Ao entrar em seu imponente lar, Wandinha se vê diante de um gigantesco hall de entrada, ladeado por duas estátuas de mármore branco representando antigos centuriões romanos. Usavam capacetes, armaduras, lanças e escudos de metal dourado. Ao passar entre as figuras colossais, Wandinha percebe, com seu olhar atento, que as cabeças das estátuas a acompanhavam, observando cada um de seus movimentos.


— In nomine Iulii Caesaris Ducis! Me admitte! — ordenou Wandinha em latim, num tom autoritário.


As estátuas moveram as bocas de pedra e, com vozes roucas, responderam em uníssono:

— In nomine sacrae urbis Romae et Iulii Caesaris Ducis, ingressus tuus probatus est, Domina Addams!


— Transire licet, Domina Addams!


— Gratias vobis, Quirites! — respondeu Wandinha, atravessando o portal guardado pelos centuriões.


O corredor à frente era vasto e solene: piso de mármore negro, colunas brancas, paredes de mármore cinza e um teto adornado com um afresco que retratava cenas mitológicas gregas. Enquanto caminhava, Wandinha sentiu-se observada e, ao se virar, viu algo familiar — e grotescamente encantador.


Uma mão humana decepada vinha andando sobre os próprios dedos. Possuía tatuagens nas costas e um anel no indicador. Wandinha pôs as mãos na cintura e, com um ar de mãe autoritária, perguntou:


— O que está fazendo aqui fora, senhor Mãozinha?


Mãozinha começou a gesticular freneticamente, e Wandinha, impassível, traduziu:

— “Agnes chegou em casa com o humor do cão, dizendo que você a estava traindo com uma meretriz do Pigalle, num café parisiense de quinta categoria.”


Mãozinha fez mais gestos, e Wandinha continuou:

— “E eu estava jogando Free Fire de boa, quando a maluca da Agnes tomou meu celular dizendo que os sons do jogo estavam deixando ela nervosa.”


Ela suspirou:

— Como se precisasse disso pra deixá-la nervosa, né, Mina? Ela já nasceu mais estressada que o Hulk dos Vingadores!


— Mas você não respondeu à minha pergunta — disse Wandinha, cruzando os braços. — O que está fazendo aqui fora?


Mãozinha gesticulou de novo, e Wandinha traduziu:

— “A sua cremosa me pôs pra correr depois que eu falei umas verdades pra ela.”


— E que verdades seriam essas, senhor Mãozinha?


— “Disse pra ela que o problema dela não são os chifres, mas o fato de não estar dando no couro! Não tá fazendo a onça beber água! Não tá pondo as aranhas pra brigar! E não tá—”


— Basta desse vocabulário de cabaré do Pigalle, seu indecente! — gritou Wandinha, furiosa.


Mãozinha gesticulou com ironia, e Wandinha traduziu, já sem paciência:

— “Nossa, que estresse, trevosa de Taubaté! Tô vendo que não é só a Agnes que tá precisando de uma rapidinha no banheiro feminino da Madame Underground…”


— Se continuar gesticulando, eu te deixo de castigo por um século! — ameaçou Wandinha, apontando o dedo.


— “Tá certo, não tá mais aqui quem gesticulou, trevosa da Shopee!”


— É bom mesmo, porque o meu dia já está insuportável! — disse ela, cansada.


— “Putz! Se você diz isso, é porque a coisa tá feia mesmo, Wandinha!”


— E pode piorar, senhor Mãozinha…


— “Como, trevosa de Taubaté?”


— A senhorita Barclay está visitando minha casa agora mesmo. E adivinha quem está recebendo-a?


— “Mano do céu! A maluca da Agnes!” — traduziu Wandinha, revirando os olhos.


— Temos que ir agora, antes que ela espalhe fake news sobre nós dois! — completou.


Mãozinha fez um gesto sarcástico:

— “Apesar de você não ser tão fake assim, né, trevosa da Augusta?”


— Engraçadinho! Vamos impedir que minha amada imortal destrua nossas reputações perante a senhorita Barclay! — disse Wandinha, caminhando em direção a uma grande porta verde ricamente decorada.


O dragão dourado entalhado nela começou a mover-se, os olhos de rubi brilhando com intensidade sobrenatural. Uma voz profunda ecoou:

— Se quiserem passar por esta porta, terão que responder ao meu enigma mortal!


— “Tá de brincadeira, né?” — gesticulou Mãozinha.


— Eu nunca brinco, senhor Mãozinha. — respondeu Wandinha, séria.


— “Colocar dois sistemas de segurança mágicos e mortais na própria casa é muita neura, trevosa da Shopee!”


— Fiz isso por segurança. Tenho muitos inimigos… e todos perigosos.


— “Lógico, você é a maior talarica que já existiu!”


— O quê?! — gritou Wandinha, ofendida.


O dragão, já impaciente, interrompeu-os:

— Podem parar com isso e responder ao meu enigma!


— Sim, nobre guardião — respondeu Wandinha, reverente.


— “Pode mandar, que eu domino no peito, malandragem!” — traduziu ela, suspirando.


O dragão rugiu:

— Qual é o animal que de manhã caminha com quatro patas, ao meio-dia com duas, e à tarde com três?


— É o—


— “É a sua mãe!” — gesticulou Mãozinha.


O dragão cuspiu fogo furioso.


— Me desculpe pelo insolente! — disse Wandinha, alarmada. — Tenho direito a mais dois enigmas!


— Concedido.


— E tu, senhor Mãozinha, quieto! —


— “Tá bom, trevosa da Shopee!”


O dragão pronunciou o segundo enigma:

— Quando caio do céu com os pés nas nuvens, rastejo como serpente no solo. Quem sou eu?


— Tu és—


— “A minha mão na sua cara!” — gesticulou Mãozinha.


— Agora chega! — rugiu o dragão, cuspindo uma labareda colossal.


Wandinha recitou um cântico nórdico, erguendo uma parede de gelo que protegeu seu amigo do fogo. Respirou fundo e disse:

— Agora que o congelei, prossiga com o último enigma, nobre guardião.


— Todos me desejam, mas quando me têm, querem se livrar de mim. Dizem que trago felicidade, mas só trago problemas. Trabalham muito por mim, mas dizem que nunca vale o esforço. Quem sou eu?


— Tu és o dinheiro, nobre guardião — respondeu Wandinha, entediada.


— Podes passar, my lady.


Ela estalou os dedos quatro vezes, descongelando Mãozinha.


— “Sacanagem me transformar em picolé, trevosa de Taubaté!”


— Não me deu outra opção, senhor Mãozinha.


A porta se abriu lentamente, revelando um portal energético cintilante, semelhante à magia musical de Agnes.


— Temos que ir agora, senhor Mãozinha!


— “Bora, trevosa da Augusta!”


E assim, Wandinha e Mãozinha atravessaram o portal, adentrando o sombrio e fascinante Château Addams.