War of Hearts
5 Capítulo 4 - Bring me back to life
Notas iniciais
I'm breathing in
And breaking down
I feel my time is running out
The fire in my heart will burn me to the ground
I did my part
I tried my best
The things I'm fighting to protect
Always shatter into pieces in the end
Ooh
I'm broken and I'm barely breathing
I'm falling 'cause my heart stopped beating
If this is how it all goes down tonight
If this is how you bring me back to life
This is what it's like when we collide
If this is how you bring me back to life
(Bring Me Back To Life — Extreme Music)
Oliver Queen
Eu havia beijado Felicity.
Não apenas beijado, eu havia empurrado nossos corpos até a parede mais próxima e tomado tudo dela, tudo o que eu não tinha o direito de tomar para mim.
Eu deveria estar me amaldiçoando por esse lapso, mas tudo o que conseguia era sentir resquícios do gosto doce dela em meus lábios, lembrar-me da maciez da sua pele sob minhas mãos e do leve perfume floral dela, que agora estava impregnado por toda a parte de mim. Eu havia perdido completamente o controle sobre meus atos, se eu não tivesse recobrado a sensatez e me afastado a tempo, poderia ter colocado a nós dois em uma situação muito pior.
E se Anatoly aparecesse? O que não seria difícil, considerando que ele estava disposto a puni-la, há poucos minutos, por enfrentá-lo na frente de Vladmir. Tomei uma respiração profunda e apertei as mãos em punhos ao pensar que o líder Bratva não iria esquecer isso, e eu sequer possuía um plano para fazê-lo mudar de ideia, nem seria uma ação inteligente tentar manipulá-lo.
Felicity teria que suportar as consequências de seus atos, constatei tristemente.
Afastei meus pensamentos por um momento, desencostei da porta do seu quarto e tentei adotar a postura fria de sempre ao escutar o som de passos vindo pelo corredor adjacente. Seria Anatoly, pronto para descarregar toda a fúria em sua própria filha? Meu coração congelou por um momento entrando em desespero, eu não seria capaz de ficar e apenas observá-lo machucá-la, seria? Eu fui testemunha de muitos dos seus atos atrozes, mas eles eram sempre destinados a pessoas tão ruins quanto ele próprio.
Para meu alívio vi que eram apenas os cachorros de Anatoly que haviam chegado para tomarem seus postos de guarda diante do quarto de Felicity. Passei altivamente por eles, que me lançaram seus olhares desconfiados, um deles resmungou num tom claramente ofensivo inostranneye enquanto passava por mim. Anatoly poderia ter me dado o posto de Capitão Bratva, mas isso não garantia a simpatia dos demais membros.
Caminhei até meus aposentos, fechei a porta e sentei-me a cama, finalmente me permiti pensar sobre a forma irresponsável com que eu havia tomado Felicity nos braços e a beijado. Meu corpo se aqueceu com a memória ainda tão recente em minha mente, era tortura pensar no jeito que ela se derretera para mim ou na forma sexy que a língua dela se movera contra minha... Inferno! Felicity havia me correspondido! A constatação daquele fato me atingiu em cheio, eu não queria pensar no que isso significava, apenas mantive em mente que a sua falta de recusa apenas tornava tudo muito pior.
Ela podia ter sentimentos por mim? Não, claro que não, afastei a possibilidade de imediato, seria muita estupidez, e ela era ciente de que eu não era bom. Atração talvez? E quanto a mim? Por que eu a havia tomado em meus braços com tanto desespero?
Eu estava frustrado e tinha descontado isso naquele beijo, justifiquei para mim mesmo.
Eu estava assustado e por isso a beijei.
Felicity me tirava do sério, e portanto a beijei apenas para que parasse de me irritar.
Inferno! Minha mente recusava todas as justificativas para eu ter feito o que fiz. Mas isso era porque a resposta era muito mais óbvia do que eu gostaria, eu beijei Felicity porque a queria. Simples assim. Porque vê-la tão linda e tentadora naquele vestido vermelho me desnorteara, por que quando eu estava perto dela eu me via sendo atacado por tantos sentimentos conflitantes que era difícil controlá-los, e quando dei por mim, todas aquelas sensações dominaram minha mente e corpo, e conduziram minhas ações. Abracei seu corpo pequeno junto ao meu e a beijei da forma que vinha fantasiando em fazer nas últimas duas semanas.
Eu não era tolo, eu havia notado a atração que Felicity exercia sobre mim desde o primeiro momento, sua beleza me cativara, seu jeito petulante me fazia sorrir, e seus olhos ferozes, Ah... Esses me conquistaram de imediato! Eu pensei que era forte o suficiente para ignorar as sensações. Eu era um homem treinado, passei anos controlando minhas emoções, as escondendo tão bem de pessoas minuciosas e sistemáticas como Anatoly, que eu nunca pensei que uma garota como ela poderia colocar todo o meu trabalho em xeque.
Felicity veio como um sopro de ar fresco, deixando tudo mais leve e tranquilo por um momento enquanto eu a beijava, enquanto a sentia quente em meus braços, eu voltei a ser eu mesmo. Eu voltei a sentir meu coração bater acelerado, eu fui atingido por todas as emoções que aprisionei de uma única vez. No espaço de tempo em que durou aquele beijo eu voltei a ser apenas Oliver Queen.
Foi por isso que me afastei dela, eu não podia ser apenas Oliver Queen, eu era um capitão bratva e tinha uma missão a cumprir, não poderia permitir que ela me desviasse do meu caminho. No instante que notei o estranho poder que ela parecia ter sobre mim, eu a deixei. Passei as últimas semanas acompanhando Anatoly enquanto ele “checava” seus negócios em várias partes do país, o que basicamente constituiu numa sucessão de dias torturando e ameaçando pessoas para que colaborassem com ele.
Quando voltamos, eu me forcei a ficar afastado dela, embora buscasse obter de Anatoly o máximo de informação que conseguia. Eu soube sobre o jantar com Vladmir Dashkov, eu sabia que Anatoly usaria toda a beleza dela unicamente para impressionar Vladmir, e ele se impressionaria, não havia modo de não se impressionar, ele a iria querer também. Eu não conseguiria ficar lá e observar um homem tão indigno olhando para ela e tendo pensamentos ainda mais inescrupulosos, mas eu também não conseguia ficar longe.
Eu tentei manter-me afastado, e no fim convenci-me que iria apenas observá-la de longe, ver se ela estava bem. Fui surpreendido, ao vê-la virar furiosa pelo corredor em que eu estava.
Sua visão tão tentadora tirou todo o meu fôlego, por um segundo.
Apenas por um segundo, porque no instante seguinte Anatoly a pegava pelo braço jogando-a contra a parede. Sua feição e olhar assassino deixavam claro o quanto ele estava furioso com ela, ele estava pronto para desferir um golpe quando o interrompi.
Foi um erro de principiante, mas fazia tanto tempo que eu não sabia o que era sentir medo, que agi impulsivamente.
Mas agora eu continuava a temer. Na verdade, eu estava aterrorizado por ela. Porque eu sabia que Anatoly não era alguém conhecido por ser misericordioso, ele não deixaria o mau comportamento dela passar impune, ele iria machucá-la mais cedo ou mais tarde, eu não conseguiria evitar e seria minha culpa.
Tão somente minha culpa, por que eu a trouxe para essa vida. Eu havia encontrado um anjo e o entregara de presente ao diabo para que ele lhe arrancasse as asas.
Falando no diabo... Coloquei-me de pé, em uma postura rígida assim que Anatoly entrou em meu quarto, ele nunca se anunciava ou batia a porta, apenas impunha a sua presença em todos os lugares.
— Oliver Queen. — falou meu nome com deliberada lentidão — Eu agradeço que tenha impedido meu lapso com minha filha mais cedo, macular um rosto tão belo quanto o dela seria uma lástima. — comentou levianamente, dando voltas ao redor de mim até parar a minha frente, seu rosto a centímetros do meu. Mantive-me rígido e evitei demonstrar qualquer fraqueza diante de seu olhar duro. — Mas eu sou o líder dessa organização, eu tenho apreço por você Queen, realmente o tenho, você salvou minha vida, mas eu não irei aceitar que se intrometa nas minhas decisões. Compreende? — suas sobrancelhas se uniram, enquanto uma de suas mãos dava pequenos tapas em meu rosto.
— Da Ser, eu compreendo perfeitamente. — assenti calmamente, e vi um sorriso satisfeito tomar conta de seu rosto.
— Isso esclarecido, vamos falar de algo que tem me aborrecido. — continuou a andar pelo quarto analisando cada centímetro do lugar que era bem impessoal, enquanto eu permaneci parado apenas o seguindo com o olhar — Minha filha Felicity... — ouvir seu nome fez algo dentro do meu estômago se agitar — Ela é linda como um anjo, encantadora aos olhos de todos, não é mesmo Oliver? — senti um leve tom de insinuação em sua voz, e achei mais seguro apenas dar de ombros. — Vladimir simplesmente a despiu com os olhos — continuou, o sorriso de Anatoly ficou ainda maior, enquanto eu apenas trinquei os dentes ao ouvir aquela afirmação. — Mas o que a garota tem em termos de beleza ela tem em atrevimento e desobediência, e Vladimir deixou-me claro que não está interessado em rebeldia. — finalizou, por um momento fui ingênuo, pensei que Felicity estaria a salvo. — É por isso que preciso que você me ajude a discipliná-la.
— Eu? — minha surpresa não poderia ser maior, Anatoly desejava que eu punisse Felicity por ele? Eu tinha que ter entendido errado.
— Há algum problema com isso? — seu olhar duro cravou-se no meu, eu sabia o que ele tentava fazer, Anatoly costumava ser ótimo nisso, bastava olhar para alguém para dizer se ele estava escondendo algo.
— Nenhum, senhor. — garanti.
— Ótimo, é que pensei como vocês dois são americanos e você passou mais tempo com ela do que eu, deve conhecer melhor suas fraquezas, um modo mais rápido de quebrá-la e torná-la mais susceptível as minhas ordens. — Quebrá-la. Repeti mentalmente, ele iria quebrá-la e queria que eu fizesse parte disso. — Amanhã lhe direi o que tenho em mente e então discutiremos qual a melhor opção. — finalizou dando as costas deixando o quarto, mas não sem antes exibir um sorriso satisfeito.
Eu poderia lidar com a violência gratuita, com as negociações criminosas até mesmo com os assassinatos brutais, porque eu sabia que todos aqueles que se envolviam com a máfia tinham um lado negro, e de certa forma o que lhes acontecia era apenas resultado de suas ações. Mas com Felicity era diferente, ela era boa. Ela não merecia nada do que lhe aconteceria e eu sabia que seria incapaz de ficar inerte e vê-la sofrer, pior do que isso eu não seria capaz de fazer qualquer mal à ela.
Esse meu lado que se importava com Felicity, me deixaria em sérios problemas com Anatoly.
***
Respirei fundo parando em frente a porta do quarto de Felicity e dando batidas leves, os cães de guardas de Anatoly tinham sido dispensados e informados de que ela ficaria sob a minha responsabilidade por hoje. Eu não estava pronto para vê-la, não depois de tê-la beijado na noite passada e principalmente não antes do que eu estava prestes a fazer.
Empurrei a porta após alguns minutos sem obter uma resposta e entrei no quarto. A imagem que vi trouxe um sorriso imediato em meus lábios, um sorriso que claro eu não deveria exibir. Mas era impossível ficar alheio à ela. Felicity era linda até mesmo dormindo. Ela estava deitada de lado, os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro, ela estava descoberta me dando uma visão perfeita de suas pernas bem torneadas, ela deveria estar com frio já que tudo o que ela vestia era um paletó escuro.
Um paletó.
Ela vestia o meu paletó, nada mais do que isso.
Eu não sabia como deveria acordá-la, chegar muito perto era arriscado, e se novamente eu perdesse o controle? Eu estava há apenas alguns minutos no mesmo quarto em que ela que dormia, e ainda assim eu era capaz de me sentir cheio daquelas estranhas sensações que apenas ela despertava em mim. Para a minha sorte (ou não) Felicity começou a se remexer sob o colchão, levando as mãos aos seus olhos sonolentos os esfregando adoravelmente e suspirando audivelmente enquanto acordava.
Merda, ali estava o maldito sorriso se insinuando em meu rosto outra vez.
— Oliver? — Ela piscou os cílios escuros várias vezes para mim, claramente confusa com minha presença, imediatamente se colocou sentada na cama. — O que você faz aqui? Veio conversar sobre o b...
— Preciso que você se levante e se apronte. — a interrompi com brusquidão. O mau humor evidente em cada palavra minha, eu não queria que conversássemos sobre o beijo. — Rápido — acrescentei quando notei que ela sequer se movera, apenas me encarava fixamente. — Não me obrigue a ir até aí e tirá-la da cama, Felicity. — Tentei ameaçar, mas pela forma como Felicity corou eu soube que aquela tinha sido a coisa errada a dizer, eu nunca conseguiria tirá-la da cama, provavelmente eu apenas me juntaria à ela. Foco! Exigi a mim mesmo. — Ande logo, eu não quero deixar Anatoly esperando.
A menção ao nome do pai fez Felicity reagir de imediato, se colocando de pé. Seus olhos faiscaram de raiva, e eu vi aquele brilho de rebeldia que tanto me fascinara brilhar ainda mais forte.
— O que ele quer de mim agora? — a voz era raiva pura, mas havia um pouco de medo ali, mascarado atrás de toda a petulância. — Eu estou avisando, Oliver, se aquele porco nojento do Vladmir estiver lá esperando por mim, será preciso um exército para me buscar porque eu só sairei desse quarto morta! — declarou altivamente, cruzou os braços por sobre o peito e me olhou de uma forma que não deixava dúvidas de que Felicity lutaria com todas as forças.
Eu achava a força de vontade dela admirável, mas isso seria a ruína dela num lugar como este.
— Vladmir não está aqui. — assegurei e Felicity não segurou um longo suspiro de alívio, o que me deixou suspeito. Teria algo mais acontecido no tal jantar? Teria Vladmir tentado algo com ela? A mera imagem daquilo em minha mente me causava náuseas junto a uma vontade irracional de levá-la embora e escondê-la em algum lugar remoto há quilômetros da Rússia.
— Então, o que mais Anatoly pode querer de mim? Já que o meu aparente noivo não está presente. — a pergunta repleta de amargura de Felicity me trouxe de volta ao foco da conversa.
— Seu pai...
— Pare de chamá-lo de meu pai! — exigiu — O fato de dividirmos cinquenta por cento de um dna não faz dele meu pai, eu sei que biologicamente sim, mas não é isso que faz de alguém um pai, então por favor não lhe dê um título que ele não merece.
— Anatoly não está satisfeito com o seu comportamento, você não demonstra respeito ou sequer medo na presença dele, ele acha que você é desobediente, petulante e indisciplinada. — repeti as palavras que Anatoly tinha me dito.
— Então... Ele quer me disciplinar? — Felicity pareceu pensar por um segundo — Algo como terminar o momento pai e filha que você interrompeu ontem a noite? — investigou, e eu assenti fracamente. Felicity não era tola, ela tinha percebido rápido o tipo de pai que tinha.
— Você sabe que o irritou! Eu te disse para ser cautelosa, e tudo o que você faz é contrariá-lo e enfrentá-lo, esse tipo de comportamento apenas te trará mais problemas, printsessa. — avisei num tom repressivo, eu precisava desesperadamente que Felicity compreendesse o quanto era delicada a situação dela. — É tão difícil assim abaixar a cabeça para o seu próprio bem?
— Oh, me desculpe! — deu passos fortes ficando a minha frente — Então eu deveria apenas dizer: tudo bem, papai, eu irei me casar com o russo nojento e produzir vários netinhos porque é isso que o senhor deseja de mim? — A ironia em seu tom era latente, mas não foi isso que assustou e sim a ideia de Felicity se submetendo a Vladimir, aquele homem bruto a tocando, ela carregando seus filhos. Aquilo não parecia apenas errado, era absurdo, era dilacerante, um futuro que eu não poderia permitir que acontecesse.
— Não temos tempo para isso. — mudei de assunto subitamente, eu não podia suportar esses pensamentos agora, eu precisava lidar com um problema por vez — Você tem cinco minutos para se aprontar. — determinei, olhando para o relógio em meu pulso.
— Qual o seu problema que está sempre me dando ultimatos? — Felicity revirou os olhos adoravelmente. Não! Apenas revirou os olhos, eu precisava parar de achar cada ato seu adorável.
— Ande logo e vá trocar de roupa. E tente vestir algo que lhe pertença desta vez. — Não resisti a tentação de provocá-la por usar algo meu.
— Oh isso? — seus lábios estalaram a medida que suas mãos se moveram rapidamente pelos botões do paletó — Pode pegar de volta se quiser. — disse, e a peça caiu ao chão aos seus pés, me deixando completamente sem reação — Eu vou me arrumar no banheiro. — deu as costas e meus olhos seguiram seu corpo com cobiça enquanto caminhava para longe da minha visão.
Fechei meus olhos buscando retomar o controle que Felicity havia sugado com sua pequena cena. Mas era quase impossível, a visão de Felicity usando nada mais do que um conjunto de calcinha e sutiã ainda surtia um efeito indesejado em mim.
— Eu tomei uma decisão, eu vou ver Anatoly, assim que você me responder a uma pergunta simples. — anunciou assim que voltou ao quarto, para meu alívio vestindo jeans e uma blusa de malha com mangas compridas, ela havia prendido o longo cabelo em um rabo de cavalo no alto da cabeça.
— Eu não tenho tempo para joguinhos, printsessa. — reclamei aborrecido evitando encará-la, eu estava encostado comodamente a parede próxima a porta, queria manter uma distância segura entre nós, e ficar próximo a uma rota de fuga caso eu perdesse a cabeça.
— Ótimo, porque aparentemente eu não tenho tempo para ir com você até Anatoly. — Jogou-se sobre a cama com um sorriso calmo no rosto, suspirei com sua tentativa de tentar me manipular.
— Você sabe que eu tenho o dobro do seu tamanho, posso jogá-la sobre o meu ombro e obrigá-la a ir comigo. — dei de ombros.
— Vai chamar muita atenção. — revidou, sentando-se na cama — E sabemos que Anatoly não vai gostar de saber que você é incapaz de controlar uma simples garota. — piscou os olhos inocentemente para mim.
— Não teste a minha paciência, printsessa.
— Então não seja o covarde que foge de uma pergunta simples. — Eu sabia muito bem qual seria a pergunta, era simples, o problema era a minha resposta que sem dúvida seria complexa demais.
Seus olhos faiscaram para mim de uma forma fascinante, esperando que eu atendesse ao seu pedido. Se ela não fosse a filha do líder da máfia russa e eu um capitão bratva, se nossos caminhos tivessem se cruzado de uma maneira diferente, normal, ela teria de mim todas as resposta que ela quisesse, bastava me lançar esse olhar.
Mas a nossa vida era simplesmente o que era.
— Pergunte. — consenti ainda sem encará-la, com certa vergonha de mim por fazer o que eu logo faria. Escutei o som de seus passos vindo em minha direção, quando ela parou a minha frente eu não tinha mais como desviar o olhar, e Felicity pareceu satisfeita em me ver sem saída.
— Por que me beijou ontem? — perguntou me olhando seriamente, seus olhos me analisando ansiosos.
Porque eu quis. Porque você chega sem ser convidada e atormenta meus pensamentos diariamente, porque a sua simples presença provoca em mim sensações que há tanto tempo eu não sentia. Porque você, printsessa, você me faz sentir vivo, me faz sentir tudo. Eu te beijei porque eu quis, e nesse momento, quero beijá-la outra vez.
Essa seria a resposta sincera, bem diferente da que eu lhe dei.
— Eu estava curioso, sobre como seria beijar a filha do chefe. — respondi monotonamente, apagando o brilho que havia no olhar dela, eu li aquilo como esperança, e não era bom para ela se apegar a algo assim. — No fim foi apenas... Decepcionante, você não tem nada de especial. — eu pude ver que a minha mentira surtiu o efeito desejado quando Felicity deu um passo para trás assentindo com a cabeça — Agora podemos ir, printsessa? — questionei sem paciência.
— Como se eu tivesse uma escolha. — resmungou passando por mim e abrindo a porta para o corredor. Usei de todas as minhas forças para não sorrir diante de sua postura altiva, ela realmente era uma printsessa.
— Espere. — pedi, quando capitei algo em seu pescoço que me proporcionou certo prazer, Felicity girou os pés ficando a minha frente. Ela prendeu a respiração ao perceber o caminho que minha mão fez até seu pescoço se acomodando em sua nuca, subindo lentamente e se enroscando no alto de seu rabo de cavalo tão bem feito. Deslizei minhas mãos pelos cabelos sedosos desfazendo completamente o penteado, ajeitei seus cabelos jogando-os para frente dos ombros. — Não queremos que Anatoly veja isso. — expliquei roçando o polegar sobre a delicada pele do pescoço onde havia uma marca vermelha. Uma marca que eu havia deixado nela, me afastei ao notar que estávamos muito perto — Vamos. — ordenei num tom imperativo, fazendo sinal para que Felicity me seguisse.
Por um bom tempo Felicity me seguiu sem dizer nada, o que era uma grande merda, pois assim eu tinha tempo de sobra para ficar sozinhos com meus pensamentos. E meus pensamentos eram unicamente uma confusão formada por Felicity, busquei foco quando após chegar em frente a porta de ferro que dava entrada para o subsolo da mansão, eu precisava chegar controlado até Anatoly, não queria arriscar que ele visse algo diferente em mim e isso o deixasse suspeito.
— Espere. — senti o toque hesitante de Felicity em meu ombro no momento em que iria abrir a porta — O que eu devo esperar? Uma punição mais severa ou algo mais didático? — me virei olhando para ela exasperado, não era possível que Felicity não estivesse compreendendo a gravidade da situação! Mas quando mirei em seus olhos azuis, apesar de toda a pose e coragem que ela tentava demonstrar eu vi a verdade, ela estava com medo.
— Você vai ficar bem. — assegurei olhando-a nos olhos, eu não deveria fazer isso e se alguém chegasse? — Tente apenas não irritá-lo ainda mais, e evitaremos momentos como este num futuro próximo.
Felicity não assentiu, não concordou ou deu qualquer tipo de indicativo de que não iria tornar a irritar Anatoly. Inferno! Ela era um caso perdido. Abri a porta e Felicity seguiu ao meu lado, até mesmo enquanto descíamos por uma escada estreita e escura, fazendo o seu corpo roçar no meu durante o caminho, tornando-o muito mais longo e torturante.
— Onde estamos? — Felicity perguntou olhando para ambos os lados do amplo corredor. Havia várias portas todas elas com grossos cadeados, de algumas delas era possível ouvir urros de dor, gritos ou o som de vozes proferindo orações em russo.
— Seu p... — Felicity torceu o rosto em uma careta de desgosto me obrigando a me corrigir — Anatoly gosta de manter uma prisão particular.
— São os inimigos dele?
— Os inimigos de Anatoly são poderosos demais para serem trancafiados em um porão, esses ele convida para um jantar. — E lhes oferece a própria filha, pensei com desprezo no modo em que a máfia russa tendia a negociar — Aqui estão apenas às pessoas que o aborreceram, que o traíram, mentiram ou sequer pensaram em contrariar Anatoly... Escolha uma ação e você terá um prisioneiro para isso. — esclareci.
— Por que mantê-los aqui? Não seria mais fácil apenas se livrar deles?
— Anatoly os usa para se divertir, ele gosta de torturar quando está entediado. — Felicity tomou uma respiração profunda assentindo, só então percebi o que ela provavelmente estava pensando, eu lhe disse que Anatoly queria a disciplinar e então a trouxe para a prisão particular dele. — Você não será trancafiada numa dessas. — me vi prometendo.
— Oliver... — começou a dizer, e por mais que eu gostasse de ouvi-la dizer meu nome eu precisava retomar o controle de tudo.
— Agora é o final das perguntas, por favor, eu lhe peço que tente se comportar. —pedi, mais suave do que jamais falei com alguém, esperei ela assentir e então abri a porta dupla no final do corredor.
— Vocês dois estão atrasados. — Anatoly que estava sentado na única cadeira que havia na sala com um semblante entediado, se levantou. — Oliver, pode trazer minha adorável filha até mim?
— Eu posso andar sozinha. — Felicity pronunciou sem se deixar intimidar, e eu tive que conter o impulso de repreendê-la ao vê-la fazendo o que eu pedi especificamente para não fazer, a observei caminhar até ficar de frente para o pai. Anatoly sorria, e como sempre um sorriso em seu rosto não era algo bom.
— Filósofos de todos os tempos diziam que a coragem é uma grande virtude, Aristóteles a definia como uma das quatro virtudes cardinais, — começou a discursar — Mas para mim ela só te torna tola e irresponsável, negligente com as consequências de seus atos. Hoje você está aqui para que entenda que eu não irei tolerar esse seu nariz empinado, essa petulância e falta de respeito. — sua mão segurou o queixo de Felicity forçando-a a encarar seus olhos frios — Como minha filha, sua vida me pertence, eu decido o que farei com ela.
Por mais que Felicity quisesse se manter altiva, Anatoly era o tipo de homem que amedrontava a todos com sua simples presença, eu percebi o momento em que Felicity fraquejou, em que o brilho do medo tomou conta do azul dos seus olhos, e Anatoly percebeu também, porque nesse momento ele sorriu ainda mais.
— Podem trazer a nossa convidada de honra. — ordenou.
Por uma segunda porta que havia na sala, uma jovem de cabelos vermelhos entrou, suas mãos estavam presas às costas e ela era escoltada pelos dois cachorrinhos de Anatoly.
— Mizerikordiya, mizerikordiya... — a garota implorava por clemência numa voz chorosa, desviei meu olhar, eu sabia que o que aconteceria à ela de agora em diante seria tão somente minha culpa.
— Felicity, querida por que não se senta e aprecia o show? — Anatoly ofereceu a cadeira em que a pouco estava sentado, Felicity por sua vez fez o que ele lhe pediu, eu via o quanto ela estava confusa com tudo o que estava acontecendo. Seu olhar caía sobre mim algumas vezes a procura de respostas, mas eu não a olhei de volta. Agora eu era Oliver Queen, um capitão bratva, eu não podia me dar ao luxo de permitir que Felicity me desestruturasse na frente de Anatoly.
Anatoly pediu que lhe trouxessem a garota para mais perto, de modo que esta ficasse de pé bem a frente de Felicity.
— Felicity está é Anne, imagino que a reconheça já que a garota é sua serviçal. — os olhos dela estavam vidrados na garota que tremia de medo e continuava a repetir as súplicas de misericórdia. — Ela é uma boa garota, nunca reclama do trabalho, nunca fez nada errado, não questiona a minha autoridade. Anne é um verdadeiro exemplo. — Tocou de leve o rosto da garota e sorriu, durante aquele curto espaço de tempo a menina fungou parando de chorar, pensando erroneamente que estava a salvo, seu alívio sendo substituído por dor e horror logo em seguida quando mão de Anatoly desceu com força marcando a pele clara de seu rosto em vermelho tão vivo quanto seus cabelos.
Felicity ergueu as mãos sobre a boca, emitindo um grito de horror.
— Isso foi por me desafiar na frente de Vladmir. — disse Anatoly, olhando diretamente para Felicity. A reação dela o deixou mais confiante e satisfeito e ele tornou a desferir mais uma bofetada na garota que dessa vez caiu ao chão cuspido sangue. — Esse foi por se recusar a submeter as minhas ordens. Não é divertido? A pobre Anne será punida por cada erro que você cometeu.
Era perceptível que Felicity estava chocada com a brutalidade da coisa, e ao mesmo tempo eu via pequenas lágrimas brilhando no canto de seus olhos sempre que olhava para a pobre Anne.
— Levantem-na! — ordenou aos guardas que a seguraram pelos braços forçando-a ficar de pé. — Deixe-me ver, o próximo vai ser porque não suporto o seu tom impertinente...
— PARE! — Felicity gritou se colocando entre Anatoly e a garota, antes que o primeiro pudesse executar o golpe. Inconscientemente me vi dando um passo a frente, meu corpo temendo por Felicity que novamente se colocava na linha de frente do perigo. Por sorte Anatoly não percebeu meu lapso e voltei a posição inicial, impotente por não poder fazer mais nada por Felicity.
Anatoly afastou Felicity com o braço e com o outro, sem ao menos desviar o olhar feroz da filha, atingiu o rosto da garota que caiu desfalecida ao chão.
— E isso, foi por pedir que eu parasse. — pelo olhar aterrorizado de Felicity, eu sabia que aquele show tinha acabado. — De agora em diante eu sugiro pensar nas consequências dos seus atos e palavras, porque Anne é quem irá receber as suas punições, Anne é quem irá ficar marcada. Estamos entendidos? — perguntou a uma Felicity que não conseguia desviar o olhar da garota desacordada. — Eu perguntei se estamos entendidos. — chamou-lhe a atenção, forçando o rosto da filha a encará-lo.
— Estamos. — disse com uma voz fraca, uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dela fazendo algo dentro de mim morrer ao ver Felicity tão desolada. Anatoly havia quebrado uma parte dela e eu havia participado disso.
Anatoly sorriu satisfeito, ao passar por mim indo em direção a saída.
— Devo agradecê-lo, Oliver, eu nunca pensei que a sua ideia de punir outra pessoa no lugar de Felicity fosse me dar tanto prazer, e ao mesmo tempo surtir um efeito tão imediato em minha filha. — olhou para trás em direção a filha que estava abaixada tentando socorrer Anne. Felicity ao escutar suas palavras lançou-me um olhar tão horrorizado que ficará para sempre gravado em minha memória — Leve-a para o quarto e deixe-a trancada, quero que ela reflita sobre o que presenciou hoje. — ordenou e então partiu..
— Vamos, Felicity. — A chamei me abaixando ao seu lado e forçando-a a se levantar comigo. Meu jeito terno não passou despercebido aos dois cães de guarda que ainda estavam ali, mas naquele momento eu não me importava, eu só precisava saber se Felicity ficaria bem, se ainda era possível colar a parte dela que eu havia quebrado.
— Eu posso andar sozinha. — repetiu a mesma frase no mesmo exato tom que ela havia dito a Anatoly, recusando a minha ajuda e começando a caminhar à minha frente.
Ela não disse nada enquanto eu a seguia até seu quarto. Eu também me calei, sem saber o que eu deveria lhe dizer.
Mas aquele silêncio entre nós era ensurdecedor.
Em cada passo que dávamos eu sentia mais falta da Felicity que me enchia de perguntas, que soltava leves provocações. E agora tudo o que eu tinha era a Felicity que sequer me olhava.
— Pode trancar a porta, como lhe foi ordenado. — ela disse após abrir a porta do quarto.
— Eu sinto muito. — eu disse, colocando o pé no vão da porta impedindo-a de fechá-la na minha cara.
— Sente? Tem certeza? Porque eu não sei como alguém que assisti inerte a uma garota ser espancada é capaz de ter algum sentimento. Aliás, eu não sei se alguém que tem uma ideia tão odiosa de punir uma pessoa no lugar de outra, apenas para ensinar uma lição, sente algo! — a aversão em sua voz me surpreendeu, ela nunca tinha falado assim comigo antes, já tinha visto medo, tristeza e raiva dirigidas a mim. Mas aversão? Isso ela guardava unicamente para Anatoly.
Senti minha boca amarga diante da percepção de que agora ela me tratava exatamente como ao pai, a quem ela tanto desprezava.
— Eu estava tentando proteger você! Era para ser você a receber cada um daqueles golpes! Era você que Anatoly iria machucar. — perdi o controle e acabei gritando minha voz ecoando pelo corredor.
Eu estava exposto, a qualquer momento alguém poderia aparecer e meus anos de trabalho para a máfia estariam arruinados. Tudo por culpa de Felicity que me fazia inverter totalmente as minhas prioridades, e nesse momento a número um era fazê-la entender minhas motivações.
Seus olhos se arregalaram para mim, sua boca entreabriu em óbvia surpresa, e então ela piscou, como se a compreensão de algo a tivesse atingido.
— Por que você se importa? Você trabalha para ele, você deveria deixá-lo me punir, deixá-lo me obrigar a me casar com um velho asqueroso! Que diferença isso faz para você? Você me trouxe para essa vida, você sabia o que me aconteceria, por que diabos você se importa, Oliver? — ela estava tão ou ainda mais alterada do que eu, seus olhos brilhavam para mim, mas dessa vez não me fascinavam porque o brilho que eu via neles eram de lágrimas que Felicity se esforçava para não derramar.
Por que eu me importava com suas lágrimas? Com o que Anatoly faria a ela? Empurrei para longe cada pensamento sobre Felicity que eu estava tendo, esse era um péssimo momento para analisá-los e tentar compreendê-los.
— Eu não posso me importar com você, printsessa. — minha resposta vaga a fizera soltar um suspiro cansado.
— Para alguém que me beijou por simples curiosidade, você parece se importar muito mais do que deveria, Oliver. — disse-me fechando a porta na minha cara logo em seguida.
Fiquei ali aturdido olhando para a porta. Talvez Felicity soubesse mais sobre o que eu sentia do que eu mesmo.
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