We Are The Champions
9 Capítulo 8
Mariana POV
Dayene mantém o olhar fixo nas chamas da fogueira, em silêncio, enquanto eu busco em minha mente uma resposta descente.
— Eu não te odeio. — Em partes, é verdade. Eu não a odeio, apenas não vou com a cara dela.
— Ah, não Mariana? Não me odeia? Você demonstra o quanto me detesta desde o dia em que eu pisei naquela escola. — Ela diz, dessa vez olhando pra mim. — Eu tentei puxar assunto com você no primeiro dia de aula, quando todos estávamos na quadra e você foi extremamente grosseira comigo. Depois, se afastou dos seus amigos porque não me queria por perto e nem Camila. — Ela dá uma pausa. — E agora, do nada, se tornam ótimas amigas, você volta a falar com os meninos, mas sequer olha na minha cara.
— Dayene, não é isso. — Começo depois de perceber que ela não vai mais falar nada. — Eu estava de mau humor naquele dia, por isso fui estúpida com você. —
— Você vive de mau humor né? —
— Sabe Dayene, não vou mentir pra você, eu realmente não vou com a sua cara. — Admito. — Você chegou do nada, conquistou todos os meus amigos e eles brigaram comigo por sua causa, foi aí que minha apatia começou. Depois, você vai e rouba meu lugar no time de handball, espalha pros meus amigos que confundiram meu nome e acharam que eu era garoto e pra completar não é capaz de me pedir desculpas. —
Dayene olha pra mim, como se não acreditasse que eu estou falando sério e nega com a cabeça, soltando um riso pelo nariz e me olha com indignação.
— Eu não acredito que ouvi isso. Você queria que eu te pedisse desculpa exatamente por quê? Eu não tenho culpa se Douglas gostou de mim e quis se aproximar pra me ter como amiga, não tenho culpa por ter me saído melhor no teste pro time de handball e também não tenho culpa de que você tenha sido confundida com um menino. — Ela diz se levantando. Eu queria continuar brigando com ela, mas estou me sentindo idiota demais pra dizer qualquer coisa. — Quer saber, Mariana? Não vou mais ficar no seu caminho, pode ficar tranquila porque não vai mais me ver andando com os seus amigos e se possível ainda troco de cabana. — Eu estou levantando também, pronta pra ir pra minha cabana e conversar com ela lá dentro, mas ela continua. — Ah, Mary, mil desculpas por não ter me desculpado por algo que eu não fiz. —
Ela vai pra cabana, caminhando em passos largos e eu fico ali, em pé na grama observando a fogueira. Eu definitivamente sou uma idiota. Dayene não tem culpa de nada, é só uma coitada que chegou na escola e recebeu todo meu ódio por ter tantos problemas de stress logo no primeiro dia de aula. Eu poderia muito bem ir atrás dela, dizer o quanto eu estou sendo infantil exigindo desculpas por algo que ela não é culpada, mas eu prefiro a deixar esfriar a cabeça, aproveitando o momento pra pensar numa maneira de conversar com ela sem parecer ainda mais idiota.
Quando chego à cabana, cerca de meia hora depois da discussão, ela está dormindo completamente encolhido por conta do frio. Pego o cobertor que está dobrado sobre os pés dela e estendo, cobrindo-a e a vejo se acomodar na cama. Sei que na manhã seguinte ela me perguntará o porquê de ter feito isso e será a oportunidade perfeita pra lhe pedir desculpas e tentar me aproximar dela. Será difícil, mas eu tenho que tentar, não posso deixar que ela se afaste de todo mundo por um capricho meu. Alguém tem que consertar essa situação e obrigatoriamente tem que ser eu.
Caminho em direção ao banheiro, decidida a tomar um novo banho para tentar esfriar a mente. A pequena briga com Dayene não me deixou muito bem, minha cabeça está doendo e estou com uma dor estranha em minha barriga. Fico vários minutos logo abaixo do chuveiro, tentando decifrar o que realmente está acontecendo. Eu não queria fazer Dayene pensar que ela era algo ruim na minha relação com meus amigos, e só agora entendo exatamente o quão idiota eu fui com isso. Saio de meu banho após um tempo, com os dedos já enrugados de tanta água em meu corpo. Respiro fundo, vestindo minha roupa e voltando então para a cama. Fico por mais um tempo observando Dayene, ainda sem entender muito bem o motivo de eu ter feito tudo aquilo com ela, mas por fim acabo pegando no sono.
Douglas POV
Chato. Essa é a palavra que melhor descreve o acampamento após o termino do jogo de paint ball. Lugarzinho chato, cheio de gente chata. Mas meu colega de quarto supera todo mundo. O cara é um magrelinho esquisito que só sabe reclamar de tudo e não fica quieto um instante, sem falar que não entende ironia. Vou ficar louco se tiver que aturar ele a semana toda. Eu nem sequer sei seu nome direito. Acho que é Lucas, Leonardo... Leo! Isso, é Leo.
Já é madrugada e eu estou inquieto, me mexendo toda hora na cama sem conseguir dormir. É difícil me acostumar com uma cama completamente diferente da minha e principalmente dormir num travesseiro mais baixo que o meu. Meu telefone vibra ao meu lado, iluminando o meu canto e veio aquela forte luz na minha cara. É uma mensagem da minha mãe, me desejando boa noite e pedindo que eu ligasse no dia seguinte. Mas o nome do penúltimo destinatário é o que me chama atenção: T-boy. Eu não mando mais mensagens para Theo a dias e ele não é a última pessoa com quem eu conversei. Abro a conversa e vejo uma foto minha, dormindo no ônibus. Logicamente, ele tinha tirado e mandado para o celular dele. Mas se ele queria uma foto minha, por que não a tirou com a câmera do próprio aparelho?
Levanto da cama, visto apenas uma blusa e calço o primeiro sapato que vejo na minha frente, está tão escuro que sei que ninguém vai ver que estou de cueca. Seguro um lampião e o ligo. Eu sei que Theo está na cabana 77 e preciso falar com ele, afinal, se ele quer uma foto minha é sinal de que sente minha falta e se tinha deixado aquele "rastro" é porque quer que eu perceba. Sei que o meu T sente minha falta, mas é um orgulhoso, por isso vou atrás dele. Ás vezes, temos que escolher entre o orgulho e as coisas que te fazem falta. No meu caso, eu poderia engolir meu orgulho pra que ficasse tudo bem entre nós dois. O vazio que eu sinto longe dele é maior que qualquer coisa que existe dentro de mim.
Saio da minha cabana, pronto pra voltar pro meu melhor amigo. Eu não pedirei desculpas a ele, não mesmo, eu não preciso de nada disso; um simples abraço demonstrará que está tudo bem. Sempre estaremos bem desde que estivermos juntos. Está escuro, eu estou com medo apesar do lampião iluminar boa parte do caminho. Caminho rapidamente, tentando fazer o mínimo de barulho pra que ninguém acorde. Quando avisto a cabana dele, percebo a luz acesa. Graças a Deus, não precisarei fazer escândalo pra falar com ele.
Subo na plataforma de madeira e me aproximo da janela, ouvindo sons que distingui como gemidos. Arregalo os olhos quando escuto um longo e profundo "Theeeeeo". É Isis. O que ela está fazendo aqui? O vento sopra, a cortina move-se por conta da pequena fresta na janela e graças a isso consigo ver Theo por cima daquela vadia, que geme o nome dele sem parar e pede que ele acelere os movimentos. Minhas mãos se desenrolam da alça do lampião e ele cai no chão, se quebrando em vários pedaços enquanto levo a mão até minha boca, cobrindo-a enquanto as lágrimas escorrem por cima dela. Não, isso é mentira. Isso só pode ser mentira. Fecho os olhos com força tentando afastar aquela imagem dos meus pensamentos.
Volto pra minha cabana praticamente correndo, sentindo meus pés afundarem sobre a grama molhada por conta do sereno. Estou tropeçando praticamente a cada passo e as lágrimas insistem em rolar por meu rosto. Quando abro a porta, há uma pessoa lá dentro, e não é Leo. É Mylena.
— Douglas? — Ela diz, se levantando de minha cama e me olhando.
— O que você quer aqui, Mylena? — Tento esconder minhas lágrimas, mas está difícil.
— Eu queria falar com você. —
— Me procure amanhã. Agora saia daqui. —
— Mas Douglas... —
— SAI DAQUI MYLENA! — Grito e Mylena respira fundo, percebendo que eu realmente não estou com cabeça para papo agora e caminha em direção à porta, abrindo e saindo.
Um turbilhão de coisas invade minha cabeça, mas nada se compara a estranha sensação que eu sinto no peito. Eu não entendia o porquê, mas me dói lembrar do que tinha visto. Percebo que algo estava errado comigo e fico por minutos andando em círculos pela cabana. Eu já parei de chorar, mas minha cabeça está doendo e não sei o que há comigo. Tento decifrar o que esses sentimentos de perda significavam. Definitivamente, eu não queria ter visto aquilo.
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