Warriors
4 Friends.
Notas iniciais
Yasmin
1 de janeiro, 2050
12:52
Não pude deixar de ficar boquiaberta ao ver o estado do braço da rapariga. As mordedelas e os arranhões de um C-bot são a coisa mais horrível que pode haver e que alguma vez foi inventada.
Nem tive tempo de reagir quando vi a Serena investir sobre o RX, com a sua espada Sapphire. Infelizmente, ele conseguiu desviar-se do ataque e foi quando um outro, rapidamente, se aproximou dela e bateu com a garra no seu ventre.
Corri até ela vendo um C-bot correr até ela para a atacar, mas consegui chegar a tempo de lhe separar a cabeça do corpo, indo cada um para seu lado. Vi mais dois correr até nós, mas ainda fui a tempo de deitar a mão a duas adagas dentro das minhas botas pretas, conseguindo atira-las para os pescoços deles. Assim que vi um RX junto a nós, vi a Serena – ainda curvada sobre a barriga — estender-me a espada dela, a qual agarrei rapidamente, cortando o corpo do bot ao meio.
Ao ver que os outros estavam a tratar dos outros bots, guardei as adagas que tinha na mão esquerda e baixei-me até à Serena, deixando a espada por baixo da minha mão direita.
—Estás bem?- ela limitou-se a levantar a cabeça e a olhar para mim com um sorriso.
—Vou ficar.- Levantei-me, com a ajuda da espada, e estendi-lhe a mão para a ajudar, entregando-lhe depois a sua Sapphire.
Olhei para trás observando os meus companheiros a combater contra os bots, juntando-me a eles.
Rapidamente, consegui ver onde estava o bot com a Malina, rodeado pela Serena e o Hiroto que batalhavam contra três C-bots que o protegiam, os quais foram logo decapitados antes de chegarem mais quatro.
Ao ver que o RX ia fugir, corri até ele, e por trás, sem que desse por isso, espetei-lhe uma adaga em cada ombro, descendo pelo seu corpo de metal até o dividir em três partes. A rapariga acabou por cair para a direita juntamente sendo ainda agarrada pelo enorme mão do robô.
—Alguém que me cubra!- numa fração de segundos, vi a Starfox atrás de mim, empunhado as suas espadas para nos proteger.
Tentei ver onde estavam a Serena ou a Cristen. Precisava que uma delas visse o braço dela porque parecia estar a ficar cada vez pior. Ainda assim, ouvi-a gemer de dor antes de abrir os olhos que lacrimejavam.
—Consegues levantar-te?- os joelhos dela estavam todos feridos, provavelmente, devido a ter sido arrastada pelo C-bot. Ela limitou-se a negar com a cabeça enquanto as lágrimas lhe escorriam pela face.
Ouvi uma explosão por trás de mim que, com a sua força, quase me fez cair para cima da pobre rapariga. Ainda assim, tentei cobri-la o melhor que pude para evitar que magoa-la ainda mais, o estado dela já era lastimável o suficiente.
—O que foi isso?- olhei para trás, vendo a Starfox agachada protegendo-se o melhor que podia, rodando as espadas para que os estilhaços não a atingissem.
—O Goenji arrancou um braço a um RX.
—O quê?!- ele não sabe que isso os faz explodir?!
De repente, vi o próprio deslizar até nós, colocando a sua AK-47 às costas, baixando logo a cabeça com uma nova explosão, tal como eu.
—És louco?!- gritei por cima de uma nova explosão- Eles agora não parar de rebentar uns atrás dos outros.
—Era essa a intenção.
—O quê?- e mais uma explosão- Porquê?!- antes me responder, foi até à Malina, pegou nela ao colo, continuando agachado com ela nos braços.
—Para podermos escapar.- Olhei para trás vendo que todos estavam a correr de volta à escola enquanto os C-bot começavam a fugir
Pus-me logo de pé para correr atrás dele e da Star, que também já se levantara, quando, repentinamente, senti como se algo me cortasse a perna, fazendo-me dar um grito com a dor que começava rapidamente a arder e que não me deixava levantar do chão.
Levantei a cabeça e vi um C-bot junto a mim, pronto para me atacar novamente. Pelo menos, era esse o plano do robô que teve a cabeça cortada pela espada de um albino, que pontapeou logo tanto o corpo como a cabeça.
—És tão imprudente como sempre.- Riu-se, guardando a espada para ir até mim, para me ajudar.
—Que engraçado. Eu só não o vi.
Sem estar à espera, ele pegou-me ao colo e começou a correr comigo nos braços dele.
Agarrei-me fortemente ao seu pescoço, tentando não chorar com a dor que se intensificava cada vez mais na minha perna.
Cristen
13:11
A pior parte de ter que tratar das feridas da Malina e da Yasmin é o facto de estarem acordadas enquanto eu e a Serena tentamos tratar das queimaduras.
Por muitas feridas que trate, nunca me habituarei ao gritos de dor dos meus companheiros. É como se tudo o que eles sentem passe para mim, deixando-me com um enorme aperto no coração.
—Como te sentes?- a Yasmin ainda cerrou os dentes ao tentar mexer o braço, antes de olhar para mim e sorrir.
—Um pouco melhor. Pelo menos já não me arde o braço.
—Ainda bem.- vi-a olhar para o meu lado e eu virei a cadeira, voltando-me para o mesmo local.
—E ela? Está muito mal?
Vimos apenas a Serena levantar o olhar da prima para nós.
—Vai ficar. Dei-lhe uns calmantes e deve ficar a descansar durante um bom bocado.
—E faz ela bem.- Levantei-me da cadeira e comecei a arrumar a cadeira no devido lugar- Ainda de manhã tratei dela e agora já está assim. Ao que parece a única coisa que consegui curar foi a hipotermia.
—E como está o resto?
—Bom, o pé dela está pior. Está inchado e cheio de nódoas negras. Ainda gostava de saber como é que ela conseguiu, sequer, correr neste estado. E o braço está na mesma. Retirei o ácido todo, já parou de queimar e agora, é como tu vais fazer, esperar. O que também ficou ferido, mas menos afetado, foram os joelhos. Ficaram ligeiramente arranhados.
—Agora que penso nisso...- comecei- Devias acorda-la, Serena.
—Para quê?! Ela acabou de adormecer.
—Antes de tudo isto acontecer, ela disse que tinha fome. Nós estávamos a sair da enfermaria para ir almoçar. Ela acabou de tomar um comprimido de estômago vazio.
—Podias ter avisado mais cedo.
—Serena, com todo o respeito, mas estava demasiado ocupada a tratar da Yasmin para saber o que estava a fazer, ainda por cima estando eu de costas para ti.
—Mas eu também não sou adivinha.
—Podem parar as duas?- olhamos ambas para a nossa companheira que se tentava levantar, praguejando várias asneiras. Corri até ela para a ajudar a levantar- Ouçam, as coisas já estão mal o suficiente, não piorem mais, ok? Este está a ser o segundo pior Ano Novo da minha vida.- murmurou. O pior eu podia adivinhar bem qual era.
Naquele momento de silêncio, começamos a ouvir vários passos no corredor, juntamente com as vozes do Fubuki e da Mika que conversavam entre si, antes de ouvirmos baterem à porta.
—Podemos?- era a voz do Goenji.
—Entrem.- Assim que dei a ordem, vi o próprio abrir a porta, deixando entrar aqueles dois juntamente com o meu Taiyou.
O Fubuki e o Taiyou vinham com bandejas na mão, e em cima de cada uma estavam duas tigelas de sopas que pareciam estar ainda bem quentes. O Goenji foi até à Serena, que ainda permanecia junto da prima, enquanto a Mika fechava a porta.
—Viemos trazer-vos os almoço.- O Taiyou deu-me um beijo antes de ir pousar a bandeja em cima da mesa tal como fizera o Fubuki.
—Passasse alguma coisa?- era tão óbvio o ambiente à nossa volta para a Mika ter reparado?
—Nada.- A Yasmin foi a única que falou, chamando o Fubuki com um gesto de mão- Isto é uma enfermaria, há duas pessoas feridas, é normal que o ambiente não seja o melhor.
—Ok. Tens razão.- Riu-se, sentando-se em cima da cama da amiga que era agora transportada ao colo pelo Fubuki, para junto da mesa e sentada na cadeira que arrumei.
Logo de seguida, fui rodeada pelos braços do meu namorado.
—Como sabemos que estão ocupadas ou magoadas... Decidimos trazer-vos o almoço para aqui.
—Oh! Que queridos!- voltei a face para ele, beijando-lhe a bochecha- Obrigada, amor.- Logo a seguir ouvi o riso de um certo-casal-não-assumido por trás de nós.
Soltei-me dos braços do Taiyou e agarrei-o pela mão, puxando-o comigo até à mesa, pegando na tigela para começar a comer.
Olhei para a outra cama, vendo a Serena e o Goenji a tentarem acordar a Malina, que pouco a pouco foi abrindo os olhos ensonados.
Pousei a minha tigela de sopa e peguei na que estava antes ao lado da minha e fui até junto deles, vendo a albina segurar nas costas da prima para que não se deitasse.
—É melhor comeres alguma coisa. Não era tua barriga que anda a resmungar?
Vi-a, simplesmente, sorrir. Um sorriso, acompanhado por uns olhos ensonados, mas foi o suficiente para o meu aparecer.
Mika
13:20
Quando entrei na enfermaria, tive a leve sensação de que algo se estava a passar. Pelo menos entre a Serena e a Cristen. Elas por vezes conseguem ser muito competitivas no que toque a cuidar das pessoas, o que acho mal porque eu sei que ambas fazem um excelente trabalho, ainda mais quando é em conjunto.
Queria poder dizer algo mais ou talvez ajudar em alguma coisa, mas não sabia exatamente o quê. Via-os a conversar ou a comer, tentando manter a rapariga acordada e a comer, e eu estava a sentir-me um pouco a mais. Só aceitei vir com eles porque o ambiente na cozinha estava ainda pior do que aquele que apanhei quando entrei na enfermaria.
A Amber e a Rin, assim que chegamos à cozinha, começaram a reclamar com os rapazes, dizendo que a culpa era sobretudo do Ayato e do Fudou, que não sabiam respeitar as pessoas, enfim... Ainda houve mais uns quantos insultos, mas assim que perguntei ao Taiyou onde iam com aquelas tigelas, depois deles três terem almoçado à pressa, e dele me responder, não pensei duas vezes; deixei de prestar atenção à discussão que se gerava por trás de mim e saí com eles.
Olhei para o único relógio do local e percebi que agora era hora de sair, também, dali.
Pus-me direita e comecei a limpar o que podia das costas da minha roupa — já que por vezes as paredes deixam um pouco de pó branco – e pensei em sair, até ver o Goenji bocejar, antes dos rapazes o fazerem também.
—Vocês deviam era ir tomar banho e depois dormir. Estão com umas caras de sono, para além de tresandarem.
—Eu já vou.- O loiro foi o único que me respondeu, sentando-se na cadeira onde antes estava a Serena, voltando a bocejar.
Virei-me para os outros dois, vendo o albino com a cabeça apoiada na mão e de olhos fechados, enquanto o ruivo baixava a cabeça, colocando-a em cima dos braços.
—Acho que deviam ir todos agora.- Riu-se a Yasmin antes de afastar uma mecha de cabelo que caia pela face do amigo.
—Concordo.- Olhei para a Serena vendo-a a apontar para o Goenji, enquanto ela e a prima riam.
Tinha os braços cruzados e a cabeça a balançar, o que só podia dizer que estava a dormir, tal como, provavelmente, estavam os outros dois. Olhei para as minhas companheiras vendo-as acenar e sorrir.
Sinceramente, creio que é normal. Ultimamente eles têm ficado com todo o trabalho pesado. Normalmente saem sempre cedo e voltam cedo, mas tem vezes que só voltam por volta das seis da tarde. Nesse dia deixaram-nos extremamente preocupadas, principalmente porque não os queríamos perder também a eles.
Ri-me e fui até à porta, acenando, sendo retribuída com o mesmo sinal, antes de fechar a porta.
Não é que tenha alguém de especial dentro do grupo, mas preocupo-me sempre com eles. Somos a família uns dos outros desde a algumas meses e acho que me preocupo com eles como se fossem meus irmãos, se bem que não são o Subaru, o Kaname e muito menos o Ukyo.
Por vezes sinto-me tão deslocada no meio de todos. Provavelmente sou a única que se sente assim, já que há muitos sem um alguém para amar e não é por isso que se sentem diferentes. Mas não o consigo evitar...
Continuei a andar até aos cacifos, retirando de lá, o meu casaco térmico e, ainda desmontada, a minha Barret M82A1. Sou uma das únicas que prefere manter uma larga distancia entre a minha pessoa e os bots. Por normal, estou sempre metida entre os escombros, seja num local alto ou baixo, protegendo a retaguarda de todos sempre que necessário.
Saí do prévio avistando a passar por baixo do tejadilho, a Stéfanni. Estava sozinha com a sua NTW-20.
Ela é como eu; quanto mais distancia houver dos bots, melhor. Corri até ela por baixo da chuva que começava a intensificar-se, tentando proteger ao máximo a minha arma.
—Não devias estar lá em cima?- o topo da escola é onde geralmente ficamos para podermos ver tudo à nossa volta.
—Sim, mas primeiro tenho que ir ao ginásio.
—Está bem.
—E como estão a Yasmin e a rapariga?
—A Yasmin e ficou a almoçar. A Cristen tratou-lhe da perna mas é óbvio que vai demorar a sarar. E a Malina estava a dormir. Tiveram que a acordar para que comesse. Ficou com o tornozelo e o braço magoados, e provavelmente vai demorar imenso a recuperar.
—Entendo.- Sem dizer nada mais, colocou a arma às costas- Vai andando para cima. Já lá vou ter.- E saiu a correr por baixo da chuva.
—Está bem.- Foi quando me lembrei de algo- Ficas com que lado?
—O Norte.- Sorri. Já devia estar à espera. Para variar vou para Sul.
Comecei a caminhar para a porta que dava novamente acesso à escola. Podia ter ido pelo outro lado, mas, infelizmente, essa parte da escola está destruída e não dá para passar, por isso, para irmos ao telhado, temos sempre que fazer este trajeto.
De repente, parei.
Olhei para o local de onde vim, podendo jurar que ouvi a voz de um dos rapazes mais chatos que já conheci.
Abanei a cabeça, tentando livrar-me daqueles pensamentos, seguindo logo em frente.
Era impossível ele estar a chamar-me... O Toramaru tinha desaparecido da minha vida.
Stéfanni
13:28
Cheguei junto à porta do ginásio, que agora nos servia como sala de treino, tanto com armas de fogo como brancas, e comecei logo a ouvir o som de sapatos a chiarem no chão de madeira encerado.
Abri ligeiramente umas das grandes portas brancas vendo a Starfox treinar com as suas kunais.
Notava-se pela sua expressão que estava chateada com algo... Com raiva, para ser mais precisa. Talvez seja devido a tudo o que aconteceu só nesta manhã ou então é devido a ele...
Sei bem que ela e o Atsuya são bastante ligados, e se há alguém que a conhece bem, sem dúvida, essa pessoa é ele.
Tenho a certeza que a Starfox, à sua maneira, sente imensas saudades dele apesar de saber que ele está bem e que foi só numa missão de reconhecimento, mas ainda assim, todas nos preocupamos. Já perdemos amigos e companheiro, creio que todos dispensamos perder mais, acrescentando o facto de que não os conseguimos contatar. Desde que eu e a Mika descobrimos que o Governo podia descobrir a nossa localização através de aparelhos eletrónicos, como o telemóvel, deixámos de os utilizar. Como tal, é-nos impossível saber como é que eles estão, e acho que preocupa sobretudo a Starfox.
—Podes entrar de uma vez? Sei que estás aí, Stéfanni.- Abri o resto da porta branca, fazendo uma enorme chiadeira ao deslizar para o lado- Essa porta tem mesmo de ser arranjada.- Estava completamente de acordo- O que se passa?- e guardou logo as armas.
—Vim chamar-te. É hora da vigia.
—A sério? Nem reparei.- Voltou a retirar as armas para fora, caminhando até mim- Como é que estão todos?
—Os rapazes foram tomar banho e dormir. E segundo a Mika, os outros três ficaram a dormir na enfermaria. Já a rapariga e a Yasmin, ao que parece, estão bem.
—Que bom.- Assim que ela saiu, ajudou-me a fechar a porta do ginásio. Não sei bem porquê mas é mais difícil fecha-la do que abri-la.
Continuamos a caminhar em completo silêncio com a chuva a bater-nos na cabeça. Felizmente, os capuchos que temos nos casacos térmicos ajudam bastante neste tempo.
Olhei para a minha companheira que mantinha o olhar fixo no que estava à sua frente.
—Estavas a pensar nele, não estavas?- e parou de repente, fazendo-me parar uns centímetros mais à frente.
—O quê?
—Vá lá, Star. Posso não ser o Atsuya, mas notava-se bem com a tua expressão ali no ginásio. Para além da Mika és a pessoa com quem mais me dou neste sitio, e conheço-te o suficiente para saber estas coisas.- Ela simplesmente sorriu antes de me encarar novamente.
—O Atsuya é... Meu amigo, provavelmente o único, dos rapazes, que tenho aqui. Por isso, não leves a mal a minha pergunta; se o Kariya tivesse ido com eles, como ficarias?- continuou a andar, batendo-me ao de leve no ombro- Ele é importante para ti, não é?- e continuou a andar. Voltei-me para ela vendo-a acenar- Até logo.- E começou a correr para a sua posição.
Muito sinceramente, nunca tinha parado para pensar como iria reagir se o Masaki tivesse ido com eles. Só sei que me senti aliviada quando soube que o nome dele não constava na lista dos selecionados.
Tenho noção que a imagem que passo para eles é de uma pessoa fria, quase sem sentimentos, mas apenas eu sei o que sinto.
Starfox
13:33
Senti-me um pouco mal após aquilo que disse à Stéfanni. Não quis ser rude, apenas queria que ela compreendesse que por muito que eu treine ou me distraia com outra coisa qualquer, nunca vou conseguir tirar das cabeça o facto de não ter noticias do Atsuya, e nem sequer ter um meio de as obter, e esperar pacientemente nunca foi uma das minhas virtudes.
Corri um pouco mais até decidir parar. Voltei-me para trás vendo a albina entrar na escola pelo parte que dá para o telhado.
Não contei isto a ninguém, e muito menos à Stéfanni, mas antes do Atsuya ir com os rapazes para Sul, tivemos uma discussão bem grande. Pedi-lhe para não ir, para que desmarcasse tudo, já que foi ele que começou com esta ideia, mas ele recusou-se a isso e começamos a discutir. Creio que foi a primeira. Normalmente nós apenas temos as nossas competições, rivalidades e lutas amigáveis, mas nunca discutimos.
Ele foi a primeira pessoa com quem me dei, minimamente, bem quando cheguei aqui, acrescentando o facto de que foi ele que me trouxe para a escola e mesmo quando quis ir embora, foi o primeiro a insistir para que ficasse. Acho que se não fosse por ele, já teria ido embora há muito tempo.
Fui até uma das poucas árvores que sobravam e subi-a, tentando ao máximo não escorregar com a chuva que não parava de cair. Cheguei ao topo onde me sentei, conseguindo ver as estradas, casas e estabelecimentos destruídos à nossa volta.
Voltei a fechar os olhos, e tal como acontece sempre que o faço, os gritos dos meus irmãos e pais soaram na minha cabeça, sendo logo seguidos dos meus, como se tudo o que se passou há seis anos estivesse novamente a acontecer. Apesar de saber que não passava tudo de um partida de mau gosto da minha mente, tive de abrir os olhos para que desaparecesse de vezes.
Agarrei-me com imensa força ao meu cinto sentindo-me, pouco a pouco, a acalmar. Tinha noção das consequências que implicava passar-me, principalmente num momento como este.
—Olá, Starfox.- Retirei rapidamente umas das minhas kunais e atirei para o local de onde tinha vindo a voz. Ouvi um pequeno guincho que me fez olhar para cima, vendo a kunai espetada na parede, por cima de uma janela, de onde saiu a cabeça da Amber- Tem calma, mulher de Deus! Sou só eu.- Suspirei, aliviada por duas razões; não lhe tinha feito um buraco na cabeça e não era nenhum bot.
—Desculpa, mas assustaste-me.
—Estas distraída, isso sim.
—Claro que não. Não me posso distrair num momento como este.- Mas ela só se riu.
—Ok, ok!- suspirei. Ela tinha razão, estava distraída, mas também não pretendia dar-lhe razão.
—Podes passar-me a kunai?- vi-a olhar para cima e começar a puxar a arma do buraco que fizera na parede.
—Aí vai.- E atirou-a de vagar, o que me ajudou imenso a apanha-la.
—Obrigada.
—Star...
—Sim?
—Se não te sentires bem e quiseres trocar, avisa, está bem?- limitei-me a sorrir e a acenar.
—Não te preocupes. Eu estou bem. Não vai ser preciso.- Ela também me sorriu antes de voltar para dentro.
Voltei-me novamente para a frente avistando a estrada por onde vira a carrinha partir há umas semanas atrás.
Bem... Bem era coisa que eu não estava.
Malina
21:43
Vi a Yasmin sair da enfermaria com a ajuda do Fubuki, acenando-me e despedindo-se de mim e da Serena que foi a única que ficou comigo todo o dia.
Ela acabou por me contar que o pequeno Hikaru, que cheguei a ter em braços, um menino pequeno, frágil e tal belo quanto os pais, falecera no dia dos ataques ao Japão. Ou seja, hoje mesmo fazia um ano da sua morte, e de muitas pessoas que não resistiram, tal como os meus pais, os do Mamoru e até os irmãos da Serena.
Gostava de saber como fui parar aquele local.
O que estive ali a fazer durante um ano inteiro?
A dormir?
Como?
Porquê?
Haviam imensas perguntas que não me saiam da cabeça. Tinha tantos porquês que necessitavam de resposta e parecia que ninguém as tinha.
No momento, o que me interessava mais era a dor que sentia por todo o corpo. O braço era o que mais me doía e o pé mal conseguia colocar no chão. Lembro-me de ser atirada contra o chão por um cão mecânico, depois mordida pelo mesmo, sendo também atirada por ela contra um outro.
Ao que parece, segundo a Serena, aquilo eram C-bots e RX-bots. Aqueles que pareciam cães libertam um ácido para nos queimar, que foi o que aconteceu.
Perguntei-lhe o porquê de tudo o que se estava a passar; da destruição, dos robôs, de tudo. Mas ela só me soube dizer que o Governo estava relacionado, mas que não sabia o porquê, nem a razão de quererem governar um país fantasma.
Estava tão arrependida por agido daquela maneira. Fiquei tão envergonhada que só me lembrei de fugir e desaparecer dali. Com dezanove anos já devia ter um pouco mais de maturidade, mas senti um enorme embaraço. Ainda assim, não o devia. Causei problemas a todos, principalmente à Yasmin que se feriu por minha culpa.
Quando estava a agarrar na moleta para me levantar e sair um pouco da cama, ouvi a porta a abrir. Olhei para lá vendo o Goenji entrar, já vestido com uma camisola negra, um casaco de desporto vermelho, juntamente com umas calças de ganga azuis-escuras.
—Ainda bem que já estás de pé.
—Ai sim? Porquê?
—A Serena pediu-me para te arranjar um quarto, e ele já está pronto.- Olhei logo para a minha prima que me sorriu.
—Agora que estás aqui não penso deixar-te ir embora assim tão cedo.- Ri-me, tentando andar com uma só moleta, caminhando lentamente até ele.
—Obrigada.- Ele limitou-se a sorrir-me. Voltei-me para trás, vendo a minha prima arrumar a cama onde antes estive- Não vens?
—Não. Vou arrumar isto e depois tenho que ir para a vigia. Daqui a pouco é a minha hora.
—Está bem.- Passei pela porta e fui logo puxada por ele quando me senti a cair, após desequilibrar-me- Obrigada, Serena. E até amanhã.
—Até amanhã.
Caminhamos, bem de vagar, até ao segundo andar. Pelo menos na parte de chão liso, já que durante as escadas, o Goenji insistiu em ajudar-me a subi-las. Aceitei a ajuda, apesar de logo a seguir me ter arrependido. Não que me sentisse mal ao seu lado, era exatamente pelo contrário que estava arrependida; atrapalhei-me tanto que acabei por lhe com a moleta na barriga, acabando a pedir desculpas até mais não.
—É aqui.- Vi-o parar à minha frente, abrindo a porta de uma das antigas salas.
Andei um pouco mais até lá, avistando um quarto iluminado apenas por uma pequena vela. No chão, havia um colchão de ginásio coberto por lençóis e cobertores.
—Gostas?
—Sim.- E fitei-o- Claro que sim! É mais do que suficiente.- Foi então que me lembrei de algo- Mas espera lá, a Serena disse-me que já não havia mais colchões. Alguns dos rapazes até são obrigados a dormir no chão.
—Tirei do meu quarto.- Olhei para o outro corredor, apontando para lá- Segunda porta. É o meu quarto.
—Ficaste sem ele para me dar?- como é que ele podia ser tão generoso para alguém que acabara de conhecer- Mas porquê? Causei-vos tanto problemas, e continuo a ser uma completa desconhecida... Então porquê?- inicialmente, apenas sorriu.
—Precisas mais dele do que eu, principalmente por causa dessas feridas. Além disso... O teu primo era... É, um grande amigo meu.- Notava-se que também ele tinha esperança no retorno do Mamoru- Enquanto estiveste desaparecida, ele falou-me imenso de ti, e sinto que te conheço há anos. Além do mais, sempre me pareceste muito importante para ele. E tenho a certeza que se tivesse cá, te protegeria o mais que podia, por isso, fá-lo-ei no seu lugar, enquanto ele não volta.
—Goenji...
Ia avançar para abraça-lo e agradecer-lhe por tudo o que fez por mim num só dia, mas acabei por me desequilibrar com a moleta e que ser novamente amparada pelo braço dele, que me ajudou a levantar.
—Estás bem?
—Sim. E obrigada... Outra vez.- Ambos nos rimos.
No momento a seguir, vi-o mexer no bolso do casaco retirando uma fina fita, de um verde quase da cor dos meus olhos, que me foi estendida.
—Para mim?
—O Endou disse-me que geralmente atavas os cabelo, por isso achei que isso iria dar. Só tenho o elástico que me prende o cabelo e esta fita foi tudo o que consegui arranjar.- Estendi a mão, agarrando-a, sentindo a sua maciez.
—Muito obrigada. A sério, Goenji... Obrigada pelo que fizeste hoje por mim.
—Não tens que me agradecer, já to disse.
—Eu sei.- Vi-o sorri antes de me começar a virar as costas.
—Até amanhã.
No mesmo instante, lembrei-me de uma coisa.
—Goenji.- Ele olhou de imediato para trás, vendo-me caminha até ele.
—O que foi?- e parei.
—Sei que não é a melhor altura, principalmente com tudo o que está a acontecer, mas... Feliz Ano Novo.
Ficou a olhar para mim uns quantos segundos, com uma pura cara de espanto, claramente não esperava que lhe dissesse aquilo. Mas pouco depois, sorriu.
—Feliz Ano Novo, Malina.
Finalmente um dos meus muitos porquês tinha ganho uma resposta.
Agora sabia que talvez me sentia tão estranha junto a ele não porque fizera parte do passado que esqueci, mas porque me aconteceu aquilo que muito acham impossível acontecer num dia... Apaixonei por ele.
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