16 de Novembro de 2010

Em dez dias Dave vira a sua vida dar uma reviravolta e afundar-se como um barco que embateu num iceberg, encontrando-se agora no gabinete do director frente a frente com Kurt e os respectivos pais. O gabinete do director nunca parecera tão pequeno, mas talvez fosse só impressão sua afinal só lá estivera uma vez antes devido ao seu pedido para trocar o horario de duas disciplinas para poder conciliar com os treinos de hoquei. Figgins não estava, supostamente encontrava-se hospitalizado devido a um virus qualquer e nada mais nada menos do que Sue Sylvester substituira-o, o que significava que Dave estava metido em mais sarilhos, pois kurt era sem duvida um dos seus alunos preferidos, muito mais depois de os ajudar a ganhar aquele estupido torneio de claques.

Sentara-se e colocara o seu casaco por cima das pernas, era o seu pequeno cobertor que apesar de ser de tecido o ia protejer do mundo, uma metafora idiota e infantil mas era a que expressava melhor os sentimentos de Dave em relação aquela peça de roupa que o tinha levado ao topo da cadeia escolar. Via o seu pai entrar na sala, juntamente com Kurt e o seu pai Burt, que apesar de não ver à muitos anos era facil reconhecer, pois de à 9 anos para cá apenas tinha perdido o cabelo e ganho mais algumas rugas de expressao.

–Ele disse que me matava caso contasse … — Kurt fizera uma pequena pausa, como se fosse preparar os presentes para a proxima revelação. O coração de Dave batia mais rapidamente mais alto e mais forte, os seus joelhos tremiam, esperava tudo, esperava ser expulso da escola, de casa. O seu pai olhava-o fixamente como se encontra-se uma resposta nos olhos dele. Mas pela expressão dele não percebera a hesitação de Kurt. Dave só desejava que Kurt não contasse a ninguem, pelo menos mais ninguem sem contar aquele hobbit. Olhava agora fixamente para a boca de Kurt e a língua que costumava mostrar um pouco quando estava a pensar.- que ele andava chatear-me.

Dave não pudera expressar nada mais do que uma expressão de alivio ao ver que Kurt decidira não contar. Podia não compreender o porquê mas agradecia pois estava sem certezas, e não se sentia minimamente preparado para pensar nisso, seria uma reviravolta enorme na sua vida.

...

Paul tinha voltado juntamente com Dave. O seu olhar mostrava vergonha, sentia-se desapontado com o filho, como era possivel, ele em casa sempre fora um rapaz prestável e sossegado, com a excepção dos ultimos meses, que Paul primeiramente pensara ser culpa da pressão dos testes e exames. Pousaram os casacos no cabide e foram os dois para a cozinha, onde estava Alexandra e Margarete já com a mesa pronta para jantar. O jantar era apenas arroz e um bife grelhado com legumes, visto Dave ter-lhe pedido para evitar as batatas, e para a pequena Maggie uma sopa, pois ainda à pouco tempo recuperara de uma gastrenterite. Alexandra e Paul trocaram olhares preocupados, o que fez o coração do rapaz diminuir, na sua face já estava marcada uma expressão de tristeza e derrota. Kurt tinha-o expulso praticamente da sua vida, estava livre, finalmente livre de David. Surpreendera-se por Kurt não ter contado nada do beijo, não seria muito mais facil, humilha-lo ali em publico, à frente da directora Sylvester e esperar que a seu tempo ela o fosse humilhando aos poucos à frente de todo o corpo escolar como fizera com muitos outros em situações bastante diferentes.

Maggie subira a uma cadeira e olhava curiosa para a cara do irmão e não parecia muito feliz com o que via. Com as mãos tentava forçar um sorriso em Dave que o desfazia sempre que as tirava. Farta de ver a cara triste do irmão, Maggie batera-lhe na mão e dissera:

–Eu não que'ro b'er-te a t'iste! — Dave não pudera deixar de esboçar um sorriso, como era inocente a sua irmã às vezes.

Sentaram-se todos à mesa e começaram a comer. O olhar com que Alexandra fitava o filho revelava tristeza, tristeza e desilusão. Fora uma refeição feita sobre um clima pesado, o assunto era uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento.

–David, filho, queres contar à tua mãe …

–Posso-me ausentar da mesa? — Perguntara Dave de novo, não queria falar disso, não agora, não nunca, mas muito menos com Maggie ali.

–Dave, diz-me o que se passa contigo! — Perguntara Alexandra ao ver a forma como ele se tentava apressar para se ausentar.

Dave levantara-se da mesa e caminhava mais rapido de modo a evitar que a mãe o visse naquele estado, os seus olhos enchiam-se de lágrimas ao ponto de não ver as escadas que subia, mas continuou, continuou até chegar ao quarto e fechar a porta. Sentia-se seguro no quarto, mais seguro que na sala onde estavam os seus pais, e o seu segredo não estava a salvo. Sabia que estava a desiludir os pais, afinal a sua mãe não queria que acontecesse o mesmo que aconteceu ao tio David ela não queria que o seu filho fosse homossexual,era como se lhe desse uma facada nas costas. E os seus avós que pensariam? Certamente a sua avó Betty não se iria importar, afinal no passado ele já lhe tinha falado de Kurt e ela não reagira mal, mas também a sua avó era praticamente surda por isso suspeitava que ela nem sequer tivesse ouvido o que dizia. Os avós maternos iriam ignora-lo, insulta-lo, abandona-lo como o tinham feito com o seu tio, afinal porque haveria de ser diferente.

–Dave por favor abre a porta...-Alexandra suspeitava da situação desde o momento em que Paul mencionara o nome de Kurt, mas não queria acreditar que o seu filho podesse ter feito isso, não aquele rapaz e muito menos depois do que o seu irmão tinha sofrido durante a vida toda. -Teddy por favor...

Nesse momento Dave deixara de resistir, as lagrimas escorriam pela cara, sentia-se fraco ao ter as suas emoçoes expostas daquela forma. Perdera as forças tornando facil para a mãe conseguir entrar no quarto e abraça-lo. Dave retribuira o abraço, enterrando a face nos ombros da mãe, não tinha coragem de a olhar nos olhos, não depois do que fizera e do que descobrira sobre si mesmo, o medo da rejeiçao e o enorme aperto no coração impediam no de proferir palavra que fosse. Ouvira os murmuros da mãe dizendo que tudo ia ficar bem e pedindo-lhe para contar o que se passava, mas nenhuma as palavras saia da boca de Dave, Alexandra continuava a murmurar:

–"Eu já devia ter suspeitado...", nesse momento o sangue do rapaz gelou, ela sabia, ela sabia e ia abandona-lo, afinal ele não iria trazer mais do que desgosto e dor à familia.

Alexandra tentara com que o filho se sentasse na cama para poderem falar claramente mas ele deitara-se com a cabeça enterrada na almofada abafando o choro. Pousara-lhe o casaco de jersey sob o corpo, sabia que para Dave aquilo funcionava como uma especie de cobertor de segurança, pelo menos desde o ultimo ano, o tempo em que as suas mudanças de comportamento se tinham agravado bastante.

–Dave filho fala comigo, tu sabes que eu estou aqui para te ajudar...

–Não vais nada, tu sabes que não,... tu vais... vais expulsar-me de casa,... desculpa se sou como ele,... , eu não queria não queria desiludir-te … eu tentei, … eu juro que tentei ... — Dave controlava-se para não explodir, cada palavra que dizia soava cansada após tanta luta para se libertar. — Desculpa …

A mulher sentia um aperto no coração, lembrava-se exactamente do dia em que dissera essas palavras, e sentia-se mal pelo desentendimento por parte do filho, mas não poderia esperar mais, pois na altura Dave era uma criança. "–Por favor não deixeis o Dave seguir as pegadas do David e ficar por Lima. Eu não sei quanta mais dor posso aguentar caso lhe aconteça alguma coisa. Ele merece ser feliz" — Estas tinham sido as palavras de Alexandra naquela noite. E devido a um desentendimento tinham transformado a vida do seu filho num ciclo de ódio e violencia. Passava a mão sobre o cabelo do filho dizendo que tudo ia ficar bem mas sabia que ele recusava-se a ouvir, precisava mesmo de fazer a mensagem chegar ao filho e por isso tentou aborda-lo de outra forma. Fora ao seu quarto buscar um pequeno embrulho, o mesmo que lhe tinha sido deixado com a morte do irmão, nunca a mensagem escrita naquele embrulho o poderia ajudar como naquele momento, e pousara-o ao lado do filho.

–Desculpa não te ter dado isto antes, mas trazer-te à memoria o que acontecera ao teu tio não me parecia ser a melhor ideia na altura. E filho, desculpa se naquele dia me entendeste mal, eu apenas quero que sejas feliz, e que se isso te tirar de Lima melhor, não queria que te acontecesse algo de mal como aconteceu ao tio David. — Dave tentara limpar as lagrimas ao casaco e sentar-se ao lado da mãe, pousando a cabeça sobre o seu colo.- Ao fim destes anos todos continuo a sentir-me culpada por ter deixado os meus pais comportarem-se daquela forma com ele — Alexandra passava as mãos pelo cabelo do filho durante longos minutos na tentativa de deixa-lo mais calmo. — És o meu filho, o meu pequeno Teddy e eu gosto de ti assim como és.

Deixara o quarto silenciosamente, deixando o filho à vontade para abrir o embrulho.

Dave olhava para o embrulho, um sentimento de culpa invadia-o, tornara-se naquilo que o seu tio mais odiava, que ele mesmo quando mais novo odiava e isso partia-lhe o coração. Quando achava que tinha desiludido a mãe por gostar de Kurt enganara-se, desiludira-se apenas a si mesmo por não contar a verdade nem aceita-la, e desiludira os seus pais e principalmente os seus dois tios, tornando-se num daqueles monstros que há dez anos que roubaram a vida. Sentia uma dor forte no peito, se calhar era o seu coração a partir-se em pedaços mais pequenos, mas para isso, pensava Dave, era preciso ter um coração, coisa que naquele momento duvidava. As suas mãos tremiam ao pegar no embrulho, não se sentia merecedor de abrir algo que os seus tios lhe tinham deixado, pois tinha a certeza que se eles tivessem vivos não iriam aprovar nenhuma das suas acções. Pegara no embrulho e removera o fio que o envolvia cuidadosamente para não o estragar, era a ultima coisa que restava que pertence-se aos tios, fora a memória dos dois, visto Spock ter morrido de velhice à dois anos. Não tinha coragem para abrir o caderno, tinha medo do que iria encontrar, da mensagem que os tios lhe tinham para dizer. As lágrimas pareciam mais pesadas, apenas queria desaparecer, acabar com tudo, com a dor de Kurt a desilusão da familia. Pensava no que aconteceria se morresse e se nunca existisse, "talvez seja tudo melhor se não existir" eram estas as palavras que apareciam em rodapé em cada imagem mental que tinha. Tornava-se mais dificil respirar, parecia sufocar nos pensamentos e lágrimas. Pousara o caderno na cama e saira de casa, ia correr um bocado e depois talvez fosse dar umas horas ao saco de boxe que havia comprado no seu ultimo aniversário. Trocara os jeans e o polo verde por uns calçoes e uma t-shirt antes de sair, estava frio mas isso pouco lhe importava no momento, iria correr até os ossos doerem até a dor ser insuportavel até o frio o impedir. Apertada as ligaduras nas quais envolvera as mãos, para evitar que o frio piora-se de alguma forma as feridas que tinha nos nós dos dedos por andar a praticar no saco de boxe sem luvas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.