Walking After You

17 Capítulo 16: Cora


Notas iniciais
OOOOi!
Desculpem a demora, por favor. Eu perdi o pen-drive e tive que reescrever o capítulo. Mas fiquei MORRENDO de preguiça. ;A;
Então, parcialmente, a culpa é minha. Perdono, não vai acontecer de novo. Eu espero, porque né, foi um sofrimento ter que escrever tanto, de novo. T3T
Tentei captar a mesma coisa que fiz quando escrevi o capítulo da primeira vez, e aperfeiçoar onde pude. Talvez tenha ficado confuso, talvez não, mas enfim. q
Espero que gostem, não vou ficar lerdando aqui porque estou super ansiosa pra ver o que vocês vão achar da história da Cora, terminei dividindo-a em dois capítulos, btw, adicionei mais alguns detalhes. :3
Se quiserem ouvir a música tema da Cora: http://letras.mus.br/julian-casablancas/1484319/traducao.html
O nome é Little Girl, do Julian Casablancas. Eu acho que é a CARA dela. E é uma das minhas músicas favoritas, e escrevi o capítulo enquanto ouvia. Então, sei lá, escutem, ou não. ]~ÇAS]Ç]ÇAS
Eu revisei, mas posso ter deixado um errinho passar. Se encontrarem, me avisem.
Surto no final, ~]~sdç]~sçad. x)
Boa leitura! ♥

"Eu não sei ao certo quando percebi que estava sozinha. Acho que assim que me dei conta da minha existência, logo vi que não tinha ninguém. E que nunca teria. No começo, eu era muito nova para entender o porquê de tudo aquilo, me causava uma revolta tremenda. E tristeza. Mas hoje eu entendo. E, antes que queira saber, revolta e a tristeza não foram embora, mas eu aprendi a conviver com elas. “Pobre garotinha torturada...” era algo que eu tinha de ouvir frequentemente. As pessoas sentiam dó de mim. Mas nunca me acolhiam. Diziam que eu era uma aberração. Embora desejassem imensamente que eu me encontrasse algum dia na vida. Bando de idiotas. Nunca senti simpatia por absolutamente ninguém que fazia esse tipo de coisa, então, se eles estavam achando que estavam garantindo seus lugares no céu por sentirem pena de mim, estavam muito errados. Tudo aquilo só serviu para me deixar com mais raiva.

Aberração, aliás, é uma palavra que sempre me assombrou durante a vida toda. Mas hoje em dia não me importo de ser rotulada como tal. Me tornei o que diziam que eu era, e não me arrependo nem um pouco. Se eu sou esse monstro hoje em dia, a culpa é toda deles.

Me vendo falar assim, é bem capaz que você ache que eu sou uma tremenda egoísta. Mas eu sou mesmo. É assim que se ganha a vida. Num mundo como esses, se não for assim, eu serei comida vida.

Acho que posso dizer que nasci num período “moderno”, considerando a minha idade – ah, isso eu não revelo, afinal de contas, sou uma dama. As pessoas haviam esquecido os velhos preconceitos e estavam se focando cada vez mais em novas tecnologias, novos hábitos e coisas do gênero. A Escócia estava passando por um processo de mudança, e parecia um lugar onde todos eram, aparentemente, bem aceitos. Independente de quem você fosse dava a impressão de que os escoceses sempre estariam de braços abertos para te receber. E talvez realmente fosse assim. Pelo menos, até eu chegar. E a Escócia começar a fazer jus ao rótulo de “país mais assombrado do mundo”.

Não sei se você sabe o que é um metamorfo, existem muitas lendas sobre tal criatura, e eu não sei dizer qual é a mais acurada, já que sou a única metamorfa que conheço. De qualquer forma, geralmente são seres humanos que conseguem mudar de forma. Acho que o próprio nome já dá a entender que é isso, pois é derivado de metamorfose, que, até onde eu sei, significa mudança. Se você já tem uma ideia do que é... Bem, imaginem o susto da minha mãe, que era fervorosamente devota a Deus e a tudo que O envolve, quando descobriu que sua filha se transformava em um gato. É... Deve ter sido um choque tremendo. Um gato preto, ainda por cima... Símbolo de mau agouro e de bruxaria. Eu era tudo o que ela abominava.

Eu não sei quando nem como ela descobriu, mas imagino que foi bem cedo. Eu era uma criança indesejada, nem nome tinha. Apenas me chamavam de “chat noir”. Porque era aquilo que eu era. E, sendo um monstro, eu não merecia nem mesmo um nome. Vivi pouco tempo com meus pais, eles sumiram da minha vida tão logo quanto apareceram (assim como a maioria das pessoas). Não conseguiram aguentar o fardo de ter uma filha como eu, e partiram sem dizer se despedir. Não os culpo, porque também não gosto deles. Diria que os odeio, mas eles nem mesmo estão vivos para se protestar. Morreram pouco tempo depois de me deixarem. Já tiveram o que mereciam, castigo divino, ou seja lá o que for. Não vale a pena ficar remoendo esse tipo de coisa. De qualquer forma, as lembranças que tenho de meus pais são pouquíssimas. E uma pior que a outra. Quando eles me vêm à cabeça, imediatamente escuto vozes dizendo que eu era o capeta encarnado, que meu nascimento era um fardo, que eu deveria ser exorcizada. Inclusive, fui exorcizada algumas vezes. Vagando de casa em casa, quando as famílias descobriam o que eu era, me levavam para a igreja mais próxima. O pastor, não vendo nenhuma explicação plausível para o meu problema, dizia que aquilo era obra do Diabo que morava dentro do meu corpo. Lembro que as sessões se exorcismo eram horríveis e demoradas. O pior de tudo era que, no fim das contas, nada mudava. E vendo que meu caso não tinha salvação, me mandavam embora, dizendo que rezariam por minha alma, mas que não havia espaço para mim ali. Passei um bom tempo assim, como uma espécie de nômade, indo de uma casa a outra. Nunca houve espaço para mim em qualquer lugar, e é assim até hoje. Não consigo me encaixar, não importa o quanto tente. É impossível.

Eu era um tanto famosa pelo país. A garota gata. Era assustadora. Os que reconheciam meu rosto na rua passavam longe. Cruzar comigo pelo caminho era a mesma coisa que cruzar com um demônio, se não pior. Eu os odiava. Odiava o modo que me olhavam. Mas mais do que eles, eu odiava a mim mesma. Odiava ter nascido daquele jeito. E, por muito tempo, me culpei. Mas a culpa não era minha. Nunca foi. Eu poderia ter crescido e me tornado uma pessoa boa, ah, eu realmente poderia... Talvez, eu penso, apenas talvez... Se as pessoas desse mundo tivessem me recebido de uma maneira melhor, as coisas pudessem ter sido diferentes. Mas não. Me corromperam antes mesmo que eu pudesse ter noção disso. Ser aceita não era uma opção, assim como ser amada. Afinal de contas, pra quê amar um monstro? Simplesmente não havia razões. Os que eram como eu estavam destinados a sofrer, e tinha de ser assim. Ninguém ousava contestar o modo como as coisas aconteciam.

Não vou dizer que não tiveram pessoas que quiseram ficar comigo. Tiveram sim. Eles eram a família Fairchild. Ricos, influentes, bondosos: resumindo, eram perfeitos, em todos os aspectos. Casal apaixonado e com uma filha brilhante, Cecily. Por que iriam querer acolher uma aberração como eu em suas casas? Ninguém sabia. Mas o fizeram. Quando perguntei a razão – sempre fui uma pessoa sem rodeios –, eles disseram que eu merecia uma família também. Engraçado, porque foram os primeiros (e únicos, diga-se de passagem) a me dizerem isso. E era uma mentira. Mas, na época, fiquei extremamente tocada, e decidi abrir meu coração, pela primeira vez, para eles. Contei tudo o que sentia e tudo o que fizeram comigo durante a minha pequena jornada – eu não deveria ter mais de treze anos, acho. Chorei um bocado naquele dia. A mãe de Cecily me abraçava e chorava junto comigo, enquanto seu pai segurava uma de minhas mãos. Acho que foi a única vez que senti que não estava sozinha. Aquele abraço caloroso, o primeiro que recebi. Nunca vou me esquecer. Estava emocionada, devastada e horrorizada por ter sobrevivido a tudo aquilo. Era difícil demais, e eu era apenas uma criança. Mas, de alguma forma, eu consegui...

Os Fairchild aparentavam ser ótimas pessoas, tanto que eu não acreditava nas segundas intenções deles. Estudaram meu caso (também eram uma família de gênios), e conseguiram algo pra mim. Algo pelo qual sempre serei grata, apesar dos pesares. Conseguiram descobrir um meio de controlar minhas transformações. Antes deles, eu me transformava quando meu corpo achasse conveniente. Mas conseguiram me fazer dominar a minha monstruosidade, e eu finalmente comecei a colocar minha vida nos eixos. Devo ter passado um bom tempo sem virar gato nem uma vez. Sofri uma mudança enorme. Mudança que, na época, foi muito boa para mim. Logo, Chat Noir, a garota gata, havia se tornado uma espécie de lenda urbana. Eu era completamente nova, era tratada como um ser humano, pela primeira vez em minha vida. Estudava, praticava esportes, brincava... Vivia uma vida comum – a vida dos meus sonhos. A família Fairchild me fazia sentir como se eu fosse parte dela. Comecei a me encaixar. Ou, pelo menos, a pensar que me encaixava. Tola. Era isso que eu era. Fizeram-me acreditar que passei de uma criança medrosa, insegura e paranóica, para alguém forte e independente, graças a eles.

Mentirosos.

Foi o que descobri depois, quando a Cecily me contou que o único motivo de seus pais terem me adotado era porque queriam estudar sobre o meu caso. No calor do momento, fiquei com tanta raiva que a culpei por não ter me falado antes, mas depois soube que ela havia descoberto recentemente, pois havia escutado, por acidente, uma conversa entre os dois. Ela foi gentil o bastante para me contar, mas a gentileza não compensava o vazio enorme que se formou em meu peito. Todo aquele falso amor, falsas promessas, tudo o que recebi... Era tudo falso, para me iludir, para que eles pudessem pesquisar mais sobre o que eu era. Não me viam como nada além de uma ferramenta para pesquisa. Me senti destruída novamente. E mais patética do que nunca. De todas as famílias em que passei, eles haviam sido os piores. Piores do que aqueles que me negaram o afeto, eles me fizeram viver uma teia de mentiras. Nunca os perdoei, eram tão ruins quanto meus pais. Talvez até piores. Antes tivessem me rejeitado, eu ficaria mais feliz. Mas tiveram o que mereceram. Descobri suas pesquisas e queimei todas, sem deixar qualquer rastro. Achei que merecia alguma vingança. Estava mais triste do que nunca.

E justo quando eu começava a achar que poderia levar uma vida normal...

Haha.

Hoje eu vejo que era uma idiota. Idiota por acreditar e por tentar me aproximar das pessoas. No fundo, sabia que aquele tipo de vida nunca daria certo para mim. Mas, mesmo assim, resolvi insistir. Era ingênua demais para saber da maldade que vivia dentro de cada um de nós. Só queria ser amada por alguém. Achava que tinham pessoas boas no mundo... Ah, eu estava completamente enganada, novamente. Mas eu era pequena, e crianças não têm noção de como o mundo é um lugar cruel.

A grande verdade é que seres humanos são pessoas detestáveis, que só se aproximam de você por interesse. Não acredite quando dizem que “estão fazendo isso para o seu bem”, porque não é verdade. Qualquer coisa que fizerem por você, é para benefício deles. São egoístas demais para fazer o bem gratuitamente. São egoístas demais para fazer qualquer coisa que não seja por eles mesmos. A humanidade é um lixo. E hoje, mais do que nunca, eu agradeço por ter nascido uma aberração. Odiaria ser da mesma lábia do que eles. Parasitas imundos.

Depois daquele dia, eu nunca mais fui a mesma.

Enfim, antes de dar continuidade a minha história, acho que Cecily merece que eu fale um pouco mais dela. Cecily Fairchild, ou Ceci, minha melhor amiga, indubitavelmente. Apesar de todo o meu ódio pela humanidade, de modo geral, ela é uma das poucas exceções. É uma boa pessoa. Ótima, na verdade. Quando a vi pela primeira vez, meu sexto sentido (chame do que quiser) já sabia que ela se tornaria importante para mim. Era uma garota linda, com longos e ondulados cabelos ruivos e olhos azul-escuros intensos. Pele pálida e um rosto inexpressivo. Era um ano mais velha que eu. Cecily não gostava dos pais, ou da vida de aparências que levava – eu não entendia o porquê, na época, estava completamente fascinada com eles para acreditar em sua verdadeira natureza. Era bastante calada, passava a maior parte do tempo trancada no quarto, estudando sobre biologia marinha (era uma grande fã de baleias belugas). E gostava de ser desse jeito. Lembro que dividíamos o mesmo quarto, e eu costumava observá-la lendo e fazendo anotações. Passamos um bom tempo desse jeito, sem trocar palavras uma com a outra. Eu apenas a admirava em silêncio, imaginando o quanto ela deveria ser incrível. Não parecia se surpreender ou se distrair com nada, sempre compenetrada em suas pesquisas, vivendo em um mundo completamente diferente do meu.

Quando me descontrolei e me transformei em gato em sua frente, pela primeira vez, ela parou de estudar e virou-se para mim. Fiquei com medo de que se assustasse, mas, ao invés, fez um gesto para que eu me aproximasse e fosse para o seu colo. Acariciou minha cabeça gentilmente, como se fosse minha mãe. Eu ronronava, em gratidão. Tinha mãos delicadas e carinhosas.


– Se eu fosse que nem você, garotinha, eu fugiria. – Me encarava, lastimosa, passando os dedos suavemente em meus pelos. Seu tom de voz era melancólico, assim como a própria Cecily era. Sofria bastante pressão para ser a filha perfeita, para aparentar ser perfeita na frente dos outros. Vivia presa nessa perfeição inexistente. O único momento em que se sentia feliz era quando estava confinada no quarto. – Seria livre, andando pelas ruas. Faria o que sempre quis fazer. Você tem tanta sorte...



Foi a primeira vez que vi Ceci ser honesta em relação ao que sentia, a primeira vez que soube que ela tinha depressão também – por serem uma família rica, faziam com que ela frequentasse terapia, mas escondiam isso, pois chamaria muito a atenção dos enxeridos, também tomava remédios para controlar as crises (nem sempre dava certo, e as crises dela eram bastante intensas, devo dizer; tentara se matar pelo menos quatro vezes enquanto estive lá). Depois desse dia, sempre me procurava quando queria conversar; não gostava da terapeuta, preferia falar comigo. Falava tudo para mim, constantemente chorava, também. Eu não entendia, e também não fazia ideia de como deveria aconselhá-la, mas ela dizia que eu era uma boa ouvinte e que isso era o bastante. Talvez eu realmente fosse, pois carregava comigo um fardo grande, ainda maior que o dela. Eu a entendia. Era a amiga com quem podia contar; a única que tinha. Me ensinava muitas coisas em seu tempo livre, se sei tanto sobre vida marinha atualmente, é bem provável que seja por causa dela. Nem preciso dizer que não demorou nem um pouco para começarmos a passar a maior parte do tempo juntas. Eu era como sua irmã mais nova. Criamos um laço forte, inquebrável. Eu e Cecily éramos unha e carne. Acho que ela foi a única razão pela qual não abandonei os Fairchild. Não sei se teria ficado com eles se Ceci não estivesse lá. Talvez sim, porque eu era boba. Mas isso não vem ao caso. Ela era como meu ponto de equilíbrio, e eu era o dela – ou, pelo menos, tentava ser, na medida do possível. Nos protegíamos. Fazíamos esgrima juntas, gostávamos de lutar uma com a outra. Foi uma época divertida. Ceci nunca me negou um ombro amigo quando precisei, sou muito grata a tudo que fez por mim, até hoje. Sem ela, eu provavelmente não seria metade da pessoa que sou. E, sem mim, ela provavelmente teria se matado. Meu maior receio, quando parti, era que algo assim acontecesse, tinha medo de não estar lá quando ela tentava se entupir de remédios para sofrer uma overdose, ou tentasse se enforcar. Por isso, nunca a deixei, mesmo quando fui embora.


Depois do que ela me disse, eu simplesmente não podia mais ficar naquela casa. Não era rato de laboratório de ninguém. Tinha quinze anos na época, mas sempre fui uma garota independente. Sabia me virar sozinha. Seria estranho se não soubesse, pois sempre fui sozinha. Daria um jeito de sobreviver nas ruas; só havia vivido dois anos em uma casa fixa, não era tempo o bastante para me fazer perder os velhos costumes. Lembro do último abraço que dei em minha irmã. Não costumo gostar de palavras que são relacionadas com a família – fui traumatizada demais com isso. Mas Cecily era minha irmã. Ainda é. E eu a amo como se fosse sangue do meu sangue. Mataria por ela, se fosse necessário.


– Me prometa que continuará vindo me ver, mesmo que às vezes. – Murmurou Ceci, aos prantos, com lágrimas escorrendo de seus olhos incessantemente. Limpei-as com meu dedo indicador. Envolvi-a em um abraço caloroso e apertado. Era madrugada, e eu não queria acordar ninguém, mas com aquela choradeira tudo ficava mais difícil. – Como eu vou ficar sem você aqui?


– Fique bem. – Pedi. Não chorei, mas estava com um nó enorme na garganta. Embora meus olhos estivessem marejados, tinha que me manter forte. Se me fragilizasse, provavelmente tornaria as coisas piores para ela. Encarava seus olhos azuis, que antes pareciam alegres. Agora, estavam repletos de tristeza, como da primeira vez que a vi. – Nós continuaremos nos falando, Ceci. Não se preocupe, e não faça nada que eu não faria, entendeu?

– E se eu entrar em crise? – Questionou. – Você não pode me deixar, Noir... Não pode...

– Aqui nunca foi o meu lugar, Ceci. – Afastei-me, interrompendo o abraço. Encarei-a, com seriedade. Ela teria de entender aquilo, por mais difícil que fosse. O recinto foi tomado por um silêncio cortante, eu apenas a encarava com preocupação, e ela tentava parar de chorar. Eu queria chorar também, mas estava disposta a não derramar uma lágrima até sair dali. Finalmente, tomei coragem e disse: – Tente não entrar em crise, tome seus remédios, faça tudo direitinho. Seja boazinha. Eu vou ficar bem, me prometa que você também vai. Vou tentar dar as caras de vez em quando.

– Tudo bem. – Respondeu-me, relutante. Limpou as lágrimas grossas do rosto com a manga da blusa. Nunca vi Cecily chorar daquele jeito.

– Até algum dia, Ceci. – Dei um sorriso doloroso, ela acenou, em despedida. – Se cuida.


Virei gata e saltei pela janela. Olhei para trás a ponto de ver minha irmã acenar para mim, fazendo esforço para sorrir no meio daquela expressão deprimida. Logo que me afastei o bastante, virei humana novamente. Comecei a chorar sem nem mesmo perceber. Entrei num beco qualquer e sentei por lá; não queria ser vista, de jeito nenhum. Deixar Cecily era difícil demais para mim. Sentia raiva dos Fairchild, por tudo o que me fizeram. Chorava de tristeza e de ódio. Chorei, chorei e chorei a noite inteira. Como se estivesse descarregando tudo o que fizeram comigo até ali. Fazia tempo que eu não me sentia tão derrubada. Parecia que eu estava, finalmente, acordando de um sonho bom. Mas, naquele dia, eu resolvi que não seria mais a inocente e bondosa Chat Noir. Eu mudei. Não sei o quê me deu, mas virei uma pessoa completamente diferente quando o sol raiou. Comecei a usar minhas habilidades de gata – bons reflexos, rapidez, garras e dentes – para meu próprio benefício. Eu assustava os outros virando aquele animal traiçoeiro na frente de seus olhos para conseguir dinheiro, comida e tudo o mais que eu quisesse. Todos tinham medo de mim. E com razão. Tinha ódio demais dentro de mim; ódio que eu já não fazia mais questão de conter.


Me tornei uma aberração. Comecei a ganhar a vida com furtos, me envolver com drogas (lícitas, não se preocupe, eu só fumava e bebia), a estudar cada vez mais o comportamento dos seres humanos. Finalmente descobri suas fraquezas. E fiquei fascinada. Fascinada por destruir aqueles que um dia descobriram tudo o que eu podia ter. Eu acabava com tudo e com todos que cruzassem meu caminho, sem sentir nenhuma culpa. Eu temia a mim mesma, e ao que eu era capaz de fazer. Matérias sobre mim saíam constantemente nos jornais, por causa das atrocidades que eu cometia. Adoraria falar mais delas por aqui, mas são coisas cruéis demais para narrar. E levaria bastante tempo. Mas, antes que queira saber, não me arrependo de tê-las feito em momento algum. Eu era uma garota buscando vingança, e todos os meus feitos me fizeram mais forte, mas eu não quero que ninguém me julgue por eles. São coisas que só cabem a mim. E só minha mente entenderia porquê as fiz. Não me leve a mal.

Ninguém nunca me pegava. Eu era invencível, era admirada em silêncio. A polícia e até fiscais mais fortes e importantes buscavam por mim. Mas eu era muito boa com disfarces, nunca me encontraram. Eu tinha todos na palma da minha mão, manipulava-os como se fossem meus fantoches. Tinha a vida que todo o criminoso gostaria de ter. Sabia manusear qualquer coisa que tivesse em mãos para que se tornasse uma arma em potencial. De armas de fogo até pequenas facas, eu sabia usar qualquer coisa. Vivi um banho de sangue por, pelo menos, cinco anos de minha vida.

Mas eu gostava. Gosto até hoje. A textura, o cheiro, a cor. Sangue é uma das coisas mais belas que já vi em minha vida. Em especial, sangue de seres humanos. Eu não me importava de estar coberta nele. Era extremamente prazeroso. Também não me importava com o sofrimento. Muito pelo contrário. Adorava os gritos agonizantes, adorava os rostos se contorcendo de dor, adorava sangue fresco. Era doente por isso, praticamente sedenta. Posso dizer que ainda sou, embora não tanto quanto antes. O sofrimento dos outros se tornara algo extremamente bonito para mim. Era dramático e adorável. Lindo. Como uma peça teatral! Era o preço que eles tinham que pagar por tudo o que me fizeram. E era revigorante! Um espetáculo! Me senti compensada, por muito tempo. Me satisfazia ao ver corpos gelados e caídos no chão. Ao ver que aqueles que me entristeceram um dia já não mais respiravam, uma sensação ótima brotava em meu íntimo. Eu estava paz. E finalmente parecia feliz comigo mesma. A solidão havia se tornado uma amiga de longa data. Havia se tornado aconchegante. Assim como a escuridão, que me confortou e escondeu minha culpa sempre que precisei. Eu gostava de tudo o que os outros consideravam ruim e amedrontador. Me identificava com aquelas coisas. Eu era tão ruim quanto elas, afinal de contas.

Nunca me importei de ser má, também. Nunca se importaram com o que eu sentia, por que eu deveria bancar a misericordiosa àquela altura? Eles não mereciam. A única coisa que mereciam era a morte. Eu não os perdoaria, nunca. A culpa era toda deles. Dos que me olharam torto, dos que me trataram como lixo, dos que me criticaram. Eles queriam um monstro, não queriam? Eu dei esse monstro a eles. E, agora, eles se mostravam arrependidos? Ah, façam-me o favor. Humanos são patéticos. Queriam se mostrar fortes, dizendo que não se importavam com o que eu faria com eles, mas se humilhavam quando estavam em perigo. Imploravam por piedade, pediam perdão de joelhos, choravam desesperados. E eu só conseguia rir. Rir do quanto eles eram miseráveis. Talvez Deus fosse ter piedade deles, quando morressem. Mas eu não teria. Piedade era coisa de gente fraca. Era ridículo. Ninguém ali seria perdoado por mim. O estrago já estava feito. De nada adiantaria o meu perdão. Nada mudaria o que eu era, o meu passado, o que eu havia passado para chegar atéali. E eu achava que iria continuar daquele jeito até meus últimos dias de vida. Não me incomodava; honestamente, talvez eu até quisesse que fosse daquele jeito.

Mas não foi.

Conheci Vicenzo numa mesa de bar imunda, numa madrugada congelante, noite sem lua. Clima horrível, honestamente, para conhecer o cara que mudou a minha vida.

Eu estava fumando meu cigarro silenciosamente, quando ele entrou. Estava bêbado demais para conseguir andar em passos firmes, parecia que iria cair a qualquer momento. E o fez. Ria como um idiota. Ao levantar-se, com dificuldade, e nossos olhos se encontraram pela primeira vez. Eu sou bastante clichê, fã de carteirinha de romances bregas, e adoraria dizer que o que ele sentiu foi amor a primeira vista, mas imagino que sua visão estava turva demais para ver meu rosto e se apaixonar logo de cara. Mas ele se interessou, disso eu tenho certeza, pois se aproximou sem hesitar. Haviam outras mulheres no bar, mulheres mais bonitas do que eu, mais limpas e mais interessadas do que eu, também, mas ele não quis nenhuma delas. Sentou-se do meu lado, e pediu bebidas para nós dois – sem nem pedir permissão antes, mas ele era assim, gostava de tomar decisões sem se importar com o que os outros pensavam, dizia que essa era sua melhor qualidade. Estava de terno, o que dava a impressão de que ele era alguém importante. Depois, eu descobri que ele, de certa forma, era bastante importante. Nossas bebidas não demoraram pra chegar, e ele não disse nada enquanto esperávamos, apenas me observava fumar, com interesse. Estranhamente, eu não me incomodei, talvez porque estivesse tendo um dia bom, para os meus padrões. Nunca soube o que se passou na cabeça dele durante aquele intervalo de tempo. E nem ele. Estava bêbado demais para lembrar. Sempre que eu perguntava, ele me dizia coisas bonitas – afinal, era um galanteador nato, típico italiano. Mas eu sabia bem que nada daquilo era a verdade. Provavelmente a verdade envolvia conseguir sexo fácil. Mas não queria essa verdade, então preferia acreditar nas coisas bonitas e poéticas que ele dizia.

Depois do primeiro gole, ele finalmente se apresentou.


– Meu nome é Vicenzo. – Falava um pouco embolado, provavelmente porque estava bêbado, mas pude notar seu sotaque italiano e voz musical. Tinha um sorriso estupidamente bonito. Seus cabelos eram dourados e os olhos castanhos, seus traços eram fortes e másculos. Ele era estupidamente bonito. E simpático. Sua beleza me embasbacava. Beijou minha mão, como um cumprimento. – Vicenzo Herschello. E o seu, bella*?


Piacere**. – Respondi. Sabia algumas palavras em italiano. Ele sorriu. – Eu não tenho nome. – Fui honesta. Nunca tivera um nome, mesmo. Os Fairchild me chamavam de Noir (Noah). Vicenzo parecia um tanto surpreso com a minha resposta, talvez porque eu não estivesse sendo irônica nem nada.


Depois do olhar surpreso, ele retrucou:



– Não tem nome? Por quê?


– Eu nunca precisei de um. – Disse, dando um gole em minha bebida. Apaguei a ponta do cigarro com os dedos, sem me importar com a dor, e coloquei o que sobrou dele no cinzeiro.


O silêncio entre nós pairou, mas logo foi interrompido.



– Você deveria se chamar Cora. – Ele retirava um maço de cigarros do bolso, enquanto buscava o isqueiro no outro.


– Ah, é? – Ri. – Por que Cora?

– Cora era uma das deusas mais bonitas da mitologia romana. – Colocou o cigarro na boca e acendeu-o, sem parar de me encarar. Parecia hipnotizado. E eu também estava. Era o homem mais bonito que já vira na minha vida. – E você é como ela."


_


*Bela, em italiano, embora ache que todos saibam.

*Prazer.

Ah, e imaginem o Vicenzo desse jeito:

\"\"

Notas finais
Finalmente, né? ÇA~SDASDÇS]~Ç]SÇD
Bom, eu gosto desse capítulo. Acho que é meu capítulo favorito? :3 Idk, foi muito bom escrevê-lo, eu estava super empolgada. q
Como eu disse, vai ser dividido em duas partes, mas eu acabei de introduzir um personagem importante, o Vicenzo. ♥ Acho ele muito belo. ÃSÇÇ]~SDÇ Não resisti em fazê-lo italiano, porque eu amo italianos.
Eu não sei o quê vocês vão achar da CN agora. Eu, particularmente, gosto dela. Bastante. Ainda mais depois de ver o quanto ela sofreu. ;o; (aquelas que se surpreendem com o que escreveram -qq)
O segundo capítulo sobre ela vai ser menos triste, imagino, ou não. ]~ÇASDÇÇSD Gosto de drama T3T E também vai ser o que vai ter mais peso na história. Aqui, eu só queria mostrar como ela se sentia, a história dela quando ela era pequena, e com a Cecily também. :~
Enfim, é isso, eu não sei mais o que falar. AÇ]~SDÇ O capítulo me esgotou, é.
Mas, de novo, obrigada por me acompanharem até aqui. Vocês são muito importantes pra mim, mesmo ♥ Espero que estejam gostando.
Até o próximo capítulo.
:*