We found love in a hopless place II
43 Capítulo 43
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol da calorosa manhã de uma primavera especial atravessavam a vidraça, invadindo lentamente os aposentos reais. O cheiro das centenas de flores que faziam do jardim do palácio sua morada permanente se infiltrava perfumando todo o ambiente de modo sutil. Um lindo dia, perfeito para compensar a longa noite que o sucedera.
Regina moveu-se desconfortavelmente sobre o colchão e suplicou por um gole de água. O rei apressou-se para atender ao seu pedido, umedecendo seus lábios com cuidado e delicadeza. A mulher suspirou, fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, recostando-a na cabeceira da cama. Novamente experimentou a estranha sensação de desfrutar de um sentimento totalmente desconhecido para ela. Isso vinha acontecendo com muita frequência ultimamente. Conforme o tempo passava, ia descobrindo a cada dia coisas novas sobre si mesma e sobre o que era capaz de sentir. Alegria, dor, apreensão, medo, felicidade, esperança, ansiedade emoção. Seria possível desfrutar de tudo isso de uma vez só? No momento, parecia ser.
Dizem que quando a morte se aproxima, uma espécie de filme se passa na cabeça do indivíduo, retratando todas as experiências que vivenciara ao longo de sua existência. Naquele instante, a rainha concluía que tal fenômeno ocorria também perto da vida. Pelo menos com ela.
Tentou ignorar a nova onda de dor que atravessava seu corpo de um modo cruel e inesperado forçando sua mente a viajar para outro lugar. Permitiu que as lembranças a invadissem, enchendo sua alma com toda a satisfação que proporcionaram no momento em que aconteceram. Uma noite de inverno em que se sentou na frente da lareira, embalando seu bebê nos braços e cantou baixinho uma canção qualquer para niná-la. Sua pequenina a encarava com os imensos olhos claros e se esforçava para balbuciar alguma coisa. Foi quando ela ouviu claramente brotar daqueles minúsculos lábios rosados a palavra “mamãe”. A emoção a tomou de uma forma tão intensa que não pode evitar derramar-se em lágrimas. Ainda nos dias atuais, o som de seu nome dito pela boca da filha lhe parecia a mais bonita música já escrita.
Uma pontada intensa a fez gemer baixinho e ela se concentrou ao máximo para não gritar. Estava exausta. A noite mal dormida e os golpes de dor frequentes e desesperadores arrancavam pouco a pouco sua energia. Lembrou-se de Henry, ainda bebê, ensaiando os primeiros passinhos. Brincavam juntos no chão da sala. O garoto lançou com determinação a pequena tartaruga de pelúcia em sua direção e ela se virou para apanha-la. Quando tornou a olhar para o filho, este levantava os pezinhos com cuidado e os movia em sua direção. Os braços gordinhos balançando no ar, em busca de equilíbrio. Uma das cenas mais adoráveis que tivera a honra de presenciar.
Era engraçado pensar no modo como a sua vida havia mudado. Ela havia se reconstruído tantas vezes que, de certa forma, identificar todos os traços de sua verdadeira essência se mostrava uma tarefa relativamente complicada. Amara desesperadamente um homem que lhe foi tirado sem que houvesse sequer uma chance de despedida. Permitira que o ódio tomasse conta de sua alma e crescesse em seu interior, possuindo-a quase que por completo. Endurecera seu coração e ansiara por vingança como nenhuma outra pessoa no mundo teria sido capaz de ansiar. Fora forçada a ser alguém que não era e assumir um papel que não lhe pertencia e que tampouco desejara. Criara um mundo novo na esperança de encontrar o que buscava manipulando e controlando as pessoas ao redor, mas isso não bastava. E quem ela era de verdade? O que havia acontecido com aquela Regina inocente e sonhadora cujo desejo consistia em entregar-se ao seu verdadeiro amor e ser feliz para sempre? Depois de todas as coisas que aconteceram, sentia-se extremamente grata por a vida ter lhe dado a chance de se redimir. Henry a salvara. Resgatara sua alma da escuridão. E Rose a ensinara a se doar por completo.
Uma lágrima de cansaço escorreu por seu rosto quando a dor tornou a toma-la. Estremeceu quando o pirata enlaçou seus dedos nos dela, esforçando-se bravamente para oferecer-lhe qualquer espécie de conforto. Não faltava muito agora. Podia sentir. Finalmente terminaria.
Lembrou-se da filha e de tudo o que acontecera nos últimos tempos. Como as coisas eram engraçadas... Todos os caminhos que escolhera trilhar faziam agora pleno sentido. Jamais imaginaria que um dia estaria de fato casada com um homem especial, construindo uma família e morando em um castelo novamente. Ainda mais que este homem que estaria ao seu lado para sempre seria o pirata que por tanto tempo desprezara avidamente.
Regina virou a cabeça de leve e procurou os olhos do marido, buscando segurança. Surpreendeu-se ao encontrar neles ternura e compreensão. O homem beijou sua testa com carinho e aquele simples gesto renovou suas forças de um modo inesperado.
– Você pode fazer isso, meu amor. Está quase acabando.
– Pensei que fosse mais fácil da segunda vez, mas está sendo ainda pior. – Lamentou.
– As condições são totalmente diferentes, querida. Tanto as nossas, quanto as do local.
– Você está certo.
A dor agora a preenchia de um modo contínuo e intenso, de forma que tentar evitar que um grito escapasse de seus lábios era uma tarefa inútil. Mais uma vez tornou a se ajeitar sobre a cama e respirou fundo, concentrando-se em seguir seus instintos mais primitivos e obedecer ao que seu corpo pedia. Empurrou com a maior força que tinha, repetidas vezes, sentindo-se cada vez mais próxima do grande final. Por fim, concentrou todo seu esforço em um grande e prolongado empurrão final e este, para sua felicidade, foi o suficiente.
Um chorinho agudo encheu o ambiente e a rainha desabou, exausta, sobre o colchão macio. A respiração ofegante e as lágrimas nos olhos a incomodavam enquanto a mulher a sua frente prestava os cuidados iniciais à criança e preparava-se para trabalhar também nela. Por fim, a velha senhora lhe lançou um largo sorriso e ela estendeu os braços para receber o pequeno embrulhinho branco que ainda gritava a plenos pulmões.
– Parabéns, majestade. É uma menininha.
– Oh!
Regina encarou, emocionada, a delicada criatura acomodada junto ao seu corpo. Em questão de segundos, o bebê parou de chorar. Seus olhos encontraram o do capitão e ela suspirou, satisfeita.
– Desculpe.
– Pelo que?
– Por não te dar um menino.
– Você está brincando?! Olhe para mim! Sou um pirata bonitão! Eu mereço ficar cercado de mulheres incríveis. Além do mais, temos o Henry. Eu realmente gosto daquele garoto.
– Obrigada.
– Estou falando sério, minha querida. Olhe só para ela! É perfeita! Uma bonequinha.
– Ela parece com você. Não só os olhos. Dá para ver seus traços nela. E sabe o que é mais engraçado?
– Não faço ideia.
– Você se lembra do que me disse quando a Rose nasceu?
– Que ela se parecia muito com você. E é verdade.
– Antes disso.
– Ah, minha querida, faz tanto tempo!
– Você fez uma piada. Disse que eu levava esse negócio com maçãs a sério demais, porque as bochechas dela se pareciam com duas maçãzinhas.
– Oh sim, é mesmo! E são assim até hoje. – O homem sorri.
– Depois você disse que sabia o nome dela e que não poderia ser outro: Rose. Não há dúvidas de que esse era o nome perfeito.
– Não estou entendendo bem onde você quer chegar, amor.
– Quando você disse isso, eu pensei que não fazia muito sentido. Olhar para a criança e simplesmente “saber” o nome dela. Mas eu estava enganada, porque isso acabou de acontecer comigo. No instante em que coloquei os olhos sobre a nossa filha, eu soube. Sei o nome dela e assim como você sentiu isso com Rose, sinto que não pode ser outro.
– Então me diga, majestade: Qual é o nome da nossa princesa?
– Marinne. Como o mar que você tanto venera. Marinne Victoria Mills-Jones.
– Oh, céus! É o nome perfeito! Seja bem-vinda, minha querida.
O homem beija a testa da filha com cuidado e em seguida, toca também os lábios da esposa com os seus. No castelo, a comemoração durou por longas horas. A gratidão expressa pela chegada de uma nova vida. E no coração da rainha, além desta, imperava a gratidão por ter encontrado onde já não havia esperança, a mais preciosa coisa que poderia almejar: Amor.
~~oOo~~
FIM.
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