Wereld
2 Capítulo I - Os Três Distritos
Notas iniciais
Wereld, o novo planeta Terra. 660 anos após o Desastre dos Cogumelos, um evento que muitos preferem não falar sobre. Reconstruída, a Humanidade se divide em cinco países – ou cinco reinos –, sobrevivendo do que podem plantar e colher. Em Land Drie, amanhece.
O primeiro território a levantar-se é Begroet, também conhecido como Distrito Nevado, e faz jus a tal título: o vento matutino uiva no topo das montanhas geladas, onde o sol, por mais que tente, jamais penetra, por conta das pesadas nuvens sempre a cobrir o distrito. Apesar da nevasca que chicoteia a terra, é possível distinguir algumas casas aqui ou ali, algumas até mesmo tortas pelo vento. Seus habitantes não demoram a acordar, e em pouco tempo, os homens já caminham montanha acima. Suas vozes se elevam, mais altas que o frio e a neve, em um canto de esperança e libertação. É a marcha diária dos alpinistas. Sem descanso, levantam-se junto ao sol, mesmo sem nunca o ver, e sobem todo o caminho até os pontos onde o gelo mais apropriado se forma. Escavam e garimpam o produto em abundância, e ao fim da jornada, deverão descer em seus trenós puxados pelas mais fortes renas, levando com eles, o carregamento de gelo. Gelo, este, que logo seguirá seu caminho em direção ao segundo distrito, Rozeknop.
Mais adiante, um cenário diferente. Após uma área árida e estéril, algumas plantas começam a se espalhar pelo chão. Uma muralha corta a paisagem. E depois disso, quilômetros e quilômetros de pastagens muito verdes, uma colcha de retalhos de plantações diversas em uma área plana, salpicada de chalés simpáticos. Mal o sol toca a copa das árvores frutíferas, então, e destes, começam a sair trabalhadores. Um assobio distinto é ouvido, seguido de um outro. E mais outro. Sempre a mesma melodia, até que todos do distrito estejam fora de suas casas, assobiando no mesmo ritmo, empunhando suas ferramentas e começando a cultivar a terra, capinando, plantando, limpando. É o chamado Toque da Alvorada, acontecimento diário, em que, em vez de sineta, uma melodia é assobiada como toque de levantar. Todos obedecem. Todos participam. Levantam e iniciam seu dia, fazendo uma pequena pausa quando o sol está em seu ponto mais alto, e apenas retornando às suas casas quando tal se esconde. É a vida do distrito agricultor e pecuário, que vive de abastecer o resto do reino com seu trabalho árduo.
Deixando a paisagem rural, passamos por mais uma alta muralha – e, provavelmente, a mais fortificada – e vemos Parel. O terceiro e último distrito, mas não menos importante: é simplesmente a Capital. Seus habitantes acordam mais tarde, afinal, têm tempo para isso, e os únicos a popularem a rua a essa hora da manhã são os comerciantes, os ourives, os alfaiates, os donos de teatros que devem preparar-se para sua matinê; tudo isso, para agregar à vida pomposa dos que ali vivem, pois não são menos que nobres. Sim, os mais afortunados, cheios de servos que vivem de obedecê-los, e com mais dinheiro nos bolsos do que preocupações. Fúteis. Egoístas. Mesquinhos. Mas, no entanto...poderosos. E quem tem coragem de estufar o peito para alguém tão influente quanto eles?
Ao centro do distrito dourado, o ápice da riqueza: o castelo de Paleis. Moradia do Rei, da Rainha e de seus filhos, guarda os maiores tesouros de Land Drie, senão os únicos. E tal qual do ouro e das jóias, também é o abrigo de talentosos cozinheiros gourmet, poetas, músicos, cientistas, escritores e principalmente, os trinta membros do Parlamento Real. O castelo ostenta enormes bibliotecas, com todas as obras literárias originais escritas naquela terra, salões luxuosos, uma capela coberta por metais preciosos, os mais belos mosaicos e até mesmo um observatório, onde astrônomos contemplam o céu noturno e anotam suas descobertas. É o luxo.
Em um dos quartos do castelo, pois, repousam o rei e a rainha. O sol começa a atingir certo ponto no céu, e sem demora, os servos vão despertar os dois monarcas. Saem, de uma passagem escondida no forro da parede, três crianças mirradas, uma garota e dois garotos, todos de cabelos muito louros e peles muito brancas. Características comuns em Begroet. Não são, pois, nada menos que ex-moradores do distrito da neve, que foram arrancados dos braços de seus pais e usados para pagar os impostos devidos à Capital. Um gesto revoltante, com certeza, mas que não pode ser respondido, afinal, foi estipulado pelo rei. E quem são os pobres para questionar a vontade de um monarca supostamente escolhido pelo próprio Deus que nos criou?
Os servos, como todos os dias, se aproximam do enorme leito real e tratam de acordar seus governantes com gestos delicados. A rainha não demora a abrir seus olhos negros como ébano, e segue com a menina albina para o banho que lhe foi preparado. É despida por mais duas garotas, agora, mais velhas, e relaxa em uma banheira de cobre. A molham, esfregam e ensaboam, e a monarca não precisa sequer se mexer, pois as jovens fazem todo o trabalho. Afinal, é uma perda enorme de energia banhar a si mesma. Depois de levantar-se da banheira, é seca e então vestida com a melhor túnica que poderia lhe ser escolhida, e enquanto as servas a ajudam com as mangas compridas, ela se contempla no grande espelho. Mesmo que não muito jovem, a rainha mantém um rosto sem muitas rugas de expressão visíveis, e sempre que pode, esconde as marcas no rosto com maquiagem; menos, obviamente, sua pinta perto da boca, sinal até mesmo de status social, e marquinha de nascença que ela aprecia muito. Seus cabelos ruivos que cascateiam pelos ombros são escovados, puxados e presos para cima, esticando seu rosto e funcionando quase como uma plástica. A nobre suporta a dor, como todos os dias.
Enquanto isso, os dois rapazes tentam fazer o rei se erguer com barulhos e movimentos brutos, uma vez que o senhor se recusa a abrir os olhos. Apenas quando a rainha retorna, limpa e arrumada, seu marido consegue ser removido da cama, e é praticamente arrastado até a sala de banho real. A mulher madura revira os olhos, e é guiada pela serva até a sala de jantar, onde, sobre a comprida mesa de mogno, foram servidas as mais vastas guloseimas para o desjejum matutino. Ela senta-se e espera por seu marido, que logo aparece, vestido e até mesmo barbeado.
–Ah! –faz o homem, dando sinal aos servos ao lado da mesa, que começam a servi-lo com o que ele aponta- Que dia mais apropriado para uma festa, não acha, Catarina? –ele olha para a esposa, piscando os olhos verdes e pequenos.
–Na verdade, Richard –a mulher de expressão dura replica- Acho que deveria tratar de assuntos governamentais como trata de banquetes e bailes.
O rei faz um grunhido de desgosto, espeta um pedaço de presunto em seu prato com o garfo de prata e pergunta:
–Assuntos governamentais, como qual? Ainda falta uma semana para a reunião periódica do parlamento e você sabe!
–Sei –diz Catarina- Mas veja bem, os prisioneiros...
–Ah, lá vamos nós de novo! –ele a interrompe- Você só pensa neles, não é? Nas torturas impostas, nas condições para a pena de morte...que obssessão, mulher! Me deixe em paz, arrume um hobby! –ele mastiga um pão e continua- Colecione borboletas, que tal? Melhor matar insetos para os pendurar nas paredes do que ficar enchendo meus ouvidos com suas ideias malucas de tortura.
–Mas querido, estou te dizendo, acho que furar os olhos dos prisioneiros lentamente é uma maneira muito melhor de...
–Pelo amor de tudo que é mais sagrado, Catarina, eu estou comendo! –ele exclama, quase em desespero.
A rainha tranca a expressão e os servos no salão ficam tensos. Se olham, sem saber exatamente o que pensar. Ultimamente, vinham havendo muito mais brigas entre os monarcas do que o normal, Catarina se desentendia com Richard com muito mais frequência e todos começavam a achar que ela pensava em deixá-lo.
–Pois muito bem –a rainha finalmente profere, se levantando. Alguns servos correm até ela- Faça suas festinhas como quiser, convide toda Parel, alimente esse monstro que vive em seu estômago –ela aponta para a protuberante pança real- Mas, quando Land Drie começar a ruir, não diga que não avisei sobre seu comportamento. –e, com estas últimas palavras, ela deixa a sala.
O rei a observa sair, seguida de alguns jovens servos albinos, e enfim resmunga.
–Quem é ela para me dizer o que fazer... –e se põe à mastigar o que lhe foi servido- Simplesmente uma mulher, nada mais, o rei aqui sou eu e ela em nada manda, nem mesmo em si...Land Drie irá ruir, bobagem...o povo está pagando, portanto, estão bem...ruir...
E, reclamando sozinho, ele volta a comer.
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