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9 Capítulo 9 - Caleidoscópio de emoções
Notas iniciais
Capítulo 9
Rebecca POV
Quando completei meus dezoito anos, pensei que aquele seria o auge da minha vida. Eu era, a partir daquele momento, dona do meu próprio nariz e não hesitei em sair da casa dos meus pais para procurar um apartamento onde eu pudesse morar. Sonhava em ter meu próprio espaço desde os quinze anos e, com a ajuda da Melissa, aquele sonho estava se tornando realidade. Nós duas estávamos alugando nosso apartamento de solteira, como gostávamos de chamar.
Tinha a sensação de que tudo começaria a ficar melhor. Poderia sair sem ter hora pra voltar, beber o que e quanto eu quisesse, fumar cigarro (vício adquirido graças ao meu então namorado), me divertir sem que meus pais ficassem regulando minha vida e, principalmente, levar meu namorado, Jeremy, para a minha casa já que meus pais nunca haviam permitido antes.
A vida não poderia ser mais perfeita: poucas responsabilidades, muita diversão e eu namorava o príncipe mais lindo e perfeito da faculdade de direito. Era invejada por todas as garotas do meu curso e eu podia imaginar que qualquer garota do campus queria estar no meu lugar.
Se eu tivesse imaginado antes o quanto eu estava enganada, talvez aquele não tivesse se tornado o pior ano da minha vida tão rápido. Mas não, eu estava cega de amor.
Era época de férias na faculdade e a Mel iria viajar com a família. Eu teria o apartamento só pra mim e já podia até visualizar como eu e Jeremy poderia aproveitar aquele tempo só nosso. Thomas tentou me convencer a não levá-lo para a minha casa enquanto ele e Melissa estariam fora, mas na época eu imaginei que aquilo fosse apenas ciúme dele, já que ele era apaixonado por mim e todo mundo sabia, inclusive Jeremy que não gostava nem um pouco.
Sempre sonhei que minha primeira vez seria perfeita. Parte disso se deveu a minha criação. Meus pais prezavam bastante para que eu guardasse esse momento para uma ocasião especial, com alguém que eu tivesse certeza que me amasse. Mas, de novo, eu não poderia estar mais enganada.
Na noite após a viagem de Melissa, Jeremy foi para o meu apartamento com suas malas. Nós saímos para uma festa onde estava acontecendo um cover da nossa banda preferida, Muse. Bebemos bastante, mas aquilo não seria problema, já que eu morava a apenas três quarteirões de onde estávamos e nós voltaríamos andando.
Quando estava na hora de irmos embora minha cabeça estava funcionando a mil. Eu estava ansiosa demais pra chegar a minha casa, queria mostrar para o meu príncipe a surpresa que eu tinha preparado para ele. Mas assim que viramos a rua, no segundo quarteirão, Jeremy me imprensou contra o muro gelado e começou a beijar o meu pescoço.
Tentei empurrá-lo dizendo para que ele esperasse, pois eu não queria fazer sexo no meio de um beco escuro. Mas ele insistia me dizendo que queria me ter naquele momento, pois não aguentava mais. Eu tinha o feito esperar por um ano de namoro e de certa forma aquilo me fez pensar que eu devia alguma coisa a ele.
Jeremy levantou meu vestido até a altura da cintura, afastou minha calcinha para o lado e entrou de uma vez. Naquele momento foi como se passasse um filme na minha cabeça enquanto eu chorava tentando abafar os gritos contra a sua camisa. Aquilo parecia o incentivar ainda mais e eu não conseguia mais prestar atenção em nada que não fosse a dor naquele ponto, como se eu estivesse sendo constantemente rasgada por dentro.
Depois eu só me lembro de ter entrado no meu banheiro e trancado a porta me sentindo a pessoa mais suja e humilhada do mundo. Liguei o chuveiro e me concentrei na água gelada que eu deixei escorrer pelo meu corpo, pois a dor cortante do gelo em minha pele não poderia ser comparada com a dor que eu sentia dentro de mim, mas pelo menos desviava um pouco o foco. Eu queria que a água levasse qualquer resquício de sujeira e humilhação do meu corpo.
Comecei a pensar que a culpa daquilo tudo era minha, é claro. Pensava que eu tinha agido de forma errada, trazendo meu namorado pra casa mesmo depois do pedido dos meus melhores amigos, saindo para beber além da conta. Fora que ele não tinha abusado de mim, certo? Eu queria me entregar para ele, não daquele jeito e naquela hora, mas eu queria. E eu quem o fiz esperar por tanto tempo. Talvez se tivesse cedido antes... E, Jeremy era o meu namorado apesar de tudo. Eu o amava. Ele não tinha culpa de nada.
Sai do banho com um plano em mente. Iria esquecer aquela noite e para isso faria o que fosse necessário, inclusive esconder o que havia acontecido de quem quer que fosse. Por isso, quando Melissa voltou duas semanas depois eu apenas fingi que estava tudo bem. Assim como eu tinha fingido para o meu namorado.
E teria escondido para sempre se eu não tivesse passado mal no churrasco de fim de férias que uns amigos tinham organizado. Melissa perguntou se eu estava grávida e foi como se uma luz se acendesse em minha mente. Eu estava grávida. Estava há seis semanas sem menstruar e aquilo para alguém acostumado a ter um ciclo normal é definitivamente uma coisa alarmante.
Procurei Jeremy para contar sobre a gravidez e de primeira ele não reagiu bem, assim como eu, éramos muito novos para uma responsabilidade daquele tamanho, mas no dia seguinte ele me procurou para dizer que aceitava o filho e que iria cuidar dele junto comigo.
Apesar de tudo aquilo me deixou feliz. Eu cuidaria de um filho do homem que eu amava com o homem que eu amava mais do que a mim mesma até. Porém, a reação dos pais dele e dos meus pais não foi a mesma... Tentaram me convencer a tirar meu filho, alegando que eu não teria condições de ter tamanha responsabilidade. Mas eu não podia e nem queria fazer isso, então, eu e Jeremy resolvemos que iríamos fugir.
Fugimos. Só Deus sabe como conseguimos nos manter por tanto tempo, mas com certeza não foi da melhor maneira possível. Talvez por isso que aos seis meses de gestação eu tive uma complicação. Tivemos que correr para o hospital mais próximo ou morreria eu e o bebe que àquela altura já sabíamos que seria uma menina.
Os médicos conseguiram salvar minha filha, mas ela precisou ser levada com urgência para a salinha de bebês prematuros onde ela passaria os próximos meses até que estivesse bem o suficiente para ir para casa.
Quando demos entrada no hospital nós possibilitamos que de alguma forma nossos pais nos encontrassem e a confusão se instalou. Meus pais tentaram me convencer a entregar o bebe para a adoção onde ele teria melhores condições. Mas no final não foi preciso, pois um mês depois recebi a notícia de que minha filha não havia sobrevivido.
Naquela altura do campeonato, quando ela já estava com um quadro estável, os médicos me dizem que ela não conseguiu sobreviver? Como assim? Meu coração se partiu em infinitos pedacinhos e como se não pudesse ser pior... Jeremy apareceu cuspindo fogo e me acusando de ter matado nossa filha. Disse que a culpa daquilo tudo era minha, que eu não quis tanto protegê-la como deveria e que não tinha lutado o suficiente por ela.
Eu matei minha filha? Eu era uma assassina então... Sim, eu era um monstro como ele fazia questão de repetir. Eu era o monstro?!
E desde aquele dia eu nunca mais o vi de novo...
FIM do POV da Rebecca
Emily estava paralisada. Seu olhar estava apontado na direção de Rebecca, mas era como se ela não conseguisse enxergar nada além das lágrimas que caiam sem parar molhando seu rosto. Como aquilo tudo poderia ter acontecido com a sua pandinha? Era a pergunta que ela repetia em sua cabeça como um mantra.
E pior, muito pior... Ela conhecia Jeremy. Muito mais do que gostaria inclusive e aquilo a deixava com um sentimento de culpa quase impossível de suportar. Não, ela não tinha culpa, mas não conseguia contar para Rebecca. Parecia extremamente errado e a ruiva sentia que aquilo só pioraria a situação.
Rebecca se aproximou de Emily ainda chorando e a abraçou. Sim, Rebecca a abraçou. Que mulher incrível era aquela afinal? Depois de tudo era ela quem confortava a menor? Emily definitivamente podia dizer que a amava muito mais agora.
– Eu estou amando você, Emily, e eu prometo que vou me esforçar pra deixar o passado no lugar onde ele deveria estar há anos. – a morena depositou um beijo no topo da cabeça da menor e secou suas lágrimas com o polegar antes de enxugar as próprias lágrimas.
Emily tentou parar de chorar, mas as lágrimas desciam copiosamente por suas bochechas. Não conseguia processar que aquela mulher a sua frente tinha passado por tudo aquilo quando tinha a sua mesma idade. Não sabia se teria suportado assim como Rebecca tinha feito.
– Me desculpe. Acho que não deveria ter te contado com tantos detalhes... – Rebecca esboçou um sorriso fraco com o canto dos lábios.
– Você é uma guerreira, Rebecca. – Emily se esforçou para controlar as próprias lágrimas e espalhou vários beijinhos pelo rosto da morena. — E, bom... Eu não cheguei a responder antes. Mas... Eu também estou amando você... Muito.
Dessa vez o sorriso de Rebecca era legítimo e iluminado o que fez com que Emily sorrisse também. A morena aproximou-se e depositou um beijo carinhoso nos lábios da menor e deitou a cabeça em suas pernas.
– Eu sei que é um pouco estranho dizer... Por eu ser mais nova, sei lá. Mas eu prometo que vou cuidar de você, minha pandinha linda. – falar aquilo em voz alta fez Emily rir de si mesma. O pronome possessivo tinha sido usado com uma entonação bem mais forte.
–-x--
Uma semana depois da conversa que teve com Emily, Rebecca se sentia leve. Essa era a palavra. Estava conseguindo não pensar em seu passado enquanto apenas curtia as coisas boas que o presente estava lhe proporcionando. Estar com Emily a fazia feliz de um jeito que nem ela mesma conseguia explicar.
Na segunda, embora fosse um dia inapropriado, as duas tinham saído para jantar juntas. Nada muito sofisticado, apenas uma lanchonete, mas que na companhia uma da outra era como se fosse o paraíso. Não que nunca tivessem feito aquilo antes, mas aquela tinha sido a primeira vez que as duas saíram juntas depois de tudo esclarecido.
Terça, Rebecca tinha aproveitado o intervalo das aulas de Emily para fazer uma visita surpresa para a menor na escola. Tinha se esforçado pra não pensar muito no quão estranho era para uma mulher da sua idade estar namorando uma garota do colegial. Quer dizer... Não estavam namorando oficialmente ainda, mas era como se estivessem.
Na quarta Emily chamou Rebecca para assistirem um filme em sua casa e na quinta não puderam se ver, pois a morena estava muito ocupada correndo com suas obrigações para que pudesse terminar tudo antes para levar Emily ao cinema na sexta. As duas estavam realmente aproveitando por todas as oportunidades que haviam desperdiçado antes.
–-x--
– Emily, você está muito bonita. – sussurrou Rebecca no ouvido da ruiva no momento em que as duas entravam no cinema o que fez com que Emily apertasse sua mão e a puxasse com pressa para o fundo da sala.
A menor distribuiu vários beijos pelos lábios da morena, porém só durou até que Rebecca prendeu o lábio inferior dela em seus dentes e o chupou.
– Sabe o que aconteceu da última vez em que você me provocou desse jeito não é? – cochichou Rebecca com um sorriso divertido iluminando seu rosto ao mesmo tempo em que deixava a cor de seus olhos em uma tonalidade mais escura.
Emily sorriu na tentativa de disfarçar o tremor que percorreu seu corpo apenas com a lembrança da quarta-feira.
– Emily, não me provoque assim... – reclamou Rebecca com a voz rouca quando a mais nova resolveu morder o lóbulo de sua orelha e depois passar a língua pelas marquinhas dos dentes.
– Você me disse uma vez que tinha passado a vida amando os homens... Talvez nós devêssemos aproveitar o tempo perdido e ultrapassar essa marca de beijos dados. – a ruiva foi com receio até o colo da mais velha e encaixou suas pernas ao redor da cintura dela.
Rebecca não queria que as coisas avançassem entre elas daquele jeito. Corrigindo... Ela não podia deixar que acontecessem assim. Ela mais do que ninguém sabia da importância que a primeira vez tinha para uma mulher e não faria nada com Emily se não fosse da maneira mais especial possível.
Mas aquilo não a impediu de retribuir ao beijo que a ruiva lhe deu, nem a impediu de aprofunda-lo quando sentiu Emily separando seus lábios e dando a passagem que ela queria. E foi impossível controlar o impulso de apertar o corpo da menor cada vez mais ao seu, como se quisessem se fundir em uma só.
Emily agarrou os cabelos de Rebecca e a puxou devagar para que ela se deitasse por cima de seu corpo. Corpo esse que a morena não hesitou em tentar conhecer um pouco mais. Passou as mãos por debaixo da camiseta que a ruiva vestia e explorou toda a região da barriga da menor, ora com a ponta dos dedos e ora apertando de leve.
Foi impossível para a ruiva conter o gemido que escapou por sua garganta. E a maneira como aquele som mexeu com Rebecca não estava nos planos, muito menos nos da morena que tentava manter o lado racional do seu corpo em funcionamento. Rebecca pediu por espaço entre as pernas da menor e o recebeu, aproveitando para pressionar a coxa no sexo quente da sua ruivinha, arrancando dela mais um de seus gemidos enlouquecedores.
– Emily a gente... — a ruiva calou a mais velha com mais um beijo que a tirou o fôlego.
– Eu quero que você me toque... Aonde sentir vontade.
Aquelas palavras não ajudaram em nada no autocontrole de Rebecca que tinha a respiração mais pesada a cada segundo. A morena deixou escapar um grunhido pelos lábios quando Emily fez com que ela tocasse seus seios medianos e firmes. Foi impossível lutar contra a vontade de massagea-los.
Rebecca beijou a região do pescoço da ruiva guiada pelos sons de prazer que ela emitia como se fossem a própria força que a mantinha viva. Ao mesmo tempo em que movimentava a própria perna contra o centro de Emily na tentativa de dar o máximo de prazer possível sem...
Meu Deus, o que ela estava fazendo? Não podia deixar seu desejo dominá-la aquele ponto. Ao ponto de fazê-la perder o controle como estava fazendo.
Rebecca se afastou um pouco, sem certeza de que realmente queria fazer aquilo. Alias, quase não sabia o motivo de estar se afastando naquela altura do campeonato. Emily protestou com um resmungo baixou quando sentiu a pressão do corpo da outra diminuir.
– Volta... – com aquele pedido a morena quase esquecia até o próprio nome... Quase.
– Emily, você merece a noite mais especial do mundo... Não vai ser assim. – a ruiva suspirou frustrada, mas Rebecca continuou – Eu não vou ter medo de te fazer mulher quando chegar a hora... Minha mulher. Não estou fugindo... Eu te prometo. Quero tanto quanto você... E te provo...
Rebecca afastou-se apenas o suficiente para que fosse possível abaixar em uma altura que seus lábios alcançassem o umbigo da ruiva. Subiu a saia de Emily e foi retirando a calcinha dela devagar, sem quebrar o contato com aquele olhar azul tão profundo e que ela tanto amava.
Os olhos de Emily estavam quase totalmente sem o azul característico, apenas com o preto da pupila dilatada. Rebecca podia sentir que o seu não estava diferente.
Foi fazendo uma trilha com os lábios até chegar ao sexo da menor. Sua respiração quente em contato com ele fazia Emily se contorcer e a menor quase gritou quando Rebecca depositou um beijo demorado na fenda dos seus grandes lábios.
– Emily... – a morena lutou para formar alguma frase coerente – Você está molhadinha... – sorriu sacana antes de levantar-se do sofá e não conseguiu ver a menor se transformando em um tomate de tão vermelha.
– Eu gostei daquele resultado... – murmurou Emily antes de sugar o lóbulo da orelha de Rebecca.
– Meu Deus como é difícil fazer a coisa certa... – Rebecca apertou as próprias pernas uma contra a outra tentando diminuir a sensação que tinha tomado o seu centro. – Você não quer que eu te leve agora para o banheiro feminino e te faça minha ali mesmo em um boxe, quer?
Se não tivesse tão escuro Rebecca teria visto como o rosto de Emily havia mudado de cor instantaneamente. O tom da mais velha tinha sido um alerta de que ela realmente estava beirando a insanidade com a aproximação recém-adquirida entre elas.
–-x--
Emily tinha insistido em deixar Rebecca em casa depois do cinema, já que naquela noite Melissa não estaria lá. Mesmo com o protesto da mais velha, que alegava que por ser mais velha deveria cuidar dela e deixá-la em casa. Mas perdeu os argumentos no momento em que Emily ameaçou fazer uma greve de beijos de brincadeira, porém que na hora tinha parecido bastante sério.
As duas tinham curtido um pouco mais a companhia uma da outra antes de se despedirem de fato. Porém mesmo depois, Emily havia tocado a campainha do apartamento de Rebecca mais três vezes, só para que pudessem dar mais um beijo de boa noite.
Ding-Dong.
Outra vez o som da campainha encheu o ar do ambiente. Dessa vez tinha dado tempo de Rebecca ir até o banheiro e tirar a roupa para tomar banho. A morena revirou os olhos e deu um sorriso que podia muito bem iluminar a cidade inteira. Emily a fazia se sentir como uma adolescente apaixonada pela primeira vez.
Colocou o roupão preto que tinha deixado em cima da pia e foi atender a porta sem nem olhar no olho mágico para certificar-se de que era a ruiva.
– Amooor, já passou da hora de ir para a cama.
– Que recepção calorosa... – sorriu o homem de cabelos pretos. Um sorriso tão grande que quase fechava seus olhos azuis. Aqueles olhos e aquele sorriso que Rebecca conhecia tão bem. – Eu sou otimista, você sabe, mas também não esperava tanto. Devo admitir. – risos.
Rebecca arregalou os olhos e sentiu um frio tenso descer por toda a extensão de sua coluna.
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