War Z - interativa
8 Hesitações e Atitudes - Parte 2
Notas iniciais
19 de Janeiro de 2014 —
Antes do Surto
Virando a esquina de sua rua, Adam pode vislumbrar o prédio onde morava. Não era muito grande e nem tão bonito,mas sim adequado para o salário que recebia na mecânica.Seu cansaço era visível, e tinha certeza que seu rosto não estava nem um pouco limpo. Sabia que Dolores,assim que o visse, fugiria de seus braços, rindo como uma louca. Uma louca que ele amava muito.
Assim que pisasse dentro de seu lar, seria recebido pelo maravilhoso cheiro do jantar que ainda estaria sendo preparado. Andrea, sua primeira filha, estaria assistindo TV ou ate ajudando a mãe no jantar. Entrando no estacionamento minúsculo do prédio, Adam desligou o carro e respirou fundo, voltou-se para o espelho do carro e tentou limpar seu rosto, para estar, pelo menos, apresentável.
Trancou o carro e seguiu rumo às escadarias que levariam ao interior do prédio. Sua atenção voava para os lados, a procura do zelador que sempre estava sentado na cadeira ao lado das portas. Guardou as chaves no bolso e continuou a andar, não estranhando o barulheiro que vinha de alguns dos apartamentos, cujas portas estavam entreabertas.
Subiu três lances de escadarias ate entrar no corredor e observar a porta de seu apartamento. Pelo barulho, Dolores convidara suas amigas para mais uma das reuniões femininas que ela fazia, o que Adam não fazia questão nenhuma de rondar,já que era regada a fofocas. Sua mão direita tocou a maçaneta, e estando pronto para empurra-la,um grunhido o fez parar. Congelar.
Não estava ouvindo os risos que eram o padrão dessas reuniões, e nem a voz alta da irmã irritante de Dolores.Só grunhidos.Seu rosto se contraiu, e ele tentou pensar em motivos pelos quais Dolores poderia ter um amante.Mas aquilo era um absurdo.
Talvez fosse a TV, se consolou empurrando a porta de uma vez,para atrapalhar o que estivesse acontecendo. Algo tombou para trás assim que ele abriu totalmente a porta, deu um passo para frente, mas se arrependeu assim que quatro pares de olhos leitosos pousaram sobre si. Um deles, por incrível que pareça, pertencia ao rosto de sua pequena filha.
– Andrea? – Chamou-a assustado, e sua filha grunhiu,observando-o. Os cabelos escuros estava emaranhados, seu rosto lambuzado de sangue, mas o que paralisou Adam foi a ausência de seu braço direito. Esbravejou furioso, pronto para alcançar Andrea e leva-la ao hospital. – Quem são vocês?O que fizeram com a minha filha?
Andrea parecia pensar ou talvez em transe, porque logo voltou a abaixar seu rosto e lambuza-los mais em algo que parecia ser o estomago de alguém. O estomago de sua esposa, cuja face paralisada parecia estar sofrendo, ou ter sofrido. Um frio subiu pela espinha de Adam ao perceber que três mulheres, no mesmo estado que sua filha, aproximavam-se de si.
AGORA
396 dias após o surto
Emma podia ouvir os gritos vindos do lado de fora da barraca, Henderson parecia estar criando um exercito contra ela, pois suas palavras eram precisas. “Ladra, pode ser uma assassina, louca, vamos deixa-la próxima aos nossos filhos?”
Depois da agressão que ele mesmo lhe dera, agora queria expulsa-la sem arma nenhuma, sem proteção nenhuma. Ela sentia seu corpo molengo e dolorido, ambos os olhos estavam roxos e seu rosto com diversos hematomas. Se ela conseguisse andar e estivesse sozinha, ate agradeceria por sair daquele grupo, mas havia Bobby e Lauryn, ambos corriam perigo e Emma tinha certeza que não conseguiria proteger os dois sem armas ou um lugar seguro.
Sabia que se Jeoffrey estivesse ali, ele a defenderia, ate conseguisse alguns aliados para ela. Mas seu amigo se oferecera para buscar alimentos. Tentou se mexer, mas uma pontada dolorosa em suas costelas a fizeram gemer e choramingar. Fora treinada para sofrer maus-tratos, era uma mulher forte, mas quando Henderson ameaçara fazer coisas que Emma tinha terror só em imaginar, ela apenas deitou e se deixou ser chutada.
Bobby estava no lado de fora, ordens do próprio Henderson,junto de Lauryn. E Emma tinha medo do que o filho pensaria dela, céus, ambos eram a única coisa que sobrara para ela. Agarrou-se a uma força que surgira do nada, e tentou se levantar, a muito custo. Suas pernas tremiam. Não havia outro jeito, teria de ir embora. Empurrou a lona de lado e pode sentir os diversos olhares pousarem em si, alguns com pena,outros com fúria.
– Mãe. – Exclamou Bobby,enquanto ele e Lauryn corriam em sua direção.- Mãe,eles te machucaram?!
– Eles estão tentando nos expulsar Emma. – Murmurou Lauryn,afastando Bobby da irmã,vendo que um abraço não seria algo agradável para ela naquele momento. – Nós estivemos aqui por tanto tempo,e eles resolvem nos expulsar.
– Estaremos bem. – Emma tentou se manter confiante. Seu corpo amoleceu, mas Lauryn a segurou e suspirou pesadamente. – Ou não.
– Não vão nos dar armas, nem alimentos, e não podemos fazer nada. – Bobby dizia.
Emma respirou fundo, segurando o choro, e voltou-se para seu filho.
– Conseguiremos tudo isso,meu amor.
Quando Henderson se aproximou, carregando a contragosto uma mochila, Emma percebeu que realmente não teria como ficar. Ao lado dele, quatro outros homens armados o acompanhavam de semblante fechado, como se só obedecessem as ordens de Henderson. Emma sentiu os braços de Bobby a abraçaram na cintura e ignorou os tremores do corpo, apenas para aconchega-lo mais a si.
– Peço que saiam imediatamente dessa área. – Rugiu Henderson alto o suficiente, para que todos o ouvissem. – Essa é a consequência para quem resolve roubar o seu lar.
Emma cerrou os dentes e observou Lauryn receber a mochila, imediatamente a olhando dentro. Não parecia ter muita coisa, na realidade, Lauryn só retirou um pedaço de pão, uma garrafa de água e um canivete.
– O pessoal resolveu ajuda-la, mas se fosse escolha minha, você sairia daqui apenas com o rabo entre as patas, cadela.
– Tenho pena de sua esposa. – Foi só o que Emma conseguiu dizer.
– Se precisar de ajuda com a saída... — Henderson ergueu o queixo, arrogantemente. Então apontou para os homens ao seu lado. -... Eles estarão felizes em ajuda-La.
– Maldito frangote. – Emma murmurou quando sentiu seu próprio corpo ser guiado por Lauryn para a cerca de arame. Bobby parecia amedrontado por estar saindo do cercado, como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo, o que, obviamente, aqueles homens desprezíveis o fizera acreditar. Sentindo que o sangue corria rápido demais em suas veias, Emma voltou-se. – Espero que saibam que não é uma porra de uma cerca que ira salva-los dessa merda.
– Saia. – Berrou Henderson.
Assim que puseram os pés para fora do cercado, Emma percebeu que talvez, mesmo que um pouco, o cercado ofereceria a aquelas pessoas a crença de que ficariam bem. Inúteis. Ela vivera fugindo daquelas coisas por meses, tentando proteger sua família, mas o resultado final fora a morte de seu marido e de sua filha.
Afastou-se de Lauryn e começou a andar sozinha, mesmo que mancando, em sua mão o pequeno canivete era uma garantia de sobrevivência,assim como os galhos pontiagudos e longos que encontrou no caminho,porque estando com alguma para afasta-los dos mordedores, Emma ficaria minimamente tranquila.
Talvez aquilo significasse que grupos grandes demais não deveriam existir naquele mundo. Emma respirou fundo e fixou seu olhar para frente, para os dias que viriam futuramente.
– Quem são vocês? – E a voz masculina quase a fez correr dali.
Guilherme foi empurrado para trás e Charlottie se afastou para poder segura-lo.O homem que saia de dentro do estabelecimento era claramente e mais forte que todos ali. Jeoffrey apontou a espingarda para a testa do desconhecido, que portava uma pistola na sua direção.
– Eu perguntei: Quem são vocês? – A voz soou rude, o que transmitiu mais medo em Charlottie.
– Calma homem, viemos atrás de comida. – Esclareceu Jeoffrey, cerrando os olhos ainda com a arma na mira. – Sou Jeoffrey Morgan, esses são Guilherme e Charlottie. Estávamos em 5 pessoas, mas uma multidão de mordedores nos atacou.
A cada palavra que Jeoffrey dizia, o homem apenas balançava a cabeça. Guilherme analisou-o, ainda sendo amparado por Charlottie. Ao notar que ela o tocava, afasto-se ofendido, como se Charlottie portasse uma doença contagiosa.
– Sou Brian Oldeman. – o homem tossiu, parecendo notar o clima entre Guilherme e Charlottie. – E acho melhor que vocês saiam daqui.
– Não temos como voltar, o acampamento fica muito longe. – Esclareceu Charlottie, mas se arrependeu ao notar o olhar atravessado que recebeu de Guilherme e Jeoffrey. Não deveria ter mencionado o acampamento. — Digo...
– Há um acampamento?! – Um rosto infantil surgiu no batente da porta. – Vocês...
– Volte para dentro Mari. – Esbravejou Brian, tentando empurra-la com seu pé para baixo.
– Pare Brian. – Mari pediu, agora tentando sair de dentro da loja. – Eles podem nos ajudar.
Charlottie, percebendo o que a garotinha queria dizer, soprou forçadamente e tocou nas mãos de Brian e Jeoffrey, para que abaixassem as armas.
– Porque não conversamos igual a pessoas civilizadas? – Questionou, alternando em seu tom de voz, para que notassem a sua calmaria e a imitassem. O que não aconteceu, já que Jeoffrey afastou sua mão, assim como Brian. — Jeoffrey, acabamos de perder dois rapazes, não queremos entrar em uma briga e alguém acabar sendo morto, de novo.
Jeoffrey observou-a por instantes, considerando o seu argumento. Arthur e o garoto ruivo estavam mortos, não havia volta, e ele se culparia se voltasse sozinho para o acampamento. Respirou fundo e concordou, mas apontou para a arma de Brian. Entendendo o pedido, Brian concordou e ambos guardaram suas armas.
Mas havia Guilherme, que mesmo que Charlottie tentasse pedir, se negaria a cumprir.
– Olhe rapaz, se você não sumir com essa porra de arma, juro que te parto em dois. – Grunhiu Brian, rangendo os dentes, e apertando o punho.
– Guilherme... — repreendeu Jeoffrey.
– Ficarei aqui fora. – Ele respondeu, e aquilo significava que continuaria com a arma em mãos.- Seguir ordem de mulheres...- e Guilherme começou a rir, enquanto se afastava do grupo.
Charlottie, por um momento, pensou em segui-lo e questionar o porquê de tanta implicância. Mas tinha medo de deixar o desconhecido com Jeoffrey, porque os desentendimentos poderiam vir a ocorrer. Enquanto seu companheiro seguia Brian, Charlottie ficou observando o caminhar do jovem Gonçales ate ele iniciar uma ronda pelos outros lados da loja.
Voltou-se para dentro a tempo de ver a tal Mari, parada ao seu lado,com uma garrafinha,como se a oferecesse. Hesitou, lançou um olhar de questionamento para Jeoffrey, que apenas concordou, e voltou-se para a garotinha sorrindo e aceitando.
– Obrigado. – Agradeceu quando devolveu a garrafinha com bastante água ainda.
– Charlottie, a caminhonete é dele. – Explicou Jeoffrey, suspirando aliviado.
– Posso leva-los ate esse acampamento, com a promessa de que irão aceitar Mari. — Esclareceu Brian, revezando em me observar e depois a Jeoffrey. – Ela estará mais segura lá.
– No acampamento? – Mari arqueou a sobrancelha, sentando-se próxima a ele. – Eu não quero acampamentos assim, eles não funcionam Brian.
Amarrando as madeixas vermelhas, Charlottie sorriu novamente para Mari.
– O nosso acampamento tem cercas. Arame farpado.
– Criamos um meio para que não precisemos mudar sempre de lugar. — Jeoffrey começou o que parecia ser uma longa explicação sobre o acampamento.
– Estão seguros? – Mari questionou secamente, e então ela lançou um olhar amedrontado para Brian, como se ainda negasse o pedido que ele fazia em silencio. – Como vocês viram, eles vêm aos montes e destroem tudo...
– Nem um cercado pode segura-los. – Brian resumiu.
Charlottie voltou-se para Jeoffrey,sua esperança de que encontrava um lugar seguro se esvaindo, estivera correndo perigo todas essas semanas e não sabia? Respirou fundo, e afundou o rosto por entre as mãos, nervosamente.
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