Walkers (Hiatus)
19 Nobody's Home
Notas iniciais
Ela quer ir pra casa, mas não há ninguém em casa
É aí que ela se encontra, destroçada por dentro
Sem ter para onde ir
(Nobody's Home)
*Narrado por Carl Grimes
É incrível como um momento estamos bem e em outro estamos mal. Parece que o perigo e a morte correm ao lado do nosso grupo. Nunca conseguimos ficar seguros em um lugar, nunca conseguimos alimentar nossa esperança sem que algo de ruim aconteça.
Dessa vez não fomos jogados em um contêiner qualquer no meio do pátio, agora sinto até um pouco de falta dele. Estamos amarrados em uma sala enquanto esperamos por Gareth e suas ordens. Marcus e seus homens trouxeram sobreviventes que estavam em outros contêineres para que possamos ver o que acontece quando se procura abrigo no Terminus.
Dois homens e duas mulheres tiveram os pescoços quebrados e rasgados sem nenhuma piedade. Pelo visto, isso é normal por aqui, já que nenhum dos caras que assassinaram aquelas pessoas mostraram nenhum tipo de sentimento ao matá-las tão cruelmente.
— Rick, Rick. Nos encontramos mais uma vez, não? — pergunta Gareth quando chega à sala, andando ao redor de nós. — Sinto muito te dizer, mas não vou deixar que você fuja como na ultima vez. Nós precisamos de comida, Rick. Não é nada pessoal, espero que entenda.
Nada pessoal. Como se ele não pudesse impedir que aquelas pessoas fossem mortas... Eu até entendo que a comida do mundo está escassa e que está cada vez mais difícil encontra-las, mas comer pessoas para acabar com sua fome? Isso é desumano. Poderia compará-los com errantes, mas pelo menos os zumbis estão mortos e não pensam no que estão fazendo. Essas pessoas tem a plena consciência de que estão fazendo algo errado e que estão matando os poucos sobreviventes que existem.
— Antes de fazer o que eu quero, preciso que vocês me digam onde estavam morando. Vocês ficaram sumidos durante muito tempo, devem ter um lugar fixo e seguro. — Ao notar que ninguém vai responder, Gareth ameça. — Também percebi que nem todos do seu antigo grupo estão aqui, será que morreram? Hum, acho que não...Seguros como vocês são é difícil imaginar uma coisa dessas. Eu vou dar uma chance pra vocês, é só falarem onde estão abrigados que eu poupo a vidazinha do resto do grupo que está lá.
— Chefe, eles não vão falar. Será que a gente pode começar com as brincadeiras? — pergunta Marcus.
— É, pelo visto não. Esses aí são mais fiéis do que todos que passaram por aqui, mas deve ter alguém que não aguenta a pressão. Levem esse aqui, ele parece ser fraco. — Gareth aponta para Eugene, que parece um pouco nervoso. — Mais tarde eu volto para ver como meus amigos estão.
Depois de um tempo, Eugene volta para a sala, desmaiado. Ele é jogado em um canto como se fosse um saco de lixo, não parece nada bem. O homem nem está mais amarrado, como se não fosse mais uma ameaça para o Terminus.
— Esse aí passou por muita coisa, mas já nos disse o que precisávamos. — Marcus dá um sorrisinho enquanto nos informa. — Uma fortaleza, né? Vamos ver se ela é tão segura assim. Ah! Olha só o que encontramos aqui também.
Todas as esperanças que eu tive de que Eugene ficasse calado e não contasse nada sobre nosso abrigo foram embora. Agora eles sabiam. Eu poderia não estar tão aflito, já que Daryl estava lá para proteger Judy, Cath e os outros, mas quando o mesmo é carregado para dentro da sala e amarrado como nós, não me resta nem mais uma dúvida: eles estão em perigo.
— O que você está fazendo aqui, Daryl? — questiona meu pai.
— Tyreese disse que vocês tinham sido capturados de novo e eu vim dar uma olhada, quem sabe até matar todo mundo. Cath veio comigo, mas pelo visto ela ainda não foi pega. — ele explica. — Menina esperta.
— Você trouxe Cath?! E ainda deixou a garota sozinha lá fora? — o xerife pergunta.
— Por favor, Rick. Você mesmo sabe que ela tem mais capacidade pra tirar a gente daqui do que qualquer outro. — Glenn afirma, entrando na conversa.
— Tudo bem, tudo bem. — meu pai concorda. — Carl, você poderia pegar uma faca que está dentro do meu tênis e tentar cortar essas cordas?
Enquanto corto as cordas que prendem meu pai, Michonne pergunta.
— E depois?
— Depois, eles vão descobrir que mexeram com as pessoas erradas.
*Narrado por Catherine Miller
Por anos eu convivi com uma garotinha ruiva que chegou ao orfanato recém-nascida. Até hoje não entendo o que leva as pessoas a abandonarem seus filhos sem ao menos tentar conhece-los primeiro. Essa garota, que diziam ser minha irmã de criação, já que cuidei dela desde o dia que ela chegou, foi adotada aos seis anos e depois disso nunca mais a vi. Não queria que ela fosse tirada de mim, mas entendia perfeitamente que ela iria ter um futuro melhor do que o que eu estava tendo, então foi o melhor para ela.
Não entendo como e nem porque, mas essa mesma garota está na minha frente, sorrindo enquanto olha minha cara de espanto, no meio de um apocalipse zumbi, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Emma?
— Quem você achou que fosse, gatinha? — ela pergunta, sorrindo.
Corro para abraçá-la, também com um enorme sorriso no rosto. Ela se ainda se lembra de como me chamava, mesmo depois de todo esse tempo.
— Você cresceu, ruivinha! Mas ainda não está maior do que eu. — provoco, enquanto a olho de cima em baixo, tentando derrubar minha ficha de que ela ainda está viva.
— Ei, eu só tenho 11 ou 12 anos. Você deve estar com uns 20. — Emma entra na brincadeira.
— O que você faz aqui, Emi? Você não devia estar em Nebraska? — pergunto. Era lá que sua família adotiva morava, então ela devia estar por lá. Mas, pensando bem, eu devia estar em Montana, que é bem mais longe do local onde estamos.
— Aquela velha história, Cath. Viemos procurar abrigo e depois eu acabei parando aqui, assim como você, suponho.
— É, tem razão. Mas, o que você faz aqui? Exatamente aqui? — falo, indicando o Terminus.
— Quando meus pais morreram, eu fiquei sozinha e Gareth acabou me encontrando. A partir de então eu estou morando aqui, com essas pessoas horríveis. — explica, em um tom triste.
— Sinto muito. Deve ter sido bem difícil, sabe, conviver com canibais.
Ela dá uma gargalhada e começa a andar em círculos. É incrível como ela cresceu e nem parece mais aquela garotinha ruiva e magrela que passava tanto tempo comigo.
— Você está com o grupo daquele homem, não é? Rick? Deve ser isso. — ela diz. — Então você deve saber de muita coisa sobre eles, os caras do Terminus.
— Sei o suficiente e já estou muito chocada.
— Pois é. — ela para de andar e fica olhando para o horizonte, como se estivesse pensando em alguma coisa. — Vocês estão em uma fortaleza, né?
— Como você sabe disso? — pergunto.
— Um dos homens, Marcus, torturou um cientista e ele acabou contando onde vocês estavam abrigados. — responde Emma, notando minha cara de espanto — Isso é mal, né?
— O que mais você sabe? Esse Gareth vai atrás da fortaleza? Ele vai matar o Rick e os outros? O que mais você sabe, Emma?
— Calma, gatinha. Uma pergunta de cada vez. Ele mandou alguns homens irem até esse lugar pra acabar com tudo, espantar vocês de lá. Gareth nunca teve piedade com ninguém, então não sei porque ele está fazendo isso. — ela pensa mais um pouco. — Pelo visto ele está tramando alguma coisa contra o seu grupo que está preso lá dentro, então espero que você tenha um plano logo.
Nem penso em mais nada, começo a andar rumo a fortaleza, pelo mesmo caminho que Daryl havia me ensinado no caso de alguma emergência. Bem, essa era uma emergência. Mesmo não tendo encontrado Gareth, sei do que ele é capaz e não quero nem imaginar no que ele possa fazer com Judy e os outros caso chegue a fortaleza.
— Catherine Grace Miller, onde é que você pensa que vai? — questiona Emma, andando ao meu lado.
— Eu preciso chegar lá antes deles e avisar todo mundo. Eu estou realmente surpresa e feliz em te encontrar, Emma, mas se você não puder me ajudar, eu vou entender. Eu só quero que você me entenda, eu preciso salvar minha família. — digo, sem olhar para a menina.
— Família... Não escuto essa palavra a muito tempo. Então agora você tem uma família? Até que enfim, não? — diz ela. — Foi preciso o mundo acabar pra você encontrar alguém, gatinha? Que decadência.
— Emma, você sabe que eu te amo, mas acho melhor você calar essa sua boca, a não ser que queira perder alguns dentes.
— Ui, ui, ui! Algo me diz que devo ficar com medo. — a garota dá uma risadinha. — Amo muito meus queridos dentes e não quero perde-los, obrigada. Ai, eu estava com tanta saudade de ter alguém pra implicar! Até que enfim você chegou, Cath.
Entramos rapidamente na fortaleza, que ainda não foi destruída por Gareth e seus homens. Digo para Emma ficar no pátio, vigiando, enquanto vou até a casa para avisar os outros.
— Maggie! Tara! Sasha! — grito ao chegar a sala.
— O que foi, Cath? Por que está gritan... Cade o Daryl? — pergunta Sasha, descendo as escadas.
— Longa história. Olha, nós estamos correndo perigo e a gente tem que sair daqui agora. — digo, resumindo tudo de uma só vez.
— Por que? O que aconteceu? — fala Maggie, assim que chega até a sala.
— Tyreese já deve ter explicado que o Rick e os outros foram pegos. Daryl e eu fomos dar uma olhada no Terminus, mas ele sumiu e acho que ele também foi capturado. — explico. — Gareth obrigou Eugene a contar onde nós estamos e ele vai destruir esse lugar, então a gente tem que sair daqui o mais rápido possível.
— Ele fez alguma coisa com Eugene? Como ele teve coragem? Eu vou matar esse desgraçado! — explode Abraham, pegando sua arma.
— Ainda não sei bem o que foi, mas logo vamos descobrir. — digo. — Será que dá pra vocês andarem logo, por favor? Eu não quero morrer hoje.
Quando todos começam a pegar suas coisas, armas e comidas, escutamos tiros sendo disparados do lado de fora e uma Emma enlouquecida chega a sala.
— O que essa menina está fazendo aqui? Ela é irmã do Gareth! Ela é irmã do homem que quer nos matar! — pergunta Sasha.
— Eu não sou irmã dele! Eu fui praticamente arrastada para aquele lugar. Eu estou com vocês. — Emma explica, e depois olha para Abraham. — Gostei do seu cabelo!
— Foco, Emma! Quantos são? — falo, tentando tirar a atenção da garota do cabelo de Abraham.
— Três carros, seis homens ao todo. — ela responde, ainda olhando para o ruivo. — A cerca já arrebentou e tem uns trezentos mil zumbis no pátio. Espero que vocês tenham outra saída.
— Já pegaram tudo? — pergunta Maggie.
— Entalados, armas...
— Cade a Judy?! — digo, já subindo as escadas em direção ao quarto, sem nem ouvir uma resposta.
Ao chegar ao berço, noto que a pequena Grimes está tendo um sono tranquilo, como se nem estivesse ouvindo a guerra que se desenrola do lado de fora. Pego a bolsa onde coloco suas coisas e guardo dentro da mochila que Michonne trouxe para mim. Acordo Judy e a tiro do berço, colocando-a em meus braços e descendo para encontrar os outros.
— Eles já foram. — informa Tyreese assim que chego a sala. Percebo que os tiros que antes eram notados nitidamente, não são nem mais ouvidos agora.
— O pátio está tomado e não temos nenhuma outra saída a não ser essa, não é Cath? — pergunta Maggie.
— Não. Vamos ter que enfrentar os mortos mais uma vez. — falo.
— Como se já não estivéssemos acostumados... — diz Alberto, dando uma risada.
— Quem vai primeiro? — exclama Tyreese, segurando a porta.
— Ah, por favor. Deixem o mestre passar. — se gaba Thomaz, preparando sua faca para lidar com os errantes.
Quando a porta é aberta e milhares de zumbis aparecem, Thomaz a fecha rapidamente e volta para dentro da sala.
— São muitos até para o mestre aqui. Abraham, por favor, faça as honras! — diz ele, arrancando gargalhadas de todos até em um momento como esse.
O ruivo passa pela porta, derrubando qualquer errante que aparece em sua frente, e depois vão os outros. Depois de quase todos passarem, vou com Judy, no meio do grupo para que ela fique protegida. Todos preferiram usar armas brancas para não atrair mais zumbis do que o necessário, então alguns se livram facilmente e outros nem tanto.
Tara é cercada por cinco errantes e eu saio do meio do grupo para ajudá-la. Emma grita para que eu volte, mas não a ouço, Tara faz parte de nós agora e sempre devemos ajudar os amigos. Nós duas lidamos facilmente com os zumbis que antes a cercavam e voltamos para a formação.
— Obrigada. — sussurra ela.
Quando chegamos a floresta, longe da fortaleza, descansamos um pouco. Mais uma vez tivemos sorte e conseguimos escapar sã e salvos.
— E agora? — pergunta Alberto, limpando sua faca na calça manchada de sangue.
— Agora nós vamos para o Terminus e salvamos nosso grupo. — resume Sasha.
— A fé de vocês é incrível, mas acham mesmo que vai ser tão fácil assim? — diz Emma, olhando fixamente para Judy.
— Nós precisamos tentar. — digo.
— Eu sei, eu sei. E é por isso que eu estou aqui e vou ajudar. Eu conheço cada canto daquele lugar, cada passagem, cada trilha, cada sala. Não vai ser uma luta fácil, mas quem é que disse que sempre é? — fala a menina.
— Tudo bem então. Nós vamos para o Terminus e até lá vamos pensar em um plano pelo menos rasoável pra tirá-los de lá. — completa Alberto.
— E nós vamos conseguir, assim como conseguimos da ultima vez. Vamos salvar nossos amigos e acabar com aquele lugar, assim como eles fizeram com a nossa casa. — explica Maggie.
A cada dia que passa, percebo que você não precisa estar em uma família de sangue para ser considerada parte de uma. Essas pessoas, que nunca se conheceram antes, nunca se viram antes, agora fazem parte do mesmo grupo, da mesma coisa. Elas agora dão a vida para proteger uns aos outros, elas se importam uns com os outros.
Mesmo não possuindo um abrigo fixo, uma certeza de que algo irá acontecer, continuamos indo em frente, continuamos tentando sobreviver. E, se um não está em casa, se um não está bem e seguro, nenhum de nós está.
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