Warmth
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Havia um forte vento frio de fim de tarde, voando para várias direções pelas amplas ruas de Tóquio. Os cidadãos já estavam cientes deste fato, graças à previsão do tempo que passara mais cedo naquele dia, deixando todos cientes das baixas temperaturas e das violentas ventanias ao entardecer. Mesmo assim, algumas pessoas tremiam de frio – ainda que estivessem agasalhadas.
Tetsuya Kuroko não era uma destas pessoas. Apesar de que ele estava, de fato, tremendo, não era por nenhum fator climático. Também não estava com tantas roupas no corpo quanto gostaria. Pensando de volta para algumas horas atrás, desejava apenas voltar ao seu antigo apartamento e pegar ao menos mais algumas blusas de manga comprida, luvas e casacos; até mesmo algumas meias e uma bota – pois não vira o noticiário naquele dia graças ao trabalho, que, aliás, havia perdido, e portanto só estava com um de seus tênis gastos –, mas sabia que já era tarde demais para isso.
Nesse ponto, ele não ligava para mais nada. Estava ocupado demais com seus próprios infelizes pensamentos para se dar conta de qualquer fator externo, sequer ainda do frio. O tempo era o menor de seus problemas.
De certa forma, Tetsuya sempre soube que um dia como esse chegaria, mas foi tudo muito pior do que ele pensava. Após se formar no ensino médio da Seirin, o estudante conseguiu uma boa universidade, ao menos um pouco mais acima do que uma de nível normal. Estudara bastante, mas no final aquela faculdade foi a melhor que conseguiu entrar. Não se importou muito; ele era um estudante mediano, com aparência e personalidade medianas. Mais uns instituto mediano não faria muita diferença, e também, não era como se o lugar fosse ruim.
Era ruim apenas por ele se sentir extremamente sozinho. Nenhum de seus amigos acabou atendendo a mesma universidade que ele no final das contas, mas ele, mesmo assim, sabia que não poderia se manter com esses pensamentos tão ingênuos pelo resto de sua vida. Era óbvio que, depois de se formarem, estariam em ótimas faculdades, bons empregos e teriam suas famílias. As pessoas que conhecera e considerava como amigos eram todas pessoas tão incríveis. Todos eles tinham um brilhante futuro. Uma pessoa como ele, uma sombra, poderia até se manifestar um pouco em suas vidas, mas no final não passava de um vulto. Era questão de tempo até aqueles antes estudantes tão admiráveis se esquecessem completamente de sua existência.
Ele sabia muito bem que esse dia chegaria. Afinal, isso já acontecera antes, apesar de não ter sido com pessoas que considerava tão importantes assim quanto seus colegas de time, mas doía só de pensar. Bem, isso era antes. Se sentir apagado da vida de todas as pessoas pela qual sabia que fizeram uma grande diferença na sua vida, mas saber que ele próprio não fizeram alguma na dos outros, era uma dor inacreditável. Era como um fundo machucado no braço, o qual não sarava não importava o que, pois era obrigado a ficar todos os dias cutucando essa ferida.
Em seus anos na faculdade, se encontrou em diversos cenários que já havia se presenciado, e antes até não havia tal impacto em sua mente, mas agora havia. Ele estava ficando cansado. Estava cansado de ter que ir até a frente dos professores e avisar que ele estava, sim, ali. Cansado de ter de cutucar o ombro das pessoas e dizer que ele era, sim, Tetsuya Kuroko.
Depois, as coisas ficaram ainda piores. Kuroko precisava encontrar rapidamente um emprego para comprar roupas, comida e pagar as contas e outros utensílios de seu colega de quarto. Francamente, ele não era um cara tão ruim assim. O único – e fatal – problema, eram suas festas diárias e como ele parecia esquecer de sua presença, ou até mesmo de que ele dividia o pequeno apartamento com alguém, pois foram incontáveis vezes as quais Tetsuya se lembra de ouvir gemidos vindos de trás da porta do quarto do outro.
Também havia perdido a conta de quantas vezes procurou e perdeu empregos. Os principais fatores as suposições de que ele estava atrasado ou que havia faltado no dia, mesmo que ele estivesse ali o tempo todo. Tudo isso graças à sua falta de presença.
Era apenas isso, essa sua maldita falta de presença. Às vezes se perguntava se era carma. O que ele havia feito em sua vida passada para merecer algo assim? No começo, ele pensava o mesmo, mas chegou a nem mais se importar. Depois, achou uma bênção. Aquilo o deixara feliz, incrivelmente feliz, por finalmente ter algo que poderia chamar como um talento só seu. Ele era finalmente útil para alguma coisa. E saber que ele diversas vezes trouxe a Geração dos Milagres, de Teiko, e Seirin à vitória, o enche de orgulho.
Mas, e agora?
E então?
Ele sempre teve uma meta: fazer o time masculino de basquete da Seirin virar o melhor do Japão, e isso foi cumprido quando o time ganhou a Copa de Inverno, logo depois do Inter Colegial que perderam, quando ainda estava no seu primeiro ano. Ele sentia que o caminho que fizera até aquele objetivo era como um difícil e escuro túnel, onde ele procurava a luz. Mas uma vez que ele o cumpriu, uma onda de felicidade o invadiu, mas era limitada. Depois daquele ponto, era nada. Ele não tinha mais nada. Não sabia para que lutar, para que viver. Não tinha mais uma meta, um objetivo para seguir. O que podia fazer agora?
O quê?
Ele realmente não sabia. Estava desesperado para descobrir. Mas depois de tantas procuras fúteis, descobriu que no final não estava procurando nada. Então desistiu, e apenas tomou a sua vida de uma forma medíocre, seguindo a maré, indo de acordo com o que os outros fazem. Ele estava tão perdido, que só procurava alguma coisa para se satisfazer, nem que fosse momentaneamente. Uma coisa para se ocupar e mentir para si mesmo de que era aquilo que o fazia feliz, apesar de ele saber muito bem, melhor do que qualquer um, que aquilo passava muito longe da verdade.
Diversas vezes enquanto caminhava pelas últimas duas horas, pensou em chorar. Pensou em desabar em lágrimas, querendo que toda aquela dor, sofrimento e solidão saíssem de seu corpo por meio de pequenos fluídos de água quente pelos seus olhos azuis, que antes eram brilhantes, mas agora tinham uma aparência aborrecida e adormecida. Ele realmente parecia cansado, mas não é como se alguém notasse. Já seria pedir demais alguém se quer olhando diretamente em seus olhos.
Em poucos minutos, via pequenos pontinhos mais escuros na calçada, e não demorou para sentir as gotas de chuva molhando seu – antes macio – cabelo azul. Estendeu a mão para frente, sentindo os pingos gelados caírem em sua mão, com um olhar desinteressado. Olhou para o lado, e percebeu uma pequena quadra aberta de basquete do outro lado da rua, em um pequeno parque. Percebendo que nenhum carro passava pela rua, rapidamente fez seu caminho para o local; procurar um lugar para se esconder da chuva era a última de suas preocupações agora.
O lugar estava vazio, como era de se esperar. Viu uma bola normal de basquete abaixo da cesta, dentro do garrafão. Se abaixou lentamente para tocar na bola, e a segurou com as duas mãos quando se endireitou novamente. Este objeto é tão marcante. Apenas tocar rapidamente nele faz uma avalanche de memórias invadirem sua mente, e se encontra profundamente soterrado em nostalgia.
Se lembrou de quando conheceu seu amigo, Shigehiro Ogiwara, quando era uma criança. Se recordou então, de quando trocavam cartas e depois mensagens de texto avisando um ao outro como estavam em seus clubes de basquete de suas respectivas escolas, e como no começo seu desempenho era o pior da terceira fileira, a ponto de o treinador de lá até o chamar dizendo que deveria desistir, e foi isso o que pensou. Quase desistiu do basquete, pois percebia que não importava o quanto se esforçasse, ele não era bom. Relembra como treinava com Daiki Aomine, e quando foi descobertos pelos seus outros colegas de time da Geração dos Milagres e foi promovido para a primeira fileira depois de pensar muito como poderia usar o que tem a seu, e a favor do time.
Como esquecer da crise, onde percebeu que aquilo era o que eles chamavam de ganhar? Quando para eles, nada mais importava, e tudo só era chato. Quando parou de atender o clube depois da falta de interesse de todos os outros membros e também pelo despertar do Olho do Imperador em Seijurou Akashi.
Sorri ao se lembrar de seus três anos em Seirin, do primeiro ao seu último dia. Como conheceu todos os seus amigos e principalmente Taiga Kagami. Ainda se lembra da adrenalina que sentia em cada um dos jogos que jogava, mesmo depois da derrota esmagadora para Too. Sorri ainda mais quando se lembra da primeira vitória do time na Copa de Inverno, e como todos os seus amigos gritaram das arquibancadas para que eles se recompusessem, levantassem e ganhassem o jogo contra a Rakuzan, o qual ganharam, e ficou ainda mais feliz quando percebeu que o antigo Akashi, aquele que era realmente seu amigo, retornara.
Sem perceber, Tetsuya começa a chorar. Só nota quando sente um líquido quente descendo pelo seu rosto, notando que não era a chuva. Naquele momento, já estava ensopado. Suas roupas já estavam encharcadas, e por um momento se preocupou, pois não tinha mais nenhuma vestimenta senão as suas do corpo, mas logo deixou de lado tais pensamentos, pois nem sabia mais se queria ver o amanhã. Não haveria um grande impacto em mais nada se ele morresse agora, ele sabia. Já fizera tudo o que podia, vivendo forçadamente nesses seus 24 anos de idade, apesar de mais da metade dele terem sido anos felizes, agora não vê mais o porquê de continuar a respirar todos os dias. Perdera seu emprego e sua casa, e para recuperá-la precisaria de mais um emprego, o qual ele tem certeza que não o pagaria bem o bastante, o obrigando a pagar alguma kitnet, isso se não tivesse que viver nas ruas por algum tempo antes. E também, para quê? Ele tinha certeza de que, mesmo que encontrasse um emprego, cedo ou tarde o perderia, e então também perderia sua casa e o ciclo continuaria viciosamente.
Isso nunca foi o que ele queria de sua vida. Nem de longe. Nunca ao menos imaginou. Mas estava tudo acontecendo, e era absolutamente horrível.
As lágrimas silenciosas logo se transformaram em um choro furioso e desesperado, onde soluços já escapavam de sua garganta e boca secas. Fechou os olhos, pressionando-os fortemente, tentando em vão para que as lágrimas, ao menos, diminuíssem. Seus soluços apenas aumentavam de intensidade, e seus ombros já se moviam de acordo com seu choro, apesar de que ainda eram camuflados pelo som alto da chuva caindo. Tudo em seu corpo parecia chorar, por causa das gotas que caíam no final das suas mechas de cabelo e cantos de suas roupas.
Ele estava quebrado, e apenas queria que alguém tentasse – ou, em um milagre, conseguisse – o reparar. Foi aí que percebeu. Ele se sentia vazio, triste e inútil, e a única coisa de que precisava para se aliviar ao menos um pouco desse fardo que é a vida seria alguém para amá-lo.
Passou mais alguns minutos assim, segurando a bolsa de basquete firmemente com as duas mãos, enquanto permanecia com a cabeça baixa, ao mesmo tempo que mais e mais lágrimas saiam de seus olhos e escorriam pelas suas bochechas pálidas, até pararem em seu queixo e caírem na superfície arredondada do importante objeto laranja em suas mãos. Teria continuado por talvez ainda mais tempo, já que a dor de 24 anos estava sendo transmitida toda naquele exato momento, se não fosse por um repentino interrompimento nas gotas de chuva que caíam sob seu corpo. Aquilo foi tão súbito que estremeceu. Rapidamente, levantou a cabeça para ver quem, ou como, era aquele estranho que extraordinariamente o ajudara e ao menos o notara.
Seus olhos se encontravam com outros vermelhos, e a sua respiração ficou presa por alguns milésimos de segundos. Só então lembrara de que seus olhos e nariz provavelmente estariam vermelhos por causa de seu patético choro, mas não se importou muito com ocultar esse fato já óbvio, apesar de se sentir um pouco envergonhado por saber que ele fora quem o vira em um estado tão deplorável como aquele. Justo ele, o qual Kuroko tão admirava e, arriscaria dizer, amava. Sim, amava. Ou melhor, ama. Sempre pensou que passara por cima dessa queda pelo seu ex-capitão, mas futuramente descobriu que era, na verdade, muito mais. Apesar disso, a idéia de contar ao outro como ele realmente se sente nunca passou pela sua cabeça, também por já saber que algo tão fantasioso como saber que ele, alguém que, mesmo vivendo no mesmo mundo que ele, vive em uma realidade completamente distinta. Logo ele, o imperador, um Deus.
Tetsuya Kuroko foi amar justamente Seijurou Akashi, o homem que sempre, desde o dia em que nasceu, esteve fora de sua laia. Mesmo assim, sempre se sentia feliz em saber que pudera passar aquele tempo com uma pessoa tão incrível quanto ele. Isso sempre enchia seu peito de um sentimento que não sabia realmente explicar; apenas sabia que ele se sentia bem. Obviamente, a alta possibilidade que colocou que aconteceria aos seus outros amigos também valia para Akashi, na verdade, valia principalmente para ele. Um homem com um futuro tão prestigioso quanto este, que as únicas possibilidades são enriquecer ou enriquecer, seria obviamente o primeiro a esquecê-lo.
Se for assim, então por que este homem estava bem a sua frente?
━ Tetsuya.
Bastou apenas esta palavra, que soava tão bem saindo de sua boca, para os olhos do mais baixo se arregalarem. Logo, aproveitou para observá-lo um pouco mais. Seus olhos tinham um olhar firme, porém atencioso, e, até mesmo, um toque amoroso. Seus cabelos vermelhos caíam perfeitamente bem em seu rosto definido, até um pouco delicado e refinado, mas ainda assim, masculino. Percebeu que Seijurou deixara sua franja crescer, a qual caíra perfeitamente no meio e ao lado de seus olhos, a primeira da qual pousara sobre seu nariz fino. Tudo em seu rosto parecia combinar perfeitamente. Ah, a quanto tempo não via esse rosto. Mas não deixou de ficar até um pouco aliviado, pois no final, ele não mudara tanto, mesmo com, igualmente, 24 anos de idade.
Notou também que o outro usava um bonito terno preto e devidamente liso, impecável, mesmo se estivesse debaixo de chuva. Sua gravata, também preta, estava perfeitamente simétrica acima de sua camisa de botão extremamente branca. Era de se esperar. Provavelmente estaria saindo de seu prestigioso trabalho quando topara com seu antigo amigo do Ensino Fundamental. Talvez até sentira pena, mas Kuroko hesitou em assumir isto por causa do sentimento de simpatia que transbordava de seu caloroso olhar.
Não pôde conter seus pensamentos de como Akashi parecia perfeito, como sempre. Talvez as únicas emoções diferentes de seu autoritarismo que já vira fora quando o venceu na sua primeira Copa de Inverno no Ensino Médio. Seus pensamentos viajaram de tal forma que começou a apreciá-la, e se perguntou se ele não tinha uma namorada – talvez ele estivesse até mesmo casado, quem sabe? Mas a possibilidade de o Seijurou Akashi estar solteiro seria altamente difícil. Isso até o enchia de uma certa tristeza, porque, mesmo sabendo ser inevitável, não podia negar que ainda machucava.
━ A... kashi...
Sua voz estava trêmula, fraca, quase não existente. Soluçou mais uma vez, e levantou a mão na frente de sua boca para parar os barulhos que emitia, mesmo se não fosse muito útil. Abaixou o olhar, e fechou os olhos, ainda sentindo as lágrimas quentes caírem sobre a lateral de sua mão. Isso de certa forma a esquentara, pois agora também notou o quanto estava gelado.
Não notou, mas os olhos do ‘imperador’ a sua frente se arregalaram em uma fração de segundos em preocupação. Não podia deixar e ter tais pensamentos, principalmente ao ver seu amigo de longa data de tal forma, chorando tão desamparado e com tal tristeza que faria qualquer um acabar chorando junto. Queria absurdamente ajudá-lo, diminuir a sua dor. Aquilo o machucava também. E muito.
━ Olhe para mim.
Seu tom de voz era autoritário, mas mesmo assim não era rude. Kuroko se viu na obrigação de levantar o rosto, e mesmo se as lágrimas continuavam a fluir descontroladamente, não tentou fazer mais nada para pará-las. Continuou em prantos assim por ainda mais algum tempo, Akashi ainda com seu guarda-chuva acima da cabeça dos dois, olhando com um olhar afetuoso para ele, de tal forma que se sentia a vontade assim. O jeito como o fitava não pesava ou pressionava. Apenas dizia calmamente algo como ‘não se preocupe, eu estou aqui, vou te escutar’, e saber disso o fazia se sentir extremamente feliz.
━ Vamos para a minha casa, Tetsuya. ━ disse, depois de uma pausa, quando percebeu que seu amigo havia finalmente se acalmado. ━ Você está ensopado. Provavelmente vai pegar um resfriado.
Queria recusar, queria dizer ‘eu não me importo’, mas não conseguiu. Aquela compaixão que Seijurou mostrava era tão genuína que não pôde. Se sentiria feliz se a última coisa que visse antes de morrer fosse um Seijurou Akashi gentil, mas por outro lado, naquele momento, a última coisa que desejava era morrer. Então, levantou sua mão gélida para a estendida do outro, que estava surpreendentemente quente. Talvez nem tanto, mas com certeza estava mais quente do que a dele.
O outro ficou até surpreso por causa da baixa temperatura de sua mão, e até se lembrou de como ele era quando costumavam estudar juntos. Sua mão era obviamente muito mais quente, o que dava um ar de aconchego, e a própria mão de Akashi antes era considerava fria. Apreensão encheu o corpo do executivo, e ele apertou firmemente a mão delicada do outro, o puxando para mais perto de seu corpo para compartilharem seu calor e principalmente para ficar mais protegido da chuva que caía sem dó.
Tetsuya ficou o tempo todo olhando para o chão, mas estava muito ciente do aperto tranqüilizador que o outro estava dando à sua mão. Talvez até tivesse ruborizado se não tivesse em uma situação como aquele, mas até que desejou tê-lo feito, pois só assim para se esquentar ao menos um pouco. Em alguns minutos de uma caminhada silenciosa, onde nenhuma palavra sequer foi dita, sentiu o corpo de Seijurou parar, e lentamente levantou a cabeça para perceber que estava em frente a uma bela casa, contornada por longas grades escuras. Apertou alguns botões, e depois de uma pausa, entraram. Não era algo como uma mansão, mas já considerava uma moradia como aquela um lugar onde no mínimo três pessoas viveriam no maior conforto. Desta forma, logo concordou consigo mesmo de que ele já estava comprometido.
As mãos pálidas – mas não tão pálidas quanto as suas próprias – do CEO buscaram por um molho de chaves no bolso de sua calça bem-passada e a levantou na direção da fechadura, destrancando-a. A porta, logo, abriu-se, e o ruivo pressionou levemente seu corpo contra ela, trazendo Tetsuya para dentro e fechando seu guarda-chuva, colocando o objeto para secar no lado de fora.
O homem de cabelos azuis logo aproveitou para olhar em volta. A casa, dentro, era ainda mais bela do que por fora. As decorações eram todas com cores brancas ou beges, em algumas partes até um marrom. As cores dos móveis e dos cômodos combinavam perfeitamente, e o lugar era extremamente aconchegante. Nunca vira uma residência tão bonita quanto aquela, e ele se sentia completamente deslocado. Começou a rezar para que ninguém estivesse na casa, pois não acreditava que se sentiria confortável com mais um olhar de pena sobre ele.
O diretor executivo à sua frente, então, segurou novamente sua mão e o levou para o grande sofá bege na sala de estar, e Kuroko sentou com um pouco de hesitação. O outro, então, rapidamente foi para dentro de sua casa, onde voltou trazendo um grosso cobertor. Colocou a manta em volta do mais magro, que ainda estava tremendo, apesar de ter até se esquecido disso. Sentiu uma onda de calor invadir seu corpo, e inconscientemente se abraçou, querendo desesperadamente que aquela sensação continuasse para sempre. Fazia tanto tempo que não sentia o que era calor, e queria loucamente lembrar.
O homem que estava de pé, à sua frente, deu um pequeno sorriso, e se conteve para não afagar o topo da cabeça dele e sentir novamente suas mechas de cabelo sedoso entre seus dedos, apesar de agora estarem completamente molhadas. Lembrou-se de que ele estava encharcado, então anotou em sua cabeça para preparar um banho a ele. Estava fora de cogitação se preocupar com algo tão banal quanto a beleza de seus móveis. O que ele queria naquele momento era ter certeza de que Tetsuya estava bem.
━ Irei preparar um banho para você. Um momento. ━ e sumiu novamente para dentro do largo corredor de sua morada.
Pouco tempo depois, estava de volta, e se dirigiu a Kuroko novamente, segurando seus braços delicadamente, mas ainda assim com firmeza. De certa forma, parecia que o mais baixo era como uma pequena boneca de porcelana, e todo o cuidado era necessário para que tal beleza não fosse quebrada. O guiou pela casa, até parar na frente de uma porta, onde abriu e foi recebido com jorro de vapor quente, e tremeu.
━ Vai precisar de ajuda? ━ o outro perguntou, com um certo tom brincalhão em sua voz, do qual Kuroko rapidamente dispensou com um rápido movimento de sua cabeça para os lados, sentindo um pequeno rubor tingir as suas bochechas pálidas. Como resposta, Akashi deu uma risada baixa, e apontou para um amontoado de roupas em cima de uma estante. ━ Sua toalha está ali, e vista aquelas roupas depois.
Se preparava para fechar a porta e sair do cômodo.
━ Ah... ━ Kuroko disse, em uma voz fraca e quase impossível de ter sido escutada, mas, mesmo assim, o superior ouviu. Respondeu com um pequeno hm? ━ Ah... é... eu-eu não quero que você se preocupe com isso- digo, são as suas roupas, não são? ━ disse, com um certo embaraço em sua voz.
━ São, sim. ━ declarou. Seus olhos rapidamente mostraram um sentimento solene, e Kuroko se sentiu hipnotizado por aquele olhar, principalmente por ele estar sendo direcionado a ele. ━ Tetsuya, é só com isso que você se importa? Nos outros? Eu me importo com você, Tetsuya. E eu quero cuidar de você agora. Se importar comigo é a última coisa que você deveria fazer. ━ e sorriu. Lentamente fechou a porta, e foi capaz de ouvir os passos do outro ainda mais longe.
Ficou imóvel por alguns instantes, mas rapidamente voltou a fazer o que deveria estar fazendo antes, e se despiu. Não gastando nem mais um segundo, foi para a banheira quase se jogou nela, onde uma água quente o esperava, e soltou um gemido de satisfação. Estava perfeito. Nem conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não apenas ele se encontrou com a sua paixão de anos, mas também foi cuidado por ele e agora estava tendo o melhor banho de que já teve em anos. Abaixou a cabeça para debaixo da água, com o intuito de esquentar seu rosto, e logo voltou-se para cima e banhou-se.
Uma vez terminado, puxou a toalha que fora separada para ele e se secou rapidamente, já sentindo falta do calor da água envolvendo seu corpo. Vestiu-se com as roupas de Akashi, e percebeu que elas ficaram bem em seu corpo, apesar de um pouco largas. E, principalmente, eram quentes. Sentiu o cheiro que emanava das roupas, e notou que era o cheiro de Seijurou. Se sentiu corar mais uma vez. Secou um pouco mais o seu cabelo com a toalha e saiu do banheiro, dando um pulo de surpresa ao ver o homem pelo qual estava pensando a pouco tempo ali, na sua frente. Assumiu que não foi proposital, pois ele segurava uma caneca e seu corpo estava se dirigindo a outro lugar.
━ Parece que ficaram boas em você.
Não sabia o que responder, então apenas assentiu com a cabeça. Seguiu o ruivo, que agora voltava para a sala de estar, e voltou a se sentar no sofá, agora a lado de Akashi, que estava ao seu lado. Viu como ele colocou a caneca lentamente na frente de suas mãos, e entendeu o que queria. Segurou o objeto com as duas mãos, e viu como seus dedos ficaram vermelhos por causa da alta temperatura vinda do líquido que estava dentro dela. Abaixou o rosto e levantou os braços, e permaneceu com a caneca por alguns instantes abaixo de seu nariz, seus olhos fechados. Logo, assoprou, e bebeu um pequeno gole do chocolate quente. Estava pelando, mas no momento não se importava. Notou como se sentia muito melhor, pois faziam horas que não tomava qualquer líquido.
━ Melhor? ━ ouviu o outro dizer, e percebeu que ele não tirara seu olhar dele um instante sequer. Se sentiu um pouco envergonhado, mas não fez nada.
━ Sim. Muito obrigado, Akashi. Obrigado mesmo. Eu... eu não sei o que seria de mim se não fosse por você. ━ disse, e sorriu tristemente, se lembrando dos pensamentos que estava tendo antes de seu ‘anjo’ aparecer diante dele. Graças à presença dele, as suas reflexões sobre a morte pararam, e tudo o que desejava naquele momento era viver, pois percebera como era bom sentir. Como era bom se sentir vivo.
Aquilo era se sentir vivo, e ele queria desesperadamente aquele sentimento de novo e de novo. Viver é bom, mas ele se esquecera disso depois de tantos anos sem estas coisas. Até se sentia fraco, mas mentalmente, por ter desistido daquela forma. Sabia que, se ele não tivesse aparecido, ele ainda estaria chorando no meio daquela quadra de basquete, remoendo seus pensamentos e desejando a morte. Tais pensamentos o corroíam por dentro, e se sentiu triste por saber que quase deixara essas ponderações vencerem.
Foi bruscamente tirado de sua linha de pensamentos quando sentiu algo tocar a lateral de sua cabeça, colocando algumas mechas de seu cabelo atrás de sua orelha. Obviamente, era o homem ao seu lado que fizera tal coisa, mas estava tão embaraçado com aquilo que não conseguia levantar o rosto e olhá-lo. De qualquer forma, não foi preciso, pois sentiu dedos embaixo de seu queixo, os quais levantaram seu rosto em sua direção. Sabia que o sangue já subira a suas bochechas, pois sentiu seu rosto ficar quente.
━ Fico feliz. ━ sorriu. ━ Fico realmente feliz. Não sei o que seria de mim sem você, Tetsuya.
Tais palavras o deixaram completamente surpreso. A pouco, estava pensando o quanto ele era irrelevante na vida e nas memórias das pessoas com as quais conviveu, e agora via justo o Seijurou Akashi dizendo que ele era importante?
━ O...
━ Sim, Tetsuya. Você é importante. ━ disse, com sua voz calma e amável. Não notou, mas seus rostos estavam um pouco mais perto um do outro. ━ Eu sei que tipos de pensamentos você tem, Tetsuya, e eu nunca me perdoaria se deixasse você. ━ se aproximou. ━ Porque eu me importo com você.
A esse ponto, já sentia a respiração de Akashi fazer cócegas em sua pele. Seus olhos azuis percorreram seu belo rosto, até pousarem nos lábios dele, os quais continuavam a se aproximar. Poderia ter feito alguma coisa, poderia ter o empurrado, mas não. Permaneceu ali, imóvel, e sentiu um suave toque na sua própria boca. Fechou os olhos, e ficou alguns segundos apenas sentindo, mas logo retribuiu o beijo.
Era um beijo inocente; apenas o toque de seus lábios. Mas mesmo assim, isso fez uma onda de sensações invadirem seu corpo. Sentiu borboletas no estômago, e se permitiu a ceder ainda mais para o toque de Seijurou. Então, se separaram. Um sorriso estava no rosto de ambos os homens, que naquele momento, se sentiam como crianças. Kuroko pousou a caneca em cima da mesa de centro antes que a deixasse cair.
━ Eu queria fazer isso a tanto tempo, Tetsuya.
Sentiu sua voz e sua confiança voltarem para eu corpo. Até mesmo as cores de sua vida voltaram. Estava feliz, imensamente feliz. Não se sentia tão feliz assim a tanto tempo, e sem pensar, o abraçou. Tremeu no toque, pois fazia ainda mais tempo que não abraçava alguém. Se sentia estranho a isso, mas mesmo assim, estava alegre. Sorriu ainda mais quando sentiu os braços fortes do outro o envolver, e sem perceber, lágrimas já caíam de seus olhos. Ele se sentia frio, por não ter braços que o envolvessem, e vazio, por não ter ninguém que o completasse, mas naquele momento, sentia o contrário.
━ Tetsuya, viva comigo. ━ sentiu o mais alto dizer contra o topo de sua cabeça. ━ Não quero te perder de vista nunca mais.
Suas palavras enchiam o seu ser de amor e muitos outros sentimentos. Assentiu desesperadamente, e sentiu como os lábios do outro se moveram para formar um sorriso. Depositou um pequeno beijo ao topo, e murmurou certas palavras. Em troca, Kuroko o respondeu também, o que fez Seijurou se sentir completo, e ficou feliz por saber que nunca mais ficaria sozinho de novo.
“Eu te amo, Tetsuya.”
“Eu também te amo, Seijurou.”
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