We found love in a hopless place II
40 Capítulo 40
Notas iniciais
Adaptar-se nem sempre é uma tarefa fácil. Para alguns, acontece de forma natural, sem muitas preocupações. Já outros sofrem por antecipação ao lançar-se no desconhecido. Os primeiros dias foram estranhos para todos. Sobre os antigos moradores da Floresta Encantada imperava a sensação de reconhecimento e conformismo. Os sentimentos estavam divididos entre alegria por estar de volta ao lar, confusão, como se tivessem acabado de despertar de um sonho maluco e raiva por serem obrigados a agir como peões em um jogo que não podiam controlar. Ainda assim, a gratidão por retornar àquilo que conheciam e por terem experimentado um mundo totalmente diferente do que estavam habituados reinava na maioria dos corações. Contemporaneamente, os que nunca haviam estado ali desfrutavam da sensação oposta, onde tudo parecia simplesmente irreal e fantástico demais para ser verdade, por mais que já houvessem contemplado muitas situações inusitadas. Estranho ou não, o desejo de permanecer ali e descobrir todas as maravilhas desconhecidas sobrepujava a vontade de retornar.
Snow White despertou naquela manhã com a plena consciência de que daquele dia em diante tudo seria diferente. Desde os tempos antigos a realeza seguia a tradição de apresentar seus descendentes ao povo assim que estes nasciam e em determinado tempo de sua vida, ao completarem aproximadamente 15 anos, era realizada a cerimônia de coroação que lhes oficializava o título de príncipe ou princesa diante de todo o reino. Felizmente, toda a regra pode ser mudada e tradições podem muito bem adaptar-se, ainda mais em situações como aquela. Todos conheciam Emma, Henry e Rose, mas era completamente justo que lhes preparassem uma grande festa e realizassem a cerimônia de coroação, ainda que a filha mais nova da rainha não tivesse idade o suficiente para isso. Aquele dia seria destinado a uma comemoração merecida, onde as celebrações abrangeriam muito mais do que uma apresentação da realeza. O retorno ao lar e as promessas de uma vida nova onde a paz e a prosperidade se fariam presentes em toda a Floresta Encantada eram os verdadeiros motivos de festa. O resto era apenas formalidade.
A princesa levantou-se com um sorriso no rosto, deslizou para fora da cama e seguiu com os pés descalços até a porta do quarto, esgueirando-se para fora com cuidado, esforçando-se para não acordar o marido. Caminhou em silêncio pelo corredor e desceu as escadas lentamente, observando os quadros espalhados pelas paredes com atenção. Apertou os olhos e inalou profundamente, suspirando em seguida, completamente tomada pelo prazer de sentir o cheiro do café recém preparado. Seu estômago protestou de imediato e ela riu enquanto saltitava em direção à cozinha. Não poderia contar quantas vezes estivera em situação semelhante. Sempre terminava do mesmo jeito: Ela corria de encontro ao delicioso aroma, cumprimentava os empregados e sentava-se descuidadamente sobre a cadeira mais próxima. Maritte lhe lançava um sorriso caloroso, arrumava seus cabelos atrás das orelhas e lhe servia o café acompanhado de alguns pãezinhos, queijo e geleia. “Só o melhor para a minha menina” – Dizia. E tornava a concentrar-se em suas tarefas. Durante todo o tempo que estivera fora, fugindo de Regina, esta era uma das coisas que mais lhe fazia falta. Os pequenos momentos especiais que aconteciam todas as manhãs. Felizmente, para o seu contentamento, certas coisas nunca mudavam.
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A rainha sorriu diante do espelho enquanto terminava de colorir os lábios com o melhor de seus batons rubros. Nunca havia pensado que chegaria um dia onde seus filhos seriam devidamente apresentados diante de todo o reino e receberiam suas próprias coroas porque nunca nem sequer havia considerado a hipótese de dar um herdeiro ao falecido rei. Depois que ele se fora, ela estava livre para encontrar um amor verdadeiro, mas nunca acreditou que isso aconteceria de fato. Encarando a figura no reflexo do vidro, tão diferente do que costumava ser, ela gargalhou. Não eram apenas as roupas, o cabelo e o modo como se maquiava que a faziam parecer uma pessoa distinta. Algo dentro dela havia se transformado de uma maneira tão maravilhosa que nem com o melhor de seus esforços seria capaz de explicar. E isso era extraordinário.
Killian havia despertado cedo naquela manhã. Conversaram sobre isso na noite anterior e ele lhe dissera que precisava resolver algumas coisas em relação ao navio. Por mais que se sentisse enciumada as vezes, ela optava por não interferir em nada referente ao Jolly Roger. Sabia muito bem no que estava se metendo ao envolver-se com um pirata e ele precisava do mar tanto quanto ela precisava de seu cofre, mesmo que já não os usassem para as mesmas finalidades de antes.
Enquanto seguia pelos corredores, planejando ir até a cozinha, recordou-se de algo importante que lhe assombrava os pensamentos constantemente: A necessidade de conversar com Snow White e resolver antigas pendências. O povo certamente enxergaria a coroação como uma retomada da realeza aos eixos. Até então, todos permaneciam calados, em fase de readaptação, mas o fato era que o reino precisava de um governo concreto o quanto antes. Não pode evitar a surpresa ao encontrar a enteada sentada à mesa, descalça e descabelada, saboreando um bom pedaço de pão com os olhos fechados e um ar de puro prazer. Um sorriso brotou em seus lábios ao reviver as inúmeras vezes em que passara por situações semelhantes. Sempre terminava do mesmo modo: Ela se aproximava e dizia com uma frieza calculada que aquela atitude não era digna de uma princesa.
Por pura diversão, dirigiu seus passos à mulher acomodada em sua frente e exclamou com um tom ligeiramente indignado:
– Ora, ora, ora! Muito me admira que em todos esses anos ainda não tenha aprendido como uma princesa deve se portar.
Mary Margaret quase se engasga com o pão e como que por reflexo, costume ou o que quer que o fosse, começa a desculpar-se, visivelmente embaraçada.
– Desculpe, eu só estava...
No entanto, ao notar o olhar divertido da rainha logo percebeu que se tratava apenas de uma brincadeira. Imediatamente as duas se entregaram a um riso desenfreado.
Regina senta-se ao lado de Snow, apanha uma xícara e a enche com o café recém preparado.
– Dia importante.
– Nunca pensei que passaríamos por algo desse tipo.
– E eu menos ainda. Jamais poderia imaginar que as consequências dos meus atos trariam algo assim. No entanto, devo confessar que estou feliz por isso. Se não se importa, eu gostaria de conversar com você a sós antes da cerimônia. Precisamos discutir algumas coisas importantes. Mas não quero fazer isso aqui. As paredes têm ouvidos. Sempre tiveram.
– Podemos ir até o jardim. É sempre tranquilo e deserto. Será o lugar perfeito.
– Ótimo. Termine o seu desjejum em paz. Nos vemos no coreto daqui a meia hora.
– Ok, eu estarei lá.
A rainha se levanta, toma o último gole do café e parte, deixando uma princesa pensativa para trás.
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Quando Snow White chegou ao jardim, sorriu amplamente ao encontrar a rainha esperando-a sentada em um banco no coreto, saboreando uma grande e estupidamente rubra maçã com imensa satisfação. Ao seu lado repousava um porta-joias que não lhe era estranho, mas ainda que o reconhecesse, como muitos outros objetos no castelo, não poderia dizer onde já o vira anteriormente. A princesa aproxima-se da madrasta e se acomoda ao seu lado, ainda apreensiva em relação à conversa que se seguiria.
– Você veio antes do que eu esperava.
– Só troquei de roupa e desci. Não tinha muitas razões para demorar. Charming ainda está dormindo e eu me esforcei ao máximo para não incomodá-lo.
– Está tudo bem. Não tem porquê adiar essa conversa mesmo. Quer maçã?
– Não me leve a mal, Regina, mas não tenho boas recordações da última vez que você me ofereceu uma maçã. Depois disso, nunca me atrevi a comer outra.
– Bom ponto. Eu não tornaria a fazer isso de qualquer maneira. Deu errado em todas as vezes que tentei.
– Você disse que tinha assuntos importantes para discutir comigo. Aconteceu alguma coisa?
– Não exatamente... – A rainha suspira. – Temos adiado essa conversa desde que chegamos aqui porque está tudo muito confuso ainda, mas com a coroação estou certa de que o povo espera uma posição da nossa parte.
– A respeito do governo do reino ou coisa assim?
– Sim. Veja, eu ainda sou a rainha, mas não quero assumir essa responsabilidade sozinha. Tudo está diferente agora, inclusive nós. É seu direito também e eu creio que será bem mais fácil para todos se concordarmos em lidar com isso juntos.
– Como uma espécie de conselho ou algo do tipo?
– Talvez.
– Gosto da ideia. Somos um bom time. Dividir o trabalho facilitará muito as coisas e nos dará flexibilidade. Sei que não devo me meter nisso porque não é da minha conta, mas Hook é um pirata e certamente vai querer fazer algumas viagens mais cedo ou mais tarde. Não há dúvidas de que vai convidá-la para acompanha-lo em algumas delas. Ao mesmo tempo, David e eu vamos ficar bastante atarefados em breve.
– O que quer dizer com isso? Planeja algo que eu não sei?
– Não exatamente. Quando Emma voltou para nós ela já era uma mulher adulta. Nunca precisamos lidar com choros noturnos, pesadelos, mamadeiras, fraldas e nem nada do tipo. Evidentemente é um trabalho e tanto. Vamos ter que nos adaptar a isso também.
– Você está tentando dizer que...
– Sim, Regina. Eu estou grávida. – Mary Margaret abre um amplo sorriso e suas bochechas tornam-se ligeiramente coradas.
– Oh! – A rainha ergue as duas mãos e abre a boca, visivelmente espantada – Essa foi rápida.
– Cinco anos é muito tempo. — Diz um tanto embaraçada.
– Bom, o que eu posso dizer? Parabéns. Os choros de madrugada, as manhas e as cólicas não são a parte mais divertida, mas você vai aprender. Eu ainda me desespero com algumas coisas em relação à Rose. Ela e Henry são muito diferentes em vários sentidos e a minha experiência anterior não ajudou tanto quanto eu pensava.
– Se não se importa, gostaria de pedir que fosse discreta quanto a esse assunto. Você é a única pessoa que sabe, além de Charming e eu e nós gostaríamos de contar a todos em um momento mais apropriado, com certo planejamento.
– Evidentemente.
– Vou acordá-lo. Há muito o que fazer antes de a cerimônia começar. – A princesa se levanta e ajeita a roupa antes de direcionar-se aos poucos degraus do coreto.
– Não, espere!
Regina levanta-se de imediato, apanhando o delicado porta-joias branco e passeia os dedos ansiosamente sobre os relevos dourados enquanto se aproxima novamente da outra mulher.
– O que foi? Essa caixa... Eu já a vi em algum lugar.
– Estou certa que sim.
Snow White ergue a sobrancelha, e vira a cabeça levemente para a esquerda, com um olhar analítico.
– Desde que chegamos tenho pensado a respeito disso. Aqui dentro estão as joias reais. Seu pai me entregou logo após o nosso casamento e confesso que eu adorava exibi-las sempre que havia uma oportunidade. Não me sinto mais dessa forma. Muitas delas pertenceram à sua mãe e outras tantas estão em sua família a séculos. Gostaria que as tivesse. São suas por direito.
A princesa respirou fundo, tentando recuperar-se do choque. Ainda que soubesse da existência das joias da coroa, jamais tivera a pretensão de possuí-las tão cedo. Seus dedos tocaram o fecho dourado da delicada caixa abrindo-a com cuidado. Apanhou um colar com uma grande pedra verde e seus olhos marejaram diante da memória que se formou em sua mente: Uma Snow ainda pequena sendo colocada para dormir. A mãe lhe cantou uma música e por fim, deu-lhe um beijo na testa antes de se levantar. O pingente esverdeado balançava ligeiramente conforme ela se movia e a criança observava tudo, encantada. Como que em um estalo, despertou de seu devaneio e ainda emocionada, fechou a tampa e envolveu o porta-joias com os braços.
– Obrigada. – Diz com a voz um tanto embargada. – Significa muito para mim.
Regina acena com a cabeça, em concordância, um tanto sem graça.
– É uma boa ideia você ir acordar o seu queridíssimo príncipe. A programação para hoje está um tanto apertada, não podemos nos dar ao luxo de enrolar.
– Você está certa.
As duas se encaram em silêncio por um breve instante, ligeiramente apreensivas.
– Bem... Obrigada novamente por isso. Mesmo. Vou falar com David o quanto antes a respeito do outro assunto.
– Ok. Sem problemas.
Madrasta e enteada seguem em silêncio rumo à entrada do castelo, cada qual perdida em seus próprios pensamentos. Embora ainda houvessem muitas incertezas em relação ao futuro, a cumplicidade que se instaurava aos poucos era algo concreto e largamente apreciado por ambas as partes.
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Continua...
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