Camila POV

Quando me mudei pra Inglaterra, achei que fosse ser tão desagradável quanto foi no Canadá. As pessoas eram educadas, a família Ane era muito gentil e atenciosa, mas não era o meu lugar. Os esportes, as pessoas, os costumes. Definitivamente eu não me encaixava lá. E pensei que na Inglaterra fosse ser tão ruim quanto, mas para minha surpresa tudo estava me agradando.

Apesar de ter sido extremamente chato encontrar com Dandara — amiga inconveniente do Rafael que vivia me secando de forma indiscreta — no primeiro dia de aula, ela logo se mostrou uma moça bem simpática e mudou completamente a impressão de "sapata atirada" que eu tinha dela. Os amigos dela eram incríveis, com menos de um mês de convívio já éramos muito próximos e eu tinha um afeto enorme por cada um deles. Mas ainda tinha Mariana, a bad girl que não foi com a minha cara e nem com a da Dayene. Mesmo agindo feito uma idiota — palavras de Mylena — eu percebi que Mariana parecia ser uma boa pessoa. Claro, porque eu sempre tentava enxergar o lado bom das pessoas por pior que elas fossem. Mas a Mariana definitivamente não era má pessoa, ela era só uma menina que acabou me julgando antes de me conhecer. Não iria crucifica-la por isso, afinal todo mundo já fez isso um dia.

O acampamento seria na próxima quarta-feira e todos iríamos, exceto Dandara, que ia passar o aniversário com a avó doente. Confesso que fiquei um tanto chateada com isso, tinha bem mais proximidade com ela do que com os outros e ela era tipo minha "melhor amiga". Isso sem contar que queria passar mais um tempo com ela, vê-la fora da escola e dar fim aos sentimentos confusos que eu nutria por ela. Não que eu tivesse outro tipo de interesse nela, mas Dandara era muito bonita pra ficar ao lado dela sem ter vontade de beija-la. No entanto, era um pouco tarde demais para querer algo a mais com ela porque no ultimo verão eu a tinha dispensado, mesmo que indiretamente e desde que nos reencontramos ela parece se interessar apenas pela minha amizade. Que pena, não ligaria de dar uns beijos nela.

Theo POV

"Por que sou tão idiota?", essa é a pergunta que martela em minha cabeça enquanto eu encaro o teto, ouvindo o tique-taque do relógio do corredor. Eu não consigo dormir e de acordo com a ultima vez que eu tinha checado meu celular, já passa das duas da manhã. Faz quase duas horas que deitei e não consigo dormir, tudo por culpa da discussão idiota que tive mais cedo com Douglas. Mas esse não era o único ou maior problema naquele momento. Eu também tinha brigado com a Is. O motivo? Meu melhor amigo. Acabamos brigando por telefone, ela ficou furiosa ao saber que eu não a acompanharia em sua tarde de passeio porque tinha brigado com o Doo e não estava com cabeça pra sair. Droga, por que os dois tem que se odiar?

— Arghhh — Afundo a cabeça no travesseiro, tentando afastar tudo da minha cabeça. De repente, meu celular vibra.

“Desculpe-me por hoje mais cedo, apenas estou cansada de ter Douglas entre nós. Não ia conseguir dormir antes de me desculpar. Boa noite. xx sua Is.”

Encaro o celular por alguns segundos, mas decido não responder, sei que ela puxará assunto e eu não quero conversar. Um dos problemas já estava resolvido, mas eu conheço o Curly muito bem pra saber que ele não irá me mandar mensagem de desculpas, seu orgulho é muito grande pra se desculpar, principalmente quando ele não está errado. Coloco no restrito e disco o número dele, depois de quase um minuto refletindo se deveria ou não ligar, tomo coragem e aperto o botão.

— Alô — Ele atendeu no quarto toque, com a voz mais rouca do que de costume. Não respondi nada — Alô? — Ele fala, dessa vez com um tom menos grogue — Alô, quem está falando? — Escuto ele bufar e a chamada se encerra.

Fico fitando a luz que o aparelho reflete até que ela se apaga. Por que eu fiquei mudo como um tonto? Eu podia ter dito muitas coisas a ele, ter pedido desculpas e dito que ele era mais importante que qualquer outra pessoa em minha vida, mas não fiz, preferi ficar em silêncio.

Finalmente, depois de tanto tempo tentando adormecer, sinto o sono chegando. Foi nesse momento que eu percebi que teria que aprender a dormir depois das brigas e sem as mensagens de boa noite, que nem sempre tudo estaria bem entre nós dois e que eu teria que aceitar isso. Eu não precisava que tudo estivesse bem sempre, só que fizéssemos as pazes toda vez que brigássemos. Eu faria isso no dia seguinte e poderia dormir tranquilo à noite, sem preocupações. Mas naquela noite eu também não tive mais problemas com o sono, eu havia escutado a voz dele e isso agia melhor em mim que qualquer sonífero.

Douglas POV

Depois que algum ser inteligente resolveu me ligar às duas e meia da madrugada, não consegui dormir direito. Eu não conseguia pensar em mais nada a não ser em Theo. Toda a tristeza que eu estava sentindo desapareceu e eu estava com raiva. Raiva porque ele estava me trocando por uma magricela e ainda mais raiva porque me lembrei que teria que me sentar com ele no ônibus a caminho do camping, afinal tínhamos um mapa e eu seria obrigado a segui-lo. Maldita viajem.

A manhã chega acompanhada de um radiante sol, que me força a abrir e fechar as pálpebras inúmeras vezes e amaldiçoar o dia. Levanto da cama me sentindo mais dolorido que se um caminhão tivesse me atropelado, vou até o banheiro e faço minha higiene. Enquanto procuro uma roupa pra vestir, lembro-me que todos os dias eu passava pra pegar o Theo e íamos juntos pra escola. Por um momento acho que é melhor larga-lo pra se virar, mas isso despertaria comentários entre as meninos. E ele também odiava ser ignorado, então a melhor opção é agir como se tudo estivesse normal mas respondê-lo com frieza toda vez que se dirigir a mim.

-*-

É a hora do intervalo e até agora Theo não puxou papo comigo, apenas alguns comentários e diálogos normais, que eu respondi com monossílabos. Fico preocupado porque Mariana não veio para a aula, o que significa que algo ruim aconteceu, já que ela só falta em emergências. Seria bom se ela ao menos desse uma brecha para que nós nos aproximássemos dela.

— Oi garotos — Eu reconheceria aquela voz melancólica de longe. Isis. Todos na mesa respondem, menos eu. Logo ela se aninha nos braços de Theo, sento meu estômago revirar — Educação é bom, Douglas. — Ela diz me repreendendo por não tê-la cumprimentado.

— Beleza também. — Respondo. Ela faz uma cara surpresa e Camila ri brevemente. — Não gosto de você, Is.

Ela encara Theo a espera de uma reação, mas ele apenas abaixa a cabeça em sinal de negação. Furiosa, ela se afasta dele e sai em direção às amigas. Isso, Isis, vá pra bem longe do meu T.

— Eu vou comprar algo para mim. — Digo, passando a mão por meus fios e me levantando.

— Quer que eu vá com você? — Diz Theo.

— Não. — Respondo seco sem nem ao menos parar de andar para olhar para ele.

-*-

— Ainda acho que você não merece. —

— Ah, vamos Douglas! Você viu o tamanho daquela bunda? Apresente-me a ela! — Diz André.

— Não! Não vou deixar você quebrar o coração da Camila. Ela é legal, e além do mais, ela está interessada em outra pessoa. —

— Em quem? —

— Não interessa a você. E não me procure novamente pra isso. Você é repugnante, André. Se quer ter algo com a Camila, conquiste a confiança dela primeiro, e não veja pedir pros amigos dela para apresentarem. Seja você mesmo, não o babaca que você costuma ser só porque está no time de futebol. — Me viro e saio do banheiro.

Era só o que me faltava, gente achando que eu tenho cara de cupido. Eu já tenho meus problemas, não vou tentar resolver os problemas alheios.

— Ela vai pro acampamento, ao menos? — André está caminhando ao meu lado.

— Vai. Tente não bancar o idiota com ela, porque ela não faz o estilo que aguenta babacas, entendeu? Seja você mesmo, sem a máscara de “machão do futebol”. —

— Certo. —

André passa o braço em torno de meus ombros, me dando um abraço rápido de lado. É estranho alguém como ele estar me pedindo conselhos, considerando que por ser do time de futebol, ele não tem dificuldade de conseguir garotas.