Wasted Sacrifice
8 Vontades
Notas iniciais
Não consegui tirar os olhos dela por alguns segundos. Usava um vestido preto, contrastando com sua pele levemente pálida, que acentuava suas safiras nas íris, por incrível que pudesse parecer. As finas alças e a linha que acompanhava até sua cintura a deixaram com um busto maior. E meus olhos se perderam no seu decote, deixando-me com cara de pervertida. Lori percebeu, e enrubesceu de imediato.
-Desculpa, esse vestido é ousado demais, não é? Eu deveria ter pensando duas vezes antes de escolher e...
-Está perfeito. – murmurei, ainda um pouco boquiaberta – Você é linda... Quer dizer, ahn, você está linda, é, belo vestido. – gaguejei por fim.
Fiquei confusa. Eu nunca havia sentido nada assim antes e, me soava tão estranho esses dias... Não conseguia mais olhar a Lori sem antes perceber duas coisas. Que por vezes, cintilava em seus olhos a cor esmeralda dos da sua irmã. Achava coisa da minha cabeça, porém desde que o beijo entre eu e Lyra quase aconteceu, eu não parei de pensar nela. E Lori por perto, tão parecida, me fazia delirar. A segunda coisa, é que parei para perceber o quanto eu queria poder agarrá-la. Como um garoto faria. Eu estava simplesmente pensando e desejando como um. Porém, depois dessas semanas sem ver a Lyra, o alvo dos meus pensamentos era a garota dos olhos de safira na minha frente.
Pensar nisso tudo me deixou um pouco tonta. E soou tão errado estar com a Lori e pensando na irmã dela... Fechei os olhos e apertei-os, numa tentativa de me recompor.
-Ah, entra e fica a vontade, eu levo sua mochila para o meu quarto. – falei finalmente, tomando a sacola azul-marinho de suas costas, fechando a porta atrás dela e correndo escada acima.
Coloquei em cima da minha cama e suspirei. Era difícil, mas inevitável dizer que eu tinha atração por elas. Por garotas, eu acho que já podia presumir. Sentei na beira da cama, e coloquei o rosto entre as mãos. Respirei fundo e tentei refletir melhor sobre aquela certeza. Isso era muita informação para processar no momento, muita coisa nova surgindo em minha cabeça e também, futuramente quem sabe, para o meu coração. Agora, a possibilidade de ser homo assim com a Lyra estava tão aparente que até me assustei. Não sabia se achava aquilo ruim ou bom. E no momento, tudo que eu queria é estar concentrada na saúde de minha mãe... Porém essas gêmeas não me permitem. Era o que eu precisava para um conflito adolescente, na hora em que precisava ser adulta.
Ri desdenhando da situação. Nesse momento, Lori entrou no quarto devagar, um pouco hesitante.
-Kim, está tudo bem? – perguntou.
-Ah, sim. Eu só estava tentando lembrar onde coloquei os filmes. – respondi, admirando novamente seu corpo bem delineado naquele vestido.
-Quer ajuda? – ofereceu, sorrindo.
-Seria bom.
Enquanto vasculhávamos minhas gavetas, comecei a pensar na possibilidade de... Tentar algo. Essa noite, parecia perfeito. Não poderia afirmar ser algo sem nunca ter ao menos experimentado. Meu único medo era Lori me rejeitar e depois ficar muito irritada com a tentativa. Tal ato custaria a nossa amizade que ia tão bem. No fim, a curiosidade me venceu. Depois de encontrarmos dois filmes antigos, romances de minha mãe perdidos entre minhas coisas, resolvemos descer para jantar. Eu havia preparado seu prato favorito por sorte, o que talvez me ajudasse no meu plano louco de roubar um beijo.
Ela comeu com vontade, feliz e surpresa pela escolha. Comentamos sobre trivialidades, até que resolvi arriscar uma pergunta.
-Lori, você já beijou alguma garota antes?
Ela engasgou, tossiu um pouco e pigarreou antes de responder.
-Não, nunca. Porque perguntou, Kim?
-Beijaria alguma, se tivesse vontade?
Arrependi-me dessa ultima pergunta. Tive medo de que minha vontade ficasse muito aparente. Mordi o lábio em duvida, e tentei manter um semblante serio enquanto aguardava. Ela enrubesceu aos poucos.
-Bom, acho que depende da pessoa... – murmurou, receosa.
Senti algo estranho. Uma vozinha em minha cabeça dizendo que eu deveria, definitivamente, naquela noite tentar. Tomei coragem e quebrei o silêncio.
-Então, mudando de assunto. Que tal você colocar o filme enquanto eu lavo os pratos? Põe na TV do meu quarto, é maior. – falei, refletindo sobre o local; quarto definitivamente seria a melhor opção.
Ela assentiu com a cabeça e saiu. Arrumei tudo o mais rápido possível e coloquei o resto no lavador de pratos. Peguei uma pipoca de micro-ondas e esperei 3 minutos para correr novamente escada acima. Lori estava de costas, lutando contra o aparelho de DVD.
-Tendo dificuldade? – questionei, dando risada.
Virou-se para mim, fazendo biquinho.
-Não achei o controle, então estava tentando selecionar direto aqui.
-Deixa comigo, aproveita e se acomoda logo. – falei, ainda rindo.
Beijou-me no rosto, tomou a pipoca das minhas mãos e deitou na cama. Selecionei o idioma, apertei play e fui me deitar ao seu lado. Seu olhar discretamente me agradecia por estar ali se divertindo comigo. Voltamos para o filme que já estava começando.
Era uma comédia romântica, previsível como a maioria. Um rapaz, com sua melhor amiga, que passam por inúmeras situações até perceberem que, foram feitos um para o outro. Porém eu não ligava para o quão clichê o filme era; e sim para Lori. Como eu iria roubar um beijo? Qual seria a melhor hora? Comecei a pensar que já estava ficando louca, cogitando uma ideia maluca por influência de uma dúvida e um quase beijo. Então apreciei o corpo dela novamente. Imaginei Lyra, tão parecida e tão diferente... No arrependimento que senti por ter negado aquele beijo... Em como nos olhamos na lanchonete. Depois de tanto refletir, respirei fundo e sussurrei:
-Ei, Lori. Posso tentar uma coisa?
Ela me olhou, a dúvida e a surpresa estampadas em seu rosto. Timidamente, segurei seu queixo com o indicador e aproximei meu rosto do seu, que enrubescia a cada centímetro; até tocar levemente seus lábios com os meus.
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