Warmouth — O Conto das Eras
2 Ydna e Silêncio, uma união?
Notas iniciais
"Quanto mais oorgulho dança, mais o poder se mostra para aqueles que dominam suas palavras"

O Contador de Histórias,esta era a alcunha de um homem misterioso. Ninguém realmente o conhecia e tampouco sabia como seu rosto se parecia mas todos, tanto do Império Nortenho quanto da Sociedade Sulista já haviam escutado suas histórias. Era facilmente reconhecido entre as noites de bebedeira nas tavernas, logo após o fim da guerra que dividira o Império d'A Sociedade.
O misterioso sempre andava de forma ríspida e rápida, com uma máscara negra sobre o rosto complementada por um capuz que se transformava num manto dançante, manto este que resguardava as cores dos céus noturno do Norte.
O Contador de Histórias era um homem de muitos gostos e faces mas não passava de um personagem. Sua verdadeira forma era a de um mestre da magia negra que lutava pela Sociedade Sulista mas que mudara de lado ao perceber o quão promissor o Norte parecia. O Contador vestia rostos em toda Warmouth; conhecia e amava, murmurava e matava a tudo e todos que ele desejasse.
Entretanto, com a recém formulação das divisões políticas, O Contador de Histórias fez questão de convidar todo o conselho de alquimistas que auxiliavam Richard I, o primeiro dos Reis Nortenhos para uma apresentação teatral. E durante a apresentação, este conseguiu seus... Novos rostos em Warmouth.
[***]
— Tragam o dito Líder da Sociedade Sulista — indagou Richard I, ao seu conselho —Iremos saciar o Silêncio com um Rei, então.
As palavras do Rei tilintaram contra os quatro cantos daquela pequena sala de mármore esculpido pelas sacerdotisas Nortenhas. Era um pecado ignorar a belíssima arte que se apresentava nas paredes bem polidas e enceradas, num pálido envolvente que mais lembrava as nevascas do Norte. Rei Richard I se levantou então, apoiando suas palmas sobre a mesa de carvalho enegrecido, olhando seus quatro conselheiros com a frieza de um homem do Norte e neste instante os quatro alquimistas entenderam que não conseguiriam fazer este mudar sua opinião.
Perfeito. Perfeito. Perfeito.
Aghar, um dos alquimistas tamborilou seus dedos sobre a mesa de madeira, criando um ritmo suave enquanto encarava pesadamente os olhos do seu Rei. Aghar era um fanático sulista infiltrado no Império antes de ser convidado às apresentações honrosas do Contador de Histórias e assim, eternizado em suas obras. Agora, O Contador vestia o rosto de Aghar com firmeza. Suas vestes costumeiras eram de um púrpuro vibrante, com pequenos símbolos espalhados sobre o púrpuro, representando uma louvação em silêncio ao O Grande Carvalho.
— Nós já temos o bastardo Gerard em nossos domínios, meu Rei —disse Aghar, se levantando por fim e sendo acompanhado pelos outros três alquimistas menores — Lançaremos aquele Xamã no Silêncio em vosso nome, meu Rei.
Richard I deu as costas, passando do arco de ouro que circundava o portal de saída da sala do conselho enquanto a nevasca irrompia do lado de fora das paredes Nortenhas. Sua rainha lhe aguardava, vestida em cetim amarelo acolhedor, envolvendo-o com seus braços enquanto seu olhar penetrava com curiosidade a sala, esbarrando justamente com os olhos do Contador de Histórias sob o rosto de Aghar então a porta pesada de carvalho enegrecido se fecha num baque. Os alquimistas voltam seus olhares para Contador, que puxa a máscara do rosto de Aghar, revelando-lhes sua verdadeira face. A inexplicável e desconhecida face d'O Contador de Histórias.
[***]
O frio do extremo Norte castigava até mesmo os bravos e honrados nortenhos, congelando até mesmo o mais robusto dos homens da infantaria. Para aquela expedição, Aghar apenas desejou a presença de Hemert, O Pesado e Sor Jordeh, A Dança das Lâminas do Norte. Eram, respectivamente, um cavaleiro exímio da infantaria nortenha, baixo porém extremamente robusto. Sua careca brilhava sob o vento gélido criando uma fina camada de gelo sobre a mesma, assim como sobre seu bigode que lhe caía pelo rosto, numa forma de honra. Sor Jordeh era um tanto diferente. Um cavaleiro da guarda nortenha que caminhava todo seu caminho num silêncio absoluto, sempre com seu punho esquerdo no cabo de sua lâmina completamente diferente de Hemert, que arrotava e contava sobre suas lutas quando o silêncio lhes alcançavam.
Correntes negras rodeavam, como algemas, ambos punhos direitos dos cavaleiros que acompanhavam Aghar, fixando a outra extremidade das correntes no pescoço do líder Sulista, o Xamã Gerard. Suas barbas longas caíam lhe sobre o peito e seu cabelo o importunava profundamente, sobre seus olhos. Seus passos eram arrastados e cansados; ele definitivamente preferia o calor sulista. Mas parecia aceitar o fato de que um sacrifício precisasse ser feito.
Entretanto, Aghar parecia conhecer o caminho e o trilhava montanha acima. A nevasca os açoitava de uma forma tão avassaladora que até mesmo Hemert se rendia ao silêncio para poupar suas energias.
Quando encontraram o cume da montanha mais alta do Extremo Norte, o espadachim, o infante, o alquimista e o Rei Sulista puderam presenciar o horror em Warmouth. Uma fenda gigantesca que mais parecia uma boca repleta por dentes, suspirando e falando num antigo idiota morto.
Emof. Emof. Emof.
Então o Contador de Histórias assumiu as correntes que ligavam ao pescoço de Gerard, puxando-a com violência, como se quisesse domar aquele rebelde sulista.
— Ó, Grande Silêncio. Mestre dos sussurros, dono das verdades —indagou O Contador de Histórias, fugindo da voz costumeira de Aghar e entrando em estado de turpor. Mesmo com todos seus truques, ele já havia estado demasiado tempo na presença do Silêncio o que o viciara completamente. Seu desejo era servir e apenas dobrar seus joelhos diante daquilo. — O Rei do Sul para vós! Como sua primeira refeição, meu senhor, meu deus, meu amor! — Gerard engoliu em seco, tendo seu pescoço puxado pelas correntes. A intenção era derrubar o mesmo dentro da fenda. Ele olha para Hemert e Sor Jorderh. Apesar de tudo, haviam lutado na guerra. Ambos cavaleiros nortenhos estavam envolvidos por uma admiração horrenda, sem palavras.
Gerard apenas então sente os puxões fanáticos de Aghar e o solo abaixo dele acaba. Seus pés escorregam pela neve, beijando o ar e seus cabelos dançaram em sua queda livre, para dentro do Silêncio.
Num súbito, a fenda fechou-se, calando a voz.
E então, gritando.
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