tivesse ficado por lá. E eu sabia o que era: aquela vida antiga, quando ainda sentia meu coração batendo pelo Renard, mas mesmo assim era sarcástica e distante com ele; quando eu, Emily e Bárbara saíamos pela cidade fazendo compras e conversando, quando eu tinha o Michael de namorado e sentia a falta dele desgraçadamente.

Poxa.

Por falar em namorado...

− J, e o Phillip? – Kira entrou e sentou ao pé da cama. – Como ficou, desde aquele dia, entre vocês? É amanhã que vocês vão sair, não é?

− É... Ele me pediu naquele dia, na praia, pra gente sair. Vamos a um restaurante aí, mas ele não me contou qual era. Quero ajuda de vocês pra escolher as roupas. – Eu sorri, lembrando de Barbie e Emy, que me transformavam em uma boneca quando eu queria sair de casa.

− Bom, a gente até ajuda, mas conhecendo seu inventário de roupas vai ser que nem o Ford T. É preto ou preto. – Nós rimos um pouco. – Enfim, vamos fazer o nosso máximo pra te deixar ainda mais linda.

− Boa sorte. – Eu me reclinei contra a cama, novamente. – O que te deixa tão animada por eu namorar?

− Ah, é que eu torcia pra vocês desde que eu vi ele te jogando aquelas cantadas na lanchonete. Eu nunca tinha visto algo tão FOFO! – Ela gritou e rolou na cama, e eu fiquei encarando o rosto dela.

− Te controla, criatura!

− Mas como? Quer dizer, a gótica do coração frio, namorando o carinha mais romântico de toda a Santa Monica! E que é da raríssima espécie que não tem uma ereção instantânea e/ou ainda não comeu a Gabi! Amiga, você ganhou na loteria do amor máximo! Vocês são o casal perfeito!

− Exagerada. Eu nem... Gosto dele, assim, pra valer.

− Bom, veremos depois de amanhã, não veremos? – Ela sorriu. – Boa sorte no encontro, amiga! Porque, se você não pegar, eu pego!

Eu sorri pra Kira e peguei minha guitarra, dedilhando algumas notas aleatórias. De repente, meus dedos foram tomando uma ordem, e do nada as notas se uniram e eu ouvia o solo da música The Diary Of Jane, da minha música.

Minha música porque eu sentia que algo sempre estava prestes a explodir na minha cara, e porque eu nunca conseguia achar meu lugar, mesmo que tentasse. Eu era sempre deslocada, nunca tinha um lugar, um papel.

Todo dia eu acordava e, depois de passarem os três segundos em que você não lembra de nada, eu pensava: “é hoje que a Verrat me acha?”. Mas nunca era, e toda noite eu agradecia a quem quer que mantivesse todos os meus antigos conhecidos ou amigos ou partes da minha antiga vida longe de mim.

E eu parecia finalmente ter achado meu lugar, e não queria sair dali de jeito nenhum.

Nem que Nick fosse me pedir de pés juntos.

*Nick*

Quando eu mandei mensagem pra Barbie, ela me mandou o endereço do hotel onde estava morando com o namorado da minha irmã e eu fui lá pra falar sobre Alicia.

− Oi, Nick! – Ela me abraçou. – Vem, entra.

− Cadê o Michael?

− Fala, cunhado! – Eu ouvi a voz dele em algum canto do cômodo. Nós entramos e eu o vi sentado sobre a cama. – A que devo a visita?

− Vim falar sobre minha irmã. – E os dois ficaram subitamente sérios. – Barbie, eu fiquei sabendo sobre sua teoria de que minha irmã não foi quem atacou o meu chefe naquela noite.

− Que chefe fofoqueiro você tem. – Ela se sentou na cama, me observando. – Mas e então, alguma reclamação?

− Não, eu, na verdade, concordo com tudo que você disse. – Eu entrei mais no quarto, a porta se fechando atrás de mim. – É que, bom, eu acho que descobri pra onde Alicia foi.

Eu vi os olhos dos dois se iluminarem.

− Como?

− Ela me deixou uma mensagem, dizendo que eu era o único que saberia onde ela estava e que eu não deveria dizer a ninguém. Eu passei esses seis meses analisando essa mensagem, e acho que descobri. Mas é um palpite bem solto, provavelmente falho, e simples.

− Mas por que Alicia deixaria uma mensagem, se quisesse sumir?

− Porque talvez ela quisesse poder ser alcançada, se algum de nós precisasse dela. – Justifiquei, e Barbie fez cara de quem tinha entendido. – Alicia talvez quisesse permanecer ao alcance.

− É... Considerando que você é irmão dela, faz algum sentido. Mas enfim, onde ela está?

− Santa Monica.

Ficamos todos calados, processando a informação.

− Uou... Santa Monica. – Barbie se reclinou, chocada, incrédula, qualquer coisa do tipo. – Tem certeza?

− Não. – Ela fez cara feia. – Mas isso é o mais perto que temos, e eu preciso da minha irmã caçula de volta.

− E eu, da minha namorada. – Michael serviu um copinho com vodka, eu supunha, e me ofereceu. – Quer?

− Bom aceitar, Nick. O Mike é russo, e os russos consideram recusar vodka falta de educação. – Barbie avisou. Fiquei surpreso e encarei Michael.

− Russo?

− Opa. – Eu sorri meio ironicamente e peguei o copinho, tomando-o de uma vez só. – Agora sim.

− Ok, então Alicia está em Santa Monica. – Ele disse, analisando a estampa da garrafa. – Eu vou pra lá.

− Mas e se ela não estiver lá? – Barbie protestou. – Vai simplesmente sair daqui do nada procurando pela sua namorada que nem sabemos onde está direito?

− Eu a amo, então, sim, eu vou. – Ele olhou pra mim. – Quais são as chances de eu achar minha garota por lá?

− De acordo com o vídeo... Eu chuto, 60%. – Ele deu um sorrisinho com o canto da boca. – Traz a minha irmã de volta.

− Assim que eu sair, Barbie vai te passar qualquer informação.

− Ainda acho isso meio arriscado... Além do mais, quem teria feito isso com a Ally, como, e se essa pessoa ainda estiver aqui? – A amiga de minha irmã pontuou.

− Eu acho que posso descobrir isso. – Trocamos olhares. – Eu acho.

− Hmmm... Me avise se conseguir resultados. Eu só quero minha amiga de volta, ok? Então... – Ela suspirou e desabou na cama. – Michael...

− Hoje á noite eu tô de saída.

− Não é isso. Eu não quero ficar sozinha. – De repente, eu meio que me senti segurando vela, e aí decidi que era minha hora de ir embora se não quisesse dar uma de castiçal.

− Bom, eu disse o que sabia, então estou indo. – E algo me abraçou por trás, tipo, totalmente do nada.

− Obrigada por ignorar o que Alicia te disse e vir nos entregar a localização dela. De verdade, eu realmente quero ela de volta. – Bárbara esfregou o rosto nas minhas costas, e foi realmente fofinho. Passei minhas mãos sobre os braços dela, que estavam em volta do meu tórax.

− Nós três queremos.

*Michael*

Então Nick foi embora, e eu fiquei com, tipo, dois mil toneladas de pesos na consciência.

Eu não mentia sobre amar Alicia e querê-la de volta. Mas eu sabia o que aquilo significava. Se ela voltasse para Portland, estaria de volta ao alcance dos olhos de gavião da Nira... E, assim, voltaria a ser uma peça no tabuleiro.

Mas eu já tinha me oferecido para ser a passagem de minha namorada de volta para Portland. Se eu não fosse, levantaria suspeitas. Se eu fosse mas não voltasse com Alicia, levantaria suspeitas.

Eu estava obrigado.

Então Bárbara estava se sentando de volta na cama, de frente para mim, e eu voltei a prestar atenção na minha nova melhor amiga.

Quando Alicia a levou pra mim, eu imaginava que seria esquisito ficar cuidando dela, tipo... Ela meio que tinha sido empurrada pra mim, e nós nem nos conhecíamos direito. Então Alicia sumiu, e eu senti a dor que Bárbara sentiu, e viramos amigos. E, a partir dali, foi tão mais fácil para nós dois sermos amigos de verdade, quando percebemos que havia, de fato, um conteúdo por baixo de nossos rostinhos bonitos.

E pronto. Assim a melhor amizade que eu tive em anos começou.

Nós nos encaramos, e eu via a tristeza nos olhos dela, e aquilo me machucou. Barbie era minha sestra, minha irmã de coração, e eu não conseguia vê-la triste.

Quer dizer, irmã me soa muito fraternal, mas é a melhor definição que eu consigo achar, afinal, tenho namorada.

− Que foi, Barbie? – Ela fez um muxoxo.

− E se você não trouxer Alicia de volta?

− E por que eu não traria? – Eu sorri pra ela. – Ela é sua amiga, minha namorada, irmã do meu cunhado, claramente. E todo mundo por aqui a quer de volta, até o cara que a odeia. Odiava. Temos que atualizar esse verbo...

− Bem falado. Como vai fazer se a Alicia quiser ficar com o Renard de novo? – E veio uma luz.

Será que aquilo bastava como desculpa para nunca ir buscar Alicia?

Infelizmente, eu sabia que não.

− Bom... Posso tentar elevar minha sedução ao máximo... – Eu sacudi minha cabeça, estilo bate-cabelo, e ela riu. – Na verdade, eu não sei. Eles parecem bem... Eu não sei... O quanto o capitão significa para ela?

− Pelo o que eu sei? Muito. – Ficamos calados. – E ele parece que também gosta da Alicia.

− Se repassar isso e considerar de quem estamos falando, soa meio bobo, não soa? – Ela inclinou a cabeça. – Affe, eu só quero a Alicia. A partir do momento em que ela estiver aqui, a gente tenta alguma coisa.

Ela concordou e eu disse que iria sair pra dar uma volta, pensar no que ia fazer. Prometi a ela que não iria pra Santa Monica escondido e saí.

Bom, deixe-me falar um pouquinho. Eu era filho de um americano e uma russa, o que era uma ironia louca. Eu estava convivendo com americanos, trabalhando com americanos (pelo menos não era para americanos), namorando uma americana (fugitiva), e sendo o melhor amigo de uma...

Americana/espanhola?

É, escapei.

Para nós, russos, vale tudo, mesmo fora da guerra e do amor. Se você tiver justificativas, pode simplesmente ir para o “lado negro” da força. Nós não vemos muito problema em corrupção (claro, tudo tem seus limites). Nós aceitamos todo tipo de contrato pela família, em nome daqueles que amamos.

Ou no nosso próprio nome.

Então, quando eu comecei a trabalhar para a Nira, quando eu olhei para Alicia e vi como ela havia mudado tanto, e ao mesmo tempo, não havia mudado nada, eu simplesmente ouvi meu lado russo falar mais alto. Eu sabia que Naomi e Scheila também não estavam do lado de Nira, e nós três havíamos surpreendentemente aceitado por um ou dois motivos: sair do asilo com louvor e/ou acabar com Nira, já que ninguém aguentava mais o narizinho empinado dela e nós queríamos quebrá-lo.

Mas parte de mim também gostava de Nira, de suas festas e safadeza. Mas era só. Ela era como uma boneca com a qual você se diverte (e não me chamem de babaca, ela mesma que se fazia de uma) e depois devolve à prateleira.

Ou seja, eu estava “traindo” Alicia, mas estava traindo minha traição à Alicia, porque enquanto tramava com Nira, tramava com as inimigas da Nira.

Então, eu ia avisar à milady sobre sua inimiga estar voltando, e deixar minhas aliadas prontas para tramar nossos “contra-avanços”.

− Voltando? – Nira sorriu, com aquele robe preto dela caindo pelos lados do corpo. – Então algo de decente você fez. Parabéns. – Ela se levantou e me beijou, na frente de todo mundo, aquele beijo louco do tipo “tô engolindo sua cara”. Eu correspondi, claro, mas estava morrendo de vergonha. – Perfeito. E como estamos com os outros?

− Emily não está mais ligando para nada a não ser o próprio nariz, e todo o resto parece que se recuperou da partida dela. – Scheila relatou, calmamente. – E então, o que fazemos?

− Deixamos ela voltar. Observamos. E você, trate de fazer bem o seu trabalho. – Nira apontou um dedo no meu peito. – Faça ela se apaixonar tanto por você que vai esquecer o outro amante dela.

− Mesmo que ela não esqueça, ela será forçada a largá-lo. Ele está com outra agora... – Scheila ficou de pé e se espreguiçou. – Relaxe, milady. Alicia vai ficar com nosso Mikah aqui, ele é muito charmoso e tudo o que ela tem disponível agora.

− Obrigado por esfregar na minha cara que eu sou última opção. – Atirei pra ela. – Mas, bem, infelizmente é verdade.

− Que seja. Só faça. – E ela começou a se afastar. No fim das contas, só ficou eu, Scheila e Naomi.

− E aí, o que a gente faz?

*Alicia*

Tinha acontecido de novo.

Eu tinha ido pro banheiro de novo, e consegui recuperar um pouco mais do meu controle, mas no meio daquela loucura, me veio a realização: eu não podia reduzir minha dose nas drogas. Meu corpo tinha se acostumado a queimar aquela dose, então era dela que eu precisava.

Kira e Gabi tinham uma ideia do que eu estava passando, então não se importaram em quebrar a porta do banheiro dessa vez.

Não – Pedi. Eu iria machucá-las enquanto as convulsões não parassem.

− Aqui, amiga. – Ela colocou uma garrafa entre nós. – Uísque. Se drogas te mantém sobre controle, então pode beber.

Minha mão tremia demais, mas com algum esforço consegui pegar a garrafa. Minhas convulsões estavam melhores, e eu consegui enfiar o gargalo na boca e beber um pouco. De leve, a sensação foi melhorando, e quanto mais eu bebia, melhor eu me sentia.

Não sei como, mas aquele mínimo de autocontrole mais o álcool logo me fizeram melhorar, e eu estava caída no chão daquele infame banheiro, respirando suavemente, as roupas rasgadas.

Olhei para minhas melhores amigas e agradeci. E, de repente, eu senti que seria uma das últimas vezes que eu faria aquilo.

Então as abracei e voltamos para o quarto, eu enchendo a cara de uísque, e refleti sobre a minha vida imperfeita, que era perfeita o suficiente para eu concluir que não havia motivos para sair de Santa Monica. Jane era perfeita do seu jeito, e eu amava ser Jane. Aquele era meu lugar.

Não queria nunca voltar a ser Alicia... Como se eu tivesse escolha.

Notas finais
Era pra eu ter postado ontem, mas como terminar, né... Como? Não ficou lá um primor, mas ficou legalzinho. Espero que tenham gostado! Beijos da Miha!