Wandinha e Enid: Crepúsculo Sombrio
6 O Enigma do Dragão Dourado
Ao entrar em seu imponente lar, Wandinha se vê diante de um gigantesco hall de entrada, ladeado por duas estátuas de mármore branco representando antigos centuriões romanos. Usavam capacetes, armaduras, lanças e escudos de metal dourado. Ao passar entre as figuras colossais, Wandinha percebe, com seu olhar atento, que as cabeças das estátuas a acompanhavam, observando cada um de seus movimentos.
— In nomine Iulii Caesaris Ducis! Me admitte! — ordenou Wandinha em latim, num tom autoritário.
As estátuas moveram as bocas de pedra e, com vozes roucas, responderam em uníssono:
— In nomine sacrae urbis Romae et Iulii Caesaris Ducis, ingressus tuus probatus est, Domina Addams!
— Transire licet, Domina Addams!
— Gratias vobis, Quirites! — respondeu Wandinha, atravessando o portal guardado pelos centuriões.
O corredor à frente era vasto e solene: piso de mármore negro, colunas brancas, paredes de mármore cinza e um teto adornado com um afresco que retratava cenas mitológicas gregas. Enquanto caminhava, Wandinha sentiu-se observada e, ao se virar, viu algo familiar — e grotescamente encantador.
Uma mão humana decepada vinha andando sobre os próprios dedos. Possuía tatuagens nas costas e um anel no indicador. Wandinha pôs as mãos na cintura e, com um ar de mãe autoritária, perguntou:
— O que está fazendo aqui fora, senhor Mãozinha?
Mãozinha começou a gesticular freneticamente, e Wandinha, impassível, traduziu:
— “Agnes chegou em casa com o humor do cão, dizendo que você a estava traindo com uma meretriz do Pigalle, num café parisiense de quinta categoria.”
Mãozinha fez mais gestos, e Wandinha continuou:
— “E eu estava jogando Free Fire de boa, quando a maluca da Agnes tomou meu celular dizendo que os sons do jogo estavam deixando ela nervosa.”
Ela suspirou:
— Como se precisasse disso pra deixá-la nervosa, né, Mina? Ela já nasceu mais estressada que o Hulk dos Vingadores!
— Mas você não respondeu à minha pergunta — disse Wandinha, cruzando os braços. — O que está fazendo aqui fora?
Mãozinha gesticulou de novo, e Wandinha traduziu:
— “A sua cremosa me pôs pra correr depois que eu falei umas verdades pra ela.”
— E que verdades seriam essas, senhor Mãozinha?
— “Disse pra ela que o problema dela não são os chifres, mas o fato de não estar dando no couro! Não tá fazendo a onça beber água! Não tá pondo as aranhas pra brigar! E não tá—”
— Basta desse vocabulário de cabaré do Pigalle, seu indecente! — gritou Wandinha, furiosa.
Mãozinha gesticulou com ironia, e Wandinha traduziu, já sem paciência:
— “Nossa, que estresse, trevosa de Taubaté! Tô vendo que não é só a Agnes que tá precisando de uma rapidinha no banheiro feminino da Madame Underground…”
— Se continuar gesticulando, eu te deixo de castigo por um século! — ameaçou Wandinha, apontando o dedo.
— “Tá certo, não tá mais aqui quem gesticulou, trevosa da Shopee!”
— É bom mesmo, porque o meu dia já está insuportável! — disse ela, cansada.
— “Putz! Se você diz isso, é porque a coisa tá feia mesmo, Wandinha!”
— E pode piorar, senhor Mãozinha…
— “Como, trevosa de Taubaté?”
— A senhorita Barclay está visitando minha casa agora mesmo. E adivinha quem está recebendo-a?
— “Mano do céu! A maluca da Agnes!” — traduziu Wandinha, revirando os olhos.
— Temos que ir agora, antes que ela espalhe fake news sobre nós dois! — completou.
Mãozinha fez um gesto sarcástico:
— “Apesar de você não ser tão fake assim, né, trevosa da Augusta?”
— Engraçadinho! Vamos impedir que minha amada imortal destrua nossas reputações perante a senhorita Barclay! — disse Wandinha, caminhando em direção a uma grande porta verde ricamente decorada.
O dragão dourado entalhado nela começou a mover-se, os olhos de rubi brilhando com intensidade sobrenatural. Uma voz profunda ecoou:
— Se quiserem passar por esta porta, terão que responder ao meu enigma mortal!
— “Tá de brincadeira, né?” — gesticulou Mãozinha.
— Eu nunca brinco, senhor Mãozinha. — respondeu Wandinha, séria.
— “Colocar dois sistemas de segurança mágicos e mortais na própria casa é muita neura, trevosa da Shopee!”
— Fiz isso por segurança. Tenho muitos inimigos… e todos perigosos.
— “Lógico, você é a maior talarica que já existiu!”
— O quê?! — gritou Wandinha, ofendida.
O dragão, já impaciente, interrompeu-os:
— Podem parar com isso e responder ao meu enigma!
— Sim, nobre guardião — respondeu Wandinha, reverente.
— “Pode mandar, que eu domino no peito, malandragem!” — traduziu ela, suspirando.
O dragão rugiu:
— Qual é o animal que de manhã caminha com quatro patas, ao meio-dia com duas, e à tarde com três?
— É o—
— “É a sua mãe!” — gesticulou Mãozinha.
O dragão cuspiu fogo furioso.
— Me desculpe pelo insolente! — disse Wandinha, alarmada. — Tenho direito a mais dois enigmas!
— Concedido.
— E tu, senhor Mãozinha, quieto! —
— “Tá bom, trevosa da Shopee!”
O dragão pronunciou o segundo enigma:
— Quando caio do céu com os pés nas nuvens, rastejo como serpente no solo. Quem sou eu?
— Tu és—
— “A minha mão na sua cara!” — gesticulou Mãozinha.
— Agora chega! — rugiu o dragão, cuspindo uma labareda colossal.
Wandinha recitou um cântico nórdico, erguendo uma parede de gelo que protegeu seu amigo do fogo. Respirou fundo e disse:
— Agora que o congelei, prossiga com o último enigma, nobre guardião.
— Todos me desejam, mas quando me têm, querem se livrar de mim. Dizem que trago felicidade, mas só trago problemas. Trabalham muito por mim, mas dizem que nunca vale o esforço. Quem sou eu?
— Tu és o dinheiro, nobre guardião — respondeu Wandinha, entediada.
— Podes passar, my lady.
Ela estalou os dedos quatro vezes, descongelando Mãozinha.
— “Sacanagem me transformar em picolé, trevosa de Taubaté!”
— Não me deu outra opção, senhor Mãozinha.
A porta se abriu lentamente, revelando um portal energético cintilante, semelhante à magia musical de Agnes.
— Temos que ir agora, senhor Mãozinha!
— “Bora, trevosa da Augusta!”
E assim, Wandinha e Mãozinha atravessaram o portal, adentrando o sombrio e fascinante Château Addams.
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