War of Hearts
1 Prólogo
Notas iniciais
Come to me
In the night hours
I will wait for you
And I can’t sleep
Cause thoughts devour
Thoughts of you consume
I can't help but love you
Even though I try not to
I can't help but want you
I know that I'd die without you
Stay with me a little longer
I will wait for you
Shadows creep
And want grows stronger
Deeper than the truth
(War of hearts — Ruelle)
Oliver Queen
— Der'mo. — xinguei baixinho o palavrão em russo, quando esbarrei em um vaso de planta fazendo-o se espatifar sobre o piso de madeira da varanda. Escondi-me num canto mais afastado em meio as sombras, eu esperava que meu pequeno lapso não tivesse acordado ninguém dentro da casa ou chamado qualquer tipo de atenção indesejada, seria muito mais difícil fazer o que eu deveria se encontrasse pessoas acordadas e dispostas a algum tipo de resistência.
Levei uma das mãos aos meus cabelos e suspirei irritado enquanto pensava no motivo que me levara ali.
Pensei que salvar a vida do líder dos Bratva, Anatoly Knyazev, seria o suficiente para me garantir um posto elevado e de confiança dentro da máfia russa. E de certa forma funcionou. Fui nomeado como capitão e Anatoly passara a confiar de tal maneira em mim, que revelava seus segredos mais íntimos. Histórias antigas. Confidências. Crimes e traições que ele se orgulhava de ter cometido. Diferente do que eu esperava, eu havia me tornado seu confidente, mas não seu parceiro nos negócios. Informações relacionadas às mercadorias e as atividades ilícitas em sua totalidade ainda eram restritas aos membros mais antigos. Eu continuava a ser designado para atividades menores.
Eu estava trabalhando para ele há três anos, e embora Anatoly tivesse me adotado com uma espécie de pupilo, eu sabia que o restante da máfia não via por esse lado. Eu sentia o olhar desconfiado ardendo em minhas costas por onde eu passava, conversas sussurradas em russo. Eu era o novato, o americano, “inostranneye” o termo em russo para definir um estrangeiro, eles não me aceitavam como um membro da família.
Eu ainda precisava provar o meu valor. Então aqui estava eu, de volta aos Estados Unidos para sequestrar uma criança. A filha perdida de Anatoly, ele a queria de volta em sua família. Não por amor. Claro que não, mafiosos não se importavam com isso, não quando o dinheiro e a sede de poder falavam mais alto. E a filha de Anatoly serviria para outro propósito. Uma aliança. Um casamento que colocaria fim em uma rivalidade de décadas.
Era meu dever, era por um bem maior. Repeti mentalmente a fim de acalmar minha consciência que dizia que o que eu estava prestes a fazer seria algo errado e abominável.
Nesse trabalho eu precisei fazer muitas coisas ruins. Eu machuquei, eu menti, eu roubei. E por mais que isso me incomodasse eu justifiquei cada um dos meus atos dizendo que esse era meu trabalho, e que as pessoas as quais eu fizera algum mal eram igualmente ruins e de certa forma mereciam isso. É claro que isso não era o suficiente para minha consciência, não me exonerava da culpa. Mas sequestrar garotas inocentes e jogá-las no meio de uma jaula cheia de lobos famintos, não era algo do qual eu me orgulharia, muito pelo contrário. O desprezo que eu sentia de mim mesmo por fazê-lo era sem tamanho.
Mas era minha missão, meu dever. No final valeria a pena, eu esperava.
Esperei mais alguns minutos até ter certeza de que tudo permanecia no mais perfeito silêncio antes de fazer meu próximo movimento. Ergui o pequeno tapete de boas-vindas e retirei a cópia da chave da porta principal debaixo dele. As pessoas me surpreendiam com o quão descuidadas eram com a própria segurança.
Entrei fechando a porta atrás de mim, passei pela sala e subi as escadas vagarosamente tomando cuidado para que os degraus não rangessem sob meus pés. Cheguei ao corredor onde me deparei com três portas. Uma delas era do banheiro, a segunda era do quarto da mãe. Eu sabia disso, pois tinha verificado a casa mais cedo quando não havia ninguém, apenas para fazer um reconhecimento no local e me poupar de qualquer inconveniente. Por isso eu sabia que Donna Smoak não estaria na casa essa noite, ela estava no turno da noite trabalhando em um dos muitos cassinos de Las Vegas, enquanto a filha estaria em casa dormindo como a jovem obediente que era. Suspirei fundo tentando ignorar o pensamento do que seria para uma mãe chegar em casa e não encontrar a própria filha. Os dias que se seguiriam em completa agonia e desespero, as semanas sem que a polícia encontrasse qualquer resposta até que por fim desistissem e jogassem o caso em mais uma pilha de outros não solucionados.
Mas Donna Smoak saberia o que aconteceu com a filha, ela tentaria dizer a todos, mas quem acreditaria em uma simples garçonete de Las Vegas?
Girei suavemente a maçaneta da terceira porta e a empurrei entrando no quarto, voltando a me concentrar em minha missão. Eu esperava me deparar com seu corpo deitado sobre a cama, perdida em seu sono. Eu tinha embebido um pouco de clorofórmio em um lenço, seria rápido e fácil, ela nem se daria conta de que eu estivera em seu quarto, eu me certificaria de que ela acordasse somente quando estivéssemos dentro do avião a caminho da Rússia.
Mas a garota não estava em seu quarto como era esperado. Aquilo não fazia o menor sentido, eu a vi chegar da faculdade e se despedir da mãe quando essa ia para o trabalho. Eu conhecia a rotina dela, ela nunca deixava a casa depois que a mãe saía, será que justo hoje, no dia em que eu deveria levá-la ela resolvera mudar tudo? A procurei pelos outros cômodos da casa inutilmente, e por fim sentei-me vencido no sofá enquanto esperava impacientemente pela volta da garota.
Era pouco mais de duas da manhã quando escutei o barulho de um carro do lado de fora, coloquei-me de pé encostando-me ao lado de uma das janelas da sala e afastei a cortina, apenas o suficiente para ter uma pequena fresta e observei a cena que se desenrolava do lado de fora. A garota descia de um jipe onde havia outras pessoas, jovens falantes e risonhos. Eles pareciam alegres e felizes, completamente alheios aos problemas do resto do mundo, eram apenas jovens ingênuos e sem qualquer preocupação. Observei a garota loira se despedir dos amigos e caminhar sorridente até a entrada da casa, ela parecia contente com a inocente travessura que fizera.
Eu estava pronto para ver o sorriso desaparecer do seu rosto quando a levasse para sua nova vida? Onde não haveria mais brincadeiras inocentes, ou amigos e risadas, onde ela seria tratada apenas como uma mercadoria de troca? Uma mercadoria preciosa, mas ainda assim sem direito a ter uma voz.
Novamente minha consciência me distraiu a tal ponto que eu não notei o momento em que a garota abriu a porta e acendeu a luz. Só me tornei ciente de sua presença quando a escutei exprimir um grito agudo ao me ver.
— Quem é você e que merda pensa que está fazendo na minha casa? — a garota rugiu ameaçadoramente, dando passos para trás e agarrando um abajur em suas mãos. — Diga agora ou eu começarei a gritar, e posso garantir que meu grito irá acordar a vizinhança inteira.
Fiquei um momento sem fala ao vê-la tão de perto, eu vinha a observando há algumas semanas, mas nunca tinha estado tão próximo, nunca havia prestado atenção em seus detalhes, e ela era cheia deles. Ela não parecia muito com Anatoly, a beleza com total certeza ela havia herdado da mãe, cabelos loiros que caiam em cascatas onduladas e rebeldes até o meio das costas, pele alva com pequenas sardas sobre o nariz e olhos de um azul claro e límpido. Mas havia aquele brilho de fúria em seus olhos, e a forma desafiante com a qual me encarava com o queixo ligeiramente erguido e a mandíbula enrijecida.
Ela era destemida, percebi. Isso ela havia herdado do pai.
Infelizmente essa não era uma boa qualidade para vida que a esperava na Rússia.
— Printsessa. — o apelido em russo escorregou por meus lábios antes que pudesse segurá-lo. Não sei por que a chamei assim, talvez eu tenha visto a jovem feliz e despreocupada que não parecia ter mais de vinte anos e tenha sentindo raiva por ser aquele que mudaria toda a sua vida, que tiraria a luz de seus olhos e a apresentaria a um lado mais escuro da vida, não sei, mas de alguma forma eu decidi mudar a minha abordagem, tentar algo mais suave para não assustá-la tanto. — Seu pai mandou que eu viesse te buscar. — respondi soando calmo e controlado, dando passos lentos até ela.
— Não ouse dar mais um passo. — exigiu desconfiada, não se permitindo enganar com a minha falsa cortesia. Ela era esperta também, acrescentei mentalmente à lista de adjetivos que eu fazia sobre ela. Seus olhos se estreitaram, a expressão ficou mais dura e ela ergueu o abajur ainda mais alto quando percebeu que eu continuei a me mover em sua direção. — Eu não vou a lugar algum com você. — falou num tom que não deixava margens para discussão — Eu não tenho pai, e para seu governo meu nome é Felicity Smoak e não printsessa! Eu exijo que saia da minha casa agora! — ordenou.
Era bonita a forma como seus olhos crispavam em pura fúria para mim, ela tinha um ar rebelde e parecia disposta a tudo, menos a desistir. Confesso que eu estava inconvenientemente fascinado por essa característica dela, embora eu soubesse que isso só me daria ainda mais trabalho. E eu não tinha tempo para isso, o jato que nos levaria para a Rússia estava nos aguardando. Nós precisávamos deixar o país o mais rápido possível, ou ficaria ainda mais complicado depois.
— Resposta errada. — falei, me aproximando ainda mais dela, estávamos apenas a um passo de distância, eu via os seus seios subirem e descerem pelo decote da camiseta branca, deixando claro o quão apreensiva ela estava. Sua respiração saía em rápidas lufadas, era o medo misturado a adrenalina que passava por seu corpo. Ela podia me ameaçar o quanto quisesse, mas no fundo sabia que não tinha chances contra mim. Segurei seu braço exercendo pressão suficiente apenas para pará-la e não machucá-la, fazendo com que deixasse o abajur cair ao chão. Ela se debateu, me chutou, lutou comigo. Coloquei uma das mãos com o lenço embebido em clorofórmio sobre a sua boca quando percebi que se preparava para gritar — Sinto muito, printsessa. — Me desculpei verdadeiramente quando vi a fúria deixar seus olhos, e eles se fecharam relutantes enquanto seu corpo desfalecia em meus braços.
A ergui em meu colo e caminhei com ela até o meu carro que estava a poucos metros da casa, seu corpo era pequeno e leve, então carregá-la era algo que eu fazia sem esforço. Mas o peso que eu sentia era outro, era o peso dos meus atos, atos esses que agora poderiam condenar a vida de alguém inocente.
Mas que outra escolha eu tinha?
Abri a porta do carro e a coloquei gentilmente sobre a poltrona, a prendi com o cinto e afastei suavemente os cabelos que caíam sobre seu rosto, sem perceber permiti que meus dedos escorregassem por sua face tocando suas bochechas coradas, ela suspirou pesadamente sob o meu toque. Perdi-me por um momento analisando suas feições calmamente.
Ela era realmente muito bela.
Mas não era para mim.
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