Walkers (Hiatus)
16 Entirely Alone
Notas iniciais
Quem me dera saber o que ia acontecer, eu poderia me despedir de uma forma melhor.
Suspirei e admiti que o cansaço que preenchia meu corpo era devido às horas em que Carl, Thomaz e eu havíamos ficado conversando ontem à noite. Depois de desabafar sobre nossas vidas antigas, resolvemos falar sobre coisas que nos traziam alegria. O que estaríamos fazendo caso o mundo não tivesse sido tomado por mortos-vivos, por exemplo. Thomaz estaria estudando para ser médico, apesar de só ter 15 anos. Não queria seguir a profissão do pai, mas o faria para agradá-lo. Já Carl não sabia muito bem qual seria seu futuro. Quando tinha cinco anos, ele queria ser cientista, aos sete, queria ser policial assim como o pai. Disse-lhes que eu estaria estudando para ser bióloga ou até uma professora, assim como Samantha. Hoje já não sei mais nada, afinal, a única profissão que posso seguir é ser uma sobrevivente. Não existem mais opções. Depois de conversarmos muito, cada um foi para seu canto, descansar.
Joguei uma água no rosto para acordar de vez e desci, esperando encontrar todos tomando o café da manhã. Para meu azar, a casa estava vazia e silenciosa. Estranho. Só podiam estar no pátio resolvendo alguma coisa, então fui até lá. Pude observar um amontoado de pessoas ao redor do estábulo improvisado de Ozil, que incrivelmente estava lá, o que significava que Michonne também. Só foi ver uma cabeça cheia de dreads que um sorriso apareceu em meu rosto. Lembrei-me do dia anterior, quando dissemos ao Carl que ele poderia aderir ao estilo samurai de Mich e amarrar os cabelos como ela. Não pude segurar uma risada, o que atraiu a atenção de todos.
— Cath! — ouvi a voz da mulher, enquanto as pessoas abriam passagem. — Trouxe uma coisa para você.
Dei uma olhada em todos, que estavam segurando várias coisas. Carl tinha uma sacola recheada de gibis, Thomaz segurava uma bola de futebol velha, Judy brincava com uma boneca Barbie, Maggie admirava um par de botas e Rosita carregava vários entalados, assim como os outros. Depois de dar um abraço em Michonne, ela me entregou uma mochila roxa. Estava pesada, então supus que continha muitas coisas, ou algo muito pesado. Mich pediu para que eu desse uma olhada depois, pois as coisas poderiam sujar caso caíssem no chão. Notei que Carol não estava conosco, o que me fez sentir uma pitada de tristeza.
— Carol ainda está trancada no quarto? — perguntei a Rick.
— Sim. Acho que terei que conversar com ela mais tarde. — o xerife respondeu. — Ela não comeu a sopa que você levou ontem?
— Como ela não abriu a porta, resolvi deixar no chão, caso ela mudasse de ideia. — expliquei.
— Ela não comeu. Enquanto ia para o meu quarto, vi o prato no chão e levei para a cozinha. — afirmou Maggie, retirando mais entalados de dentro das sacolas e entregando a Gleen.
— Não fique triste, Cath. Ela vai melhorar logo. É só uma fase. — afirmou Tyreese, notando minha decepção.
— Nós vamos fazer uma ronda daqui a pouco. Será que você poderia ficar cuidando da Judy enquanto isso? — pediu Rick.
— Claro. — concordei. Como se entendesse perfeitamente o que o pai tinha dito, a bebezinha começou a se agitar nos braços de Tyreese.
— Parece que alguém gostou da notícia. — disse ele, entregando-me Judy.
XxX
Antes dos outros irem para a ronda, Eugene pediu a Rick que o deixasse fazer uma experiência em um dos errantes. Ele jurou que o deixaria amarrado e longe de nós, o que fez com que o xerife concordasse. Ele pegou um dos zumbis que estavam vagando pela grade e trouxe para dentro da fortaleza. Michonne decepou os braços do morto-vivo usando sua katana, para que ele não conseguisse arranhar Eugene. Pude ver quando ele amarrou o errante em uma espécie de pilar de sustentação que havia sido fincado perto da parede, no pátio. O homem/zumbi era ruivo, suas roupas estavam rasgadas e sujas devido ao tempo, parecia ter sido morto no começo da epidemia.
Metade de mim queria tirar aquela criatura dali na mesma hora, para evitar qualquer problema. Só que Eugene era uma pessoa inteligente e estava tentando descobrir mais sobre a cura, o que me levou a acreditar e confiar que, se ele estava fazendo aquilo, era por um bom motivo. Levei Judy para dentro quando ele começou a abrir a barriga do zumbi, bem onde havia uma mordida, que provavelmente o transformou em errante.
Entreguei Judy para Carl, que lia alguns de seus novos gibis. Enquanto saía da sala, ouvi o menino começar a ensinar algumas palavras para a irmã. Ela ainda não sabia pronunciar o nome dele, já que era um pouco difícil até para adultos, então ele não sossegaria enquanto não a ouvisse falar pelo menos uma vez. Fui para meu quarto, abrir a mochila que Mich havia me dado. Notei que a porta do quarto de Carol estava entreaberta, como se ela tivesse saído. Me senti um pouco feliz.
Ao chegar ao meu dormitório, peguei a mochila que estava jogada encima da cama e a abri. Continha dois livros, sujos e com a capa amassada, mas nada que uma boa reforma não possa mudar. Um caderno preto e com folhas amareladas, provavelmente era um diário. Tinha uma máquina fotográfica daquelas bem antigas, que seria bem útil. No fundo da mochila achei uma bolsa pequena e de veludo, que guardava um colar de coração, daqueles que podemos guardar duas fotos. Lembrei-me de quando tinha um relicário daquele. Havia ganhado da minha amiga Ana, em meu aniversário de nove anos. Em um dos lados do colar tinha uma foto minha e dela, em nosso passeio ao zoológico, no outro lado havia uma foto minha com a diretora do orfanato, Lily. Lembro-me bem que insisti tanto para que ela me deixasse tirar uma foto sua que acabou cedendo. Aquele novo relicário seria uma boa forma de guardar duas pequenas lembranças.
Peguei a máquina e saí do quarto, disposta a tirar fotos de tudo que achasse, principalmente das pessoas. A porta do quarto de Carol ainda estava entreaberta e notei que ela ainda não tinha voltado. Acho que isso era um bom sinal. Andei pela fortaleza e a encontrei conversando com Daryl, que logo nos deixou a sós. Ela tinha um sorriso tão lindo que não me segurei e tirei uma foto sua.
— Agora virou fotógrafa, querida? — Carol me perguntou enquanto analisava a foto, depois a estendeu para mim. — Ficou muito boa.
— Que bom que você está melhor. Eu fiquei muito preocupada. — respondi num tom triste.
— Eu precisava de uns dias sozinha para por as ideias no lugar. Esse mundo está acabando comigo, com minhas lembranças.
— Sei bem como é. Passei dois anos dessa forma, meio maluca. — sorri para ela, que retribuiu.
— Queria te fazer um pedido, Cath. Na verdade, quero que você me prometa uma coisa. — Carol fitou-me, segurando minhas mãos.
— O que? — pergunto curiosa.
— Me prometa que você será forte. Prometa-me que haja o que acontecer, você nunca vai mudar. Você sempre será essa garota alegre que você é. — ela pediu.
Não estava gostando nenhum pouco dessa história. Pareciam aquelas que vemos nos filmes, e nunca vem algo bom depois. Tentei de tudo para mudar de assunto, mas Carol insistia.
— Apenas me prometa. — ela fez uma pausa, já com os olhos marejados. — Por favor.
— E-eu... Prometo. — respondi enquanto as lágrimas irromperam.
Carol e eu ficamos abraçadas durante um tempo. Durante muito tempo, na verdade. Já estava escurecendo e chegou a hora de comer. Carol me disse que tinha que buscar alguma coisa perto das celas, então fui sozinha para dentro da casa.
Comemos nossa comida, que consistir em arroz e um cervo que Daryl tinha caçado. Uma grande conquista, como ele havia dito. Percebi que Carol ainda não tinha voltado e senti uma sensação ruim, mas fingi que não liguei. Ela só tinha ido pegar uma coisa. Nada ia acontecer.
— Na ronda, nós achamos um grande supermercado. — Rick explicou, em meio as colheradas que cada na comida. — Não é muito longe daqui, mas vamos precisar de mais gente pra ajudar.
— Podemos ir amanhã. — Daryl disse.
— Isso que nós estávamos pensando mesmo. Mas...
Rick não teve tempo de concluir, pois sua fala foi cortada por um grito que ecoou pela sala inteira. O som tinha vindo do pátio, então corremos até lá. Eu ainda estava segurando Judy, mas consegui seguir o ritmo de todos.
O grito tinha vindo de Rosita, que obviamente não estava conosco na sala. Ela estava parada olhando para algo que se movia perto da parede. Fui abrindo espaço entre pessoas, tentando ver o que viam, mas parecia inútil. Todos estavam com expressões horrorizadas e eu não entendi o porquê.
Quando cheguei mais perto, parando ao lado de Rick e Daryl, vi o motivo de tudo isso. Primeiro vi o sangue, em seguida o errante, depois vi o corpo caído no chão ao lado dele. Vi o corpo da mulher que me mostrou o mundo de uma forma diferente. Da mulher que me protegeu. Da mulher que trouxe minha alegria de volta. Da mulher que me fez ter esperança.Da única mulher que foi minha mãe de verdade.
Tentei processar tudo que estava acontecendo, mas era impossível, eu já estava tão abalado que mal consegui ficar em pé. Fiquei congelada durante alguns minutos até que Judy começou a chorar, como se entendesse perfeitamente o que tinha acontecido. Saí do meu estado de choque e comecei a chorar, abraçada a Judy. Choramos pela mulher que tinha sido mãe para nós duas ao mesmo tempo.

Ainda era noite quando resolveram fazer o enterro. Antes de me juntar aos outros para me despedir de Carol, fui até seu antigo quarto para sentir um pouco a presença dela. Para tentar ocupar o vazio que preenchia minha alma. Quis chorar no momento em que pisei no local. Tudo a lembrava.
Sentei-me na cama e me abracei ao travesseiro no qual ela dormia. Senti o cheiro de canela, devido aos inúmeros chás que ela preparava para nós. Uma lágrima escorregou pelo meu rosto, queimando por onde passava. As lembranças doíam. Tudo me fazia recordar de uma pessoa que nunca mais estaria perto de mim.
Meus olhos percorreram o quarto, a procura de alguém que eu sabia que não voltaria. Fiquei encarando um pequeno envelope encima da pequena cômoda. Minha visão estava tão turva e embaçada, devido às lágrimas, que só consegui ver o que estava escrito nele depois de certo tempo. Catherine.
Abri o envelope, já com medo das palavras que continham nele. Com medo de mais lembranças.
Querida Catherine,
Sei que agora você deve estar se perguntando por que fiz isso, porque te deixei só. Sinto muito. Eu não iria conseguir ficar nem mais um minuto sequer nesse mundo. Ultimamente tudo me lembrava Sophia, incluindo você. Mas não pense que você é culpada pelo que aconteceu. Nunca pense isso. Você foi culpada sim por alguma coisa. Foi culpada por me fazer feliz, por me fazer relembrar que nada estava perdido, por me fazer tentar viver de novo.
Eu estava sozinha, Cath. Inteiramente e dolorosamente sozinha. Sim, eu tinha você, Judy, Daryl... Mas não era a mesma coisa. Não era como ter minha família de volta, minha vida de volta. Mesmo em um milhão de anos eu não me sentiria totalmente bem. Aos poucos minha esperança foi morrendo, aos poucos minha felicidade foi se apagando.
Agora, isso tudo pode parecer muito complicado e confuso para você, mas quando chegar o dia você irá entender. Sinto muito por ter de deixado. Sinto muito por aparecer na sua vida e simplesmente sumir. Sinto muito por ter sido sua mãe somente por alguns dias, mesmo você nunca tendo me considerado uma. Desculpe por dizer que tudo ficaria bem quando não ficou. Desculpe por não ter sido a pessoa que você imaginou que eu fosse.
Você é mais forte do que pensa, mas só se quiser. Você ainda vai chorar, ainda vai ter momentos em que vai achar que não consegue continuar. Mas você tem que agir como se fosse conseguir. Foi isso que eu tentei, mas aos poucos o medo foi me dominando. A solidão foi me dominando. Até que eu simplesmente desisti. Desisti de viver, desisti de tentar.
Não pense que eu não me despedi de você porque não me importo, na verdade, você é a pessoa com que eu mais me importo. Não seria fácil ter que me despedir de você, Cath. Seria como levar uma facada no coração. Sinto muito mais uma vez.
Por favor, diga ao Daryl que desde o dia em que ele apareceu até o dia de hoje, eu o amei. Se houver vida após essa, eu ainda vou amá-lo. Peça desculpas a ele por eu não ter percebido isso antes, agora é tarde de mais. Cuide de Judy por mim, faça com que ela fique viva. Fale para Maggie que ela terá que ser forte e aguentar o que vem pela frente, assim como Lori aguentou. Explique aos outros o que realmente aconteceu, por mais que eu ache que eles não irão entender.
Fique forte, Cath. Sobreviva.
Com amor, Carol.
Fale com o autor