Warmness On The Soul
4 Confusão na aula de Português
Notas iniciais
Aqui mais um capítulo e cada vez mais a coisa fica tensa, eee -q. Ah, to sem inspiração pra notas opcionais e etc. Espero que gostem ♥
Capítulo 4 – Confusão na aula de Português.
Quando Lucius levantou para preparar o seu café, eu estava encolhida com um cobertor no sofá da sala, minha cara devia estar toda amassada.
- o que faz aí? Não são nem oito da manhã – perguntou surpreso.
- eu acordei agora pouco de não quis ficar na cama – menti. Na verdade eu tinha passado à noite em claro, pois toda vez que fechava os olhos aquelas imagens vinham à minha mente.
- eu vou preparar um café e ir pra igreja, quer um?
- não, vou tomar um banho agora, depois eu faço – recusei, me levantando do sofá e sentindo meus músculos doloridos protestando.
Tranquei-me no banheiro, demorando muitos minutos a mais embaixo da água do que o necessário. Enrolei-me na toalha e vesti uma camiseta surrada. Lucius já havia saído de casa, então preparei um sanduíche com presunto, queijo e maionese e me joguei no sofá. Liguei a televisão, passando os canais despreocupadamente.
“... então adquira agora a sua Tekpix, a filmadora mais vendida do Brasil por um preço de apenas...”.
“... Tufão sentirá os chifres queimando em sua cabeça? Nina deixará de ter cara de mosca morta em todas as novelas que faz? Você sabe por que diabos o ‘kuduro’ está na abertura da novela das 8h que começa às 9h? Tudo isso hoje no Globo repórter!”
“Jovem de 16 anos é encontrada morta em beco perto da Avenida Partenon, os policiais acham que a garota foi vítima de assalto, mas nada foi levado...”.
Troquei mais uma vez e estava passando desenhos. Terminei meu sanduíche e acabei adormecendo em frente à televisão.
Em algum lugar no fundo da minha inconsciência eu ouvia uma melodia. No começo era triste, mas logo ficava eufórica e vibrante. Não lembro de algum dia ter ouvido algo tão belo e tão harmônico. Com certeza era o som de um piano, mas em uma certa parte da música, precisaria de mais de uma pessoa para alcançar aquelas notas. Meu corpo vibrava em um lugar escuro, juntamente com a melodia perfeita, mas de repente ela começou a se afastar, meus ouvidos captando outros sons. O primeiro foi o silêncio do ar a minha volta, e o segundo era a voz de um desconhecido.
“A temperatura hoje deve ser de máxima 24 Cº e mínima de 13 Cº na grande Porto Alegre.” “Obrigada Marcelo, e depois do intervalo mais informações sobre o caso da jovem morta na Avenida Partenon. O jornal do almoço volta em instantes.”
Jornal do almoço.
JORNAL DO ALMOÇO.
Puta que pariu! O jeito como eu pulei do sofá era como se a casa estivesse prestes a receber um míssil nuclear. Entrei dentro de uma skinny, um coturno e uma camiseta do Ramones. Penteei os cabelos e escovei os dentes enquanto vasculhava os livros e cadernos de Português pelo meu quarto. Joguei a mochila no ombro e fui disparando pela porta, encontrei Lucius na saída do elevador.
- ei calma! Onde é o incêndio?
- Atrasada! Tchau! – disse voando pra fora do prédio.
Saltei as escadas do Rubén com uma destreza ainda não explorada e cheguei em frente a minha sala dois segundos antes de bater. Diana Wins! Ocupei meu lugar, na frente, já que Ben estava estarrado lá atrás e eu não iria ficar a menos de dois metros daquele ser medonho. Ele me encarava, debruçado sobre a mesa, os olhos vidrados e opacos pareciam enxergar dentro de mim. Ele estava me analisando? Me virei para frente interrompendo totalmente nosso contato visual, esse cara me dá arrepios.
A professora, baixinha, gorducha e vestida igual perua com um cachecol colorido e jaqueta de couro vermelha, estava nos fundos da sala falando com o supervisor quando Rodrigo passou na ponta dos pés pela porta. Assim que ele deu um sorriso triunfante do tipo “enganei a gorda!”, ela se virou para ele, apontando o dedo cheio de anéis.
- Nem pense que eu não vi você chegar atrasado! Pode ir pegando permissão! – falou e se voltou novamente para o supervisor. O esquema no Rubén era assim: se você chegasse atrasado, precisava de permissão do diretor pra entrar na sala. Se você fosse ao banheiro e demorasse mais de quinze minutos, precisava de permissão do diretor, ou seja, dar bandinhas pela escola estava fora de questão. Sem contar as câmeras de vigilância espalhadas pelos corredores, isso era o Carandiru disfarçado de instituição de ensino. A maioria da sala barulhenta riu muito da cara do Rodrigo, inclusive eu. Ele apertou os olhos na minha direção e correu até a minha mesa, passando os braços pelas minhas pernas e cintura, me pegando no colo e me colocando de ponta cabeça em seus ombros. Arregalei os olhos diante de tal situação, e não foi que o tapado saiu correndo comigo pra fora da porta?
- Me solta Rodrigo! – bati os punhos nas costas dele. Um pouco mais pro meio do corredor ele se ajoelhou no chão, me colocando sentada no piso com mochila e tudo.
- tu tem problema meu? – perguntei muito danada da vida.
- haha – Rodrigo se levantou e foi até a porta, eu fiz o mesmo – professora! – berrou ele entrando na sala – a Diana também chegou atrasada!
Fiz a cara mais incrédula do mundo. Como é que é a história?
- Pra que gritar desse jeito?! Não tem ninguém surdo nessa sala! Mas que droga! – surtava ela indo até a mesa e revirando um monte de papéis. De repente a sala toda ficou em silêncio – os dois vão levar advertência!
- opa peraí – me intrometi indo até a mesa dela – eu tava dentro da sala, o Rodrigo me pegou no colo e me jogou lá no corredor!
- Eu? – ele arregalou os olhos – nunca faria isso! Jamais! Olha pra minha cara professora – Rodrigo apontou pra si mesmo – eu sou do tipo que faria uma coisa dessas? ...
- ...pra falar a verdade sim – cortou ela. Alguns risos no fundo foram controlados pelo olhar autoritário da professora.
- Nossa — ele fungou -Não sei o que dói mais agora, meu coração ou minhas costas emperradas, aí aí aí! Que dor! – começou, fazendo cena. Bom, já que eu vou levar advertência, vamos fazer por merecer.
- Calma Rodrigo, quer uma água com açúcar? Um chá? A senhora deveria se envergonhar! Olhe para o rosto dessa pobre criança inocente – peguei o rosto dele com uma das mãos – essa pobre criatura ignorante, esse ser que mal sabe ler e escrever com muita dificuldade, esse infeliz que...
- tá espremendo a minha caraaaaaaaa – disse Rodrigo, se livrando das minhas mãos, em seguida examinou o maxilar cuidadosamente – bá que merda guria, acho que tu afrouxou a minha cara toda – agora a gargalhada foi geral, e dessa vez o olhar autoritário não fez mais efeito. Os alunos se jogavam por cima das mesas de tanto rir.
- deixa de drama – falei com desdém falso. Olhei pra professora que estava perplexa.
- a senhora acha que a cara do Tavares tá torta? Tipo, ainda mais do que ela já é? – perguntei seriamente.
- epa opa epa! Eu tenho a cara torta? Não agora tu vai me dizer ...
- tem sim!
- fuck you tu guria! ...
- OS DOIS PRA DETENÇAÕ! – gritou a professora já muito doida da vida. Ela nos pegou pelos braços e foi arrastando porta afora.
- Que isso que isso sorinha – reclamava Tavares – olha os danos morais tchê! Se tiver uma marca na minha pele sedosa e muito bem cuidada eu te meto um processo que tu vai te que vende essa bolsa de jacaré falso hein! Aí caralho! Meu braço porra! Eu passo hidratante todo dia aí, hidratante caro, não o óleo de frango frito que tá aí no teu pescoço! – falava ele enquanto eu me segurava pra não me dobrar de tanto rir. A professora transtornada nos empurrou pela porta e a bateu com força em seguida.
Rodrigo e eu nos encaramos e três segundos depois caímos na gargalhada ali mesmo na frente da sala.
- que droga cara, olha o que tu fez. Meu segundo dia de aula e eu já vou parar na detenção – reclamei.
- lá pra salinha de tortura do Lindemann – falou encarando o chão.
- Quem? – perguntei arqueando as sobrancelhas.
- o diretor, Till Lindemann. O cara, bá, só tu vendo pra entender – Rodrigo me ajudou a levantar e fomos em silêncio pelo corredor, cruzando o pátio até a sala dos professores. Como todos os alunos estavam em suas respectivas salas de aula, a escola tinha aquele ar macabro e silencioso, e adicionando a ideia do suspense que o Tavares fez sobre o diretor, meu estomago começou a se contorcer de nervosismo. Pensei num velho engravatado, com cara de mau, que iria gritar e nos expulsar. Mas assim que fitei o rosto calmo do meu amigo, que estava mais preocupado em caminhar pisando apenas dentro dos quadrados do piso, percebi que talvez, somente talvez, eu estivesse exagerando.
- Aonde vão os turistas? – disse uma mulher baixa, com cabelos pretos e cheios de ondas desordenadas.
- Ver o Lindemann – falou Rodrigo. Ela apertou os olhos e colocou uma mão na cintura.
- Denovo Tavares? É a quinta vez só nesse mês.
- Quem é você? O líder revolucionário do Rubén Darío? – agora foi a vez de eu me meter no assunto.
- Essa é a ideia, lutar pelos direitos da VASPP! – disse erguendo uma mão como se fosse uma espada.
- VASPP? – perguntou a mulher.
- Vagabundos Anônimos Sustentados Pelos Pais – falou Rodrigo num sorriso debochado. De repente uma porta se abriu e fechou com força e dela saiu uma figura um tanto, exótica. O cara era alto, e musculoso, parecia um armário. Olhos azuis apagados e cara de poucos amigos. O cabelo preto jogado pra um lado era bem informal, mas o que mais chamava atenção eram suas roupas: uma calça de couro cheia de correntes, um coturno de soldado e uma jaqueta preta da Motorhead.
- problemas com esse verme, Rosanete? – falou aquele ser estranho. A voz grave e rouca.
- parece que sim – suspirou ela. Ele olhou para o Tavares e eu tive a impressão que ele fosse jogar meu amigo por cima do muro, como naquelas lutas livres.
- expulso da aula de Português – respondeu ele à pergunta que não foi feita.
- Expulso? O que tu fez dessa vez filho da puta? – esbravejou.
- eu trollei a professora, um pouquinho só – os olhos azuis apagados dele se estreitaram.
- trollou a professora? E tu me diz isso nessa cara de pau barato? – falou cético – ROSANETE VAI BUSCAR O MEU CHÁ! VAI BUSCAR O MEU CHÁ MULHER PORQUE EU TO PIRADO! – berrou. A mulher nem esperou mais nenhum grito e saiu correndo em direção ao refeitório. Assim que ela não podia mais ser vista, Rodrigo começou a rir descaradamente. Ele queria morrer?
- puta merda Till, agora até eu quase me borrei todo – falou entre risadas. Till o encarava sério, então sua expressão mudou pra uma careta engraçada e os dois começaram a rir. Eu fiquei boiando com cara de tacho.
- alguém pode me explicar? – disse confusa.
- ah, o Till é meu facho – Rodrigo colocou a mão pelos ombros do diretor, mas pra isso ele ficou na ponta dos pés.
- eu não expulso ninguém por discutir com uma professora, ainda mais uma professora pé no saco que nem aquela – suspirou Till – e ah propósito, qual teu nome bonitinha?
- Diana – respondi – Diana Gandarski.
- Diana Gandarski? – ele pensou um pouco – ah eu sabia! A direção andou trocando alguns horários, e nesse exato momento tu teria de ter educação física.
- Como é? – falamos eu e Rodrigo juntos.
- eu tenho certeza que mandei a Rosanete ligar pra sua casa e avisar, mas bom – Till olhou pra frente – se eu fosse você, eu correria. Último prédio dos fundos – ele deu um sorriso. Ah que maravilha. Disparei em direção ao ginásio e de longe ouvi o diretor gritar um “boa sorte” animado.
Cheguei atrasada no jogo de vôlei e fiquei zanzando no meio da quadra sem nem encostar na bola. Eu era péssima em esportes, e tava pouco me lixando também. Tive de jogar de skinny porque eu neguei veemente a usar uma daquelas calças de cotton coladas no rabo, aquilo era constrangedor demais. Assim que terminou os três períodos de educação física exigidos por semana, eu me dirigi até o vestiário e esperei esvaziar. Depois de uns dez minutos, eu lavei o rosto e refiz a maquiagem, tirei a camiseta da escola (exigida pra exercícios) e abri o armário onde estava minha mochila, buscando minha camiseta do Ramones. O armário, era tipo aqueles de filme americano, alto, grande e de metal. Estava bem enferrujado em algumas partes, mas não deixava de ser exótico, porque nem nos estados unidos eles usavam mais isso. Escavei minha mochila diversas vezes tentando achar minha camiseta e nada.
- tá procurando isso? – me virei pra trás, batendo a cabeça na porta do armário com o susto. Ben estava dois passos atrás de mim, uma mão na cintura e a outra segurando um pedaço de pano branco que eu reconheci como minha camiseta. Sua expressão era divertida, algo em seus olhos cintilava de um jeito estranho. Ah, isso não vai prestar.
Notas finais
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