Entrei embaixo do chuveiro e deixei que a água quente escorresse pelo meu corpo, relaxando meus músculos. Ainda estava incrédula com o que havia acontecido mais cedo e não queria me estressar, mas era impossível. Meus amigos, se assim ainda posso chama-los, tinham me trocado por duas novatas. Eu estava valendo menos que uma princesinha e uma nerd. Afastei esses pensamentos da minha mente e espalhei o shampoo pelo meu cabelo, tentando focar em outra coisa. Lembrei que havia visto um cartaz no mural, informando os alunos sobre um acampamento no mês seguinte. Era um tipo de projeto para a interação entre os alunos do terceiro ano, ocorria anualmente e já estavam sendo distribuídos panfletos a respeito. Seria uma boa oportunidade para arrumar novos amigos.
Dayene POV
Vão completar três semanas que Mariana se afastou do “grupo” e passou a andar sozinha, por conta própria. E eu me sinto completamente culpada por isso. No segundo dia de aula, Douglas contou a mim e a Camila o que havia acontecido e eu achei melhor me afastar deles, não queria ser o motivo – ou um deles – para uma separação de amigos de longa data. Mas eles não deixaram. Mylena disse que era um absurdo e que não admitia que nós – eu e Camila – nos afastássemos do grupo por conta de uma bobagem, eles queriam mostrar para Mariana que as coisas não funcionam da forma que ela queria.
Os testes para o time de handball foram na semana passada e eu, Camila e Mylena entramos para a equipe. Fazer o teste também foi uma péssima ideia, pois eu entrei como capitã do time feminino. Posição antiga da Mariana, e com isso ela foi mandada para o banco, o que com certeza me acarretou mais pontos na lista negra de Mariana. Não, eu não tenho medo dela. Não mais. Confesso que de início eu achei que ela iria me bater, me espancar ou apenas dar um soco em meu rosto por conta de todas as coisas ruins que eu estou levando para a vida dela, mas Dandara me disse que ela não é assim, tem pose de valentona mas por dentro é praticamente uma garotinha assustada. Aliviei-me com isso mas depois parei para refletir e isso também não era bom, afinal, se a bad girl era só uma imagem, talvez ela realmente estivesse sofrendo por dentro, mas não demonstrasse isso. Isso com certeza é ruim.
Estamos na aula de artes, mas a professora faltou, então é tempo livre. Dandara está conversando com Camila no fundo da sala e Mylena está tagarelando com um rapaz, ambos sentados na mesa da professora. É Martinho, um menino que só sabe falar de música praticamente. Enquanto isso, Theo compartilha o fone de ouvido com Isis, que se encontra encostada nele.
— Dois ridículos. — Doug bufa e eu rio.
— Com ciúmes, Doo? — Sim, já temos intimidade o suficiente para que eu pudesse chama-lo pelo apelido e rir das crises possessivas que ele tem ao ver o novo casal. É, Theo e Isis estão namorando, e isso não só incomodava Douglas, mas também o fazia agir como uma criança mimada.
— Não tenho ciúmes do T, só não gosto de ver meu amigo se envolvendo com uma vadia. — Responde ele, sem retirar os olhos de cima do casal.
— Isis não é vadia, ela é um doce de garota. Estudiosa, gentil, bonita, simp — Antes que eu pudesse terminar, Douglas me corta.
— Bonita Day? Está precisando de óculos. — Ele diz com uma irritação visível. — A menina é um tribufu, uma baranga, um rascunho do demônio, credo. Olha aquele cabelo, parece um esfregão eletrocutado. —
Eu não consigo falar nada, apenas rir. Douglas a xinga com tanto desprezo e ódio que quem visse pensaria que Theo era seu namorado e ela uma vadia que corria atrás dele. Pobre garota.
— Tá rindo do quê? Hein? — perguntou — Não é engraçado, meu melhor amigo tá namorando um maltrapilho e você fica ai, rindo como se fosse piada ao invés de me ajudar a me livrar dessa baranga. —
— Ela é namorada do Theo, o que podemos fazer? — falo, olhando os dois.
— Isso, era aí que eu queria chegar, o que podemos fazer? — Ele diz e apenas reviro os olhos.
— Doo, ela é namorada dele e os dois são fofos juntos, vamos deixar eles serem felizes. —
— Esse vai ser o Plano B, tá? — Solto uma risada e ele faz uma pausa, pensando e ia dizer algo, mas o Sr. Dominic entra na sala.
— Bom dia — respondemos e a sala se manteve em silêncio — Gostaria de informar que as inscrições para o acampamento foram mandadas ao camping, então quem não mandou a ficha não vai mais ter essa chance. Sei que muitos não estavam interessados nessa viagem, mas sinto lhes informar que esse projeto vale um quarto da nota para todas as matérias. Os monitores do acampamento mandarão uma resposta e eu lhes avisarei de qualquer novidade sobre esse assunto. Alguém tem alguma dúvida? Não? Ótimo, qualquer informação que queiram saber é só procurar algum professor ou a secretária. A Srta. Morissette teve um pequeno problema mas deve chegar logo — ele já ia se retirando mas parou por um instante e se virou pra trás — Gonçalves, por favor me acompanhe — falou e a sala toda virou-se para olhar Mariana, que abaixou a cabeça, pegou suas coisas e o seguiu. O que será que ela tinha feito?
— Relaxa, ano passado isso acontecia direto. — Douglas diz, lendo minha cara de preocupação.
— Por quê? —
— Sei lá, ela nunca disse. — Respondeu. — Vem, vamos ali com as sapatas. — Levantou-se sorrindo malicioso e foi até onde Dandara e Camila estão.
Caminho ao lado dele e me sento na mesa de Dandara, encostando-me na parede. Por que Mariana havia sido chamada?
Mariana POV
Vergonha foi a única coisa que eu consegui sentir quando o diretor pediu que eu o acompanhasse, minha vontade foi fingir que não era comigo mas não adiantaria. Então peguei minhas coisas e fui até ele, sentindo dezenas de olhares sobre mim. Eu e o Sr. Dominic paramos logo em frente à sala, um pouco mais ao lado, em direção ao corredor mais especificamente.
— Você prometeu que não ia se repetir, Gonçalves. — Ele diz.
— Mas nada está se repetindo. —
— Você tem sérios problemas, Mariana. Ano passado era do tipo briguenta e agora está bancando a solitária? —
— Não estou bancando a solitária. — Murmuro baixo.
— Não? Então por que se distanciou de seus amigos? Eu estou lhe observando e não foi só um, mas seis professores me relataram o seu "novo comportamento". Não vou ter que... Lhe ajeitar novamente, certo, Mari? — O diretor desliza a mão por meu ombro, com aquele sorriso nojento dele.
— Saia de perto de mim, eu estou bem. — Enfio minha mochila na barriga dele e saio correndo dali, em direção ao banheiro feminino.
Douglas POV
— Nem pense em ler isto! — Grito, protegendo o meu diário em meus braços.
— Ah, vaaaamos, só um pouquinho Doo. Você não tem segredos, não é? Nossa vida é um livro aberto, vaaaai. — Dandara continua a tentar pegar o diário.
Dandara se lança sobre mim e acabo caindo encima de alguém. Ana Júlia Barbosa é o nome dela.
— Oh, desculpe Annie. — Levanto, ainda protegendo meu diário.
— Sem problemas. — Ela também se levanta, batendo em sua roupa para retirar a poeira da sala que ficou impregnada em sua roupa.
— Você quer dar uma volta? Não dá pra ficar aqui. — Fuzilo Dandara com o olhar e em seguida volto a olhar gentilmente para Annie.
— Oh, claro. — Um sorriso brota no rosto dela e saio dali com ela, minha mochila e meu diário logo abaixo do braço.
— Eu vou com vocês. — Diz Theo, se aproximando de nós. O encaro, com um semblante emburrado.
— Não mesmo. Vai atrás da Isis. — Então puxo Ana Júlia para longe dali, saindo.
-*-
— Eu te desafio a beber isso... Pelo nariz! — Digo, com um pequeno copo com pouquíssimo leite logo a frente de Ana.
Estamos brincando de verdade ou desafio a alguns minutos, o que chega a ser engraçado.
Ana pega o copo e o encosta na base do nariz, começando a virá-lo. Quando menos vejo, o copo está sem um pingo de leite e Ana está com um bigodinho.
Solto uma risada, vendo-a limpar o leite da parte de cima do lábio.
— Ok ok, minha vez. Quer verdade ou desafio? —
— Hm... Verdade. — Digo.
— É verdade que você estava com ciúmes do Theo hoje na aula? —
Sinto meu rosto de avermelhar por completo. Por que as pessoas cismam em pensar errado sobre isso?
— C-Claro que não! Eu só não quero que ele se meta com a pessoa errada. — Murmuro, mas pela cara de dúvida de Ana, tenho certeza que ela não acreditou completamente nisso.
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