Dandara POV

Desde que Mariana decidiu se isolar e ignorar todo mundo, eu e Camila nos aproximamos. Eu não quero deixar Mary de lado e me sinto super mal ao vê-la caminhar sozinha pelo corredor, mas quando eu tentei falar com ela, sua reação não foi das melhores. Para ser mais direta, suas palavras foram “vai tomar no cu”, e desde então eu resolvi deixar que ela percebesse que estava errada e viesse nos procurar. Não aconteceu.

Vão completar três semanas na segunda-feira e eu estou chateada, afinal meu aniversário é no próximo mês e eu não quero estar brigada com ela. O acampamento seria a oportunidade perfeita para conversar com ela, se eu fosse. É, eu não vou fazer essa viagem porque minha avó está adoentada e minha mãe quer aproveitar essa oportunidade para que fôssemos vê-la em Stratford. Eu não estou muito animada com essa viagem, muito menos quando descobri que perderia parte da minha nota, mas era algo importante. Douglas quase deu um chilique quando soube que eu não iria e notei que o Camila ficou um tanto decepcionada.

Como já disse, eu e Camila ficamos bem próximas, descobri várias coisas sobre ela e somos praticamente melhores amigas. O único problema é a queda — abismo — que eu tenho por ela. Sim, eu continuava sentindo atração por ela. Por que ela tinha que ser tão bonita? Aqueles olhos, aquele cabelo, aquele corpo. Tudo nela me fazia suspirar como uma idiota apaixonada. Mas é claro que eu nunca diria isso a ela, jamais. Já me bastavam os foras que ela tinha me dado naquele verão, eu não iria quebrar a cara mais uma vez e arriscar perder a amizade dela. Uma hora eu ia acabar que conformando que o que rolava entre nós duas era amizade, nada além disso.

Douglas POV

Como se brigar todos os dias com minha mãe em casa e perder a amizade de Mariana já não fosse problema o suficiente para minha cabeça, o Theo ainda decidiu arrumar uma namorada. E o pior não é ele estar namorando e sim quem ele está namorando. Tanta gente bonita nesse mundo e o Theo escolhe aquela criatura. Mas se ela fosse só feia, tudo bem, mas a bruaca ainda é falsa. Isis é o pior tipo de pessoa para se envolver, transmite imagem de boa moça, mas é pior que uma cascavel. Como sei disso? Sei reconhecer uma vadia manipuladora a quilômetros, já lidei com várias. Aparência de anjo, possuídas pelo demônio.

— Doo, é pra rachar o ovo, não pra transformar ele em pó! — Diz Theo e só então percebo que eu destruí completamente o ovo.

— Desculpa T. — Vou em direção à geladeira, pegando um novo ovo ali dentro.

Estou fazendo um bolo com Theo. Toda quinta-feira do primeiro mês de aula Theo dorme em minha casa. É um hábito nosso desde que temos 9 anos. Nós fazemos cookies, e bolos e assistimos filmes e fazemos tudo o que dá na telha. É divertido e a cada ano parece que melhora.

— Quebre ali dentro. — Theo aponta com a colher de pau para uma tigela na pia.

Caminho em direção à pia e logo começo a quebrar o ovo dentro da tigela, em seguida Theo vem em minha direção e pega a tigela, misturando com a colher de pau.

Encosto-me à mesa, fechando os olhos e respirando fundo. Eu realmente ainda não entendo o porque de Mariana ter se afastado assim do grupo. Ter novas pessoas conosco não é motivo para isso, é? Não, claro que não é. Mariana não é assim, nunca foi. Deve ter algo de errado com ela.

— Doo? Está tudo bem? — Abro os olhos, vendo Theo logo a minha frente com um tipo de massa na tigela e uma colher de pau meio suja na mão.

— Ah, está sim, eu só estava pensando. — Digo.

— Pensando no que? —

— Ah, nada não. —

— Ora, me conta vai. —

— Nada, poxa. —

— Me conta! — Theo passa a colher de pau na ponta de meu nariz, me sujando com a massa e em seguida rindo.

— Ei! — Agarro a caixa de farinha, jogando tudo encima dele.

Risadas contagiam o lugar enquanto nós fazemos uma mini guerra de comida.

O resultado? Uma cozinha completamente suja e Theo parecendo um fantasma com manchas amarelas (resultado de leite, farinha e ovos jogados nele), e eu parecendo um bolo pronto para ir pro forno.

— Eu devia era bater em você. — Digo, ainda rindo enquanto tento livrar meu cabelo da massa de bolo.

— Eu me preocuparia em limpar a cozinha, não em bater em mim. — Ele ri também.

— Depois eu arrumo. Mamãe não vai dormir aqui, então temos a noite inteira pra fazer isso. — Termino de secar meu cabelo, percebendo que não deu muito certo pois continua com um cheiro estranho.

— Acho melhor você ir tomar banho. —

— Vai você primeiro, eu vou ficar aqui ajeitando um pouco as coisas. —

— Certo. —

Theo se vira e vai em direção ao meu quarto. São tantas as vezes que ele já dormiu aqui que algumas roupas dele estão em minha casa. E mesmo se não estivessem, minhas roupas cabem em Theo.

-*-

A cozinha está parcialmente limpa e estou com Theo no sofá da sala. Ele está sentado e estou deitado com a cabeça nas coxas dele. Está passando um filme sobre dois amigos que deixam de ser amigos e isso me lembra um pouco Mariana, por isso, fecho os olhos e respiro fundo enquanto Theo acaricia meus cabelos.

Um som que não pertence ao filme preenche o lugar.

Abro os olhos e me sento, vendo Theo puxar o celular do bolso da calça. Ele deve ter recebido um SMS.

— Err... Doo, eu vou ter que ir embora. —

Faço um rosto confuso. — Por quê? — Pergunto, franzindo o cenho.

— Isis quer passear comigo. — Ele responde de forma baixa e o encaro com fúria. Como assim ele ia embora pra ficar com aquela vadiazinha barata?

— Eu não acredito nisso. — Me levanto e ele me olha confuso. — Você vai me trocar pela sua namoradinha? — Uso o máximo de desprezo ao me referir a ela.

— Primeiro, ela não é minha “namoradinha”. — Seu tom de voz demonstra que ele está irritado. — E segundo, eu não estou te trocando, eu apenas não posso ficar o tempo todo ao seu lado. Eu tenho uma namorada e ela está acima de todas as prioridades. —

— Quer dizer que agora a Isis é mais importante que eu? Sua namorada de uma semana é mais importante que seu melhor amigo? — Pergunto sentindo meu rosto queimar de raiva. Eu nunca tinha colocado ninguém — exceto minha família — acima dele e agora ela vinha com esse papo de "minha namorada é prioridade". — Faz nove anos. NOVE ANOS. Que nós dormimos juntos toda quinta-feira do primeiro mês de aula. Isso tudo foi por água abaixo agora? Conseguir uma namorada me empurrou para baixo agora? Nossa “amizade” foi embora pelo simples fato de que Isis agora faz parte da sua vida? — Tem ódio puro em minhas palavras.

— Douglas, não seja idiota. Ela é minha namorada. — Ele diz em um tom normal, meio que controlado. — É claro que ela é mais importante, somos um casal agora e você... Você é meu melhor amigo, mas é só isso. Eu a amo. — As últimas três palavras fizeram minha raiva desaparecer e a tristeza me invadir. O que ele queria dizer? Que ele a ama e que eu sou “só isso”? Eu não sou importante para ele?

— Sai da minha casa. — Digo antes que as lágrimas venham e eu comece a chorar na frente dele.

— O quê? — Ele pergunta.

— Saia da minha casa. — Repito, mordendo o lábio inferior para afastar as gotas dos meus olhos. — Agora.

— Douglas. — Ele começou, mas vou até ele, puxando-o do sofá e começando a empurrá-lo para a porta de saída. — Douglas, me larga, me solta! — Solto-o e o encaro por alguns segundos, com as lágrimas ali, prontas para escorrer a qualquer segundo. — O que foi isso? —

— Você vai sair da minha casa agora. — Digo, apertando meus dedos e tentando desviar meu foco. Não vou chorar na frente dele. — Vai pra casa da sua namorada. Case-se com ela, morra com ela. Só não apareça mais aqui. Uma hora você vai perceber o quanto está sendo imbecil em coloca-la como prioridade. Como disse a Mary, espero que você quebre a cara e quando isso acontecer, não venha me procurar. — Ele me encara incrédulo e volto a segurar o braço dele, o puxando em direção à saída. Abro a porta, praticamente o jogando para fora.

— Você está sendo infantil, Douglas. — Ele volta a olhar para mim, numa última tentativa de consertar o que fez, talvez. — Vamos conversar quando você voltar ao seu estado normal.

— Eu nunca mais vou falar com você, Theo. — Bato a porta na cara dele.

Encaro a sala de estar por alguns segundos, até as lágrimas tornarem minha visão embaçada. Jogo-me no sofá, soluçando. Eu não queria ter brigado com Theo, ele era tudo pra mim, meu melhor amigo. "Eu a amo". Não sei por que, mas aquelas palavras me doeram tanto. Ele não a amava, ele não podia ama-la. Ele não precisava dela, ele tinha a mim. Eu não conseguia acreditar que tinha brigado com ele por um motivo tão ridículo, porém não ia aceitar numa boa o que ele estava fazendo. Coloca-la na frente da nossa amizade? Theo não era assim, ele nunca faria isso. Era tudo culpa dela, ela estava mudando o meu T. É tudo sua culpa, vadia. Eu te odeio, Isis.