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6 Parte 6 - O desespero de morrer
Notas iniciais
Medo, dor e fogo
Por um breve momento, meu mundo tinha voltado à normalidade, sem monstros querendo me matar e sem Sebastian me dizendo que nada é o que parece. Mas isso não durou muito tempo, não o tempo que eu queria.
Os sentimentos, a dor e aquela loucura que parecia não ter fim, tudo aquilo me estressava como nunca. E nesse momento, o mundo parecia congelar à minha volta, e de repente me vi sem reação.
– Arya! Arya!
Encarei os olhos azuis assustados da minha mãe. Ela tentava me fazer descer a escada, e eu estava simplesmente parada no meio do caminho. A casa estava em chamas.
Eles estavam aqui.
Senti como se minha mente tivesse dado um estalo e então finalmente acordei para aquela realidade louca. Precisava fugir. Desci a escada em um único pulo, ignorando totalmente a dor nas pernas.
Comecei a correr na direção da porta. A fumaça já cobria toda a casa e estava ficando cada vez mais difícil respirar. Na minha frente, conseguia ver minha mãe apontando para fora, e na mesma hora, tudo aconteceu muito rápido.
Uma viga de madeira em chamas se desprendeu do teto e caiu entre nós e a porta. Meus olhos estavam ardendo, parecia um inferno. Foi então que meu coração quase parou. Um grito agudo cortou o som do fogo crepitando.
Não, não, não...
Comecei a olhar em volta e então vi o pior. Uma criatura horrenda, cinco vezes maior do que aquelas que vi no beco, erguia minha mãe do chão, apertando a cauda vermelha como sangue no seu pescoço.
Um pesadelo rápido passou pela minha cabeça. O pesadelo de perder a única pessoa que amava neste mundo. O pesadelo de ver o pouco que restou da minha família morrer na minha frente. Mas se existe algo que eu sei, é que todo pesadelo tem um fim.
– Pluie de cristaux!
Um vulto colorido passou por mim como uma flecha. Quase que ignorando toda a fumaça e o cheiro de queimado, um aroma de canela encheu meus pulmões. Algo como uma chuva brilhante de cristais se iniciou do nada, a princípio parecendo inofensiva, mas logo em seguida os cristais flutuantes no ar começaram a perfurar a criatura como milhões de facas.
A criatura gritou, deixando minha mãe cair no chão. Ela estava desmaiada. Corri até sua direção, e minha primeira reação foi puxá-la para longe da criatura furiosa.
– Fuja com ela para o mais longe possível! – Uma voz feminina soou atrás de mim.
Me virei e quase duvidei do que vi. Ela parecia ser um pouco mais velha que eu, usava roupas coloridas e detalhadas que lembravam as cores do circo e a leveza das patinadoras do gelo. O cabelo ruivo estava preso em um tipo de trança que chegava à cintura. Na sua mão, estava um tipo de chicote prateado longo.
– Fuja! – Ela gritou mais uma vez, quando a criatura pareceu recobrar a consciência.
Obedeci. Usando todas a minhas forças – as que tinha e que não tinha – comecei a carregar minha mãe na única direção em que via saída, a janela dos fundos. Nesses momentos você pode dizer que tem sorte por ter uma mãe baixinha.
Puxei o ar uma última vez e disparei. Estava correndo, lutando contra meu corpo para tentar viver. Mas não consegui ao menos chegar perto. Senti algo gelado se enroscar no meu tornozelo – foi aí que me lembrei de que estava de só camisola – e quase de imediato, senti a superfície quente do chão no meu rosto.
Instinto e morte
Respirar. Precisava lembrar de respirar. Minhas forças tinham ido embora e agora estava no chão. Era como se fosse atraída para ele, simplesmente não conseguia levantar.
Os olhos negros eram penetrantes, pareciam perfurar como balas. A pele era incrivelmente lisa, quase metálica. A sede por sangue era intimidadora. A criatura era como uma serpente negra, e rodeava a minha volta como se visse um troféu. Eu não podia fazer nada.
Senti que se aproximava cada vez mais. Ela vai me matar, pensava à medida que o frio e o cheiro forte de sangue dela invadiam o meu corpo. Fechei os olhos e esperei. E então, nada.
– Arya! Corra!
Abri os olhos. A garota de antes estava presa à criatura, disparando golpes com uma espada – que lembrava muito o chicote. Tomei fôlego, mordi a ponta dos lábios e levantei aos poucos. Foi então que percebi, eu não via a minha mãe.
Outro grito, dessa vez meu. Os dentes afiados da serpente perfuravam o corpo da garota, que caía inerte no chão. A criatura se virou na minha direção, com algo que só posso descrever como um sorriso.
***
Foi quase imediato. Meus olhos pairaram na espada da garota, fincada no chão. Como num instinto adormecido, pulei na direção dela, deixando uma energia que nunca tinha sentido antes fluir por mim.
Era como se estivesse viva, e me pedisse para lutar. Quase que guiada pela espada, eu saltei na direção da criatura, ficando o aço reluzente bem no coração. Comecei a sorrir, de algum modo, aquilo tinha sido bom.
Aos poucos meu corpo voltou ao seu estado afetado de antes e caí entre a criatura morta e a garota ferida. Há essas horas já não tinha como escapar do fogo.
– Então... É você? – A garota disse quase num sussurro, deixando a cabeça tombar na minha direção.
Olhei fundo nos seus olhos castanhos. Ela pressionava com uma das mãos o local ferido. Uma poça de sangue tinha se formado à sua volta. Não fazia ideia do que dizer.
– Ele... – Ela fazia esforço para falar – Tinha me dito que te encontraria... A... chave...
Sua mão suja de sangue agarrou meu braço. Como que usando toda a sua força restante, ela arrancou dela mesma um bracelete dourado, preenchido com um líquido roxo vivo – o que pareceu ser doloroso – e encaixou o mesmo no meu pulso.
– Salve o mundo... Arya... Fuja e... Viva... – As palavras soavam cada vez mais fracas, assim como sua respiração.
Uma pontada de desespero e dor profunda bateu em mim quando percebi que ela tinha morrido. Era pior do que uma sensação era algo mais fundo, dentro de mim. O desespero de morrer. Estava me consumindo viva.
Sebastian...
Uma voz parecia sussurrar na minha cabeça, como um choro. Aos poucos sentia a força sair de mim. No meu braço, o bracelete se acendia, e tinha a sensação de que rasgava minha pele.
Aos poucos, mesmo contra a minha vontade, sentia o mundo se apagar para mim. Eu não quero morrer, não agora, não aqui... Mas só dessa vez, não fui teimosa o suficiente. E então tudo se tornou escuro.
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